O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 9 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 6

 

Baltimore, dia do espetáculo de Ação de Graças.

Novembro de 1989.

Hillel, com Porco nos calcanhares, acabara de prender os pés na bicicleta e se estatelar na calçada. Sabia que não tinha mais como escapar do ataque e rolou, encolhido, para se proteger. Porco pulou em cima dele e começou a desferir inúmeros pontapés na barriga, depois o agarrou pelo cabelo e quis levantá-lo. Até que subitamente uma voz ressoou:

— Largue ele!

Porco se virou. Logo atrás havia um garoto que ele nunca tinha visto, que parecia ameaçador com um casaco de capuz na cabeça.

— Largue ele! — repetiu o menino.

Porco empurrou Hillel no chão e andou até o rapaz, determinado a acabar com ele. Nem sequer teve tempo de dar três passos, pois recebeu um soco magistral no rosto, que o derrubou. Rolou no chão, com a mão no nariz, e começou a chorar.

— Meu nariz! — resmungou. — Você machucou meu nariz!

Em seguida, apareceram os alunos que haviam acompanhado o início da perseguição de Porco a Hillel.

— Olhem — gritou um. — Porco está chorando feito uma menina.

— Está doendo muito! — reclamou Porco em meio aos soluços.

— Quem é você? — perguntou uma das crianças a Woody.

— Sou o guarda-costas de Hillel. Se mexerem com ele, vou socar o nariz de todo mundo.

Eles ergueram as palmas das mãos em sinal de paz.

— Nós gostamos de Hillel — disse outro menino, sem descer da bicicleta. — Não queremos criar problemas para ele. Não é verdade, Hillel? Aliás, se quiser, podemos mijar em cima do Porco.

— Não se mija em cima dos outros — respondeu Hillel, ainda no chão.

Woody ergueu Porco e ordenou que ele desse o fora dali.

— Ande, seu idiota, caia fora, vá colocar gelo no nariz.

Porco desapareceu sem argumentar, ainda chorando, enquanto Woody ajudava Hillel a se levantar.

— Obrigado, cara — disse Hillel. — Você… você realmente salvou minha pele.

— Foi um prazer. Meu nome é Woody.

— Como sabe quem eu sou?

— Você está em tudo quanto é retrato no escritório do seu pai.

— Conhece meu pai?

— Ele me tirou da merda algumas vezes.

— Não se diz merda.

Woody sorriu.

— Você é mesmo filho do Sr. Goldman.

— E como sabe meu nome?

— Ouvi seus pais falando no escritório do seu pai outro dia.

— Meus pais? Conhece meus pais?

— Como já falei, conheço seu pai. Graças a ele, trabalho para o jardineiro Bunk. Eu estava cuidando dos gramados quando vi você ser perseguido por aquele menino gordo. E também sei que todo mundo zoa você porque, quando eu estava no escritório do seu pai outro dia, vi sua mãe chegar… Aliás, ela é bonita para caramba. E…

— Eca, que nojo! Não fale da minha mãe assim!

— Está bem, resumindo: sua mãe foi ao escritório do seu pai e disse que estava preocupada porque todo mundo queria te dar uma surra na escola. Então, na mesma hora, fiquei contente por ver aquele bacon gordo quebrando a sua cara, assim pude te defender para agradecer a seu pai por ter me defendido.

— Não entendi nada da sua história. Meu pai defendeu você do quê?

— Tive problemas depois de me meter em algumas brigas e ele sempre me ajudou.

— Brigas?

— Isso mesmo. Estou sempre arranjando brigas.

— Você poderia me ensinar a brigar — sugeriu Hillel. — Quanto tempo eu levaria para ficar forte como você?

Woody fez uma careta.

— Bem, você me parece uma negação para brigas. Então eu diria que provavelmente levaria a vida inteira. Mas eu poderia ir com você à escola. Desse jeito, ninguém se atreveria mais a implicar com você.

— Faria isso?

— Claro.

* * *

Depois que conheceu Woody, Hillel não teve mais problemas na escola. Todas as manhãs, ao sair de casa, encontrava Woody no ponto do ônibus escolar. Os dois embarcavam, e Woody o escoltava até os corredores do colégio, misturando-se aos outros alunos. Porco mantinha distância. Não queria criar caso com Woody.

No fim das aulas, lá estava Woody novamente. Os dois, então, seguiam para a quadra de basquete e, após algumas partidas extraordinárias, Woody acompanhava Hillel até em casa.

