O Bosque de Faias
Capítulo 30 – Uma rosa caída
Mas quando Joana via Alexandre, todo o seu peito de agitava em ondas, e todo o seu desembaraço desaparecia. Não que demonstrasse isso em suas ações, mas em seu interior ela sofria e experimentava emoções intensas, que eram prazerosas e torturantes ao mesmo tempo e em iguais proporções.
Alexandre permaneceu alguns segundos extasiado pela presença da sua amada. Cada contorno daquele rosto já havia sido decorado por ele, desenhado em sua mente inúmeras vezes. Cada detalhe, cada trejeito, cada expressão de ironia, de raiva ou de tristeza, cada levantar de sobrancelha, tudo era extremamente adorado por ele.
Capítulo 30 – Uma rosa caída
Sophie estava com a cabeça levemente encurvada. Olhara com o canto dos olhos para Johan e vira que ele ainda não havia buscado seus olhos. Johan estava ainda ao lado da janela, demonstrando grande indiferença a ela, com uma taça de bebida na mão, e olhando mais para fora do que para dentro da mansão, onde os convidados estavam. Tudo o que ele havia feito até então era beber, e sua boa educação lhe permitiu apenas dar um aceno de cabeça para o senhor Loen e o senhor Hour, mas sem preocupar-se com maiores apresentações ou uma conversa mais alongada.
Pouco tempo depois o som da orquestra preencheu o ambiente, deixando todos boquiabertos com a qualidade dos músicos contratados. Frederico Hour jogava uma partida de xadrez com o senhor Loen, enquanto Madame Anastasia e Madame Catherine ainda andavam pela sala olhando cada objeto com admiração.
Johan atravessou a sala e o coração de Sophie saltou forte no peito, seus olhos brilharam ao vê-lo se aproximar, mas logo o brilho se desfez e os olhos encheram-se de lágrimas, quando o viu ir até Caroline e convidá-la para uma dança. Esse ato foi percebido por muitos, especialmente por Alexandre, Patric, Phillip e Joana.
Johan deu o braço para Caroline e a conduziu para a área do salão especialmente reservada para a dança. O violoncelo vibrava suas notas graves enquanto o coração de Sophie quebrava-se em muitos pedaços.
— Estúpido — Joana disse em baixo tom, maldizendo a atitude de Johan, e se compadecendo da dor da irmã.
— O quê? Quem é estúpido? — perguntou Rebecca. Joana notou que não havia dito aquilo tão baixo quanto gostaria.
— Ah... — Ela tentou buscar alguma desculpa, mas não encontrou nada que pudesse ajudá-la, afinal, estava com os olhos cravados em Johan.
— O senhor Johan? — Rebecca pareceu entender por pura observação. — O que ele fez?
— Eu apenas disse isso porque... — buscou as palavras que usaria — acho que Sophie gosta dele. — Foi tudo o que conseguiu dizer. Suspirou pesadamente em seguida.
— O quê? Sophie gosta do senhor Johan? — Rebecca não conseguiu conter uma expressão muito assustada, os olhos expandiram-se. — Isso é verdade? Sophie não gostou sempre só do senhor Alexandre? Como pode ser? E eles não se viram apenas uma vez? — perguntou afoita, em seguida olhou a expressão de Sophie e notou que ela realmente estava triste ao ver Johan com Caroline.
— Rebecca, vamos falar sobre isso em outro momento, sim? — Joana pediu. Seu olhar nervoso fez Rebecca assentir.
— E então promete que me contará tudo?
— Sim. Eu acho mesmo que preciso lhe contar tudo.
Rebecca não gostou muito do tom de voz de Joana, mas procurou não perguntar mais nada naquele momento, embora adoraria saber o que aquele tudo significava. Em hora oportuna elas conversariam.
— Leve como uma pluma! — Johan sorria ao elogiar a destreza de Caroline ao dançar.
— Isso porque meu par também é um ótimo dançarino — retribuiu o elogio com simpatia, sem deixar de sorrir para ele. Pensou como seria mais fácil ter se apaixonado por Johan, ao invés de Phillip. Johan era sempre muito agradável com ela, embora Caroline soubesse que ele era um completo libertino.
— E linda, sempre muito linda — disse ele.
— E você cortês, sempre muito cortês. — Ela ironizou com um sorriso nos lábios. Johan olhou fixamente para eles.
