O Bosque de Faias

Amanda Bonatti · Capítulo 16 de 45

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O Bosque de Faias

Capítulo 16 - Mentira

Caroline permaneceu imóvel, com o rosto completamente ruborizado e o corpo quente e trêmulo. Antes de sair ele espiou com cautela o corredor da mansão, para ver se era seguro sair dali sem ser visto.

— Au revoir, mademoiselle — disse ele antes de sair, lançando um olhar perturbador na sua direção.

 

Capítulo 16 - Mentira

 

Sophie ainda chorava nos ombros da mãe, dentro da caleça, enquanto Rebecca e Amália vinham em silêncio, apenas entreolhando-se confusas. Frederico Hour tinha o rosto completamente avermelhado, tamanha a raiva que estava sentindo, e Joana continuava a exigir deles alguma explicação.

— Não vão me dizer o que houve? Mon Dieu, Sophie, pare de chorar! Eu não estou entendendo nada! Por que saímos do baile daquela forma? E o senhor Phillip estava tão perturbado. Eu o vi discutindo com o senhor, papai...

— Não fale mais daquele desvalido! Infame! Farsante! — Frederico Hour ia despejando uma lista de insultos.

— Farsante? — Joana balançou a cabeça, confusa. — Todos aqui sabem o que aconteceu, então devem me contar! — exigiu nervosa.

— Joana, você gostava do seu noivo? — Rebecca perguntou em baixo tom e com olhos apiedados.

— O quê? Por que essa pergunta? — Ela estranhou a forma como a irmã a questionou e o tempo verbal daquela pergunta. Gostava?

— E se ele não fosse exatamente quem você pensou que fosse? — inquiriu em seguida, procurando ter cuidado com as palavras.

— E por que o senhor Phillip não seria o que penso que é? O que de tão grave aconteceu esta noite? — perguntou, cada vez mais mal-humorada.

— Esse homem nem ao menos é Phillip Motier! — Frederico berrou. — Não posso mais sequer ouvir falar desde senhor, dirigindo a ele este nome que não o pertence — exasperou-se.

Um tremor percorreu o corpo de Joana ao ouvir aquela afirmação. Nada fazia sentido. Precisava de respostas urgentes. E por que Sophie ainda chorava?

— Eu não compreendo, meu pai... — Ela buscou os olhos do pai.

— Desconsidere o seu compromisso com esse senhor. Ele é um mentiroso que procurou enganar a todos nós. E pior de tudo, desonrar nossa família — disse olhando para Sophie.

— Desonrar? O que Sophie tem a ver com tudo isso? E... como o senhor Phillip pode não ser...? — Ela procurava entender.

— Ele me beijou! — Sophie disse trêmula, fazendo Joana paralisar. — Conduziu-me para o corredor afastado do baile e declarou-se. Disse que preferia a mim do que você! — falou enxugando os olhos e impondo um olhar soberbo sobre Joana.

Joana sentiu uma leve vertigem ao ouvir aquelas palavras. O seu estômago revirou-se como se um vento forte e frio passasse por dentro dele e seu coração parecia ter quebrado ao meio. Seus olhos brilharam, devido às pequenas gotículas de lágrimas que se formaram, mas que ela soube segurar.

— E depois, minha filha, ele revelou que não era Phillip Motier, mas sim apenas um amigo de Phillip — Anastasia disse com pesar. — E ainda assim tentou fazer com que voltássemos a acreditar nele, dizendo que nunca teve intenção de nos enganar! — Ela lembrou com irritação.

— Três meses!! — Frederico vociferou. — Três meses convivendo conosco, mentindo, e tudo para quê? Enganar-nos e ter um casamento proveitoso para ele, é claro! — chegou à conclusão. — Esse senhor deve ser um pobre desvalido que vive às custas do amigo herdeiro!

O trajeto até a sua casa parecia interminável. Joana estava atordoada com aquelas informações. Ouvia fragmentos das conversas, e sua cabeça rodava e sacudia junto com a caleça, tremendo e dando solavancos em meio à escuridão. Se a iluminação fosse melhor, veriam que uma discreta lágrima correu em sua face, e ela procurou enxugá-la com a ponta dos dedos antes que caísse por completo.