— Preciso correr. Bunk acha que estou podando as plantas dos seus vizinhos. Se me vir ao seu lado, estou morto.

— Como consegue passar o tempo todo aqui? — perguntou Hillel. — Você não vai para a escola?

— Vou, mas saio cedo. Tenho tempo de vir para cá.

— Onde você mora?

— Numa instituição na zona leste.

— Não tem pais?

— Minha mãe não tinha mais tempo para cuidar de mim.

— E seu pai?

— Mora em Utah. Ele se casou de novo. É muito ocupado.

Ao se aproximar da casa dos Goldman, Woody cumprimentava Hillel e desaparecia. Hillel sempre o convidava para jantar.

— Não posso — respondia Woody sistematicamente.

— Por quê?

— Tenho que trabalhar com Bunk.

— Venha quando tiver acabado e jante com a gente — insistia Hillel.

— Não. Fico constrangido.

— O que te deixa constrangido?

— Seus pais. Quer dizer, não seus pais especificamente. Todos os adultos.

— Meus pais até que são legais.

— Sei disso.

— Por que me protege, Woody?

— Não protejo você. Apenas gosto da sua companhia.

— Mas eu acho que você me protege.

— Então você me protege também.

— Protejo do quê? Sou um pingo de gente.

— Você me protege da solidão.

O que deveria ser a quitação de uma dívida de Woody para com tio Saul se transformou numa amizade sólida entre Woody e Hillel. Ele ia todos os dias até Oak Park. Durante a semana, exercia seu papel de guarda-costas. Aos sábados, era Hillel que o acompanhava em seu trabalho com Bunk, e, aos domingos, davam uma volta na praça ou iam até a quadra de basquete. Desde manhã cedo, Woody ficava na calçada, no frio e no escuro, esperando Hillel.

— Por que não entra para tomar um chocolate quente? Vai congelar aí fora.

Mas Woody sempre recusava.

Certa madrugada escura de sábado, quando Woody apareceu diante do portão dos Goldman-de-Baltimore, encontrou tio Saul tomando café. Acenou para ele.

— Woodrow Finn… Veja só! Então é você que faz meu filho tão feliz…

— Não fiz nada de errado, Sr. Goldman. Juro.

Tio Saul sorriu.

— Sei disso. Venha, entre.

— Prefiro ficar do lado de fora.

— Não pode ficar aí, está um frio glacial. Entre logo.

Woody entrou timidamente na casa.

— Já tomou café da manhã? — perguntou tio Saul.

— Não, Sr. Goldman.

— Por que não? Precisa comer de manhã. É importante. Ainda mais trabalhando com jardinagem.

— Sei disso.

— Como estão as coisas lá na instituição?

— Bem.

Tio Saul o fez se sentar diante da bancada da cozinha e preparou chocolate quente e panquecas para ele. As outras pessoas da casa continuavam dormindo.

— Sabia que, por sua causa, Hillel voltou a sorrir? — perguntou tio Saul.

Woody deu de ombros mais uma vez.

— Não sei de nada, Sr. Goldman.

Tio Saul sorriu para ele.

— Obrigado, Woody.

O menino desviou o olhar.

— Não foi nada.

— Como posso agradecer?

— Imagine, não foi nada, Sr. Goldman. Eu tinha vindo falar com o senhor sobre o favor que eu lhe devia… Então esbarrei com Hillel e ficamos amigos.

— Pois bem, considere-se meu amigo também. E se precisar de qualquer coisa, pode me pedir. Aliás, eu gostaria que você viesse aqui tomar café da manhã todos os fins de semana. Não quero que vá jogar basquete de barriga vazia.

Embora tivesse aceitado entrar na casa dos Goldman nas manhãs de sábado e domingo, Woody se recusava categoricamente a ficar para jantar à noite. Tia Anita precisou de muita paciência para conquistá-lo. Primeiro, ficou na calçada em frente à casa esperando os meninos voltarem do jogo de basquete. Cumprimentava Woody, que em geral corava ao vê-la e fugia feito um animal arisco. Hillel ficava nervoso.

— Por que você faz isso, mãe? Não percebe que ele tem medo de você?

Ela caía na gargalhada. Em seguida, esperou-os com leite e biscoitos e, antes que Woody tivesse tempo de fugir, convidou-o para beliscar alguma coisa, mesmo do lado de fora. E aproveitou um dia chuvoso para convencê-lo a entrar. Chamava-o de “o famoso Woody”. Ele corava, ficando escarlate, e gaguejava. Achava-a muito bonita. Certa tarde, ela disse:

— Fale a verdade, famoso Woody: você gostaria de ficar para jantar hoje à noite?

