O Livro dos Baltimore
Terceira parte
O livro dos Goldman
(1960-1989)
29.
Passei todo o mês de abril colocando a casa do meu tio em ordem. No início, eu apenas organizara alguns documentos ao acaso, depois comecei uma arrumação mais meticulosa.
Todas as manhãs, eu deixava meu paraíso de Boca Raton para atravessar a selva de Miami até chegar às ruas tranquilas de Coconut Grove. Toda vez que eu parava em frente à casa, tinha a impressão de que ele estava ali, que me esperava na varanda como fizera durante tanto tempo. Mas logo eu deparava com a realidade da porta trancada, que era preciso abrir, e da casa, que, apesar da presença regular de uma faxineira, cheirava a mofo.
Comecei pelo mais fácil: suas roupas, toalhas de banho e utensílios de cozinha, que coloquei em caixas de papelão e doei para instituições de caridade.
Depois parti para os móveis, o que foi mais complicado: poltronas, vasos, cômodas, me dei conta de que tudo me evocava alguma coisa dele. Meu tio não guardara nenhuma lembrança de Oak Park, mas eu recriara as minhas recordações daqueles cinco anos em que passei tanto tempo com ele naquela casa.
Por fim, peguei as fotos e os objetos pessoais. Dentro dos armários encontrei caixas cheias de retratos da família. Mergulhei naquelas fotos como se mergulhasse na piscina do tempo, reencontrando com certa felicidade os Goldman-de-Baltimore que não existiam mais. Porém, quanto mais os contemplava, mais perguntas eu tinha.
* * *
De tempos em tempos, eu fazia uma pausa e ligava para Alexandra. Era raro ela atender. Quando o fazia, ficávamos em silêncio. Mas assim que ela atendia, eu lhe dizia simplesmente:
— Oi, Alexandra.
— Oi, Markie.
Depois mais nada. Eu achava que tínhamos tanto a dizer um para o outro que nem sequer sabíamos por onde começar. Durante sete longos anos, havíamos nos falado todos os dias, sem exceção. Quantas noites passamos ao telefone! Quantas vezes, quando eu a levava para jantar fora, tínhamos sido os últimos à mesa, sempre conversando, enquanto os garçons varriam o salão e se preparavam para fechar as portas! Após tanto tempo de saudade mútua, por onde devíamos começar a contar nossas histórias? Pelo silêncio. Um silêncio poderoso, quase mágico. Um silêncio que aplacara as feridas da morte de Scott. Em Coconut Grove, eu me sentava na varanda, ou sob o alpendre, e imaginava Alexandra em sua sala em Beverly Hills, diante de imensas sacadas envidraçadas com vista para Los Angeles.
Certo dia, acabei quebrando o gelo.
— Eu queria estar com você — falei.
— Por quê?
— Porque amo muito seu cachorro.
Ouvi sua gargalhada.
— Imbecil.
Sei que ela sorria quando dizia essa palavra. Como fizera durante tanto tempo sempre que eu bancava o idiota com ela.
— Como está o Duke? — perguntei.
— Está bem.
— Sinto saudade.
— Ele também sente de você.
— Talvez eu pudesse revê-lo.
— Talvez, Markie.
Pensei que, enquanto ela dissesse Markie, havia esperança. Depois eu a ouvi fungar. Ela não disse mais nada. Entendi que estava chorando. Eu me odiei por fazê-la sofrer tanto, mas não podia desistir dela.
Subitamente, ouvi um chiado no aparelho, uma porta se abrindo. Depois uma voz masculina: Kevin. Ela desligou no mesmo instante.
* * *
A primeira vez que tivemos uma conversa de verdade foi cerca de uma semana mais tarde, após eu ter encontrado, na casa de tio Saul, o artigo do Madison Daily Star dedicado a Woody com uma foto dele rodeado por Hillel, tio Saul e tia Anita.
Mandei uma mensagem de texto para ela:
Tenho uma pergunta importante para lhe fazer sobre os anos em Madison.
Ela me ligou algumas horas depois. Estava no carro, e desconfiei que tinha saído de casa para conversar com mais tranquilidade.