— Não sei como posso estar tão perto assim da senhorita e saber raciocinar ao menos uma palavra que seja. Então não ria da minha cortesia, que ela lhe é muito sincera — disse Johan ao segurar as mãos de Caroline com mais vigor.
— Então devo pedir desculpas por isso — Caroline respondeu, apertando os lábios e concentrando-se na dança. Olhando discretamente para o salão viu que alguns pares de olhos os censuravam, e pensou que devia ser por estarem conversando demais. A malícia que escapava dos olhos e dos lábios de Johan era evidente.
Tão logo a primeira música acabou, Johan cumprimentou Caroline cordialmente e a levou até onde estava antes, porém, não se afastou dela, ficou tão próximo e mal conseguia conter seus olhos, que não achavam outro caminho para olhar, além das curvas que o vestido de Caroline sublinhava em seu corpo. Neste mesmo instante Phillip aproximou-se de Joana e de Rebecca, fazendo uma breve reverência e estampando o seu sorriso mais gentil. Phillip era ainda mais bonito quando sorria, seus olhos ganhavam um outro brilho, e estreitavam-se de uma forma que o deixava muito charmoso. Trocaram algumas palavras e Phillip elogiou o desempenho de Rebecca ao pianoforte na noite que ela tocou para todos em sua casa, não deixando de mencionar o quanto ficou desapontado por não ter o prazer de ouvir Joana ao piano. Conversaram um pouco sobre música e quando Rebecca mencionou seu gosto por obras de arte, Phillip convidou a ambas para conhecerem a galeria. Elas aceitaram, um tanto receosas em deixar a sala, mas também não seria nada gentil não aceitar o convite. Rebecca desejou que aquele convite se estendesse a Patric, mas ele estava ao lado de Alexandre e parecia alheio a ela naquele instante.
Rebecca pôs-se ao lado de Joana e Phillip, e juntos percorreram o salão em direção ao umbral que separava uma sala da outra, mas quando estavam quase alcançando o limiar foram interceptados por Patric.
— Senhorita — disse ele olhando para Rebecca. Phillip e Joana também pararam. Olhavam ambos para os dois. A breve reverência de Patric, e o braço levemente dobrado que ele oferecia à Rebecca, fez todos entenderem que ele a estava convidando para uma dança. Mas ele permanecia calado, nada mais foi dito após a palavra “senhorita”. Rebecca estava petrificada.
— Sim...? — Rebecca olhou-o confusa. Queria a confirmação daquele convite, se realmente se tratasse de um.
— Reconhecesse essas notas? — perguntou ele olhando para a pequena orquestra ao fundo da sala. Rebecca apurou os ouvidos e reconheceu a melodia.
— Mars et Vénus? — Ela não conseguiu conter um sorriso de surpresa e sua voz saiu quase um sopro. Os olhos acenderam-se extasiados. Patric continuava com o braço estendido na sua direção.
— Vamos Rebecca, segure o braço do senhor Patric antes que o faça cansar — disse Joana, contendo um riso. Rebecca ainda olhou para Joana, hesitante; aceitar o convite de Patric seria uma recusa ao convite de Phillip, de visitar a galeria de arte. Porém, como se entendesse o dilema de Rebecca, os lábios de Phillip voltaram a sorrir, e ele lhe deu uma afirmação com a cabeça, para que fosse com o seu irmão.
Rebecca segurou o braço estendido de Patric e sentiu uma onda de calor subir de suas mãos e ir até o seu rosto. Catherine e Anastasia chegaram a engasgar a fala quando os viram juntos no salão. A forma como Patric a olhava, com muita admiração e entusiasmo, foi notado por todos, e um sorriso transparente no rosto de ambos revelava que aquele ato era mais do que apenas polidez. As mãos trêmulas de Rebecca seguraram as de Patric, mais firmes e quentes que as dela. Joana ainda deu um discreto sorriso para a irmã antes de dar alguns passos ao lado de Phillip; então, subitamente, ela parou e o sorriso evaporou de seus lábios.
— Podemos esperar Rebecca... — alargou os olhos na direção de Phillip. — Ela ficaria tão desapontada em não visitar a galeria. Ela ama arte... — Joana falou, vendo-se em uma situação embaraçosa. Não queria ir à galeria apenas acompanhada de Phillip. Próximo a eles, Alexandre acompanhava a tudo com olhos atentos e uma angústia crescente.
