O Bosque de Faias
Capítulo 22 — Encontros e desencontros
Joana abriu um livro e sentou-se na cama. Fechou o livro. Foi à janela e pôs-se a olhar o movimento da rua. Sentiu-se ansiosa. Uma guerra era travada em seu interior. Queria vê-lo; queria ir ao bosque... Não queria vê-lo jamais; queria vê-lo apenas mais uma vez... Precisava gritar com ele. Odiava-o com fervor... Sim, odiava-o....
A tarde avançava cada vez mais.
Será que ele está à minha espera? Pois que espere! — dizia para si mesma, andando nervosamente pelo aposento.
***
— René, onde está o Percheron? — Alexandre perguntou ao cavalariço, depois de revistar todas as baias e constatar que o animal não estava em nenhuma delas.
— O senhor Johan esteve há pouco aqui e o levou — respondeu o homem percebendo que Alexandre estava nervoso.
— Justo o Percheron? Não sabe ele que aquele cavalo é meu? — perguntou irritado. O funcionário retraiu-se.
— Não sei, senhor. Pensei que o senhor soubesse que ele o levaria... — respondeu.
— Arh — bufou. — Sele outro cavalo para mim, por favor, René — pediu.
— Sim, senhor. — O homem saiu e rapidamente voltou com um cavalo cor de trigo. Alexandre o montou e seguiu para o bosque.
Joana, esteja lá — desejou.
[...]
Johan chegou ao prado bem antes do entardecer. O Sol ainda estava alto e deixava o verde ainda mais claro, além de aquecer um pouco quem estivesse sob ele. Viu ao longe o bosque e, ainda mais distante, as montanhas, que logo estariam brancas com a neve que em breve começaria a cair.
Ele percorreu os olhos por todo o campo a fim de encontrar Sophie e esperava que ela atendesse ao seu convite para estarem juntos naquela tarde, apesar de ela o ter ignorado complemente. Ele esperou alguns minutos e não viu nenhum sinal da moça. No entanto, muito distante, observou que alguém parecia vir na sua direção, a cavalo. Rapidamente escondeu a si e ao Percheron atrás de um monte mais elevado, onde havia uma enorme pedra de tamanho suficiente para abrigarem-se.
A distância ainda não o permitia ver com nitidez, mas Johan teve certeza de que era um homem, e quando este passou pela estrada de terra próximo do riacho e rumou para perto da entrada do bosque, Johan teve certeza de que se tratava de Alexandre.
Notou que Alexandre parecia também estar à espera de alguém, e logo pôs-se a pensar se ele não estaria aguardando Sophie. Imaginou que ela pudesse ter combinado de estar ali com Alexandre, para que ele os visse juntos e assim não ousasse mais convidá-la para passeios ou tencionasse cortejá-la.
Conjecturou isso após lembrar-se da história que Patric contara a ele, sobre a confusão no dia do baile, e também sobre as insinuações de Alexandre, de que Sophie poderia ter fingido ser Joana apenas para conquistá-lo, e que ela não passava de uma moça dissimulada e esperta. Ponderou a história e não deixou de julgar que Alexandre poderia ter mentido sobre o ocorrido e, que na verdade, ele se aproveitara das duas irmãs. Talvez ainda estivesse se aproveitando de Sophie. Ele não arriscaria que isso não pudesse ser verdade. Não conhecia Alexandre tão bem para acreditar nele tão fielmente, assim como Patric acreditava.
Johan só parou com suas deduções quando viu uma jovem caminhando pelo prado. Ela vestia uma longa capa de veludo verde e olhava em todas as direções, como se estivesse à procura de alguém. Ele percebeu que era Sophie quando ela chegou mais perto de onde ele estava, e quando o vento derrubou o capuz que escondia seus cabelos e revelou o seu rosto.
— Senhorita! Meu coração sabia que viria. — Ele a chamou e caminhou na direção dela, sorrindo.
— Senhor... Johan — curvou a cabeça em cumprimento. — Disse “o seu coração”? — Sophie repetiu as palavras dele com certa surpresa.
— Sim, este que bate aqui dentro — apontou o próprio peito.
— O senhor não deveria falar assim. Deixa-me constrangida — disse ela.
— Então digo apenas que me sinto feliz por ter aceitado o meu convite, e assim ter a certeza do que eu já supunha...
— Sobre o que está falando? — questionou.