— Você queria me fazer uma pergunta — disse ela.
— Sim. Queria saber por que me proibiu de ir para Madison, e não fez a mesma coisa com Woody e Hillel?
— É essa a pergunta importante, Marcus?
Eu não gostava quando ela dizia Marcus.
— É.
— Afinal, Marcus, como eu poderia saber que tinha sido por minha causa que eles foram estudar em Madison? É verdade que adorei quando vi os dois chegarem ao campus. Desde o nosso encontro nos Hamptons, eu sentia um carinho muito especial por eles. Havia um sentimento bem forte entre nós três e, quando eu não estava na aula, passava a maior parte do tempo com eles. Só depois descobri a rivalidade dos dois.
— Rivalidade?
— Você sabe muito bem, Markie. Surgiu uma rivalidade entre eles. Era inevitável. Eu me lembro do rigor dos treinos a que Woody se submetia em Madison. Quando ele não estava em aula, estava no campo de futebol. E quando não ia para lá, saía para correr dezoito quilômetros na floresta em volta do campus. Eu me lembro de ter perguntado a ele um dia: “No fundo, Woody, por que você faz tudo isso?” Ele me respondeu: “Para ser o melhor.” Demorei muito tempo para entender o que ele queria dizer com isso: não queria ser o melhor no futebol, queria ser o melhor aos olhos dos seus tios.
— Melhor do que quem?
— Hillel.
Ela me contou histórias sobre a rivalidade dos dois que eu nunca soube. Por exemplo, o dia em que Hillel convidara Alexandra para assistir, com Woody e ele, ao show de uma banda que adorávamos e que estava em turnê pela região. Na noite do show, quando ela foi encontrá-los, só viu Hillel. Ele alegou que Woody tinha ficado preso no treino e os dois acabaram passando a noite juntos. Ao esbarrar em Woody no dia seguinte, ela lhe dissera:
— Que pena você ter perdido o show ontem. Foi o máximo.
— Que show? — perguntou ele.
— Hillel não te chamou?
— Não. Sobre o que você está falando?
Alguns dias depois, no refeitório da faculdade, Hillel se sentara ao lado de Alexandra com sua bandeja e de repente lhe perguntara:
— Fale a verdade, Alex, se você tivesse que escolher um namorado e só restassem Woody e eu, quem escolheria?
— Que pergunta estranha! — respondera ela. — Nenhum dos dois. Não se deve sair com amigos. Isso estraga tudo. Eu preferia terminar solteirona.
— Mas e Woody? Você não gosta dele?
— Claro que gosto de Woody. Por que está me perguntando isso?
— Gosta pouco ou muito?
— Aonde você quer chegar com isso, Hillel?
Depois foi a vez de Woody perguntar, um dia em que ele e Alexandra estavam na biblioteca:
— O que você acha de Hillel?
— Acho ele ótimo. Por quê?
— Sente alguma coisa por ele?
— Ei, por que está perguntando isso?
— Por nada. É que vocês parecem muito próximos.
Era como se eles descobrissem a noção de preferência. Eles que, juntos, haviam sido tão semelhantes e inseparáveis, percebiam que no relacionamento que mantinham com os outros não podiam se apresentar como uma coisa única, pois efetivamente eram dois indivíduos diferentes. Alexandra me contou que eles decidiram experimentar esse princípio de preferência tentando saber de qual dos dois Patrick Neville gostava mais. Quem teria um momento privilegiado com ele? Quando iam jantar juntos, ao lado de quem ele se sentaria? Quem iria impressioná-lo mais?
Segundo Alexandra, Patrick tinha uma preferência por Hillel. O garoto o impressionava por sua inteligência, pela rapidez de suas reflexões. Patrick pedia com frequência a opinião dele sobre os negócios em andamento, economia, política, a crise no Oriente Médio e várias outras coisas. Quando Hillel falava, Patrick escutava. Era evidente que gostava muito de Woody, mas não era o mesmo nível de relação que tinha com Hillel, por quem sentia uma verdadeira admiração.