— Com certeza ela está onde mais gostaria de estar nesse momento. — Ele estendeu o braço, e Joana, desconcertada, acabou segurando e acompanhando o anfitrião. Alexandre os viu sair e seu coração apertou-se um pouco mais; mesmo assim, não se achava no direito de desconfiar de um amigo, e muito menos do que seu coração lhe gritava. Então, como se quisesse gravar aquilo mais fundo em seu peito, repetidas vezes ele falava a si mesmo: “Ela me ama, eu sei que me ama”.
— Se realmente a ama está na hora de começar a agir — disse Caroline ao pé do ouvido de Alexandre, quase adivinhando seus pensamentos.
— Ah, Caroline — bufou contrariado —, eu também queria que fosse tão fácil como você transparece ser, em sua fala, mas não é. Ali está um homem que me odeia — disse olhando para Frederico Hour. — E ele é o pai da senhorita Joana. E ali — apontou com os olhos para Amália e Sophie — estão as duas senhoritas que poderiam pôr um fim em parte do meu sofrer, mas sabe lá Deus o porquê, não o fazem. E ainda temos a minha própria culpa, meu erro...
— Muitas lamentações, não é mesmo? Enquanto isso Joana tem os braços de Phillip entrelaçados aos dela, e não os seus.
Alexandre queimou com aquela fala. Era difícil conter seu ciúme, não queria perder seu autocontrole e deixar que a desconfiança e a rivalidade crescessem em seu coração. Como admitiria para si mesmo que já estava alimentando tais sentimentos?
— Caroline, suas palavras tão duras infelizmente não me auxiliam, ao contrário, envenenam-me. Não quero morrer envenenado, Caroline — disse ele. Ela apenas meneou levemente a cabeça, concordando. Queria que o irmão tomasse uma atitude, forçaria ele a isso se pudesse. Seria algo que o irmão faria por ela também, já que ela própria não podia fazer muito.
Frederico Hour não viu quando Joana saiu da sala de música acompanhada de Phillip. Já Anastasia, notou quando saíram e sorriu satisfeita com a aproximação dos dois. Não se preocupou com fofocas, por deixarem a sala a sós, pois os únicos presentes ali eram a sua família e a família Loen, mas Anastasia já havia feito Catherine acreditar que Phillip e Joana estavam noivos, então ela consideraria absolutamente compreensível que um casal quisesse desfrutar ao menos alguns minutos apenas na companhia um do outro.
Rebecca e Patric ainda dançavam. A concentração de ambos estava apenas naquela dança, tanto que nem notaram como as irmãs Loen olhavam-nos com perplexidade, chateadas por Patric não ter convidado uma delas por primeiro, e também por não ter tido com elas aquela mesma atenção. Rebecca sentia-se plena e, em seu pensamento, agradecia que a sua primeira valsa não tivesse acontecido no dia do baile de máscaras. Na época lamentou muitíssimo não ter dançado, mas agora tudo era mais especial, agora ela sabia que era Patric que segurava suas mãos, e ele também sabia quem era ela. Agora ela o amava, e as sensações que sentia eram muito mais sublimes do que as que teria sentido naquela época.
Quando a música acabou eles se olharam com profundidade. Os olhos verdes de Rebecca, e também os seus lábios, sorriram para Patric. O breve segundo daquele olhar lhes pareceu ter demorado o mesmo tempo daquela valsa.
***
Joana percorria lentamente a galeria de arte olhando cada tela e cada relíquia com atenção. Ela também gostava de arte, não tanto quanto Rebecca, mas gostava das pinturas, especialmente aquelas que retravam a sociedade como ela realmente era. Havia poucas assim naquela galeria, poucas pinturas do campo, da pobreza, dos camponeses; mas muitas obras retratando o belo, a riqueza, o poder. Joana seguia atenta a tudo isso enquanto Phillip a olhava recostado em um dos pilares da galeria. A deixava caminhar sozinha, perdida em seus pensamentos, enquanto ele também se via perdido, completamente fascinado pela beleza de Joana, seu modo de caminhar, seu olhar altivo, sua perspicácia.
Havia ali uma tela em que uma família nobre era retratada em uma luxuosa sala, em uma partida de xadrez, ao fundo via-se uma lareira e alguns objetos de decoração sobre uma bancada. Havia outras pinturas que mostravam suntuosos bailes; algumas de anjos; outras mostravam tropas em ação, em um cenário de batalhas vencidas pela França.