O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 53 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 50

 

Na tranquilidade de Boca Raton, meu novo livro avançava à medida que as semanas passavam.

Naquele verão de 2012, eu teria convocado espiritualmente os Baltimore para reviver nosso passado ou para falar de Alexandra?

Leo continuava acompanhando a evolução do meu trabalho. Deixei que ele lesse minhas páginas conforme o trabalho progredia. No começo de agosto, ele me perguntou:

— Por que este livro, Marcus? Seu primeiro romance já não foi sobre os seus primos?

— Este é diferente — expliquei. — É o livro dos Baltimore.

— Talvez seja outro livro, mas, no fundo, nada mudou para você — disse Leo.

— Como assim?

— Alexandra.

— Ah, misericórdia! Não se meta nisso!

— Quer minha opinião?

— Não.

— Vou dar mesmo assim. Se os Baltimore ainda estivessem neste mundo, Marcus, eles lhe diriam que está na hora de ser feliz. Que não é tarde demais. Vá encontrá-la, peça perdão. Retomem a vida que tinham juntos. Não passe a vida inteira esperando! Não passe a vida inteira assistindo aos shows dela e se perguntando o que você poderia ter se tornado! Ligue para ela. Fale com ela. No fundo, você sabe que é tudo o que ela quer.

— É tarde demais.

— Não é tarde demais, Marcus! — insistiu Leo. — Nunca é tarde demais.

— Continuo achando que, se Alexandra tivesse me contado o que meus primos planejavam, eles ainda estariam aqui hoje. Eu os teria impedido. Eles estariam vivos. Não sei se algum dia vou conseguir perdoá-la.

— Se eles não estivessem mortos — disse Leo num tom grave —, você nunca teria se tornado escritor. Eles tinham que ir para que você pudesse se realizar.

Ele saiu, me deixando sozinho com minhas reflexões. Fechei o caderno. À minha frente estava aquele retrato de nós quatro, que nunca me abandonava.

Peguei o telefone e liguei para ela.

* * *

Era fim do dia em Londres. Pela maneira como ela atendeu, tive a impressão de que meu telefonema lhe agradou.

— Quer dizer que precisou desse tempo todo para me ligar — disse ela.

Ouvi um barulho ao fundo.

— Estou atrapalhando? — perguntei. — Posso ligar mais tarde, se preferir.

— Não, de jeito nenhum. Estou no Hyde Park. Venho todos os dias aqui depois do estúdio. Tem um pequeno café à beira do lago, um lugar tranquilo.

— Como vai o CD?

— Está indo bem. Estou feliz com o resultado. E o seu livro?

— Vai bem. É um livro sobre nós. Sobre os meus primos. Sobre o que aconteceu.

— E como termina o seu livro?

— Não sei. Ainda não cheguei ao fim.

Houve um silêncio, e então ela falou:

— As coisas não aconteceram como você imagina, Marcus. Não traí você. Eu quis protegê-lo.

E foi assim que ela me contou o que acontecera na noite de 24 de outubro de 2004, a última de Woody em liberdade.

* * *

Naquela noite, ela saíra para dar uma volta em Oak Park com Hillel e Woody, enquanto tio Saul e eu preparávamos o churrasco.

— Alex — disse Woody —, tem uma coisa que você precisa saber. Não vou para a prisão amanhã. Resolvi fugir.

— O quê? Você enlouqueceu, Woody!

— Pelo contrário. Está tudo planejado. Uma vida nova me espera em Yukon.

— Em Yukon? No Canadá?

— Sim. Provavelmente essa é a última vez que nos vemos, Alex.

Ela começou a chorar.

— Não faça isso, eu imploro!

— Não tenho escolha — disse Woody.

— Claro que tem! Pode cumprir sua pena. Cinco anos passam depressa. Você vai sair antes de completar trinta anos!

— Não tenho coragem para enfrentar a prisão. Talvez eu não seja tão durão como as pessoas sempre acharam.

Ela se virou para Hillel e implorou:

— Convença ele a desistir, Hillel.