— Não posso, ainda tenho que ajudar o Sr. Bunk a plantar bulbos.

— Volte depois.

— Depois é melhor eu voltar para a instituição. Eles vão ficar preocupados se eu não retornar e terei problemas.

— Se quiser, posso ligar para Artie Crawford e pedir autorização. Depois deixo você lá.

Woody aceitou que tia Anita telefonasse e ele foi autorizado a ficar para jantar. Após a refeição, disse a Hillel:

— Seus pais são mesmo muito legais.

— Eu falei. Eles são tranquilos. Você pode vir sempre que quiser.

— Achei incrível sua mãe ter ligado para Crawford e avisado que eu ficaria para jantar com vocês. Ninguém nunca me fez sentir assim.

— Sentir como?

— Importante.

Woody encontrou nos Goldman-de-Baltimore a família que nunca tivera e logo ocupou um lugar especial junto a eles. Nas manhãs de sábado e domingo, ele chegava bem cedo. Tio Saul o deixava entrar e ele se acomodava à mesa do café da manhã. Hillel não demorava a aparecer. Em seguida, os dois iam ajudar Dennis Bunk. À noite, Woody costumava ficar para jantar. Insistia em ser útil: queria de qualquer jeito ajudar a preparar a comida, arrumar a mesa, tirar, lavar a louça e levar o lixo para fora. Certa manhã, vendo-o arrumar a cozinha, Hillel disse:

— Ainda está cedo. Relaxe. Você não é obrigado a fazer tudo isso.

— Faço porque tenho vontade. Não quero que seus pais pensam que estou me aproveitando.

— Pensem, e não pensam. Vamos, sente-se, termine de comer seu cereal e leia o jornal. Leia ou nunca vai saber nada.

Hillel tentava despertar o interesse do amigo por tudo. Comentava sobre os livros que lia, os documentários que vira na televisão. No fim de semana, chovesse ou fizesse sol, não deixavam de ir à quadra de basquete. Formavam uma dupla incrível. Sozinhos, os dois enfrentavam sem medo as equipes da NBA. O lendário Chicago Bulls era fichinha para eles.

Certo dia, tia Anita me contou que percebera que Woody passara a fazer parte da família quando, ao fazer compras no supermercado com Hillel, ela o viu pegar cereais com marshmallow.

— Eu achava que você não gostava de marshmallow — dissera ela.

E Hillel respondera com a ternura de um irmão:

— Não gosto mesmo, é para Woody. É o preferido dele.

* * *

A presença de Woody na casa dos Baltimore logo se impôs como uma evidência. Com a permissão de Artie Crawford, passaram a comer pizza nas noites de terça, a ver filmes aos sábados, a passear no aquário da cidade — Hillel nunca se cansava disso — e a fazer excursões a Washington, onde foram, inclusive, visitar a Casa Branca.

Nas noites em que jantava na casa dos Goldman, Woody insistia em voltar de ônibus para a instituição. Tinha medo de que, de tanto paparicá-lo, os Goldman se cansassem e o expulsassem. Mas tia Anita o proibia de voltar sozinho. Era perigoso. Dava-lhe carona e, ao deixá-lo em frente ao prédio austero, perguntava:

— Tem certeza de que está tudo bem?

— Não se preocupe, Sra. Goldman.

— Fico um pouco preocupada, sim.

— Não precisa se incomodar por minha causa, Sra. Goldman. A senhora já é muito gentil comigo.

Certa noite de sexta-feira, ao parar diante daquele prédio decrépito, ela sentiu um aperto no peito e falou:

— Woody, talvez você devesse dormir lá em casa esta noite.

— Não precisa se incomodar por minha causa, Sra. Goldman.

— Você não incomoda ninguém, Woody. A casa é grande o suficiente para todo mundo.

E aquela foi a primeira vez que ele dormiu na casa dos Goldman.

Certa manhã de domingo, assim que Woody chegou bem cedo enquanto uma chuva torrencial caía sobre Baltimore, tio Saul notou que ele estava encharcado e gélido. A partir de então, ficou decidido que o menino teria uma chave. Depois daquele dia, passou a chegar ainda mais cedo, arrumava a mesa, preparava torradas, suco de laranja e café. Tio Saul era o primeiro a descer. Acomodavam-se um ao lado do outro e tomavam o café da manhã juntos, dividindo o jornal. Tia Anita aparecia em seguida, despenteava o cabelo dele para cumprimentá-lo e, se Hillel demorasse muito a se levantar, Woody ia até o quarto dele para acordá-lo.