— De que é ainda mais bela durante o dia. Sinto vontade de colhê-la, como se fosse uma flor deste prado.
— Eu não deveria ter vindo. — Ela disse, dando-lhe as costas em desagrado.
— Não, não. Espere! — Ele pediu indo atrás dela. — Perdoe-me. A senhorita é realmente fascinante, mas prometo não lhe fazer mais lisonjas. Apenas fique — segurou as mãos dela. Sophie acompanhou o ato com os olhos. Esquivou-se.
— O problema nunca são as lisonjas, mas sim o quanto podemos confiar nelas. — Ela lhe disse.
— Quero ser merecedor de sua confiança. — Ele disse enquanto caminhavam pelo extenso prado.
Conversaram sobre amenidades, depois sentaram-se abrigados pela sombra de uma frondosa árvore, onde Johan prendeu o cavalo. Sophie usou a capa como uma manta para sentar-se sobre ela, e Johan ficou à sua frente, sentado em um pequeno tronco de árvore caído, que parecia ter sido colocado ali para servir de banco.
— Então, senhorita, gosta mesmo de vir aqui? — Ele perguntou.
— Não vim muitas vezes. Mamãe não nos permite sair com frequência a sós para caminhar. Apenas nos arredores de casa.... Mas, já estive aqui com minhas irmãs e duas amigas para um convescote.
— Sua mãe faz bem em ser prudente, cuidando das filhas como joias preciosas.
— Mamãe é um pouco exagerada — revirou os olhos. — Mas, diz que é o seu papel, caso contrário nós jamais arrumaremos um...
— Um...?
— Pretendente. — Ela pôs-se a mexer nas pontas do cabelo, evitando olhá-lo nos olhos. Johan riu.
— Impossível não haver pretendentes às sobras para cortejá-la, senhorita. Com todo o respeito, mas linda e agradável como é! — elogiou.
— Bem... ao menos nunca houve um até o momento. Papai não permite que conheçamos pretendentes antes de Joana se casar. Ela é a mais velha de nós...
— E Alexandre? — perguntou sem pensar.
— O que tem ele? — Ela pareceu não gostar da pergunta. — Alexandre me magoou muito. Não quero falar sobre ele. — Os olhos dela ficaram agressivos, marejados. Johan não soube entender se era mágoa ou ódio que eles exprimiam.
— Sinto muito. A senhorita não deveria ser magoada nunca. — Ele disse contemplando os olhos verdes de Sophie e notando como ela era inconstante. Ora parecia ser tão frágil, ora parecia ser tão violenta. — Se eu tivesse a oportunidade, não mediria esforços para fazê-la feliz.
— O senhor? Por que o senhor faria algo em prol de minha felicidade? — indagou.
— Porque sei que isso também me deixaria feliz. — Ele levantou-se e caminhou até ela, ficando quase de joelhos à sua frente e segurando-lhe as mãos entre as suas. Sophie olhou para os lados, mas não retirou as mãos dele sobre as suas.
— Não deveria dizer isso... — Ela contestou.
— Seria errado dizer se não fosse a verdade, mas como não minto, não vejo mal algum em lhe dizer o quanto sou encantado pela senhorita.
— Mas não é apropriado. Nem mesmo estar em sua presença a sós é apropriado. Eu devo ir. — Ela levantou-se, sendo seguida por ele.
— Não, espere, deixe-me olhá-la um segundo mais — pediu, segurando as mãos dela. — Como é linda! — acarinhou o rosto de Sophie com uma de suas mãos, enquanto se aproximava cada vez mais. Sophie olhou para o rosto bonito de Johan. Ele tinha os olhos azuis como as borboletas que apareciam no verão naquele prado. Pareciam cintilar uma cor quase metálica. Seu rosto era muito proporcional e, apesar de ter os cabelos loiros como os seus irmãos, tinha a pele levemente bronzeada. Johan encostou os lábios no rosto de Sophie e suavemente deslizou para perto de sua boca, beijando-a com suavidade. Ela permaneceu imóvel, com dificuldade para manter uma respiração uniforme.
— Como é suave a sua pele. — Ele afastou os lábios dos dela somente o suficiente para falar. Ela nada disse, apenas continuou estática. — Que homem feliz eu sou por tê-la diante de meus olhos! — sorriu, envolvendo-a e beijando-a novamente. Dessa vez ela fechou os olhos e retribuiu timidamente, passando as suas mãos em volta do pescoço dele. Ele a olhou, surpreso com o gesto, e a segurou no colo, levando-a novamente para debaixo da árvore.
