O Bosque de Faias
Capítulo 11 - O presente
“Eu a amo profundamente, senhorita”.
Capítulo 11 - O presente
A propriedade Motier estava impecavelmente pronta para receber o verdadeiro Phillip Motier. Não havia mais muito trabalho para Alexandre fazer. Os jardins estavam magníficos, as cortinas e tapeçarias tinham vida novamente, a cavalariça estava em perfeito estado para abrigar os novos cavalos e caleças que chegariam, e todos os utensílios de prata da cozinha tinham sido polidos. Faltando apenas uma semana para Phillip retornar, a única ocupação de Alexandre eram os preparativos para o baile.
Ele não tinha conseguido convencer Caroline a voltar para Paris e ficar na propriedade que lhes pertencia desde que os seus pais morreram. Ela queria ficar ali, e propôs-se ajudar a organizar a recepção. Alexandre pensou que, talvez, um toque feminino realmente ajudaria, já que ele não sabia por onde começar.
Juntos, deram instruções aos criados sobre o que servir e contrataram para o baile uma orquestra para dança de salão, que viria de Paris especialmente para a data.
— Será um baile magnífico, irmão — Caroline disse empolgada em um final de tarde. — Agora me acompanhe. Tenho um presente para você. — Ela disse.
— Um presente? Do que se trata?
— Venha comigo — puxou-o pelas mãos. Foram até o aposento de Alexandre, onde sobre a cama estava uma grande caixa embrulhada com uma fita de seda azul. — Abra! Vamos! — pedia entusiasmada.
Alexandre obedeceu e removeu a fita. Abriu a tampa da caixa e puxou de dentro dela um belo Frock Coat de cor cinza, uma camisa branca com plissado nos punhos e uma calça de tecido nobre.
— Um traje completo? — surpreendeu-se, levantando no ar o casaco de brocado caro, decorado com veludo, ajustado na cintura e que ia até a altura dos joelhos. Na parte de trás uma fenda tornava a vestimenta ainda mais elegante.
— Sim! O melhor traje! Aposto que não tinha algo assim para usar no baile.
— Realmente, não trouxe nada tão refinado — disse gentilmente à irmã. — Obrigado, Caroline.
— O traje chegou semana passada de Paris, junto com alguns vestidos que encomendei para mim. No entanto faltava algo para que eu pudesse enfim presenteá-lo — disse pegando outra caixa que estava em cima da escrivaninha. — Faltava isso! Busquei há alguns dias atrás, na vila. Vai combinar com o seu traje. — Ele pegou a caixa que ela lhe oferecia e retirou de dentro dela um elegante lenço de seda azul.
— Um lenço?
— Sim. Continue olhando, no fundo da caixa... — Ela pediu.
Alexandre olhou o interior da caixa e encontrou uma máscara. Era uma luxuosa máscara negra de veludo com detalhes dourados.
— Noto que pensou em tudo. Agradeço por isso também. — Ele sorriu verdadeiramente.
— Lembre-se de sorrir assim no baile, já que seus olhos e boca serão as únicas partes visíveis do seu rosto. — Ela disse contemplando a bela aparência do irmão.
Alexandre encostou a máscara em seu rosto e olhou-se no espelho, se dando conta, pela primeira vez, de que não saberia distinguir Joana entre as outras moças no baile. Todas usariam máscaras e muitas jovens daquela região tinham os cabelos ruivos como os dela, inclusive todas as irmãs Hour.
***
Naquele mesmo instante Sophie choramingava no colo da mãe, tendo os cabelos acariciados por Rebecca e os olhares apiedados de Amália. Joana assistia a cena sentada em sua penteadeira, lamentando verdadeiramente o sofrimento da irmã. Sofrer daquela forma era justamente o contrário do que Joana desejava. O amor já começava tirando a liberdade mesmo de quem não era correspondido.
— Oh, mamãe. O senhor Phillip me rejeita. Os dias passam um após o outro, arrastando-se penosamente para mim, e ele não nos dá notícias. Ele me ignora completamente, mamãe — Sophie queixava-se.
— Que homem tolo ele é por isso! — A mãe a consolava.
— Ele me ignorou, mamãe, mas colocou muita atenção em Joana — falou aborrecida. — Joana o enfeitiçou — Sophie olhou com raiva para a irmã.
— Acusa-me de quê? Bruxaria? Quer me ver queimando na fogueira, irmã? — ironizou. — Por que eu iria querer enfeitiçar o senhor Phillip?
— A pergunta é: por que não iria? — Sophie redarguiu e saiu irritada do aposento, rumando para fora de casa.
Joana ignorou as provocações da irmã, balançou a cabeça e olhou para a mãe, que parecia esperar dela alguma resposta.
— Não tem nada a dizer, Joana? — Anastasia perguntou.
— O que eu teria para dizer? Sophie está arrasada, não me sinto feliz com isso, mas também não sou culpada — defendeu-se.
— Não diretamente, mas o que Sophie falou é verdade. Se Phillip não deu atenção à sua irmã, foi por que ele a notou primeiro. Todos percebemos isso. Então você, que é muito esperta, também deve ter notado — disse Anastasia.