Hillel olhou para baixo.

— Também vou, Alexandra. Vou com Woody.

Ela ficou perplexa.

— Mas vocês enlouqueceram de vez?

— Cometi um crime muito mais grave que o de Woody — disse Hillel. — Destruí minha família.

— Destruiu sua família? — repetiu Alexandra, sem entender mais nada.

— Se Woody chegou a esse ponto, se minha mãe está morta, a culpa é toda minha. Está na hora de pagar por isso. Vou levar Woody até o Canadá. É minha forma de pedir perdão a ele.

— Mas perdão pelo quê? Não estou entendendo nada do que estão tentando me dizer.

— Tudo o que estamos tentando lhe dizer, Alex, é adeus. Queremos falar que te amamos. Nós te amamos como você nunca poderá nos amar. Talvez esta também seja a razão pela qual estamos indo embora.

Ela estava chorando.

— Não façam isso, eu imploro!

— Nossa decisão está tomada — disse Hillel. — Nosso destino está selado.

Ela secou os olhos.

— Prometam que vão pensar melhor hoje à noite. Você não vai nem sequer cumprir os cinco anos de reclusão, Woody! Não estrague tudo…

— Já pensamos — respondeu Woody.

Os dois pareciam determinados.

— Marcus sabe? — perguntou Alexandra, por fim.

— Não — disse Woody. — Quis falar com ele antes, mas fomos interrompidos por Saul. Vou conversar com ele daqui a pouco.

— Não, por favor. Não diga nada. Imploro a vocês dois, não contem nada para ele!

— Mas é Marcus, não podemos esconder dele!

— É o último favor que peço a vocês. Em nome da nossa amizade. Não contem ao seu primo.

* * *

A história de Alexandra mexeu comigo. Eu sempre acreditara que Woody e Hillel a haviam escolhido como confidente exclusiva e escondido voluntariamente o plano de mim. Eu sempre acreditara que, ao compartilhar seu último segredo com ela, eles haviam me descartado da Gangue dos Goldman. Mas eles tiveram a intenção de me contar, e Alexandra os impedira.

— Por que convenceu os dois a não me contarem nada? — perguntei. — Eu teria impedido a fuga e salvado eles!

— Você não conseguiria impedi-los, Markie. Nada nem ninguém seria capaz de convencê-los a desistir. Vi nos olhos deles, e foi por isso que supliquei para não te contarem nada. Você teria ido com eles, Marcus. Sei disso. Você não teria abandonado a Gangue dos Goldman. Teria ido atrás deles, entrado na clandestinidade, no fim acabaria se matando. Assim como eles. Ao suplicar que eles não contassem, eu estava suplicando que poupassem você. Eu sabia que você iria com eles, Markie. E eu não queria perdê-lo. Eu não iria suportar. Quis te salvar. Mas te perdi mesmo assim.

Após um momento de silêncio, murmurei:

— O que Hillel fez de tão grave para ir com Woody? Para achar que devia essa reparação a ele?

— Não sei. Esse é o tipo de pergunta que você deve fazer ao meu pai.

— Ao seu pai?

— Ele não é o sujeito que você acha que é. E tenho a impressão de que sabe muita coisa, por mais que nunca tenha se mostrado disposto a me contar.

— Seu pai se intrometeu na minha família. Ele humilhou meu tio enquanto tentava impressionar Woody e Hillel a todo custo.

— Ao contrário do que você pensa, meu pai nunca precisou impressionar Woody e Hillel para existir.

— E a Ferrari? E as viagens? E os fins de semana em Nova York? — retruquei.

— Eu pedi que ele fizesse tudo isso — respondeu Alexandra. — Meu pai gostava muito de Woody e Hillel, é verdade. Quem não gostava deles? Mas se fez tanta coisa pelos dois, foi para nos proteger, a você e a mim. Para nos dar a liberdade de viver nosso relacionamento em paz. Meu pai sabia que, ao emprestar o carro, eles sairiam para se divertir e não se preocupariam com a gente. A mesma coisa valia para quando meu pai os levava para assistir aos jogos do Giants ou os convidava para ir à casa dele. Você fazia tanta questão de que seus primos não soubessem de nós dois… Meu pai, Marcus, fez de tudo para proteger o seu segredo. Nunca competiu com Saul. A competição que seu tio teve foi contra ele mesmo. Tudo o que meu pai fez foi manter seus primos longe de nós. E era isso o que você queria.