* * *

Certa manhã de uma segunda-feira de janeiro de 1990, a caminho do ponto de ônibus, Hillel encontrou Woody chorando, escondido em meio aos arbustos.

— O que houve, Woody?

— O pessoal da instituição não quer mais que eu venha aqui.

— Por quê?

Woody baixou a cabeça.

— Não tenho ido à escola.

— Como assim? Por quê?

— Eu me sentia melhor aqui. Queria estar com você, Hillel! Artie está furioso. Ligou para o seu pai. Falou que eu não ia mais trabalhar com Bunk.

— E mesmo assim ele deixou você vir para cá?

— Eu fugi! Não quero voltar! Quero ficar com você!

— Ninguém vai impedir que a gente se encontre, Woody. Vou pensar numa solução.

A solução foi instalar Woody naquele dia mesmo no pavilhão da piscina dos Baltimore. Ele ficaria tranquilo ali até o verão, pois ninguém nunca ia lá. Hillel lhe deu cobertores, comida e um walkie-talkie para se comunicar.

Naquela noite, Artie Crawford passou na casa dos Baltimore para lhes comunicar o desaparecimento de Woody.

— Como assim, desaparecimento? — perguntou tia Anita.

— Ele não voltou para a instituição. Descobrimos que fazia semanas que não ia à aula.

Tio Saul se virou para Hillel e perguntou:

— Você viu Woody hoje?

— Não, pai.

— Tem certeza?

— Tenho, pai.

— Faz alguma ideia de onde ele poderia estar? — interrogou Artie.

— Não, eu gostaria de poder ajudá-lo.

— Hillel, sei que Woody e você são muito próximos. Se sabe de alguma coisa, precisa me dizer. Isso é muito importante.

— Na verdade, sei de uma coisa… Ele comentou sobre ir para Utah, encontrar o pai. Queria pegar um ônibus até Salt Lake City.

À noite eles se falaram pelo walkie-talkie. Hillel sussurrava, escondido sob as cobertas, para ter certeza de que seus pais não iriam escutá-lo.

— Woody? Tudo bem? Câmbio.

— Tudo bem, Hill. Câmbio.

— Crawford esteve aqui em casa esta noite. Câmbio.

— O que ele queria? Câmbio.

— Estava atrás de você. Câmbio.

— O que você disse para ele? Câmbio.

— Que você estava em Utah. Câmbio.

— Boa. Obrigado. Câmbio.

— De nada, cara.

* * *

Durante os três dias seguintes, Woody permaneceu escondido no pavilhão. Na manhã do quarto dia, saiu de madrugada e se escondeu na rua para esperar Hillel e acompanhá-lo até a escola.

— Você está louco — disse Hillel. — Se alguém vir, você está ferrado!

— Estou ficando sem ar no pavilhão. Preciso esticar as pernas. E se Porco não me vir mais na escola, tenho medo de que desconte em você.

Woody acompanhou Hillel até o pátio da escola, onde se misturou à multidão de alunos. Contudo, naquela manhã o diretor Hennings notou aquele garoto que ele nunca vira e soube imediatamente que não era um aluno. Lembrou-se da descrição que tinham lhe fornecido e avisou a polícia. No minuto seguinte, uma patrulha chegou às imediações da escola. Woody a viu na mesma hora e quis fugir, mas esbarrou em Hennings.

— Com licença, rapaz. Quem é você? — perguntou Hennings, num tom severo, apoiando a mão firme no ombro do garoto para detê-lo.

— Corra, Woody! — exclamou Hillel. — Salve-se!

Woody se livrou da mão de Hennings e botou sebo nas canelas. Mas os policiais logo o alcançaram e o contiveram. Hillel correu até eles, gritando:

— Larguem ele! Larguem ele! Vocês não têm esse direito!

Quis empurrar os policiais, mas o diretor se interpôs e o impediu. Hillel desatou a chorar.

— Deixem ele em paz! — berrou para os policiais que levavam Woody. — Ele não fez nada! Ele não fez nada!

Todos os alunos no pátio do recreio observaram, paralisados, Woody entrar na viatura policial. Em seguida, Hennings e os professores os dispersaram, ordenando que voltassem para as salas de aula.

Hillel passou a manhã chorando na enfermaria. Na hora do almoço, o diretor passou para vê-lo.

