O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 7 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 4

 

Em Boca Raton, naquele mês de março de 2012, quando reencontrei Alexandra, passei a roubar seu cachorro Duke todas as manhãs. Eu o levava para casa, onde ele ficava o dia inteiro ao meu lado, e à noite o devolvia à mansão de Kevin Legendre.

O cachorro se dava tão bem comigo que passou a me esperar em frente à cerca da casa de Kevin. Eu aparecia de manhãzinha e lá estava ele, sentado, espreitando minha chegada. Eu saía do carro e ele corria na minha direção, manifestando sua alegria e lambendo meu rosto enquanto eu me abaixava para acariciá-lo. Eu abria o porta-malas, ele pulava alegremente lá dentro e íamos passar o dia lá em casa. Depois, não se contendo mais, Duke começou a aparecer por iniciativa própria. Todas as manhãs, às seis horas, com uma pontualidade que os humanos jamais terão, ele anunciava sua presença latindo diante da minha porta.

Brincávamos muito juntos. Comprei para ele toda a parafernália dos cães felizes: bolas de borracha, brinquedos de mastigar, comida, tigelas, petiscos, mantas para ele se sentir mais confortável. No fim do dia, levava-o para sua casa e, juntos e com a mesma alegria, reencontrávamos Alexandra.

No começo, os encontros foram breves. Ela me agradecia, pedia desculpas pelo incômodo e me despachava, sem nem sequer me convidar para entrar um instante.

Até que houve um dia em que ela não estava em casa. Foi o fortão maçante do Kevin que me atendeu e recebeu Duke.

— Alex não está — disse ele, em tom amistoso.

Encarreguei-o de cumprimentá-la em meu nome e me preparava para ir embora quando ele me convidou para ficar e jantar. Aceitei. E devo dizer que tivemos uma noite muito agradável. Ele tinha uma simpatia eminente. Um lado bonzinho pai de família, prestes a se aposentar aos trinta e sete anos com alguns milhões na conta bancária! Ele levaria as crianças à escola, treinaria seu time de futebol, se encarregaria do churrasco nos aniversários. O perfeito desocupado.

Naquela noite, como eu ia dizendo, Kevin me contou que havia lesionado o ombro e estava de repouso. Fazia fisioterapia de dia, preparava um churrasco à noite, via televisão e dormia. Considerou que era interessante me contar que Alexandra fazia massagens divinas, que o aliviavam bastante. Em seguida, listou para mim todos os gestos que lhe causavam dor, sem se esquecer dos exercícios de fisioterapia. Era um homem simples na acepção da palavra, e eu me perguntava o que Alexandra vira nele.

Enquanto a carne grelhava, ele sugeriu inspecionarmos a cerca para descobrir como Duke escapava. Ele verificou metade da cerca e eu me encarreguei da outra. Não demorei a encontrar o enorme buraco que Duke cavara no gramado para transpor a barreira e, naturalmente, não o mostrei para Kevin. Afirmei que minha metade de cerca estava intacta (o que não era mentira), ele falou que a sua também, e fomos comer nossa carne. Ele estava intrigado com as fugas do cachorro.

— Não entendo por que ele faz isso. É a primeira vez. Esse cachorro é a vida de Alex. Tenho medo de que acabe sendo atropelado.

— Quantos anos ele tem?

— Oito. É velho para um cachorro desse porte.

Fiz um cálculo rápido de cabeça. Oito anos. Isso significava que ela comprara Duke logo após o Drama.

Bebemos algumas cervejas. Ele, principalmente. Quanto a mim, aproveitei para esvaziá-las discretamente no gramado com o objetivo de induzi-lo a se embriagar. Eu precisava amaciá-lo. Por fim, abordei o assunto Alexandra e, estimulado pela bebida, ele se abriu.

Contou, então, que fazia quatro anos que estavam juntos. Começaram a namorar no fim de 2007.

— Naquela época, eu jogava no Nashville Predators, da cidade onde ela morava. Tínhamos uma amiga em comum, e fazia um tempão que eu tentava conquistá-la. Até que, no réveillon, estávamos na mesma festa, justamente na casa dessa amiga, e foi lá que tudo começou.

