O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 27 de 56

Páginas do PDF

O Livro dos Baltimore

Capítulo 24

 

Nesse dia de maio de 2000, fui obrigado a me explicar para Woody e lhe contar tudo.

Ele foi o único que ficou sabendo do relacionamento maravilhoso que eu tinha com Alexandra.

Nós dois reatamos pouco depois das nossas últimas férias nos Hamptons, no outono. Eu tinha voltado para Montclair um pouco decepcionado com nosso reencontro, percebendo que eu ainda a amava. E algumas semanas mais tarde, na saída do colégio, eu a vi no estacionamento, sentada no capô do seu carro esportivo. Não consegui esconder minha animação.

— O que você está fazendo aqui, Alexandra?

Ela fez uma expressão mal-humorada.

— Fiquei com vontade de ver você…

— Eu achava que você não saía com adolescentes.

— Entre no carro, seu bobo.

— E aonde vamos?

— Ainda não sei.

Aonde fomos? Seguimos a estrada da vida. Depois desse dia, em que me sentei no banco do carona do seu carro, não nos largamos e nos apaixonamos ainda mais. Ligávamos o tempo todo um para o outro, trocávamos cartas, ela me mandava presentes. Ela ia a Montclair nos fins de semana, e, às vezes, eu a encontrava em Nova York ou em Madison, pegando emprestado o velho carro da minha mãe, com o som do rádio nas alturas. Tínhamos a bênção de meus pais e de Patrick Neville, que prometeram não contar a ninguém. Achávamos melhor que meus primos não soubessem nada do que acontecia entre nós. Foi assim que quebrei o juramento da Gangue dos Goldman de nunca conquistar Alexandra.

No ano seguinte, quando entrei na faculdade de letras da Universidade de Burrows, apenas uma hora de estrada nos separava. Meu colega de quarto, Jared, deixava o quarto livre nos fins de semana em que ela vinha me visitar. E agi de uma forma que nunca tinha agido com meus primos: menti para eles. Eu mentia para encontrar Alexandra. Dizia que estava em Boston, ou em Montclair, mas estava em Nova York com ela. E quando eles iam a Nova York, para a casa de Patrick Neville, eu estava enroscado nos lençóis dela em Madison.

Isso não me impedia de sentir ciúme, sabendo que eles estavam todos juntos na universidade, e eu invejava a cumplicidade especial que ela tinha com Hillel e Woody. Certo dia, ela acabou me dizendo: “Você está com ciúme dos seus primos, Marcus? Então enlouqueceu completamente! Na verdade, vocês três são completamente loucos.” Ela estava certa. Eu, que não era possessivo, eu, que não temia os rivais, me sentia ameaçado pelos membros da Gangue dos Goldman. Depois, ela fez um comentário odioso, que para mim foi como uma punhalada no coração: “Você ganhou, Markie. Você ganhou, eu sou sua. O que mais você quer? Não vai fazer um escândalo quando saio para comer um hambúrguer com seus primos, vai?”

Fui eu que a recoloquei no caminho da música. Fui eu que a incentivei a correr atrás do seu sonho. Fui eu que a fiz voltar a se apresentar nos bares de Nova York, que a estimulei a continuar a compor em seu quarto no campus de Madison. Após se formar, ela estava decidida a tomar seu destino nas mãos e se preparava para assinar com um produtor nova-iorquino, lançando sua carreira.

* * *

Depois que confessei tudo, Woody me prometeu que não contaria nada a Hillel.

Ele não me julgou. Disse simplesmente: “Que sorte você teve de conquistá-la, Markie”, e me deu um tapinha caloroso no ombro.

No começo do nosso terceiro ano na universidade, no outono de 2000, ele passou a se dedicar ao futebol e a Colleen, de quem se aproximou bastante. Estávamos com vinte anos.

Acho que ele sofria muito por causa de Alexandra. Mas nunca comentou nada com Hillel e curou suas mágoas com o esporte. Treinava o tempo todo. Com frequência, corria duas vezes por dia, como fazia na época da escola especial. Tornou-se o astro do Titans. O time acumulava vitórias e suas performances só melhoravam. Foi capa da edição de outono da revista da universidade.

Passava no posto todos os dias para visitar Colleen. Acho que precisava de alguém para ampará-lo. Quando lhe mostrou a revista da universidade, ela disse que estava orgulhosa dele. Mas dois dias depois ele notou marcas em seu pescoço. E sentiu seu sangue ferver.

