O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 35 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 32

 

Naquele mês de abril de 2012, enquanto eu arrumava a casa do meu tio, derrubei em mim mesmo o café que eu estava tomando. Para limitar os estragos, tirei a camiseta e enfiei a parte manchada debaixo d’água. Depois coloquei-a para secar na varanda, ficando sem camisa. Essa cena me fez lembrar de tio Saul colocando sua roupa para secar num arame esticado nos fundos da casa. Ainda me lembro de como ele tirava a roupa limpa da máquina de lavar e a colocava numa bacia de plástico, para levá-la para fora em seguida. E um aroma agradável de amaciante emanava. Depois que suas roupas secavam, ele mesmo as passava, desajeitadamente.

Quando se instalou em Coconut Grove, ele ainda dispunha de recursos financeiros consideráveis. Tinha uma faxineira, Fernanda, que ia três vezes por semana, limpava a casa e a alegrava com flores viçosas e pots-pourris, preparava comida e cuidava da roupa.

Anos depois, quando perdeu tudo, foi obrigado a despedi-la. Insisti para que ele a mantivesse, que eu pagaria seu salário, mas tio Saul recusara. Para forçar a barra, adiantei seis meses de salário a Fernanda, mas quando ela chegou para trabalhar, ele a expulsou, se recusando a abrir a porta.

— Não tenho mais recursos para lhe pagar — explicara ele através da porta.

— Mas foi o Sr. Marcus quem me mandou aqui. Ele já me pagou. Se não me deixar trabalhar, é como se eu estivesse roubando de seu sobrinho. E você não quer que eu roube de seu sobrinho, não é mesmo?

— Não tenho nada a ver com essas combinações de vocês. Eu me viro muito bem sozinho.

Ela me telefonara aos prantos da varanda da casa do meu tio. Eu lhe dissera para guardar os seis meses de salário enquanto não arranjava um novo emprego.

Após a partida de Fernanda, adquiri o hábito de toda semana levar a roupa suja à lavanderia. Eu suplicara que tio Saul me deixasse levar a dele também, mas ele era orgulhoso demais para aceitar o que quer que fosse. Também fazia a própria faxina sem ajuda. Quando eu passava em sua casa, ele esperava que eu fosse embora para pôr as mãos à obra. Ao voltar de uma corrida, eu o encontrei limpando o chão, suando copiosamente.

— É agradável ter uma casa limpa — comentou ele, sorrindo.

Um dia eu lhe disse:

— Fico incomodado por você não me deixar ajudar.

Ele estava limpando os vidros com um pano e interrompeu o que fazia.

— O que te incomoda é o fato de não me ajudar ou de me ver fazendo faxina? Acha isso indigno de mim? Ninguém é grã-fino demais para lavar o próprio banheiro.

Ele acertava na mosca. E entendi que tinha razão. Eu admirava da mesma forma o tio Saul milionário e o tio Saul que empacotava compras no supermercado: não era questão de riqueza, e sim de dignidade. A força e a beleza do meu tio estavam em sua extraordinária dignidade, que o tornava superior aos outros. E ninguém podia tirar isso dele. Pelo contrário, essa característica aumentava com o tempo. Contudo, ao vê-lo lavar o piso, eu não podia deixar de me lembrar da época dos Goldman-de-Baltimore: todos os dias desfilava pela sua casa de Oak Park um exército de funcionários responsáveis pela manutenção. Havia Maria, empregada em tempo integral e presente na casa dos Baltimore desde que éramos crianças; Skunk, o jardineiro; o pessoal da piscina; os que podavam as árvores (muito altas para Skunk); os da manutenção do telhado; uma senhora filipina boazinha que trazia as irmãs como extras para servirem à mesa por ocasião do feriado de Ação de Graças ou dos grandes jantares.

Desse povo das sombras que fazia reluzir o palácio dos Baltimore, Maria era de quem eu mais gostava. Era superatenciosa comigo e, no dia do meu aniversário, me dava uma caixa de chocolate. Eu a chamava de Mágica. Durante o tempo que eu passava lá, ela desaparecia com as minhas roupas sujas amontoadas no quarto de hóspedes e as deixava na minha cama na mesma noite, lavadas e passadas. Eu ficava absolutamente admirado com tanta eficiência. Em Montclair, era minha mãe quem lavava e passava. Fazia essa tarefa no sábado ou no domingo (quando não trabalhava), o que significava que eu precisava esperar uma semana para encontrar as roupas limpas de novo. Isso me levava a escolher meticulosamente meus trajes em função dos eventos da semana seguinte, para não ser pego desprevenido caso o suéter que eu quisesse vestir em tal dia para impressionar as meninas não tivesse reaparecido no meu armário.