Tive vontade de vomitar só de imaginar aquela primeira transa numa noite ébria de ano-novo.

— Foi um amor fulminante — falei, me fazendo de idiota.

— Não, no começo foi difícil — retrucou Kevin, comovente de sinceridade.

— Foi?

— Sim. Aparentemente, fui seu primeiro namorado depois que ela terminou com o ex. Ela sempre se recusou a falar sobre ele. Aconteceu alguma coisa séria. Não sei o quê. Não quero pressioná-la. Um dia, quando estiver pronta, ela vai me contar.

— Ela o amava?

— O ex? Mais que tudo, acho. Até pensei que não conseguiria fazê-la esquecer o cara. Nunca mais toquei no assunto. Estamos numa fase ótima e prefiro não mexer nas feridas do passado.

— Tem toda a razão. Esse cara certamente era um idiota.

— Não faço ideia. Não gosto de julgar quem eu não conheço.

Kevin era de uma gentiliza irritante. Ele tomou um gole de cerveja e acabei fazendo a pergunta que mais me afligia:

— Você e Alexandra nunca pensaram em se casar?

— Fiz o pedido. Faz dois anos. Ela chorou. Não de alegria, se é que me entende. Percebi que significava “por enquanto, não”.

— Sinto muito, Kevin.

Ele apoiou de forma carinhosa sua mão enorme em meu braço.

— Amo essa mulher — disse ele.

— Dá para notar — respondi.

De repente, senti vergonha de me intrometer daquela maneira na vida de Alexandra. Ela havia me pedido para manter distância, e eu correra para seduzir seu cachorro e aliciar seu namorado.

Fui embora antes que ela chegasse.

Quando girei a chave na fechadura da porta de casa, ouvi a voz de Leo, dissimulado na escuridão de sua varanda.

— Você faltou à nossa partida de xadrez, Marcus — disse ele.

Então lembrei que tinha prometido jogar quando voltasse da casa de Kevin, pois não imaginava que acabaria jantando lá.

— Desculpe, Leo, esqueci completamente.

— Não tem problema.

— Quer beber uma dose?

— Com prazer.

Ele se juntou a mim e nos acomodamos na varanda, onde servi um uísque para nós dois. O clima estava agradável do lado de fora, e as rãs no lago traziam música para a noite.

— Essa garota não sai da sua cabeça, hein? — comentou Leo.

Assenti.

— Está tão óbvio assim? — perguntei.

— Está. Fiz minhas pesquisas.

— Sobre o quê?

— Sobre você e Alexandra. Pois bem, descobri uma coisa muito interessante: nada.

E, pode acreditar em mim, que passo os dias no Google: é justamente quando não tem nada que devemos aprofundar. O que está acontecendo, Marcus?

— Nem eu mesmo tenho certeza.

— Eu não sabia que você tinha saído com aquela atriz de cinema, Lydia Gloor. Está na internet.

— Foi só um caso.

— Ela não interpretou um personagem na adaptação do seu primeiro livro?

— Sim.

— Isso foi antes ou depois de Alexandra?

— Depois.

Leo ficou circunspecto.

— Você a traiu com essa atriz, é isso? Alexandra e você eram felizes. O sucesso subiu um pouco à sua cabeça, você viu essa atriz dando em cima e, durante uma noite tórrida, se esqueceu de tudo. Acertei?

Sorri, achando graça da sua criatividade.

— Não, Leo.

— Ah, Marcus, pare de me enrolar, por favor! O que aconteceu entre você e Alexandra? E o que houve com seus primos?

Ao me fazer essas perguntas, Leo não se dava conta de que tinham conexão. Eu não sabia por onde começar. De quem falar primeiro? De Alexandra ou da Gangue dos Goldman?

Decidi começar pelos meus primos, pois, para falar de Alexandra, eu precisava começar por eles.