— O que aconteceu? — perguntou.

— Vá embora, Woody.

— Colleen, foi Luke quem fez isso? Seu marido bate em você?

Ela suplicou que Woody fosse embora e ele obedeceu. Nos três dias seguintes, quando ele apareceu no posto, ela fez um sinal discreto para que fosse embora. No quarto dia, ela estava esperando por ele do lado de fora. Woody saiu do carro e se aproximou. Ela não disse uma palavra sequer, apenas agarrou sua mão e o levou para a despensa. Lá se jogou em cima dele e o abraçou até sufocá-lo. Em seguida, procurou seus lábios e o beijou.

— Colleen… Você precisa me dizer o que está acontecendo — murmurou Woody.

— Luke… Ele encontrou a revista da universidade numa gaveta do balcão. E isso o deixou louco.

— Ele bateu em você?

— Não foi a primeira vez.

— Filho da puta… Onde ele está?

Ela percebeu que Woody estava disposto a acabar com ele.

— Ele foi para o Maine hoje de manhã. Só vai voltar amanhã à noite. Mas não faça nada, Woody. Estou implorando. Isso só vai piorar a situação.

— Então devo ficar de braços cruzados enquanto você é espancada?

— Vamos encontrar uma solução…

— E enquanto isso?

— Enquanto isso me ame — murmurou ela. — Me ame como nunca fui amada.

Ele a beijou de novo e fizeram amor dentro da despensa. E se sentiu bem com ela.

* * *

Eles aprofundaram a relação durante as ausências de Luke. Metade da semana, quando ele estava em Madison, ela era de Woody. Desde que Luke encontrara a revista, passara a desconfiar. Vigiava-a incessantemente e a controlava ainda mais. Woody não podia se aproximar. Espreitava-a de longe tanto no posto quanto na casa dela.

Quando Luke saía com o caminhão, Colleen estava livre. Ao encerrar seu expediente no posto, ela saía pelos fundos do quintal, encontrava Woody em uma rua paralela e os dois iam embora juntos. Ele a levava para o campus, onde ela não encontraria ninguém conhecido. Lá se sentia protegida.

Certa noite, na cama do quarto que Hillel tinha liberado para eles, enquanto a acariciava após fazerem amor, ele observou as marcas em suas costas.

— Por que não registra queixa? Ele vai acabar matando você.

— O pai dele é o chefe da polícia de Madison e o irmão é o delegado — justificou Colleen. — Não há o que fazer.

— Imagino que Luke seja burro demais para se tornar policial…

— Bem que ele queria. Mas tem a ficha suja por atitudes violentas.

— Por que não processamos ele fora daqui? — sugeriu Woody.

— Porque é a jurisdição de Madison. E, de toda forma, não quero.

— Não sei se consigo ver você sendo maltratada.

— Termine seus estudos, Woody. Depois me leve para bem longe com você.

* * *

Mas eles não puderam continuar assim por muito tempo. Luke, desconfiado, começou a controlar a presença da esposa em casa. Colleen era obrigada a telefonar para ele quando saía do posto, e depois a ligar novamente de casa. Em seguida, ele retornava a ligação, de surpresa, para se certificar de que ela estava lá. Ela fazia de tudo para atender os telefonemas. Pagou caro na noite em que foi à casa da vizinha ajudar a conter um vazamento na cozinha.

Quando Luke viajava e Woody podia encontrar Colleen, ele tinha a impressão de que um tornado se afastava. Mas esses momentos estavam cada vez mais raros.

O irmão começou a passar de vez em quando no posto para verificar quem aparecia por lá. Em seguida, decidiu buscar Colleen para escoltá-la até em casa no fim do expediente. “Só quero ter certeza de que vai chegar sã e salva em casa”, dizia ele. “Hoje em dia nunca se sabe quem anda pelas ruas.”

A situação foi se agravando. Woody observava Colleen a distância. Aproximar-se dela se tornara perigoso. Hillel o acompanhava com frequência. Os dois ficavam de tocaia dentro do carro. Espionavam tanto o posto quanto a casa dela. Às vezes, enquanto Hillel ficava vigiando, Woody se arriscava a entrar e encontrava Colleen rapidamente.

Certa noite, quando o carro deles se aproximou da casa, foram perseguidos por uma viatura policial. Woody parou no acostamento, e o pai de Luke desceu do veículo. Aproximou-se, pediu a identidade dos ocupantes, depois disse a Woody:

— Preste bem atenção, mocinho. Jogue seu futebol americano e cuide da sua vida. Mas não faça merda. Entendeu?