— Não digo que não notei — disse a contragosto. — Digo apenas que não me importo.
— Sei que não o correspondeu, ao contrário, ignorou-o mais do que devia. Às vezes essas atitudes têm resultados diferentes. Muitos homens não sabem lidar com uma recusa.
— Acha que o senhor Phillip é um desses homens orgulhosos? — Joana perguntou.
— Todos são. O senhor Phillip nunca deve ter recebido a indiferença de uma moça. Com sua beleza, porte e herança, com certeza esse foi um sentimento inédito que ele provou.
Joana pensou e concordou com a mãe. Phillip devia estar consumido pelo orgulho ferido, em ter sido tratado com tamanha indiferença. Ela recordou suas palavras:
Penaliza-me com a indiferença, que dói ainda mais do que o desprezo.
Ela imaginou que ele era um homem vaidoso demais para aceitar ser recusado, e todas aquelas palavras e declarações deviam ser uma forma desesperada de elevar-se, mostrando sua superioridade e conquistando aquela que ele pensava que o desprezava. No entanto, eram outras palavras que gritavam em seu coração:
Eu a amo profundamente, senhorita.
***
Sophie recostou-se na porta de casa e pôs-se a olhar o movimento na rua. Crianças corriam e brincavam no meio da estrada enquanto algumas senhoras tentavam caminhar entre elas, reclamando por estarem ocupando quase toda a passagem. Um homem montado a cavalo também reclamou e pediu que eles fossem correr em outro lugar. Ele esbravejou com as crianças, que saíram correndo assustadas. O homem continuou seu trajeto e parou em frente à casa dos Hour.
— Senhorita. — Ele a cumprimentou.
— O que deseja? — Sophie perguntou, estranhando aquela visita. O homem era um completo desconhecido seu e da sua família. Além disso, tinha trajes e modos de um criado.
— Qual o seu nome, senhorita? — Ele perguntou.
— Foi o senhor que veio até aqui, então diga com quem deseja falar — Sophie retrucou sem paciência. Ela observou que ele pegou algo dentro do casaco e o segurou com uma das mãos.
— Quero falar com a senhorita Joana. É a senhorita? — perguntou, mostrando que só falaria com aquela a quem veio procurar.
— Sim, sou eu, diga logo o que quer — Sophie disse rapidamente, olhando para trás e vendo se alguém estava por perto.
— Trago-lhe isto — falou o homem, entregando a ela uma pequena caixinha branca e aveludada. — Esconda e abra quando estiver sozinha. Pegue este bilhete também. — Ele fez a entrega e saiu apressado.
Sophie escondeu rapidamente a caixinha e o bilhete entre o avolumado tecido do vestido, correu para fora de casa e só parou quando julgou ser seguro. Viu que estava ao lado da igreja e entrou sem pensar muito. Ajoelhou-se e de cabeça baixa abriu lentamente uma das partes do bilhete.
Senhorita Joana
Serei só eu a sentir o que sinto? Mal a vi e meu coração já foi todo seu. Use esta flor no baile para que eu possa distingui-la entre todas. Que feliz eu serei, se aceitar este pedido.
O bilhete não estava assinado, mas Sophie não precisou pensar muito para adivinhar quem o enviara. Seu rosto ardeu com ciúmes e uma grande frustração se apoderou do seu coração. Ela dobrou bem o bilhete em várias partes e o colocou dentro do busto do seu vestido. Abriu a caixinha e viu um broche de uma rosa branca, feita com cetim e renda. O seu primeiro ímpeto foi o de esmagar a flor com as mãos, depois, refletiu melhor e decidiu guardar a flor, abandonando apenas a pequena caixinha no chão da igreja.
***
Alexandre estava angustiado, a proximidade da vinda de Phillip o deixava apreensivo, temeroso com a mentira que deixou se entender e com a reação do senhor Hour e de Joana quando soubessem a verdade. Ele queria acreditar que ter sido verdadeiro com Joana, deixando transparecer a ela que seus sentimentos eram sinceros, seria um bom começo para um pedido de desculpas.
Tinha se esquivado covardemente o máximo que pôde de ir à vila para não ter que encontrar Sophie ou o senhor Hour. Esperava que este afastamento mostrasse a Frederico que ele não tinha nenhum interesse em Sophie. A única vez que foi à vila, comprou um broche de flor para dar à Joana. Se ela usasse o broche no dia do baile, seria uma afirmativa de que também sentia algo por ele. Cada vez que Alexandre olhava fundo nos olhos dela, ele podia ver que ela escondia com força os seus sentimentos.
Afinal, do que ela tem medo?
***
Assim que viu o criado atravessar os portões montado a cavalo, Alexandre foi ao seu encontro.
— Entregou o que eu pedi?
— Sim, senhor — disse René saltando do cavalo e dirigindo-se à cavalariça.
— Alguém o viu falar com ela? Alguém da família?
— Não, senhor. Eu me assegurei de que falávamos a sós. Tive sorte de encontrá-la à porta da casa.
— Tem certeza de que era ela? Era Joana?