* * *

Iniciarei pela história de Hillel, porque ele foi o primeiro. Tínhamos nascido no mesmo ano, e ele era como um irmão para mim. Seu gênio se resumia na mistura de inteligência brilhante e um senso inato de provocação. Era um menino muito magro, mas sua aparência física era contrabalançada por uma verve terrível aliada a uma ousadia incomum. Seu corpo franzino escondia uma grande alma e, sobretudo, um senso de justiça a toda prova. Lembro também como ele me defendeu, tínhamos acabado de completar oito anos — naquela época, Woody ainda não surgira em nossas vidas —, durante uma colônia de férias esportiva em Reading, na Pensilvânia, para onde tio Saul e tia Anita o haviam mandado durante o recesso da primavera para ajudá-lo a se desenvolver fisicamente. E, solidário, eu o acompanhei. Além do prazer da companhia, acho que fui a Reading para proteger Hillel de eventuais brutamontes entre os participantes, afinal na escola ele era o eterno saco de pancadas dos outros alunos devido à sua baixa estatura. Só que, ignorando que a colônia de férias de Reading era idealizada para crianças franzinas, com problemas de crescimento ou convalescentes, eu tinha ido parar em meio a atrofiados e vesgos, comparado aos quais a minha aparência era a de um deus grego. Como consequência, eu era sempre escolhido pelos monitores para começar os exercícios, enquanto todos os outros ficavam olhando para os próprios sapatos.

O segundo dia foi dedicado aos exercícios de ginástica olímpica. O monitor nos reuniu diante das argolas, dos cavalos, das barras paralelas e de imensas estacas.

— Vamos começar com um primeiro exercício básico: a subida ao poleiro. — Apontou para uma fileira de estacas com pelo menos oito metros de altura. — Isso mesmo, escalem uma por uma, então, no topo, se sentirem firmeza, passem para o poleiro ao lado, depois escorreguem até a base, feito um bombeiro. Quem vai começar?

Ele provavelmente esperava que saíssemos correndo até as estacas, mas permanecemos imóveis.

— Alguma pergunta, por acaso? — indagou ele.

— Sim — respondeu Hillel, erguendo a mão.

— Pode falar.

— Quer realmente que a gente suba lá?

— Claro.

— E se não quisermos?

— Serão obrigados.

— Obrigados por quem?

— Por mim.

— Em nome de quê?

— É assim que as coisas são. Sou o monitor e eu decido.

— Sabia que nossos pais pagam para virmos para cá?

— Sabia, e daí?

— E daí que, tecnicamente, você é nosso funcionário e nos deve total obediência. Poderíamos, inclusive, mandá-lo cortar as unhas dos nossos pés se nos desse na telha.

O monitor fitou Hillel com uma expressão engraçada. Tentou recuperar o controle da aula e, fazendo de tudo para sua voz soar autoritária, ordenou:

— Vamos, um voluntário! Estamos perdendo tempo.

— Parece mesmo muito alto — continuou Hillel. — São o quê? Oito, dez metros?

— Hum, me deixe pensar — respondeu o monitor.

— Como assim, pensar? — indignou-se Hillel. — Não conhece seu equipamento?

— Fique quieto, por favor. E, como ninguém se candidatou, vou escolher um.

Obviamente, fui o eleito. Protestei que eu sempre começava, mas o monitor não me deu ouvidos.

— Vamos — ordenou —, suba nessa estaca.

— Por que você não sobe? — interveio novamente Hillel.

— O quê?

— É, comece você.

— Não vou obedecer às ordens de um pirralho — argumentou o monitor.

— Está com medo de subir? — provocou Hillel. — Em seu lugar, eu teria medo. Isso me parece terrivelmente perigoso, essas estacas. Sabe, não sou hipocondríaco, mas li em algum lugar que basta um tombo de três metros para quebrar a coluna vertebral e ficar paralisado pelo resto da vida. Quem quer ficar paralítico para sempre? — perguntou ao grupo.

— Eu, não! — respondemos todos.

— Fiquem quietos! — resmungou o monitor.

— Tem certeza de que tem um diploma de educação física? — indagou Hillel.

— Claro que sim! Agora, chega!

— Acho que ficaríamos mais tranquilos se víssemos seu diploma — insistiu Hillel.

— Ora, não estou com ele aqui! — protestou o monitor, cuja confiança murchava feito um balão.

— Ou será que simplesmente não tem? — replicou Hillel.