— Ande, rapaz, vá para a sala de aula.

— Por que o senhor fez isso?

— O diretor da instituição de Woody tinha me avisado que ele provavelmente apareceria por aqui. Seu amigo fugiu. Você entende o que isso significa? É uma coisa muito grave.

Arrasado, Hillel voltou para assistir às aulas da tarde. Porco o aguardava com impaciência.

— A hora da vingança chegou, Camarão — advertiu-o. — Agora que seu amiguinho Woody não está mais aqui, vou poder cuidar de você assim que as aulas terminarem. Tem uma merda de cachorro esperando por você. Já comeu merda de cachorro? Não? Vai ser sua sobremesa. Vai raspar o prato. Nham, nham!

* * *

No exato instante em que o sinal tocou anunciando o fim das aulas, Hillel saiu correndo da sala de aula, com Porco em seu encalço.

— Agarrem o Camarão! — berrou Porco. — Agarrem ele. Vamos acabar com ele.

Hillel disparou pelos corredores, depois, ao sair pela lateral da quadra de basquete, aproveitou sua baixa estatura para se esgueirar na contramão em meio a uma multidão de crianças que desciam a escada. Voltou para o primeiro andar e atravessou os corredores vazios até chegar ao almoxarifado. Ficou bastante tempo escondido ali, prendendo a respiração. O sangue latejava em suas têmporas, as batidas do seu coração reverberavam em seus ouvidos. Quando se atreveu a sair, já havia anoitecido. Os corredores estavam apagados e desertos. Foi andando na ponta dos pés à procura da saída e logo reconheceu o corredor que dava acesso à sala da redação do jornal. Ao passar em frente, notou que a porta estava entreaberta e ouviu alguns barulhos esquisitos vindos lá de dentro. Parou e ficou escutando com atenção. Distinguiu a voz da Sra. Chariot. Em seguida, ouviu o som de uma palmada e depois um gemido. Olhou pelo vão da porta entreaberta e deparou com o diretor Hennings sentado numa cadeira. A Sra. Chariot estava deitada à sua frente, exibindo as nádegas, com a saia e a calcinha abaixadas. Com a mão firme, ele lhe dava palmadas carinhosas e, a cada golpe, ela gemia de prazer.

— Sua puta! — gritou ele para a Sra. Chariot.

— Sim, sou uma tremenda puta nojenta — repetiu ela.

— Sua puta! — reiterou ele.

— Fui uma péssima aluna, diretor — confessou ela.

— Você foi uma putinha terrível? — interrogou Hennings.

Hillel, que não estava entendendo nada da cena diante de seus olhos, empurrou bruscamente o batente da porta e exclamou:

— Palavrão não é bonito!

A Sra. Chariot se ergueu em um pulo e deu um grito estridente.

— Hillel? — disse Hennings, gaguejando, enquanto a Sra. Chariot puxava a saia antes de sair dali.

— O que estão fazendo? — perguntou Hillel.

— Era um jogo — respondeu Hennings.

— Parecia mais um bullying — constatou o menino.

— Estávamos… praticando exercício… E você? O que está fazendo aqui?

— Eu me escondi porque as outras crianças queriam me bater e me obrigar a engolir cocô de cachorro — explicou Hillel ao diretor, que não prestava mais atenção, porque estava procurando a Sra. Chariot no corredor.

— Muito bem — disse Hennings. — Adeline? Adeline, você está aí?

— Posso continuar escondido? — perguntou Hillel. — Tenho muito medo do que Porco vai fazer comigo.

— Muito bem, meu garoto. Viu a Sra. Chariot?

— Ela foi embora.

— Embora para onde?

— Não sei, para lá.

— Bom, brinque aí um pouquinho. Já volto.

Hennings seguiu pelo corredor, gritando:

— Adeline? Adeline, cadê você?

Encontrou a Sra. Chariot encolhida num canto.

— Não se preocupe, Adeline — tranquilizou-a. — O garoto não viu nada.

— Ele viu tudo! — gritou ela.

— Não, não. Garanto que não.

— Tem certeza? — perguntou ela, com a voz trêmula.

— Absoluta. Está tudo bem, não há motivos para se preocupar. E, além do mais, ele não é do tipo que cria caso. Não se preocupe, vou conversar com ele.

Contudo, ao voltar à sala da redação do jornal, Hennings descobriu que Hillel não estava mais lá. Encontrou-o uma hora mais tarde, em sua casa, quando o menino tocou a campainha.