Assim que a caleça parou, Joana foi a primeira a descer. Se não fosse uma noite tão fria e escura, ela correria para o bosque, esconder-se-ia de todos até que sua mente voltasse à compreensão. Mas ela não correu, andou até o seu aposento como se estivesse mergulhando em uma calma e plácida lagoa congelante, que a deixaria cada vez mais fria em relação ao amor.

 

***

 

— Você viu? — Joana perguntou para Rebecca quando estavam somente as duas no aposento que dividiam.

— O quê?

— Viu ele a beijar? — Joana segurou o castiçal ao lado da cama e sentou-se virada para a irmã. Ainda vestiam a roupa do baile.

— Eu vi, sim — Rebecca confirmou, baixando os olhos. — Fui eu, Joana, quem chamou papai e Amália até aquele corredor. Eu não sabia de quem se tratava. Estava tão escuro... Eu estava observando as moças dançando, ansiosa para que alguém viesse me convidar, quando vi Sophie girando pelo baile, acompanhada de um jovem que há pouco havia escrito o nome no cartão de baile dela...

— E o que viu exatamente? — questionou decidida.

— Eu o vi conduzir Sophie para o corredor e sumirem da minha vista. Fiquei preocupada e alertei mamãe e papai. Então quando fomos até lá... — Ela fez uma pausa.

— Fale, Rebecca. Pode me contar! — exasperou-se. — E pare de olhar para mim com pena. Sabe que aceitei me casar com ele por insistência de nosso pai, não sabe? — perguntou, procurando acreditar no que dizia.

— Eles estavam se beijando, à meia luz, sozinhos naquele corredor — Rebecca disse e o coração de Joana se apertou ainda mais.

— E o que houve depois?

— Papai e mamãe gritaram e ele ficou muito assustado, e enquanto nossa mãe dizia o quanto estava decepcionada, ele tentou se defender. Foi quando pudemos perceber, pela voz, de que era.... Era ele — incomodou-se em repetir aquele nome. — Agitado, ele começou a falar que não era Phillip e que precisava contar toda a verdade. Falou que a amava, Joana...

— Amava a mim? — Ela riu sem força. — Esse senhor é louco?

— Eu não sei Joana, mas até me pareceu ser verdadeiro. Se você visse como ele estava transtornado. Estava a ponto de cair no chão, de tão mal.

— Como disse nosso pai, ele é um farsante. Finge muito bem... — Joana disse, ainda tentando digerir toda aquela história.

A conversa foi interrompida por Anastasia, que entrou no aposento acompanhada de Amália e Sophie. Elas já estavam trajadas para dormir e Sophie ainda se segurava nos ombros da mãe.

— Conte tudo para suas irmãs — Anastasia pediu à Sophie. — Vamos, diga tudo o que aconteceu, para que fique bem claro que aquele senhor está totalmente impedido de dirigir uma palavra sequer para qualquer um dessa casa.

Joana encarou a irmã. Sophie já havia parado de chorar, mas ainda estava com os olhos muito avermelhados.

— Não precisa fazê-la repetir tudo — Joana interveio. — Rebecca acabou de me contar exatamente o que houve. E acho que talvez isso tenha servido como lição ao nosso pai.

— Não fale do seu pai assim. Já está sofrendo o suficiente, sentindo-se envergonhado... — Anastasia reclamou.

— Envergonhado? Pois é bom que esteja! — Joana descontou todo o peso da sua revolta naquelas palavras. — Meu pai quis me obrigar a casar-me com um homem que ele nem ao menos sabia quem era, apenas por acreditar que fazia um casamento lucrativo — afirmou audaciosa.

— Seu pai só quis o seu bem. O seu e de todas as suas irmãs!

— Há tempos ouço isso! E veja no que deu? O meu bem? — riu com nervosismo. — Por que não nos deixam escolher o que nos faz bem? — jogou-se exausta em sua cama, afundando as mãos no rosto. — E Sophie, está bem? — Ela encarou a irmã.

— Estou... assustada... com o que houve — respondeu desviando os olhos dos de Joana.

— Eu não entendo! — Joana tornou a falar. — Papai disse que ele voltasse a sua atenção para Sophie, que pedisse a sua mão em casamento... — Ela procurava reorganizar seu pensamento. — Por que ele não aceitou a proposta e casou-se com ela? Se ele se declarou apaixonado... — falou aquelas palavras com pesar. — Então, por quê? — Joana não entendia.