— Diploma! Diploma! — berramos todos.

Gritamos em cadência até que, por fim, o monitor pulou feito um macaco na estaca e subiu para nos mostrar do que era capaz. Certamente quis nos impressionar, fazendo vários movimentos inúteis, e aconteceu o esperado: suas mãos escorregaram e ele caiu da estaca, ou seja, de sete metros e cinquenta, para ser preciso. Ele se estatelou no chão e deu gritos horríveis. Claro que tentamos consolá-lo, mas os paramédicos da ambulância nos explicaram que ele quebrara as pernas e que não o veríamos mais pelo restante das férias. Hillel foi expulso da colônia, e eu fui junto. Tia Anita e tio Saul vieram nos buscar e nos levaram ao hospital do condado para apresentarmos pessoalmente nossas desculpas ao pobre monitor.

* * *

Foi um ano após esse episódio que Hillel conheceu Woody. Ele tinha nove anos naquela época, continuava sendo uma criança muito magra e de baixa estatura, eterno “saco de pancadas” de seus colegas de escola, que o apelidavam de Camarão. Sofria tanto na mão das outras crianças que em dois anos mudara três vezes de colégio. Mas se sentia tão infeliz no novo quanto nos anteriores. Seu único sonho era levar uma vida normal, ter amigos no bairro e uma rotina parecida com a das outras crianças da sua idade. Tinha uma paixão absoluta: o basquete. Adorava. No fim de semana, às vezes, ligava para os colegas de turma.

— Alô? É Hillel… Hillel. Hillel Goldman. — Repetia seu nome até o momento em que, para acabar com aquilo, dizia: — É o Camarão…

E a pessoa, do outro lado da linha, às vezes sem segundas intenções, finalmente reconhecia quem era.

— Eu queria saber se você vai à quadra hoje à tarde.

No outro lado da linha, lhe respondiam que não, em hipótese alguma. Mas Hillel sabia que era mentira. Desligava educadamente e, uma hora mais tarde, dizia a seus pais:

— Vou sair para jogar basquete com meus colegas.

Subia na bicicleta e ia. Chegava à quadra, onde seus colegas, que não deveriam estar lá, estavam, é claro. Ele não reclamava, se sentava no banco e esperava sua vez. Mas ninguém queria o Camarão no time. Então ele voltava para casa e, mesmo triste, se esforçava para parecer bem. Não queria que os pais se preocupassem com ele. Sentaram-se à mesa, ele vestia a camisa do Michael Jordan, deixando à mostra seus braços que mais pareciam caniços.

— Jogou um pouco hoje? — perguntava tio Saul.

Ele dava de ombros.

— Nada. Os outros dizem que não sou forte.

— Tenho certeza de que você joga como um campeão.

— Não, é verdade, sou uma negação. Mas se ninguém me der uma chance, como posso melhorar?

Meus tios tinham dificuldade para encontrar um meio-termo entre superprotegê-lo e deixá-lo encarar aquele mundo complicado. Por fim, optaram pela escola particular bastante renomada de Oak Tree, perto da casa deles.

Gostaram imediatamente do colégio. Foram recebidos pelo diretor, o Sr. Hennings, que lhes mostrou as dependências, explicando como o estabelecimento era excepcional:

— A escola de Oak Tree é uma das melhores dos Estados Unidos. Aulas de primeira qualidade, dadas por professores recrutados nos quatro cantos do país, e currículos adaptados.

A escola estimulava a criatividade: incluía aulas de pintura, música e cerâmica e se orgulhava da publicação de um jornal semanal feito integralmente pelos alunos numa sala de redação moderna. No fim, o diretor Hennings terminou de convencer tio Saul e tia Anita entoando as primeiras notas de sua sinfonia milagrosa para pais desesperados:

— Crianças felizes, motivação, orientação, responsabilidade, reputação, qualidade, corpo e espírito, todas as modalidades de esporte, picadeiro para campeões de equitação…

* * *

Não sei como Hillel conseguiu a façanha de criar caso com todos os colegas da escola de Oak Tree em apenas poucos dias. Depois de conquistar essa proeza, ainda se desentendeu com boa parcela do corpo docente, encontrando erros nos livros de exercícios, criticando um professor por sua pronúncia de uma palavra latina e ainda fazendo perguntas consideradas inapropriadas para sua idade.