— Solte-me, senhor Johan! — Ela pediu, repreendendo-o. — Não faça isso...
— Eu disse que a colheria como se fosse uma flor. — Ele sorriu, colocando-a sentada sobre a manta, que ainda estava no solo.
— Eu preciso mesmo ir. Estou arrependida do que aconteceu. — Ela baixou os olhos. — Eu jamais poderia ter feito isso. Não tenho a permissão dos meus pais nem ao menos para olhá-lo, ou trocarmos alguma palavra, muito menos para tal liberdade — falava agoniada.
— Por favor, não se arrependa! — pediu. — É não ter a permissão dos seus pais que a incomoda? — Ele a questionou.
— É claro! O que pensa que eu sou? — Sophie o olhou incrédula.
— Eu poderia fazer isso...
— O quê?
— Se disser que sente algo por mim, nem que seja só um pouco do que eu sinto pela senhorita, eu vou até a casa dos seus pais e peço permissão para cortejá-la — disse ele. Sophie arregalou os olhos.
— Não!! Eu não o amo! — declarou com rapidez. Johan riu.
— Eu nem esperaria por isso. Não em tão pouco tempo. Mas se um dia foi o suficiente para despertar em mim tamanha paixão, sei que logo sentimento igual poderá surgir para a senhorita. A menos que já ame alguém. — Ele disse buscando os olhos dela, que olhavam para baixo.
— Não amo ninguém. — Ela disse, recordando as palavras de Alexandre na noite anterior. “Eu não quero o seu amor, tampouco a sua presença ao meu lado. Mesmo que Joana não me quisesse, mesmo que me rejeitasse para sempre, eu jamais a escolheria!”. Aquelas foram as palavras mais duras que alguém já tinha lhe dito e nada a feriu mais do que ter que as ouvir. Foi como cortar as suas esperanças pela raiz.
— Então, não há nada que impeça que esteja ao meu lado? Se for somente a aprovação dos seus pais, eu lhe juro que se for da sua vontade, a terá — disse ele. Sophie arregalou os olhos.
— O senhor consideraria apresentar sua proposta... de... casamento? — Ela tremeu diante da possibilidade. Seus pais iriam vibrar com a notícia. E, embora seu coração estivesse triste com a recusa de Alexandre, ela precisava assegurar o seu futuro. Johan era jovem e muito bonito, além do mais, era irmão de Phillip Motier. Ele era muito rico.
— Se for da sua vontade. — Ele beijou as mãos dela.
— Sim. — Ela concordou, deixando que ele a tomasse novamente nos braços, envolvendo-a em um beijo mais ousado.
Tentou reprimir seu desejo de beijá-lo com mais intensidade, mas o calor que vinha do seu corpo era deleitável. A forma como ele a beijava, como o ar quente de sua boca a aquecia, tudo era inebriantemente bom demais.
***
Alexandre estava frustrado, andou entre as faias por longos minutos e não encontrou Joana. Foi até a entrada do bosque, contemplou o horizonte verde, e nem sinal dela. A tarde já estava caindo, o céu já tinha algumas nuances de tons laranja e azul-escuro. Voltou a adentrar o bosque e parou diante da árvore que continha a gravação das iniciais de seus nomes. Sentou-se e recostou o corpo no tronco da faia e, apoiando as mãos na cabeça, deixou que as lágrimas caíssem livremente por seu rosto. Era a primeira vez que chorava por amor. Era a primeira vez que amava alguém. Ele não conseguia acreditar que Joana pudesse realmente ter dado o broche para Sophie propositalmente.
...foi Joana quem me deu o broche, e pediu que eu o usasse no baile. Joana fez isso para que o senhor não a reconhecesse. Ela jamais o quis, senhor... — As palavras de Sophie ainda ecoavam em sua mente.
Ao mesmo tempo, um pouco distante dali, Joana surgiu montada em seu cavalo. O pelo branco do animal contrastava com seu vestido cinza escuro. Ela galopava rapidamente. Avançava como ondas quando avançam na praia, mas com o mesmo medo de morrer na areia com o qual morrem as águas revoltas do oceano. Estava disposta a encontrar alguma resposta, pois havia muitas questões que ela, embora não admitisse, não conseguia entender. Ela iria ao seu encontro nem que fosse para dizer, olhando nos olhos dele, que o odiava... de todo o coração.