O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 52 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 49

 

O sucesso retumbante do meu livro, que foi publicado em 2006, me devolveu meus dois primos. Estavam em toda parte: nas livrarias, nas mãos dos leitores, nos ônibus, metrôs, aviões. Eles me acompanharam fielmente pelo país durante toda a turnê que sucedeu o lançamento do romance.

Embora eu não tivesse mais contato com Alexandra, eu a vira inúmeras vezes sem que ela soubesse. A carreira recebera um impulso espetacular. Em 2005, seu primeiro CD continuara subindo de posição, alcançando em dezembro um milhão e meio de cópias vendidas, e seu hit terminara no topo das paradas musicais americanas. Ela se tornara uma celebridade. O ano da publicação do meu livro foi o do lançamento do segundo CD de Alexandra. Era o triunfo absoluto dela. O público e a crítica estavam conquistados.

Eu nunca deixara de amá-la. Nunca deixara de admirá-la. Costumava assistir a seus shows. Encolhido na penumbra da plateia, anônimo entre milhares de outros espectadores, meus lábios se moviam com os dela para entoar as letras de músicas que eu sabia de cor, a maioria composta no nosso pequeno apartamento de Nashville. Eu não sabia se ela ainda morava lá. Com certeza não. Devia ter se mudado para o subúrbio abastado de Nashville, pois na época admirávamos juntos as casas de lá e nos perguntávamos em qual moraríamos um dia.

Se eu estava arrependido? Certamente. E não era pouco. Quando ela estava no palco, eu fechava os olhos para não ouvir nada além do som da sua voz, e, na minha cabeça, voltava anos antes. Estávamos no campus da Universidade de Madison e ela me puxava pela mão. Eu perguntava:

— Tem certeza de que ninguém vai nos ver?

— Claro que não! Venha, estou falando!

— E Woody e Hillel?

— Estão em Nova York, na casa do meu pai. Não se preocupe.

Ela abria a porta do seu quarto e me empurrava para dentro. O pôster estava lá, na parede. Como em Nova York. Louvado seja Tupac, nosso eterno alcoviteiro. Eu a jogava na cama e ela caía na gargalhada. Nós nos embolávamos e, agarrando meu rosto com as mãos, ela murmurava:

— Eu te amo, Markikette Goldman.

— Eu te amo, Alexandra Neville.

* * *

Naquele ano de 2006, tio Saul tinha acabado de se mudar para a casa de Coconut Grove, comprada graças à venda do apartamento de Buenavista, e eu passara a ir com frequência a Miami.

Tio Saul vivia com bastante conforto com o dinheiro da venda da casa nos Hamptons, que ele convertera em ações altamente lucrativas. Para se ocupar, participava de diversos clubes de leitura, assistia a todas as conferências em uma livraria próxima e cuidava de suas mangueiras e abacateiros.

Mas isso não ia durar muito tempo. Assim como para várias pessoas, a tranquilidade financeira do meu tio chegou ao fim em outubro de 2008, quando a economia mundial foi abalada pelo que ficou conhecido como Crise dos Subprimes. Os mercados despencaram. Os bancos de investimento e os fundos especulativos desmoronaram um atrás do outro, perdendo o dinheiro de todos os clientes. De um dia para outro, pessoas até então ricas passaram a não ter mais nada. Foi o caso do meu

tio Saul. Em 1o de outubro de 2008, sua carteira de ações estava avaliada em seis milhões de dólares, o valor da venda de sua casa nos Hamptons. No fim do mesmo mês, não valia mais de sessenta mil.

Fiquei sabendo disso ao lhe fazer uma visita no início de novembro, durante o feriado do Dia de Ação de Graças, que nem ele nem eu comemorávamos mais. Ele ficara sem opção. Vendera seu carro e pegara um velho Honda Civic em fim de carreira. Contava cada um de seus dólares. Quis até vender a casa de Coconut Grove, porém não valia mais nada.

— Paguei setecentos mil dólares — disse ele ao corretor que viera avaliar a casa.

— Um mês atrás o senhor teria vendido com lucro — respondera o homem. — Mas hoje acabou. O mercado imobiliário virou pó.

Ofereci ajuda a tio Saul. Eu sabia que minha avó e meus pais haviam feito a mesma coisa. Mas ele não tinha a intenção nem de ficar se lamentando nem de ser derrotado pela vida. E me dei conta de que era por essa razão que eu o admirava: não por sua situação financeira ou social, mas por ser um excelente batalhador. Ele precisava ganhar a vida e procurou um emprego qualquer.

Arranjou um trabalho de garçom num restaurante da moda em South Beach. Era um trabalho pesado e fisicamente difícil para ele, mas estava disposto a superar tudo. Com exceção das humilhações que sofria por causa de seu chefe, que gritava o tempo todo com ele: “Você é lento demais, Saul!”, “Ande logo, os clientes estão esperando!” Certa vez, com pressa, ele quebrou um prato e teve o salário descontado. Uma noite, esgotaram sua paciência e ele pediu demissão na mesma hora, jogou o avental no chão e saiu do restaurante. Vagou pela passarela de pedestres do Lincoln Road Mall e acabou se sentando num banco, aos prantos. Ninguém lhe deu atenção, apenas um rapaz negro grandalhão que passava cantarolando e se comoveu com sua tristeza. “Meu nome é Sycomorus”, disse o homem. “As coisas não parecem muito boas para o senhor…” Sycomorus, que trabalhava no Whole Foods de Coral Gables, falou com Faith sobre tio Saul e ela lhe arranjou um emprego como caixa do supermercado.