— Você vai aprender isso no terceiro ano — disse o professor.

— E por que não agora, se estou fazendo a pergunta?

— Porque é assim, está no currículo e temos que seguir o currículo.

— Talvez o currículo não esteja adaptado à sua aula.

— Talvez você é que não esteja adaptado a essa aula.

Impossível não reparar nele nos corredores da escola. Vestia uma camisa xadrez abotoada até o pescoço para esconder a camiseta de basquete que sempre usava por baixo, na esperança de um dia realizar seu sonho: desabotoar a camisa de cima, irromper como um atleta invencível e ser o cestinha do time ao som dos vivas dos colegas. Sua mochila estava pesada com os livros que ele pegava na biblioteca municipal, e nunca se separava de sua bola de basquete.

Não precisou passar nem uma semana em Oak Tree para sua vida virar um inferno. Logo se tornou a vítima preferida do terror da classe, um gordo de pernas curtas chamado Vincent, que tinha o apelido de Porco.

Difícil dizer quem começou com as hostilidades. Pois já convém esclarecer que Porco, com esse apelido, era alvo de zombarias das outras crianças. No pátio, todos gritavam para ele, tapando o nariz:

— Se está cheirando a cocô, é porque Porco está na área!

Porco partia para cima deles para esmurrá-los, mas todos fugiam feito um rebanho de zebus assustados. Hillel, porém, o mais fraco, acabava sendo alcançado e pagava pelos outros. Em geral, Porco apenas torcia o braço do garoto, com medo de ser flagrado por um professor, e dizia:

— Perdeu, Camarão. Prepare-se, chegou a sua hora!

Depois das aulas, Porco corria até a quadra de basquete perto da escola, aonde Hillel ia treinar arremessos, e ficava feliz em enchê-lo de pancada, enquanto todos os alunos da turma assistiam ao espetáculo. Porco agarrava-o pela gola, arrastava-o no chão e lhe desferia diversos socos, incentivado pelas salvas de palmas.

Porco começou a martirizar Hillel sistematicamente. Assim que chegava à escola, grudava nele e não o largava mais. O restante dos alunos passou a considerá-lo um pária. Somente três semanas depois, Hillel suplicou para que sua mãe não o mandasse mais para Oak Tree, mas tia Anita pediu que ele fizesse um esforço.

— Hillel, querido, não podemos mudá-lo de escola o tempo todo. Se as coisas continuarem desse jeito e você for incapaz de se adaptar a um ambiente escolar, teremos que matriculá-lo numa escola especializada…

Ela dizia isso com muita ternura e uma pitada de fatalismo. Hillel, que não queria criar problemas para a mãe nem, muito menos, ir parar numa escola especializada, foi obrigado a aceitar as surras diárias após as aulas.

Sei que tia Anita o levava para fazer compras e, se inspirando nos meninos da idade dele que ela conhecia, tentava convencê-lo a se vestir de forma mais convencional. Ao deixá-lo na escola de manhã, implorava:

— Não banque o original, está bem? E faça amigos.

Acrescentava brioches no lanche do filho para que ele pudesse dar um pouco aos colegas e ser simpático. Ele reagia:

— Não dá para comprar amigos com brioches, sabia, mãe?

Ela o observava com o semblante bastante desconcertado. No recreio, Porco esvaziava a merendeira de Hillel no chão, recolhia os brioches e enfiava tudo à força na boca do garoto. À noite, tia Anita perguntava:

— Seus amigos gostaram dos brioches?

— Muito, mamãe.

No dia seguinte, ela colocava mais, sem saber que condenava o filho a proezas de elasticidade bucal. O espetáculo dos brioches não demorou para fazer um sucesso fenomenal: no pátio do recreio, os alunos se reuniam em volta de Hillel para ver Porco enfiando-lhe meia dúzia de pãezinhos goela abaixo. E todos gritavam: “Engula! Engula! Engula! Engula!” O professor, alertado pelo tumulto, acabou tirando um ponto de Hillel e anotou em sua caderneta: “Gosta de dar espetáculo, mas não de compartilhar.”

