O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 23 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 23 — Promessas

Diminuiu o ritmo ao passar pelo riacho e ao longe viu as faias, lindas e quase despidas de folhas. As folhas secas formavam, ao redor de cada árvore, um espesso tapete que demorava longo tempo a decompor.

Ah, a nudez invernal — admirou a paisagem.

Mais adiante, ainda no prado, enxergou o Percheron negro preso a uma árvore e percebeu que havia uma pessoa debaixo dela. Parecia ser uma mulher. Joana aproximou-se com cautela, seguindo pela margem direita do riacho e tomando cuidado para não ser vista. Seu coração pulou no peito quando viu que havia uma moça recostada na árvore, despida de suas roupas e envolta apenas em um manto verde. Via, até então, apenas as suas pernas e parte dos seus braços; a moça estava em uma posição em que se podia vê-la apenas de lado; ela olhava em outra direção. Seu coração congelou.

Joana bateu os dois estribos no cavalo e passou com ele pelo riacho. A moça recostada na árvore ouviu um barulho e olhou para trás, ficando frente à frente com Joana.

— Sophie? — Joana arregalou os olhos.

 

Capítulo 23 — Promessas

Sophie estremeceu quando viu Joana olhando-a do alto do cavalo, tão assustada quanto ela. Segurou com força o manto, cobrindo-se até o pescoço.

— Por que está... — Joana começou a falar com dificuldade. Ver Sophie praticamente nua estava a deixando sem ar. — Por que está sem as suas roupas? — indagou com o mesmo olhar incrédulo.

— Eu... — Sophie respirou fundo, trêmula. — Eu... — aturdida, não conseguia mencionar qualquer palavra.

Joana olhou para o Percheron negro preso à arvore e voltou a olhar Sophie, ao mesmo tempo que seus olhos se enchiam de lágrimas. Seu coração parecia que pararia de bater a qualquer momento. Joana sabia que aquele era o cavalo de Alexandre. Ela apertou os lábios e os olhos com força, quase duvidando do que via. Um pouco mais distante viu que alguém se aproximava. Surpreendeu-se ao ver quem era. Estava perplexa, mas não pôde deixar de sentir um discreto alívio ao ver que não era Alexandre. O homem que vinha até elas, tinha os cabelos claros e era mais magro. Vestia uma calça preta, botas, e uma camisa branca aberta até a metade do peito, em suas mãos trazia flores. Ele sobressaltou-se ao ver Joana e parou alguns segundos antes de continuar a caminhar até elas.

— Senhor Johan!? — Joana constatou ao vê-lo de perto. Sophie começou a recolher as peças de sua roupa e trazê-las para mais perto de si. — Eu mal posso acreditar no que estou vendo. Vista-se, senhor!

— Eu estou vestido — disse ele calmamente, abotoando os botões da camisa sem pressa. — Peço que não se exalte... — depositou as flores ao lado de Sophie, no chão.

— Pede que eu não me exalte? — O seu sangue parecia correr mais lento e espesso pelo corpo, acentuando uma grande palidez em seu rosto. Joana sentiu uma vertigem e desequilibrou-se. Caiu no chão, sendo amparada por Johan. Sophie vestia-se rapidamente. — Não toque em mim! — Joana disse ainda tonta, porém levantou-se para encará-los.

— Joana, por favor, vamos conversar. Por favor, não diga nada ao papai. Estou tão envergonhada — Sophie começou a choramingar. — Diga a ela, Johan... — buscava os olhos dele.

— É a sua única preocupação?! — Joana a olhou com severidade. — Acaso não sabe o que acabou de fazer com a sua vida? — interrogava-a. Johan terminou de abotoar a camisa e vestiu o casaco, desamarrou o cavalo da árvore e caminhou até Sophie.

— Não se preocupe — disse ele em voz baixa, antes de beijar-lhe as mãos, sorriu e a olhou nos olhos. Sophie concordou com a cabeça, dos seus olhos vertiam lágrimas. Johan agilmente montou o Percheron e rumou para a propriedade Motier.

[...]

— Você guardará o meu segredo!? — Sophie indagou à Joana, mais como uma ordem do que como um pedido.

— Não! Claro que não! — olhou incrédula para a irmã. — Você contará o que houve para os nossos pais. E se ele a forçou...

— Eu não posso fazer isso! — Sophie a interrompeu. — Sabe que não posso! E Johan... ele não me forçou... — disse olhando para o chão.

— Por que não pensou nisso antes?! — exaltou-se. — Como deixou acontecer? Um homem que mal conhece! O que espera com isso? — Joana quase chorava, em desespero e por temer o futuro da irmã.

— O senhor Johan nutre grande sentimento por mim — Sophie disse com os olhos vívidos. Joana a olhou com consternação. — Ele resolverá tudo. Pedirá a minha mão em casamento ao nosso pai, Joana!

— Pedirá? Ele lhe disse?

— Sim! Não tente estragar tudo mais uma vez! — arregalou os olhos úmidos pelo recente choro.

— Estragar tudo? O que eu já fiz a você, para que se sentisse assim? — Joana balançou a cabeça, confusa.

— Ainda pergunta? — Sophie a acertou com um olhar agressivo.

— Sophie, como pode culpar a mim? — Joana esmaeceu. Jamais iria querer ver Sophie triste. — Sophie, o que aconteceu aqui não é certo. Sabe que não é! Como pode acreditar no senhor Johan? O quanto conhece sobre ele?