— Como sabe que jogo futebol? — perguntou Woody.

O pai deu um sorriso hipócrita.

— Gosto de saber com quem estou lidando.

Eles foram embora e voltaram para o campus.

— Precisa abrir o olho, Woody — disse Hillel. — Essa história toda está começando a cheirar mal.

— Eu sei. Mas o que quer que eu faça? Que eu me livre do marido dela de uma vez por todas?

Hillel balançou a cabeça, impotente.

— Não quero que aconteça nada com você, Woody. E devo confessar que estou começando a ficar com um pouco de medo.

* * *

Aquele ano foi a primeira vez que não encontrei meus primos no feriado de Ação de Graças. Na antevéspera, eles me avisaram que tinham sido convidados por Patrick Neville para uma festa à qual os jogadores do Giants deviam comparecer. Decidi ir a Baltimore mesmo assim. Como fizera durante toda a minha infância, cheguei lá na véspera do feriado, de trem. Mas para minha imensa decepção, não havia ninguém me esperando na plataforma da estação. Peguei um táxi até Oak Park. Ao chegar à casa dos Baltimore, vi tia Anita saindo.

— Meu Deus, Markie! — disse ela ao me ver. — Eu tinha esquecido completamente que você chegava hoje à noite.

— Não tem problema. Estou aqui.

— Você sabe que seus primos não estão…

— Sei.

— Sinto muito mesmo, Markie. Estou de plantão no hospital. Preciso ir para lá. Seu tio vai ficar feliz em ver você. Tem comida pronta na geladeira.

Minha tia me abraçou. Nesse momento, senti que alguma coisa havia mudado. Ela parecia cansada, triste. Eu não via mais nela aquele brilho que tantas vezes acelerara meu coração de criança e adolescente.

Entrei na casa. Encontrei tio Saul em frente à televisão. Assim como tia Anita, ele me recebeu com um misto de alegria e tristeza. Subi para deixar minhas coisas em um quarto de hóspedes e me perguntei para que serviam todos aqueles quartos, se estavam sempre vazios. Percorri os longos corredores e entrei nos banheiros espaçosos. Passei sucessivamente pelas três salas, todas apagadas. Nem fogo na lareira, nem televisão ligada, nem livro, nem jornal aberto por um leitor impaciente para retomá-lo. Ao descer, vi tio Saul preparando nosso jantar. Pusera talheres para dois no balcão. Houve um tempo, não tão distante assim, em que, sentados diante daquele mesmo balcão, ele, Hillel, Woody e eu, bufando ruidosamente de impaciência, estendíamos nossos pratos a tia Anita do outro lado que, radiante e sorrindo para sua pequena tropa, cozinhava diretamente numa grande panela de teflon enormes quantidades de panquecas, ovos e bacon de peru.

Jantamos praticamente sem falar nada. Ele não estava com muito apetite. O único assunto que abordou foi o Baltimore Ravens.

— Não quer assistir a um jogo algum dia desses? Tenho ingressos, mas ninguém está interessado. Eles estão fazendo uma temporada impecável, sabe. Já falei que conheço algumas pessoas da diretoria do Ravens?

— Já falou, sim, tio Saul.

— Então você tem que assistir a um jogo alguma vez. Fale com seus primos. Ganho ingressos e tenho acesso aos camarotes e tudo o mais.

Depois do jantar, fui dar uma volta no bairro. Como se os conhecesse, cumprimentei com simpatia os vizinhos que passeavam com seu cão. Ao passar por um segurança em sua viatura, fiz o sinal secreto, ao qual ele respondeu. Mas o gesto foi vão: a época abençoada da nossa infância se perdera para sempre e era impossível recuperá-la: os Goldman-de-Baltimore já pertenciam ao passado.

* * *

Nessa noite em que eu estava em Baltimore e meus primos, em Nova York, Colleen chegou tarde em casa. Saiu do carro e correu até a porta. Girou a maçaneta, mas estava trancada. Ele já tinha ido embora. Ela consultou seu relógio de pulso: eram sete e vinte e dois. Sentiu vontade de chorar. Abriu a porta com sua chave e entrou na escuridão. Sabia que, quando ele voltasse, a espancaria.

Ela não podia chegar atrasada do posto de combustível. Sabia disso, Luke lhe dissera. Fechava às sete, e às sete e quinze tinha que estar de volta. Quando isso não acontecia, ele saía. Ia a um bar de que gostava e, quando retornava para casa, dava um corretivo nela.