Tia Anita transmitiu suas preocupações ao pediatra que acompanhava Hillel.

— Doutor, ele diz que não gosta da escola. Dorme mal à noite, come pouco. Tenho certeza de que não está feliz.

O médico se virou para o menino e perguntou:

— Sua mãe está falando a verdade, Hillel?

— Está, doutor.

— Por que você não gosta da escola?

— Não é a escola, são as outras crianças.

Tia Anita suspirou.

— É sempre assim, doutor. Ele diz que são as outras crianças. Mas já o mudamos de escola várias vezes…

— Você entendeu que, se não fizer um esforço para se integrar, irá para uma escola especializada, Hillel?

— Não quero uma escola especial… Não quero.

— Por quê?

— Quero ir para uma escola normal.

— Então só depende de você, Hillel.

— Eu sei, doutor, eu sei.

Porco o espancava, o roubava, o humilhava. Obrigava-o a beber garrafas cheias de um líquido amarelado, fazia-o lamber poças de água podre, espalhava lama em seu rosto. Erguia-o como se fosse uma palha, balançava-o como se fosse um chocalho, e gritava:

— Você não passa de um camarão, da porra de um vira-lata, de um babaca!

E, quando lhe faltava vocabulário, desferia-lhe socos na barriga que o deixavam sem ar. Hillel era assustadoramente magro, e Porco o fazia voar feito um aviãozinho de papel, surrava-o com a pasta, dava-lhe cascudos, torcia seus braços em todas as direções e, no fim, dizia:

— Só paro se você lamber meu sapato.

E, para que ele parasse, Hillel obedecia. Na frente de todo mundo, ficava de quatro e lambia as solas dos sapatos de Porco, que aproveitava para chutar seu rosto. Metade dos alunos ria e a outra metade, impulsionada pelo entusiasmo, precipitava-se na direção dele e também o agredia. Pulavam em cima do garoto, esmagavam suas mãos, puxavam seu cabelo. Todos com o mesmo objetivo: salvar a própria pele. Enquanto Porco estivesse ocupado com Hillel, não partiria para cima dos outros.

Encerrado o espetáculo, todos iam embora.

— E se der com a língua nos dentes, a gente acaba com você, pode apostar! — desferia Porco, presenteando-o com uma última cusparada nos olhos.

— É isso aí, a gente acaba com você! — repetiam seus seguidores em coro.

Hillel permanecia no chão, feito um besouro com a carapaça virada para baixo, depois, passada a agitação, se levantava, pegava sua bola e, finalmente, se arrastava até a quadra deserta. Fazia alguns arremessos, jogava partidas imaginárias e voltava para casa na hora do jantar. Quando tia Anita deparava com o rosto desfigurado e as roupas rasgadas do filho, exclamava, aterrorizada:

— Hillel, meu Deus, o que aconteceu?

E ele, abrindo um sorriso radiante, disfarçando a dor para não magoar a mãe, respondia:

— Ah, não foi nada. O jogo foi violento, mamãe.

* * *

A cerca de trinta quilômetros dali, nos bairros da zona leste de Baltimore, Woody estava num internato para crianças problemáticas. O diretor do local, Artie Crawford, era um amigo de longa data de tio Saul e de tia Anita, pois os dois eram voluntários atuantes da instituição: tia Anita dava consultas médicas gratuitas, enquanto tio Saul instalara um posto jurídico para ajudar os internos e suas famílias nos processos administrativos e nos mais diversos procedimentos.

Woody tinha a nossa idade, mas era o oposto de Hillel: muito mais maduro e desenvolvido fisicamente, parecia bem mais velho. Longe da tranquilidade de Oak Park, os bairros da zona leste de Baltimore conviviam com altos índices de criminalidade, tráfico de drogas e violência. A instituição enfrentava dificuldades para colocar as crianças na escola, que acabavam influenciadas pelas más companhias e consideravam sedutora a possibilidade de reconstruir sua família ausente ao formar uma gangue. Woody era um desses: uma criança briguenta, mas de boa índole, facilmente influenciável e que obedecia a um garoto mais velho, Devon, todo tatuado, eventual traficante de drogas que nunca se separava de uma pistola enfiada na cueca que gostava de exibir na penumbra de um beco.