— Oi, diretor.

— Hillel? Mas o que você está fazendo aqui?

— Acho que tenho uma coisa que lhe pertence — disse o garoto, tirando uma calcinha da mochila.

Hennings arregalou os olhos e balançou as mãos.

— Suma com esse lixo! — ordenou. — Não sei do que você está falando!

— Acho que é da Sra. Chariot. O senhor baixou a calcinha dela para dar palmadas, e ela se esqueceu de colocá-la de volta. É estranho porque, se eu me esquecesse de colocar a cueca, sentiria frio no pinto. Mas talvez as mulheres, que têm pinto embutido, não sintam as correntes de ar.

— Cale a boca e dê o fora daqui! — sibilou Hennings.

Vindo da sala, a voz da esposa do diretor perguntou quem havia tocado a campainha.

— Ninguém, querida — respondeu Hennings, com a voz melíflua. — Um aluno que se meteu em encrenca.

— Será que não devíamos perguntar à sua esposa se a calcinha é dela? — sugeriu Hillel.

Com um gesto desastrado, Hennings tentou agarrar a calcinha, mas, como não conseguiu, gritou para a esposa:

— Querida, vou dar uma volta!

Saiu de chinelo na calçada e arrastou Hillel.

— Você é louco de vir aqui?

— Vi que tem um quiosque de sorvete logo ali — disse o menino.

— Não vou comprar sorvete para você. Está na hora do jantar. Aliás, como veio até aqui?

— Será que a Sra. Chariot gosta de colocar sorvete no seu bumbum vermelhinho? — comentou Hillel.

— Venha, vamos comprar sorvete.

Cada um com uma casquinha de sorvete na mão, eles deram uma volta no quarteirão.

— Por que deu uma palmada na coitada da Sra. Chariot?

— Era um jogo.

— Na escola, nos falaram sobre maus-tratos. Aquilo era um caso de maus-tratos? Eles nos deram um número de telefone.

— Não, garoto. Era uma coisa que nós dois queríamos.

— Brincar de palmada?

— É. São palmadas especiais. Não machucam. Fazem bem.

— Ah! Mas meu colega Luis levou uma palmada do pai e disse que doeu muito.

— Isso é diferente. O que você viu são palmadas que os adultos dão uns nos outros. Eles conversam sobre isso antes para terem certeza de que estão de acordo.

— Ah — respondeu Hillel. — Quer dizer que o senhor disse à Sra. Chariot: “Ei, Sra. Chariot, se incomodaria de baixar a calcinha para receber uma palmada?” E ela respondeu: “Sem problemas.” Foi isso?

— De certa forma.

— Que bizarro.

— Sabe, mocinho, os adultos são bizarros.

— Sei disso.

— Mais bizarros do que você pode imaginar.

— O senhor também?

— Eu também.

— Sabe, entendo o que o senhor está falando. Alguns amigos dos meus pais tiveram que se divorciar. Certa noite, os dois foram jantar na minha casa e, uma semana depois, a mulher foi dormir lá. Ela não parava de falar do marido e só usava palavras proibidas. Ele fazia coisas com a babá dos filhos.

— Às vezes os homens fazem isso.

— Por quê?

— Por várias razões. Para se sentirem melhores, para se sentirem mais fortes. Para se sentirem mais jovens. Para aliviar as pulsões.

— O que é uma pulsão?

— É uma coisa que sai de nós e não sabemos direito por quê. Nossa cabeça não consegue mais pensar, nosso corpo age sem controle e depois nos arrependemos.

— Um dia desses encontrei um saco de balas atrás da minha cama. Eram minhas balas preferidas, e mamãe me disse para não tocar nelas, pois íamos jantar, mas não aguentei e comi porque eram as minhas preferidas. Depois me arrependi, afinal fiquei empanturrado e perdi a fome para o jantar que mamãe tinha preparado. Isso foi uma pulsão?

— De certa forma, sim.

— E o senhor? Por que brinca de dar palmadas na Sra. Chariot? Não gosta mais da sua esposa, assim como o amigo do meu pai?

— Ao contrário, amo minha esposa. Amo muito.

— Então é nela que tem que dar palmadas de amor!

— Ela não quer. Sabe, às vezes os homens têm necessidades e precisam saciá-las. Mas isso não significa que eles não gostam da esposa. Quando me tranco na sala da redação com a Sra. Chariot, estou arranjando uma forma de ficar com a minha esposa. Amo minha mulher. Não gostaria que ela ficasse triste. E ela ficaria triste se soubesse disso. Entende? Tenho certeza de que você entende.