Naquela noite, ela o esperou até as onze horas. Teve vontade de ligar para Woody, mas não queria envolvê-lo. Sabia que aquilo terminaria mal. Nesses momentos, sonhava em fugir. Mas para onde?

Ele entrou em casa e bateu a porta. Ela tremeu. Ele apareceu no vão da porta da sala.

— Desculpe — balbuciou ela imediatamente para aplacar a ira do marido.

— Onde você se enfiou, porra? Hein? Hein? Você termina às sete. Às sete! Por que me deixou mofando feito um panaca? Por acaso acha que sou um imbecil, é isso?

— Desculpe, Luke. Alguns clientes chegam exatamente às sete, na hora de fechar, então me atrasei cinco minutos.

— Você termina às sete, então quero que esteja em casa às sete e quinze! Não é tão complicado assim. Mas você insiste em bancar a esperta.

— Mas, Luke, eu demoro um tempo até fechar tudo…

— Quer parar de choramingar? E vá para o carro.

— Isso não, Luke! — suplicou ela.

Ele apontou um dedo ameaçador em sua direção.

— É melhor obedecer.

Ela saiu e entrou em sua caminhonete. Ele se sentou ao volante e arrancou.

— Desculpe, desculpe, Luke — repetia ela, com um fio de voz. — Não vou me atrasar mais.

Ele não estava mais prestando atenção. Xingava-a de todos os palavrões. Ela chorava. Ele já saíra da cidade de Madison e pegara a rodovia 5, uma reta sem fim. Atravessou a ponte Lebanon e seguiu adiante. Ela suplicava que ele voltasse para casa. Ele riu.

— Ora, não se sente bem comigo?

Então, subitamente, parou no meio do nada.

— Ponto final, todo mundo deve descer — disse ele, num tom que não admitia hesitação.

Ela protestava, em vão:

— Por favor, Luke, isso não.

— Fora! — berrou ele bruscamente.

Quando ele gritava, era sinal de que ela devia obedecer. Saiu do carro e ele partiu no mesmo instante, abandonando-a a doze quilômetros de casa. Era seu castigo: voltar a pé no meio da noite até Madison. Ela se embrenhava pela névoa úmida, e em geral só usava vestidos curtos e malhas justas. Então deixava as trevas absorvê-la.

Na primeira vez, protestara. Quando Luke, gritando até ficar vermelho, lhe ordenara que saísse, ela se rebelara. Dissera que ninguém tratava a própria esposa daquele jeito. Luke saíra do carro.

— Ande, meu anjo, venha cá — dissera ele quase com ternura.

— Para quê?

— Para levar um corretivo. Alguns tapas vão lhe ensinar que, quando dou uma ordem, você deve obedecer.

Ela pedira desculpas imediatamente:

— Sinto muito, eu não queria irritar você… Estou indo, vou fazer tudo como você quer. Desculpe, Luke. Eu não queria deixar você nervoso.

Ela saíra de uma vez do carro e seguira pela estrada, mas não percorrera nem cinco metros quando a voz de Luke a alcançara:

— Será que não entendeu o que eu disse? Não falamos a mesma língua?

— Sim, Luke. Você me falou para dar o fora, então é o que estou fazendo.

— Isso foi antes! Agora as ordens mudaram. O que foi que eu disse, hein?

Aterrorizada, ela começara a chorar.

— Não sei mais, Luke… Desculpe, não entendo mais nada.

— Falei para você vir aqui receber uns tapas. Esqueceu?

Suas pernas bambeavam.

— Desculpe, Luke, aprendi a lição. Prometo não desobedecer mais.

— Venha aqui! — berrara ele, sem se mexer. — Quando digo para você vir até aqui, é para vir até aqui! Por que tem sempre que bancar a esperta, hein?

— Desculpe, Luke, fui uma idiota, não vou repetir isso.

— Venha aqui, porra! Venha aqui ou vou lhe aplicar uma correção em dose dupla. Madison, Connecticut.

— Não, Luke, pelo amor de Deus!

— Venha!

Ela se aproximara, aterrorizada, e se posicionara diante dele.

— Vai receber cinco belas bofetadas, concorda?

— Eu…

— Concorda?

— Sim, Luke.

— Quero que você conte.

Colleen se empertigara diante dele, que erguera a mão. Ela fechara os olhos, chorando copiosamente. Ele lhe desferira uma bofetada que a derrubara no chão. Ela gritara.