Tio Saul conhecia Woody pois o havia defendido diversas vezes. Era uma criança adorável e educada, mas, como brigava o tempo todo, volta e meia era recolhido por uma patrulha. Tio Saul gostava muito dele porque o menino sempre batalhava por uma causa nobre: uma vovozinha que havia sido insultada, um amigo que se metera em confusão, um colega menor da instituição que era extorquido ou assediado. Lá estava ele fazendo justiça com as próprias mãos. Sempre que precisara intervir a seu favor, tio Saul conseguira convencer os policiais a liberar Woody sem que oficializassem uma queixa. Até a noite em que Artie Crawford, diretor da instituição, lhe telefonou relativamente tarde para informá-lo de que Woody arranjara outro problema e que, dessa vez, era muito grave: ele agredira um policial.

Tio Saul foi imediatamente para o comissariado da Eastern Avenue, onde Woody estava detido. No caminho, ainda se deu o trabalho de incomodar o assistente do chefe de polícia, seu conhecido, para preparar o terreno: talvez ele precisasse de uma ajuda do alto escalão para impedir que um juiz linha-dura assumisse o caso. Ao chegar ao comissariado, não encontrou Woody numa cela ou algemado num banco, mas confortavelmente acomodado numa sala de interrogatório lendo uma revista em quadrinhos e tomando chocolate quente.

— Está tudo bem, Woody? — perguntou tio Saul, ao entrar na sala.

— Boa noite, Sr. Goldman — respondeu o garoto. — Desculpe incomodá-lo. Está tudo certo, os guardas são superlegais.

Ele nem sequer tinha dez anos, mas seu físico era de um menino de treze ou quatorze. Exibia músculos salientes e hematomas viris no rosto. E não é que amaciara o coração dos policiais do bairro, que inclusive lhe ofereceram chocolate quente?

— E é assim que você agradece? — retrucou tio Saul, ligeiramente irritado. — Distribuindo socos? Afinal, Woody, o que deu em você? Bater em um policial? Sabe o que isso representa?

— Eu não sabia que era um policial, Sr. Goldman. Juro. Ele não estava de uniforme.

Woody contou que tinha se metido numa briga, estava dando uma surra em três sujeitos com o dobro da sua idade, quando um policial à paisana interviera para separá-los e, no meio da confusão, recebera um soco que o jogara no chão.

Nesse instante, um inspetor entrou na sala, com o olho inchado e roxo.

Woody se levantou e lhe deu um abraço carinhoso.

— Desculpe mais uma vez, inspetor Johns, confundi o senhor com um delinquente.

— Ah, essas coisas acontecem. Deixe para lá. Aliás, se algum dia precisar de ajuda, pode me ligar.

O inspetor lhe entregou seu cartão.

— Quer dizer que posso ir embora, inspetor?

— Pode. Mas da próxima vez que vir uma briga, chame a polícia, em vez de querer resolver tudo sozinho.

— Prometido.

— Quer outro chocolate quente? — acrescentou o inspetor.

— Não, ele não quer outro chocolate quente — retrucou o tio Saul. — Ora, inspetor, tenha um pouco de dignidade, afinal de contas ele agrediu você! — Empurrou Woody para fora da sala e lhe deu uma bronca: — Woody, se continuar desse jeito vai acabar tendo problemas de verdade. Nem sempre vai encontrar policiais e advogados bonzinhos para tirar você da merda. Pode acabar na prisão, entende?

— Sim, Sr. Goldman. Entendo perfeitamente.

— Então por que continua agindo assim?

— Acho que é um dom. Tenho o dom da briga.

— Pois bem, faça o favor de arranjar outro dom. E, além do mais, um garoto da sua idade não deveria perambular pelas ruas à noite. Deveria dormir.

— Não consigo. Não gosto muito de ficar na instituição. Fiquei a fim de dar uma volta.