Por ocasião de um jogo do Titans contra a Universidade de Nova York, Patrick convidou Woody para ir à sua casa no domingo. Passaram a tarde juntos, conversando e bebericando uísque. Woody evitou contar o episódio para Hillel. Alexandra se deu conta disso ao cometer uma gafe durante uma conversa banal.
— Ah, é? Woody estava na sua casa no domingo? — perguntou Hillel.
— Você não sabia?
Hillel ficou profundamente irritado.
— Não estou acreditando que ele me passou a perna assim!
Alexandra logo tentou acalmar os ânimos.
— Será que isso é mesmo tão dramático assim? — questionou ela.
Ele lhe lançou um olhar irônico, como se ela fosse uma grande imbecil.
— É, sim. Como você não pensou em me avisar?
— Mas avisá-lo de quê? — Ela se irritou. — Parece que flagrei sua namorada te traindo e não avisei.
— Eu achava que a gente não escondia nada um do outro — confessou ele, fechando a cara.
— Escute, Hillel, pare de drama, está bem? Não sou responsável pelo que Woody e você dizem ou não. Não é da minha conta. E, além do mais, você também me levou a um show sem convidá-lo.
— Não foi a mesma coisa.
— Ah, não? E por quê?
— Porque…
— Ah, Hillel, me poupe das suas briguinhas com Woody, por favor.
Mas Hillel não deixou isso de lado. Decidiu que, se Woody podia encontrar Patrick às escondidas, ele tinha o direito de fazer o mesmo. Certa tarde, quando Alexandra estava com Woody no refeitório, viram pela sacada envidraçada Patrick e Hillel saírem juntos do prédio da administração. Trocaram um aperto de mão caloroso e Patrick seguiu para o estacionamento.
— Por que meu pai estava aqui hoje? — perguntou Alexandra a Hillel depois que ele se juntou aos dois no refeitório. — Vocês pareciam muito imersos na conversa.
— Pois é, tínhamos marcado de nos encontrar.
— Ah, eu não sabia.
— Você não sabe tudo.
— Um encontro para quê?
— Para falar sobre sexta-feira.
— O que tem sexta-feira?
— Nada. É confidencial.
Naquele dia, Alexandra sentiu muita pena de Woody: seu olhar inocente e triste a deixava de coração partido. Ficou irritada com Hillel, pois odiava sua influência sobre Woody. Ele era o preferido de Patrick, vencera. O que mais queria? Ela. E com exclusividade, mas isso ela ainda não compreendera.
Doze anos mais tarde, ao telefone comigo, Alexandra me contou:
— Esses poucos episódios, pelo menos durante o ano que passei ao lado deles em Madison, não tiveram maiores consequências. O vínculo especial dos dois sempre acabava prevalecendo. Aconteceu algo depois, mas não sei o quê. Acho que teve alguma relação com a morte do seu avô…
— Como assim?
— Hillel descobriu alguma coisa sobre Woody que o deixou terrivelmente magoado. Não sei o que foi. Só lembro que durante o verão, depois da morte do seu avô, vocês foram à Flórida para ajudar sua avó e na volta ele me ligou. Dizia ter sido traído. Nunca quis me explicar sobre o que estava falando.
* * *
Ao voltar a Boca Raton após ter passado o dia esvaziando sem pressa a casa de Coconut Grove das recordações atulhadas que permaneciam ali, eu encontrava Leo, que reclamava de não me ver mais.
Certa noite, ao aparecer com cervejas e seu tabuleiro em minha varanda, ele disse:
— Sua história está cada vez melhor. Você vem para cá supostamente para escrever um livro, mas, com exceção de reencontrar uma ex-namorada, roubar um cachorro e fazer faxina na casa do seu finado tio, não vejo você avançar muito.
— Não se iluda, Leo.
— Quando realmente começar a escrever, me avise. Eu adoraria ver você “trabalhar”.
Ele notou que na mesa à minha frente havia alguns álbuns de fotos. Eu trouxera os velhos álbuns da minha avó, dos quais os Baltimore haviam sido excluídos, e acrescentara alguns retratos que tinha encontrado na casa de tio Saul.
— O que você está fazendo, Marcus? — perguntou Leo, intrigado.
— Estou consertando, Leo. Consertando.