— Entendo, sim. Mas o senhor é chefe da Sra. Chariot, e isso vai dar o que falar, com certeza. E também sei que os pais dos alunos não vão gostar nada de descobrir que as carteiras em que seus filhos se sentam na sala da redação são usadas para uma professora exibir a bunda…

— Tudo bem! — interrompeu Hennings. — Já entendi! O que você quer?

— Eu gostaria que meu amigo Woody ganhasse uma bolsa de estudos na escola.

— Você enlouqueceu? Acha que posso tirar vinte mil dólares da cartola?

— O senhor cuida do orçamento do colégio. Tenho certeza de que vai dar um jeito. Só precisa colocar mais uma carteira no fundo da sala. Não é muito complicado. E assim continuará amando sua esposa e dando palmadas na Sra. Chariot.

Na manhã seguinte, o diretor Hennings ligou para Artie Crawford e lhe informou que a Associação de Pais e Alunos da escola de Oak Tree estava muito feliz em conceder uma bolsa de estudos a Woody. Após conversar com meus tios, eles sugeriram, para a felicidade de Hillel, que Woody ficasse na casa deles para morar perto da escola. Na noite do dia em que Woody entrou em Oak Tree, o diretor Hennings escreveu em seu registro de atividades: Hoje foi tomada a decisão de conceder uma bolsa considerável a um garoto estranho, Woodrow Finn. O pequeno Hillel Goldman parece fascinado por ele. Logo descobriremos se a chegada desse novo aluno lhe permitirá revelar seu potencial, como espero há muito tempo.

* * *

Foi assim que Woody entrou na vida dos Goldman-de-Baltimore e se instalou num dos quartos de hóspedes da casa, que foi reformado para que ele ficasse confortável. Tio Saul e tia Anita só viram a felicidade de Hillel aumentar nos anos seguintes. Woody e ele iam e voltavam da escola juntos. Almoçavam juntos, estudavam juntos, faziam os deveres de casa juntos, e, nas quadras de esporte, apesar da diferença de estatura dos dois, tinham que ficar na mesma equipe. Foi o início de um período de tranquilidade e felicidade absolutas.

Woody entrou para o time de basquete da escola, levando-o pela primeira vez na história à conquista do campeonato. Hillel, por sua vez, modificou o jornal da escola de maneira espetacular: acrescentou uma seção dedicada a cobrir o desempenho do time de basquete e colocava os exemplares à venda nas noites de jogo. O dinheiro arrecadado alimentava o recente “Fundo da Associação de Pais e Alunos para Bolsas de Estudos”. Recebeu elogios de seus professores, ganhou o respeito de seus colegas e, em suas anotações pessoais, Hennings escreveu sobre Hillel: Aluno sensacional, dotado de uma inteligência excepcional. Traz uma inegável contribuição para o colégio. Conseguiu reunir os colegas em torno do projeto do jornal e idealizou a vinda do prefeito à escola para um seminário sobre política. Só há uma palavra: estarrecedor.

Não demorou muito até a quadra atrás da escola não lhes bastar mais. Precisavam de uma maior. Precisavam de algum lugar à altura de suas ambições. Depois das aulas, iam sonhar no ginásio de esportes do colégio de Roosevelt High, perto da escola deles. Chegavam antes do treino do time de basquete, se esgueiravam até a quadra e, fechando os olhos, imaginavam o Fórum de Los Angeles, o Madison Square Garden e a multidão em delírio gritando o nome deles. Hillel subia na arquibancada e Woody se posicionava no fundo da quadra. Hillel fingia que tinha um microfone nas mãos:

— A dois segundos do fim da partida, os Bulls estão perdendo por dois pontos. Mas se o ala Woodrow Finn marcar essa cesta, eles vencem os playoffs!

Woody, fazendo graça, com os olhos semicerrados, os músculos tesos, arremessava. Seu corpo se retesava no ar, seus braços se distendiam, a bola atravessava o ginásio num silêncio absoluto e aterrissava na cesta. Hillel gritava de alegria:

— Vitóóóóória do Chicago Bulls com essa cesta decisiva do inacreditáááável Woodrow Finn!

Jogavam-se nos braços um do outro, davam uma volta olímpica e fugiam em seguida, com medo de serem flagrados.

Certa vez, Woody resolveu procurar tia Anita e finalmente lhe pediu, sussurrando:

— Sra. Goldman, eu… gostaria muito de tentar ligar para o meu pai. Queria lhe dar notícias.