— Eu disse: conte!

Ela soluçara, de joelhos no cimento úmido.

— Um… — articulara entre um soluço e outro.

— Muito bem. Vamos, de pé!

Colleen se reerguera. Ele a esbofeteara novamente. Ela se curvara, com as mãos no rosto.

— Dois! — gritara ela.

— Muito bem, vamos, volte para a posição.

Ela obedecera, ele segurara sua cabeça bem reta e a estapeara outra vez com toda a força.

— Três!

Ela caíra para trás.

— Vamos, vamos, não fique aí parada, de pé! E não ouvi você contar.

— Quatro — dissera ela, chorando.

— Está vendo? Estamos terminando. Vamos, venha até aqui e fique bem reta.

Ao terminar de espancá-la, ordenou que ela sumisse da sua frente e ela fugiu imediatamente. Caminhara durante mais de uma hora quando chegou à ponte Lebanon. Não era nem metade do caminho até Madison. Tirara os sapatos, que a machucavam e retardavam, e avançara descalça pelo asfalto frio que arrebentava seus pés. De repente, faróis iluminaram a estrada. Um carro se aproximou. O motorista só a viu no último instante e quase a atropelou. Ele parou também. Ela já tinha visto aquele rapaz no posto. Isso foi na noite em que esbarrou com Woody.

Desde então, quando ela chegava atrasada do trabalho, Luke a deixava na estrada deserta e a obrigava a voltar a pé. Naquela noite, quando ela finalmente chegou em casa, Luke tinha trancado a porta por dentro. Ela se deitou no sofazinho que ficava na varanda e dormiu ali, tremendo de frio.

* * *

Woody estava cada vez mais apreensivo. Hillel abriu o jogo comigo. Era o começo de 2001.

— Não sei o que ele viu nessa garota. Mas faz seis meses que só pensa em salvá-la. Estou achando que ele está diferente. Você sabe de alguma coisa?

— Não.

Menti. Eu sabia que, com Colleen, Woody se esforçava para esquecer Alexandra. Queria salvar a si mesmo ao salvá-la. Também compreendi que, ao acompanhá-lo em suas vigias noturnas da casa de Colleen, Hillel não lhe fazia companhia: ele protegia Woody, queria impedi-lo de fazer alguma besteira.

Mas não conseguiu impedir o confronto entre Luke e Woody, em fevereiro, num bar de Madison.

Fevereiro de 2001.

Woody dirigia pela rua principal de Madison quando notou a caminhonete de Luke parada em frente a um bar. Freou imediatamente e estacionou ao lado. Fazia dez dias que Luke não saía para fazer suas entregas. Dez dias que Woody não via Colleen. Dez dias que ele fora obrigado a observá-la de longe. Certa noite, poucos dias antes, ouvira gritos na casa deles, mas Hillel o impedira de sair do carro e intervir. Estava na hora de dar um basta naquilo.

Ele entrou no bar e deparou com Luke no balcão. Foi direto até ele.

— Olhe só, o nosso jogador de futebol americano! — exclamou Luke, que já estava um pouco bêbado.

— Você deveria tomar cuidado, Luke — disse Woody.

O sujeito tinha uns dez anos a mais que Woody. Era mais forte, mais largo, tinha o rosto raivoso, as mãos calejadas.

— Algum problema, jogador? — perguntou Luke, se levantando.

— Tenho um problema com você. Quero que deixe Colleen em paz.

— Ah, é? Quer me dizer como devo tratar minha mulher?

— Exatamente. Pare de tratá-la. Ela não te ama.

— O que você disse, seu babaca? Dou dois segundos para você cair fora.

— Se tocar nela de novo…

— E daí?

— Mato você.

— Seu babaca! — vociferou Luke, agarrando Woody. — Você não passa de um babaca!

Woody se defendeu e o empurrou, antes de lhe desferir um direto no meio do rosto. Luke reagiu, e os clientes do bar correram até eles para separá-los. Houve um momento de confusão e, logo em seguida, ouviram-se sirenes. O pai e o irmão de Luke irromperam no bar para restabelecer a calma. Prenderam Woody e o forçaram a entrar na viatura policial. Saíram da cidade e o levaram para uma pedreira deserta, onde o espancaram a golpes de cassetete, até ele perder a consciência.

Voltou a si algumas horas depois, com o rosto inchado e um ombro fora do lugar. Arrastou-se até a estrada e esperou um carro passar.