Fiquei perplexo.

Ela continuou:

— Faz duas semanas que me separei de Kevin, Marcus. Por sua causa. Ele veio aqui sem me avisar. Queria me fazer uma surpresa. Quando bateu à porta do meu quarto no hotel, no início achei que era você. Não sei por quê. E fiquei muito decepcionada quando vi no olho mágico. Então percebi que devia ser honesta e me separar dele. Kevin merece encontrar alguém que o ame de verdade. Quanto a você, Marcus, não posso mais continuar esperando. Você é um cara incrível, com quem passei os anos mais bonitos da minha vida, e foi graças a você que me tornei o que sou. Mas de tanto remoer o passado, você não se dá conta do que para mim estava claro desde sempre.

— O quê, afinal?

— Os Goldman-de-Montclair eram os melhores.

* * *

No dia seguinte à minha conversa com Alexandra, peguei o primeiro voo para Nova York. Eu precisava falar com Patrick Neville.

Cheguei ao prédio ainda de manhã. Mas ele já saíra para trabalhar. O porteiro me autorizou a esperar e passei o dia inteiro no sofá do hall, só saindo dali para comer alguma coisa ou ir ao banheiro. Eram seis da tarde quando ele finalmente chegou. Eu me levantei. Ele me encarou por um instante, depois deu um sorriso bondoso e falou:

— Faz tempo que estou esperando por você.

Ele me fez subir até o seu apartamento e preparou um café. Nós nos acomodamos na cozinha. Era estranho estar ali: era a primeira vez que eu voltava desde a morte de tia Anita.

— Peço desculpas, Patrick.

— Pelo quê?

— Pela cena que fiz depois do enterro da minha tia.

— Ih, já faz muito tempo que esqueci. Marcus, antes de qualquer coisa, você precisa saber que nunca tive nada com a sua tia.

— Então o que aconteceu naquela noite em que ela foi para a sua casa? E por que ela estava lá?

— Ela tinha acabado de deixar o seu tio.

— Isso eu sei.

— Mas não sabe o motivo. Se ela foi me procurar aquela noite, foi para me pedir ajuda. Ela queria que eu ajudasse Woody e Saul.

— Woody e Saul?

— Alguns meses antes, Woody tinha sido expulso da equipe de futebol americano de Madison.

— Sim, eu lembro.

— A versão oficial era que uma ruptura nos ligamentos o impedia de jogar. Seus tios foram imediatamente para Madison. Woody não queria contar nada a eles, mas eu disse a verdade. Expliquei que o teste de Woody dera positivo para Talacen. Se sua tia foi me procurar em Nova York naquele 14 de fevereiro de 2002, foi porque tinha acabado de fazer duas descobertas que a deixaram atordoada.

E então, dez anos após os acontecimentos, Patrick finalmente me revelou o que acontecera naquele Dia dos Namorados.

* * *

Tia Anita pedira folga no hospital para que pudesse preparar uma noite romântica para o marido e ela. No início da tarde, saiu para fazer compras no supermercado de Oak Park. E aproveitou para passar na farmácia.

O gerente, que ela conhecia bem, após atendê-la, pediu a receita que ele esperava havia meses.

— Que receita?

— A receita do Talacen — respondeu o farmacêutico. — Seu filho pegou várias caixas durante o outono. Disse que a senhora traria a receita.

— Meu filho? Hillel?

— É, Hillel. Como conheço bem a senhora, aceitei. Para lhe fazer um favor. Em geral, nunca faço assim. Preciso da receita, Dra. Goldman.