Mesmo nos meus anos de universitário, quando eu ia à casa dos Baltimore para o Dia de Ação de Graças, Maria dava um jeito de pegar toda a minha roupa suja e deixá-la limpa na minha cama. Após o Drama, que aconteceu na véspera do Dia de Ação de Graças de 2004, tio Saul não voltou mais a Oak Park. Mas ela continuou indo até lá, comprovando sua lealdade.

 

Flórida.

Primavera de 2011.

No dia seguinte ao nosso jantar com a vovó, ao voltar de uma longa corrida, encontrei justamente tio Saul passando o aspirador.

Na véspera, no carro, ele não fizera nada além de aflorar as lembranças de sua juventude, aproveitando para ficar quieto quando nos aproximamos de sua casa.

— Ontem você não terminou de falar sobre você e vovô.

— Não há muito mais o que falar. De toda forma, o que passou, passou.

Desligou o aspirador, enrolou novamente o tubo e o guardou num armário, como se tudo aquilo não tivesse importância. Por fim, se virou para mim e emitiu estas palavras estarrecedoras:

— Sabe, Marcus, seus avós sempre preferiram seu pai a mim.

— O quê? Mas que história é essa? Eles sempre foram totalmente impressionados com você.

— Impressionados, talvez. Mas isso não significa que não preferiam seu pai.

— Como pode pensar uma coisa dessas?

— Porque é a verdade. Antes da faculdade, seu pai e eu éramos muito próximos. Nossa relação se complicou quando seu avô recusou que eu fizesse medicina.

— Você queria ser médico?

— Eu queria. Mas seu avô, não. Dizia que isso não seria útil para a empresa da família. Seu pai, por outro lado, queria ser engenheiro, o que estava nos planos do seu avô. Ele me mandou para uma universidade de segunda categoria, com uma anuidade barata, e investiu o que tinha para seu pai estudar numa instituição renomada. Os estudos dele foram de alto nível. Seu avô o nomeou diretor da empresa. Eu, que era o mais velho, não passava de um subordinado. Tudo o que consegui fazer depois foi tentar impressionar seus avós para esquecer que sempre fui considerado inferior em comparação ao seu pai.

— Mas o que aconteceu? — perguntei.

Ele deu de ombros, pegou um pano de chão e um detergente e foi limpar os vidros da cozinha.

* * *

Como tio Saul não parecia muito inclinado a conversar, decidi abordar o assunto com a minha avó. Sua versão era ligeiramente diferente da que o meu tio contara.

— Seu avô queria que Saul e seu pai dirigissem a empresa juntos — explicou ela. — Ele achava que seu pai saberia enfrentar os desafios técnicos, enquanto seu tio tinha uma alma de líder. Mas isso foi antes da briga entre seu avô e Saul.

— Tio Saul me disse que queria estudar medicina, mas vovô se opôs.

— Seu avô achava que medicina era perda de tempo e dinheiro.

Minha avó sugeriu que fôssemos para a varanda, para que ela pudesse fumar. Nós nos sentamos em cadeiras de plástico e observei seus dedos tortos brincarem com o cigarro, depois levá-lo à boca, acendê-lo e tragá-lo lentamente, antes de continuar:

— Você entende, Markie, a Goldman & Cia. era o xodó do seu avô. Ele havia batalhado muito para chegar aonde estava e tinha ideias precisas sobre a estratégia a ser adotada. Era um homem com uma cabeça bem aberta, mas, às vezes, inflexível sobre certos assuntos.

No fim dos anos 1960, quando tio Saul quis estudar medicina, ele ficara chocado com a incompreensão do pai. “Todos esses anos de estudo para fazer o quê? Sua função na empresa é levá-la a novos desafios. Você precisa aprender estratégia, comércio, contabilidade. Esse tipo de coisa. Mas medicina, ah, que ideia extravagante!” Tio Saul não teve escolha senão obedecer, então começou a cursar administração numa pequena universidade em Maryland. Tudo mudou quando ele descobriu que seus pais estavam mandando o irmão estudar na Universidade Stanford. Considerou isso a preferência de um irmão sobre o outro e ficou profundamente magoado. Durante as reuniões de família, claro que as pessoas ficavam muito mais impressionadas com meu pai, orgulhoso aluno de uma universidade prestigiosa, do que com meu tio e seus estudos de segunda categoria. Tio Saul quis mostrar do que era capaz. Estabelecera uma excelente relação com um de seus professores, que o ajudou a preparar um plano de expansão para a Goldman & Cia. Certo dia, Saul chegou em casa com uma pasta imponente, que pretendia apresentar detalhadamente ao pai.