Um motorista parou e o levou para o hospital de Madison. Hillel foi buscá-lo. Os ferimentos eram superficiais, mas ele teria que cuidar do ombro.

— O que aconteceu, Woody? Procurei você a noite inteira.

— Nada.

— Dessa vez você teve sorte, Woody. Se tivesse sido um pouco pior, nunca mais poderia jogar futebol. É isso que você quer? Mandar sua carreira para o espaço?

Colleen também pagou caro pela intromissão de Woody.

Quando ele a reencontrou, uma semana mais tarde no posto, notou seu olho roxo e seu lábio inchado.

— O que você fez, Woody?

— Eu queria proteger você.

— É melhor pararmos de nos ver.

— Mas, Colleen…

— Eu tinha pedido para você ficar longe disso.

— Eu queria proteger você.

— Não podemos mais nos ver. É melhor assim. Vá embora, por favor!

Ele obedeceu.

* * *

As férias da primavera começaram algumas semanas mais tarde. Hillel e eu aproveitamos para afastar Woody de Madison e levá-lo para passar dez dias em Buenavista, para que ele se distraísse um pouco.

Essa viagem à Flórida coincidiu com uma grave e súbita piora no estado de saúde do nosso avô Goldman. Ele pegara uma pneumonia, que o deixara muito debilitado. Quando fomos embora da Flórida, ainda estava hospitalizado. Tia Anita dizia que ele não resistiria muito tempo. Ele conseguira sair do hospital e voltar para casa, mas não saía mais da cama. Íamos visitá-lo cedinho todas as manhãs: após a noite de descanso, ele ficava loquaz. Já não tinha mais forças, mas conservava todo o seu entusiasmo. Certo dia, enquanto conversávamos, Woody lhe perguntou:

— Sabe, vovô, para falar a verdade nem sei qual era sua profissão.

O avô deu um sorriso radiante.

— Eu era o presidente da Goldman & Cia.

— O que era isso?

— Uma pequena empresa que fabricava material médico, fundada por mim. Foi a aventura da minha vida: imagine só, a Goldman & Cia. existiu por mais de quarenta anos. Eu gostava de ir ao escritório: ficávamos instalados num belo prédio de tijolos vermelhos que dava para ver da rua, e na fachada estava escrito em enormes letras maiúsculas: GOLDMAN. Eu tinha muito orgulho.

— Mas onde era a sede? Em Baltimore?

— Não, no estado de Nova York. Nós morávamos a poucos quilômetros dali, em Secaucus, Nova Jersey.

— O que aconteceu com a Goldman & Cia.? — perguntou Woody.

— Nós a vendemos. Vocês já eram nascidos, mas não devem lembrar. Foi em meados dos anos 1980.

O velho despertara a curiosidade de Woody, que perguntou se existiam fotos da época da Goldman & Cia. Minha avó foi buscar uma caixa de sapatos em que havia as mais diversas fotos amontoadas. A maioria havia sido tirada nos últimos anos: não conhecíamos vários rostos — amigos da Flórida — e tinham alguns retratos do vovô e da vovó juntos. Até que finalmente encontramos uma foto do vovô em frente ao famoso prédio da Goldman & Cia., que contemplamos por bastante tempo. Achamos também algumas fotos de Hillel, Woody e eu adolescentes durante uma estada na Flórida.

— A Gangue dos Goldman — disse subitamente nosso avô, balançando a fotografia e nos fazendo rir.

* * *

Presto aqui homenagem à memória do nosso avô Max Goldman. Ele morreu seis semanas mais tarde. Desses últimos momentos com ele, guardo a lembrança de sua vivacidade e de seu senso de humor, mesmo às portas da última morada.

Não me esqueço da ternura de seu riso. Nem de sua exigência. Nem de seu andar e de sua eterna elegância. Não há cerimônia, entrega de prêmio, encontro importante, que, na hora de dar o nó na gravata, não me faça pensar nele, sempre impecavelmente vestido.

Vá em paz, meu avô tão amado. Saiba que faz falta aqui neste mundo. Fico feliz em acreditar que você me olha lá de cima e acompanha meu percurso com um misto de diversão e emoção. A esta altura já sabe que minha digestão é excelente e que não sofro da síndrome do cólon irritável. Talvez eu deva isso aos quilos de cereal que você me fez engolir na Flórida, sob seu olhar benevolente. Sou grato por tudo o que você me deu. Descanse em paz.