— Eu o conheço pouco, mas o suficiente para saber que é confiável. Eu sei que não acredita! — Sophie declarou. — Não acredita que Johan está apaixonado! Sente inveja de mim, Joana! — gritou.

— Inveja? — Joana abalou-se com aquela declaração tão ressentida.

— Sente inveja, sim, porque desejava estar em meu lugar todas as vezes que papai queria lhe impor casamentos arranjados. A cada jantar que precisou suportar aqueles velhotes, viúvos. E ficou assim, fria em relação aos sentimentos, pois sabia que o amor não aconteceria para você! Pois sabe que Alexandre gostou de mim primeiro — falava enérgica, com as faces avermelhadas.

— As suas palavras são tão duras. Ferem-me como um tapa... — Joana disse inconformada.

— Quem feriu primeiro? Quem tirou de mim a oportunidade de sonhar? Você me feriu primeiro, Joana! — disse iniciando um choro compulsivo.

— Não diga isso! Está sendo injusta! Aquele senhor... não merece que se sinta assim. — Ainda não conseguia pronunciar o nome de Alexandre.

— Eu me sinto assim por sua culpa! — Sophie declarou em voz alta. — Aceitou ficar noiva dele mesmo sabendo que eu o amava! E por quê? Se diz que não o ama! — gritou.

— Não grite — Joana soltou o ar dos pulmões com força e buscou controlar-se a fim de não ferir ainda mais a irmã. — Eu não sabia que seus sentimentos por ele eram tão fortes... Mas, ainda poderiam ficar juntos. Ele não se declarou no baile? — sorriu forçosamente, sendo alvejada por uma dor forte em seu peito e uma tristeza imensurável ao lembrar-se daquele dia. — Por isso, não devia ter feito o que fez. Se ama ele, como diz, não devia...

— Eu o amava, sim! Mas estou arruinada, sem esperanças! Papai não deixaria jamais que ficássemos juntos depois do que houve. Sofro com isso, mas sei que precisarei esquecê-lo. O senhor Johan declarou-se apaixonado por mim. Sinto que posso ser feliz ao seu lado. Posso gostar dele também. Por isso eu lhe peço que não conte ao nosso pai. Deixe que Johan vá até ele e apresente a sua proposta de casamento, antes que nossa família o odeie ainda mais do que odeiam o senhor Alexandre.

— Ele o fará? — Joana perguntou.

— É evidente! Custa a acreditar? — Sophie olhou-a com rancor. — Ainda custa a acreditar no que digo?

— Eu não sei, mas esse senhor tem pouco tempo para fazer isso, ou eu contarei tudo para nossos pais — Joana anunciou e montou no cavalo, rumando para casa e deixando Sophie sozinha no prado. Ao passar perto da entrada do bosque sentiu uma pontada no peito. Decidiu que não iria mais voltar àquele lugar. Foi embora sem saber se Alexandre estava mesmo à sua espera.

***

— Ela não veio — Alexandre disse a si mesmo quando avistou a primeira estrela no céu. O frio havia aumentado consideravelmente e todo o seu corpo estava gelado devido à umidade do bosque. O ar quente que saía de sua boca formava nuvens esbranquiçadas em frente ao seu rosto. Ele levou as mãos à boca e soltou o ar entre elas para esquentá-las, levantou-se e foi embora.

Galopou vagarosamente, sem vontade, sem perspectivas. Não queria acreditar que ela o havia deixado ali, que não tinha lhe dado a chance de explicar-se. Uma força maior dizia incessantemente para que ele não desistisse, mas por vezes era vencido pelo desânimo e pensava que tudo estava acabado. Enquanto não chegava à propriedade Motier, sua mente foi tomada por lembranças. Ele viu-se diante de Joana, de pé no bosque, com seus olhos desafiadores a lhe dizer que fosse embora, que não desejava conhecê-lo. Lembrou-se do segundo encontro que tiveram, quando viu seu sorriso pela primeira vez e sentiu acender em seu coração uma centelha de fogo que tornou-se cada dia mais ardente. Consumiu-lhe, tomou-o por inteiro aquela paixão, o desejo intenso de vê-la dia após dia, a forma como ficava linda mesmo quando estava irritada, e como ele gostava de provocá-la. Recordou o prazer que sentiu quando beijou as suas mãos pela primeira vez, quando tocou em seu rosto, quando disse que a amava, mesmo sem ter coragem de dizer toda a verdade sobre ele, mesmo que ela fosse tão dura e indiferente.

Depois, as lembranças foram ficando amargas. Joana dizendo que se casaria por conveniência... O baile... Sophie usando o broche de flor branca... O beijo apaixonado que dera em Sophie pensando que ela fosse Joana... A verdade enfim revelada de uma forma que ele não queria.... A dor que sentiu ao vê-la ir embora daquele baile sem que ele pudesse se explicar.... E a saudade que sentia. Um vazio, um grande e impreenchível vazio.

***

— E então? Ela foi? — Patric veio ao encontro de Alexandre assim que o viu entrar na propriedade. Eles caminharam juntos até a sala.

— Ela não foi — Alexandre disse desapontado.

— Pode ter acontecido alguma coisa — Patric procurou animá-lo.

— Acredito que não. Acho que ela não quis ir. Eu preciso me acostumar com os fatos.

— Você a ama muito, não é? — Patric perguntou ao amigo, enquanto dava tapas em seus ombros para consolá-lo.