— Tenho ideias para que a empresa cresça ainda mais — explicou tio Saul ao meu avô, que lhe lançou um olhar desconfiado.

— Por que crescer e não torná-la duradoura? Vocês são dessa geração que não passou pela guerra e acha que tudo está ganho.

— O professor Hendricks disse que…

— Quem é professor Hendricks?

— Meu professor de administração na faculdade. Ele disse que devemos ver a empresa apenas de duas maneiras: quero devorar ou ser devorado?

— Pois bem, seu professor está errado. É querendo crescer a todo custo que se afunda.

— Mas ao ser muito prudente, não se cresce, e a empresa acaba sendo esmagada por outra mais forte.

— Seu professor já abriu alguma empresa? — perguntou meu avô.

— Não que eu saiba — respondeu tio Saul, baixando a cabeça.

— Pois eu, sim! E minha empresa vai muito bem. Seu professor é especialista em equipamentos médicos?

— Não, mas…

— Esses professores universitários estão sempre teorizando. Quer dizer que um professor que nunca abriu uma empresa e não entende nada de material médico quer me ensinar a gerenciar a Goldman & Cia.?

— Não, de forma alguma — retrucou tio Saul. — Só tivemos algumas ideias.

— Ideias? Que tipo de ideias?

— Para vender nossos aparelhos fora da região de Nova Jersey.

— Mas já podemos entregar em qualquer lugar.

— E temos clientes?

— Não efetivamente. Mas faz tempo que cogitamos a possibilidade de abrir uma sede na Costa Oeste.

— Justamente, você diz isso desde que éramos crianças, mas não avançou nada.

— Roma não foi construída em um dia, Saul!

— O professor Hendricks acha que o único jeito de expandir é abrir sedes em outros estados. Assim sempre haverá uma sede e um depósito de material em condições de formar relações de confiança com os clientes e atender rapidamente às necessidades deles.

Meu avô torceu o nariz.

— E com que dinheiro fundamos essas sedes?

— É preciso abrir o capital aos investidores. Poderíamos ter um escritório em Nova York com alguém que…

— Ah, um escritório em Nova York? O que está havendo? Secaucus, em Nova Jersey, não é suficientemente chique para você?

— Não é isso, mas…

— Chega, Saul! Não quero ouvir mais uma palavra sobre essas imbecilidades! Afinal de contas, sou ou não o presidente da minha empresa?

Passaram-se dois anos em que tio Saul não falou mais com o pai sobre suas ideias de expansão para a Goldman & Cia. Mas comentou sobre direitos civis. O professor Hendricks era um homem de esquerda, militante dos direitos civis. E tio Saul participou de algumas manifestações. No mesmo período, começou a namorar sua filha, Anita Hendricks. Quando voltava a Secaucus, falava em “causas a defender” e “ações a promover”. Começou a viajar pelo país para acompanhar o professor Hendricks e Anita nos protestos. Esse novo engajamento irritou profundamente meu avô. Foi o que desencadeou a briga que os levaria a ficar doze anos sem se falar.

* * *

Foi numa noite de abril de 1973, durante as férias de primavera que tio Saul passou na casa dos pais em Secaucus. Era quase meia-noite e, andando de um lado para outro na sala, meu avô esperava tio Saul. Largava e tornava a pegar um exemplar da Time em cima da mesa.

Minha avó estava no quarto, no andar de cima. Suplicara várias vezes que meu avô fosse se deitar, mas ele não lhe dera ouvidos. Queria explicações do filho. Minha avó acabou dormindo. Até que os gritos dos dois a acordaram. Ela ouviu a voz abafada do meu avô atravessar o assoalho.

— Saul, caramba, Saul! Tem noção do que acabou de fazer?

— Não é o que você está pensando, pai.

— Eu penso o que vejo e estou vendo você metido num monte de idiotices!

— Idiotices? E você, pai, tem consciência do que não está fazendo ao se recusar a protestar?