— Porque é um homem de mau-caráter — Anastasia disse. — Há muitos homens assim. Enganam as moças para tirar delas o que querem... Depois mostram-se como são verdadeiramente, e então é tarde para muitas... Ficam à beira da sociedade, desonradas e tornam-se uma vergonha para a família.

— Sophie, por que deixou que ele a conduzisse para fora do salão? — Joana perguntou com firmeza. — Como ele conseguiu distingui-la entre todas as outras moças naquele baile? Vocês tinham combinado algo? Tinha se encontrado com ele? — inquiriu com ainda mais vigor, tomada de angústia.

— Não! Eu jamais me encontrei com ele a sós antes — Sophie garantiu. — Confesso que levava comigo a possibilidade de ele escolher a mim como noiva. Eu via como ele me olhava sempre que vinha até a nossa casa — falou com malícia. — Pensei que estivesse interessado em mim, por isso surpreendi-me quando ele disse ao papai que queria cortejá-la, Joana.

Ele a olhava? — Joana sentiu ciúmes.

— Realmente há algo de muito estranho nas atitudes desse senhor — Rebecca atentou-se. — Também não entendo... Ele parecia realmente apaixonado por Joana.

— Algumas semanas antes do baile recebi um presente — disse Sophie interrompendo as palavras de Rebecca. — Esta flor que usei no baile, recebi dele — contou abrindo a mão e mostrando o broche de rosa branca. — Ele disse para eu usar esta flor para que ele pudesse me encontrar entre as moças do baile.

— Quando ele lhe deu isso? — Joana quis saber, voltando a sentir um mal-estar.

— Mandou o cocheiro entregar há algumas semanas. Veio junto com um bilhete assinado por ele e endereçado a mim. Eu usei porque estava encantada por ele e Joana afirmava a todo instante de que era indiferente a ele.... Eu só usei a flor pois sabia que Joana não o amava — lançou um olhar inquisidor para a irmã.

— Então, por considerar que sabe muito sobre os sentimentos das pessoas, você deixou ser conduzida pelo noivo da sua irmã até um corredor escuro, onde deleitou-se com os beijos dele? — Joana falou austera, sentindo seus lábios tremerem e uma grande indignação crescer dentro de si.

— Vocês ainda não eram noivos! E ele me enviou esta flor antes de fazer o pedido ao nosso pai — disse Sophie. — Por isso chorei, por isso andava triste, confusa. Fiquei me indagando o porquê de ele ter pedido a mão de Joana, quando há poucos dias havia me enviado a flor. Decidi arrancá-lo do meu coração. Usei a flor para que ele viesse até mim no baile e então eu pudesse dizer que se afastasse, que não me fizesse sofrer mais... E veja — disse entregando o seu cartão de baile para Joana —, eu não sabia de quem se tratava. Ele veio até mim com o nome verdadeiro.

— Alexandre Franz? — Joana encarou aquela letra bem desenhada escrita no cartão de baile da irmã. — Então, o nome dele é Alexandre? — sentiu vontade de chorar.

— Sim. Por isso, no início pensei que estava dançando com outra pessoa. Não pude perceber com facilidade que estava sendo levada para o outro lado do salão. Ele me conduzia com maestria, envolvendo-me com seus olhos negros. Quando nos afastamos do centro do salão fui surpreendida com suas mãos me levando para o corredor.

— Ele a forçou ir? — Amália perguntou horrorizada.

— Não, ele apenas me conduziu e eu fiquei sem reação. Meu coração quase parou quando ele se revelou e começou a dizer que, na verdade, gostava de mim e que faria o que fosse preciso para voltar atrás com sua decisão de casar-se com Joana. Ele disse que Joana era muito tempestuosa e que ele não merecia casar-se com alguém com tão frios sentimentos — disse sem piedade, encarando a expressão de Joana. — Disse que...

— Chega! — Joana pediu consternada. — Eu não preciso ouvir mais nenhuma palavra sequer sobre isso! — sentiu uma pontada no peito, como se tivesse sido atingida por uma cruel adaga. Ao lado da sua cama o cartão de baile que havia usado repousava sobre o criado-mudo. Joana o pegou e o abriu, aproximando-o do castiçal para enxergar melhor. O que viu a deixou surpreendida.