— É claro, querido. Use o telefone quando quiser.

— Sra. Goldman, é que… eu não queria que Hillel soubesse. Não quero falar muito sobre esse assunto com ele.

— Suba para o nosso quarto. O telefone fica ao lado da cama. Ligue para o seu pai quando e quantas vezes quiser. Nem precisa pedir, querido. Suba. Pode deixar que eu distraio Hillel.

Woody se esgueirou discretamente até o quarto de tio Saul e tia Anita. Pegou o telefone e se sentou no carpete. Tirou um pedaço de papel do bolso com o número e discou. Ninguém atendeu. Caiu na caixa postal e ele deixou uma mensagem: “Oi, pai, é Woody. Estou deixando um recado porque… Eu queria lhe contar que estou morando na casa dos Goldman, e eles são muito legais comigo. Jogo basquete no time da minha escola nova. Amanhã vou tentar ligar de novo.”

* * *

Alguns meses depois, pouco antes das férias de Natal de 1990, quando tio Saul e tia Anita convidaram Woody para acompanhá-los a Miami, a primeira reação dele foi recusar. Achava que os Goldman já eram suficientemente generosos com ele e que aquela viagem representava um grande gasto de dinheiro.

— Venha conosco, vamos nos divertir — insistia Hillel. — Vai fazer o quê? Passar as férias na instituição?

Mas Woody não cedia. Certa noite, tia Anita foi conversar com ele em seu quarto. Sentou-se na beirada da cama.

— Woody, por que você não quer ir à Flórida?

— Não quero. Só isso.

— Ficaríamos muito contentes se viesse conosco.

Ele desatou a chorar e ela lhe deu um abraço apertado.

— Woody, querido, o que está havendo?

Ela passou a mão no cabelo do menino.

— É que… ninguém nunca cuidou de mim como vocês. Ninguém nunca me levou à Flórida.

— Adoraríamos fazer isso, Woody. Você é um garoto sensacional e gostamos muito de você.

— Sra. Goldman, eu roubei… Ah, estou muito arrasado, não mereço morar com vocês.

— O que você roubou?

— Outro dia, quando fui até o seu quarto, tinha um retrato seu em cima de um móvel…

Ele se levantou da cama, engolindo as lágrimas, abriu sua mochila e pegou uma foto da família. Depois a estendeu a tia Anita.

— Desculpe — disse ele, soluçando. — Eu não queria roubar, mas queria ter um retrato de vocês. Tenho medo de que algum dia me abandonem.

Ela acariciou seu cabelo.

— Ninguém vai abandonar você, Woody. Aliás, você fez bem em falar sobre esse retrato: está faltando alguém nele.

No fim de semana seguinte, os Goldman-de-Baltimore, que passaram a ter quatro membros, foram tirar fotos de família no shopping.

Ao voltar para casa, Woody telefonou para o pai. Caiu de novo na caixa postal e ele deixou outro recado: “Oi, pai, é Woody. Vou mandar um retrato para você. Vai ver só, é sensacional! Sou eu e os Goldman. Vamos para a Flórida no fim da semana. Tento ligar para você de lá.”

* * *

Eu me lembro bem daquele inverno de 1990 na Flórida, durante o qual Woody entrou na minha vida para nunca mais sair. A cumplicidade entre nós três foi instantânea. A partir desse dia começou a extraordinária aventura da Gangue dos Goldman. Acho que foi quando conheci Woody que comecei a gostar de verdade da Flórida, que, até então, me parecia um pouco chata. Assim como Hillel, fiquei encantado por aquele menino forte e sedutor.

* * *

No fim do primeiro ano escolar juntos em Oak Tree, na véspera da foto do anuário, Hillel levou um embrulho para Woody.

— Para mim?

— É. Para amanhã.

Woody abriu o presente: era uma camiseta amarela com a inscrição Amigos para toda a vida.

— Obrigado, Hill.

— Vi no shopping. Comprei uma igual para mim. Desse jeito sairemos com a mesma camiseta na foto. Enfim, se você quiser… Espero que não ache isso muito bobo.

— Não, nem um pouco bobo!

O acaso da ordem alfabética deixou Woodrow Marshall Finn ao lado de Hillel Goldman. Na foto do anuário 1990-1991 da escola de Oak Tree, em que ambos aparecem lado a lado pela primeira vez, não era possível dizer quem, Woody ou Hillel, era o mais Goldman dos dois.