A origem da fúria do meu avô consistia na foto de capa da Time: uma manifestação realizada em Washington na semana anterior. Nela, viam-se distintamente tio Saul, tia Anita e seu pai na frente, com os punhos erguidos. Meu avô tinha medo de que tudo aquilo acabasse mal.

— Olhe, Saul! Olhe só! — gritou, jogando a revista na cara do filho. — Sabe o que vejo nessa foto? Problemas! Uma montanha de problemas! O que pretende, afinal? Colocar o FBI atrás de você? E a empresa, por acaso pensou nela? Sabe o que FBI vai fazer se achar que você é perigoso? Vai destruir sua vida e a nossa. Vão mandar a Receita Federal afundar a empresa! É isso o que você quer?

— Não acha que está exagerando, pai? Estamos nos manifestando por um mundo mais justo, não vejo mal nisso.

— Suas manifestações não servem para nada, Saul! Ora, abra um pouco os olhos! Isso vai terminar mal, é tudo o que você vai conseguir. Vai acabar sendo morto!

— Morto por quem? Pela polícia? Pelo governo? Viva o estado de direito!

— Saul, desde que você começou a andar com esse professor Hendricks, e principalmente com a filha dele, ficou obcecado com essa história de direitos civis…

— Ela tem um nome e se chama Anita.

— Anita, muito bem. Não quero mais que se encontre com ela.

— Mas, pai, por quê?

— Porque ela é uma péssima influência para você. Depois que começou a sair com ela, você se mete em situações absurdas! Não para de percorrer a Costa para ir a essas passeatas. Vai ser um papelão se perder as provas porque se distraiu preparando panfletos e cartazes em vez de estudar. Preocupe-se com o seu futuro, pelo amor de Deus! Seu futuro é aqui na empresa.

— Meu futuro é com ela.

— Não diga besteira. O pai dela fez uma lavagem cerebral em você! Como explica o fato de ter se tornado de repente o grande defensor dos direitos civis? O que aconteceu?

— O pai dela não tem nada a ver com isso!

Minha avó ouvia o tom de voz se elevar cada vez mais, porém não ousava descer. Achava que uma conversa franca poderia fazer bem aos dois. Mas a discussão só piorou.

— Não entendo por que você não é capaz de confiar em mim, pai. Por que se sente na obrigação de controlar tudo sempre?

— Saul, você está enlouquecendo de vez! Não é capaz de considerar que faço isso simplesmente porque me preocupo com você?

— Se preocupa? Sério? Com o que você se preocupa? Com sua sucessão na fábrica?

— Fico preocupado com você metido até o pescoço nessa história de direitos civis… Pode desaparecer um dia!

— Desaparecer? Mas é justamente isso o que eu vou fazer! Estou cansado de ouvir suas burrices! Você quer comandar tudo! Mandar em tudo!

— Não fale nesse tom comigo, Saul!

— De qualquer jeito, você só se interessa por Nathan. Só tem consideração por ele.

— Pelo menos Nathan não tem essas ideias malucas que vão nos afundar!

— Malucas? Só quero trabalhar pelo bem da empresa, mas você nunca quer me escutar! Vai ser sempre só um vendedor de aspiradores de pó!

— O que foi que você disse? — gritou meu avô.

— Você ouviu muito bem! Não quero ter mais nada a ver com a sua empresa ridícula! Fico melhor longe de você! Fui!

— Saul, você passou dos limites! Preste atenção: se passar por essa porta, não vale mais a pena voltar!

— Não se preocupe, vou dar o fora e nunca mais colocarei os pés nessa merda de Nova Jersey!

Minha avó se apressou para fora do quarto e voou escada abaixo, mas já era tarde demais: tio Saul batera a porta da casa e já entrara no carro. Ela saiu descalça, suplicou que o filho não fosse embora, mas ele arrancou. Correu atrás do carro por alguns metros, depois entendeu que ele não pararia. Havia definitivamente ido embora.

Tio Saul cumpriu sua promessa. Enquanto meu avô esteve vivo, ele não voltou mais a Nova Jersey. Só colocou de novo os pés lá na ocasião de sua morte, em maio de 2001. Minha avó, entre uma tragada e outra de cigarro, tendo atrás de si nuvens de gaivotas sobrevoando o mar, me contou que no dia em que ela ligou para o tio Saul e o avisou sobre a morte do vovô, ele não teve a reação de ir para a Flórida, mas de correr para a Nova Jersey familiar, da qual se autoexilara durante todos aqueles anos.