Chegaram à recepção do comissariado, onde Artie Crawford os esperava.

Woody agradeceu mais uma vez ao tio Saul:

— O senhor é meu herói, Sr. Goldman.

— Não fui muito útil dessa vez.

— Mas está sempre me defendendo.

Woody tirou sete dólares do bolso e estendeu para ele.

— O que é isso? — perguntou tio Saul.

— É todo o meu dinheiro. Para pagar pelo seu serviço. Para agradecer por ter me tirado da merda.

— Não fale palavrão. E não precisa me pagar.

— O senhor falou o mesmo palavrão antes.

— Eu não deveria ter feito isso. Desculpe.

— O Sr. Crawford diz que sempre devemos pagar às pessoas que, de uma maneira ou de outra, nos prestaram algum serviço.

— Você quer me pagar, Woody?

— Sim, Sr. Goldman. Eu gostaria muito.

— Então dê um jeito de não ser mais preso. Vai ser meu maior pagamento, meu melhor salário, vê-lo daqui a dez anos e saber que está cursando uma boa faculdade. Ver um belo rapaz realizado e não um delinquente que já terá passado metade da vida numa prisão para menores.

— Farei isso, Sr. Goldman. Terá orgulho de mim.

— E, pelo amor de Deus, pare de me chamar de Sr. Goldman. Pode me chamar de Saul.

— Sim, Sr. Goldman.

— Pronto, agora vá e se torne uma boa pessoa.

Mas Woody era um menino que privilegiava a honra. Queria de qualquer jeito agradecer ao meu tio pela ajuda e, no dia seguinte, apareceu em seu escritório.

— Por que não está na escola? — esbravejou tio Saul, vendo-o entrar na sala.

— Eu queria falar com o senhor. Com certeza tem alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor, Sr. Goldman. Foi tão legal comigo…

— Considere isso um empurrãozinho da vida.

— Eu poderia cortar sua grama, se quisesse.

— Não preciso que ninguém corte minha grama.

Woody insistiu. Achava ótima a ideia de cortar a grama.

— Tudo bem, mas eu faria isso de maneira impecável. O senhor teria um gramado espetacular.

— Meu gramado vai muito bem. Por que não está na escola?

— Por causa do seu gramado, Sr. Goldman. Para mim, seria um prazer enorme aparar sua grama para agradecer pela ajuda.

— Não vale a pena.

— Eu adoraria fazer isso, Sr. Goldman.

— Woodrow, erga a mão direita, por favor, e repita o que eu disser.

— Sim, Sr. Goldman.

Ele ergueu a mão direita e tio Saul declamou:

— Eu, Woodrow Marshall Finn, juro não fazer mais merda…

— Eu, Woodrow Marshall Finn, juro não fazer mais… O senhor me proibiu de falar merda, Sr. Goldman.

— Tudo bem. Então diga: juro não me meter mais em confusão.

— Juro não me meter mais em confusão.

— Pronto, já me pagou. Estamos quites. Agora volte para a escola. Dê o fora daqui.

Woody resmungou, resignado. Não tinha a menor vontade de voltar para a escola, queria aparar o gramado do tio Saul. Seguiu para a porta arrastando os pés e, ao notar alguns retratos em cima do móvel, perguntou:

— É sua família?

— É. Essa é minha esposa, Anita, e esse é meu filho, Hillel.

Woody pegou o porta-retratos para observar melhor as pessoas na foto.

— Parecem bem legais. O senhor tem sorte.

Naquele momento, a porta do escritório se abriu e tia Anita entrou precipitadamente, nervosa demais para reparar na presença de Woody.

— Saul! — gritou ela, com os olhos vermelhos por causa das lágrimas. — Ele foi espancado na escola mais uma vez! Diz que não quer mais voltar para lá. Não sei o que fazer.

— O que aconteceu?

— Ele diz que todas as crianças zombam dele. Diz que não quer ir mais a lugar algum.

— Mas o mudamos de escola em maio — comentou tio Saul, suspirando. — Depois, no verão, o colocamos nessa. Não podemos mudar de novo. Isso é infernal.

— Eu sei… Ah, Saul! Estou desesperada…