Ela se sentiu desfalecer. Prometeu que voltaria com a receita antes do fim do dia e foi para casa. Sentia vontade de vomitar, acreditou que fosse um pesadelo. Será que Hillel comprara Talacen a pedido de Woody? Ou fizera o amigo ingerir sem saber?

O telefone tocou. Ela atendeu. Era o banco. Para falar sobre o pagamento da hipoteca da casa de Oak Park. Anita respondeu que era engano: a hipoteca fora quitada havia muito tempo. Mas a pessoa na linha prosseguiu: “Sra. Goldman, a senhora contraiu uma nova hipoteca em agosto. Seu marido me entregou documentos assinados pela senhora. A casa foi hipotecada por seis milhões de dólares.”

Tio Saul patrocinara o estádio pegando um empréstimo de seis milhões de dólares. A casa de Oak Park fora sacrificada para curar seu ego ferido.

Ela entrou em pânico. Vasculhou o escritório do marido e todos os seus pertences. Na bolsa esportiva que ele usava quando ia jogar tênis, encontrou documentos de contabilidade que nunca vira.

Telefonou na mesma hora para o tio Saul. Tiveram uma discussão acalorada. Ela disse que não o suportava mais, que estava se separando dele. Entrou no carro, levando os documentos de contabilidade, e seguiu sem destino. Acabou ligando para Patrick Neville e pedindo sua ajuda. Estava tão aflita que ele sugeriu que ela fosse para Nova York.

Naquela noite, Patrick tinha marcado um jantar íntimo com uma garota do trabalho de quem ele gostava. Mas desmarcou. Quando tia Anita viu o champanhe na mesa, se arrependeu de importunar Patrick na noite do Dia dos Namorados. Ele insistiu para que ela ficasse. “Você não vai a lugar algum”, afirmou ele. “Nunca vi você tão abalada. Conte o que está acontecendo.”

Ela revelou tudo: o Talacen e a hipoteca. Se tinha sido Hillel que dopara Woody à sua revelia, ela queria que Patrick interviesse junto à universidade para reabilitar Woody. Ainda tinha esperanças de salvar a carreira dele. Também queria que Patrick desse um jeito de romper o contrato que ligava Saul à universidade, recuperar o que desse do dinheiro e salvar sua casa.

Em seguida, lhe mostrou os documentos que trouxera. Patrick os observou atentamente: aquilo parecia contabilidade maquiada.

— Parece que Saul está desviando dinheiro do escritório para uma de suas contas pessoais. Depois ele disfarça adulterando os totais das faturas de seus clientes.

— Mas por que ele faria uma coisa dessas?

— Para liquidar um empréstimo grandioso, que talvez ele tenha dificuldade para pagar.

Então Patrick convidou Anita para jantar. Disse que ela podia ficar na casa dele o tempo que quisesse. E subitamente, o interfone tocou: era o porteiro. Woody estava lá, querendo subir. Patrick pediu que Anita se escondesse em um dos quartos. Woody chegou ao apartamento.

Já sabemos o que ocorreu em seguida.

* * *

Quando Patrick terminou de falar, fiquei bastante tempo sem palavras, completamente zonzo. E minhas surpresas não tinham terminado. Então Patrick me contou que conversara com Hillel sobre o Talacen. Fora encontrá-lo em Madison e o forçara a abrir o jogo.

Hillel explicara que, na noite de 14 de fevereiro, Woody e ele tiveram uma discussão horrível. Woody encontrara o que sobrara do Talacen escondido no fundo do armário. Hillel nem se dera o trabalho de se livrar daquilo.

— Você dopou Woody sem que ele soubesse? — perguntou Patrick, desesperado.

— Eu queria que ele fosse expulso do time de futebol americano. Pesquisei sobre os produtos proibidos e o Talacen era o mais simples de conseguir. Só tive que misturar os comprimidos com as proteínas e os suplementos alimentares que Woody tomava.

— Mas por que você fez uma coisa dessas?

— Eu estava morrendo de ciúme.

— Ciúme de Woody?

— Ele era o preferido dos meus pais. Isso era evidente. Recebia toda a atenção. Percebi isso quando nos separamos e eu tive que ir para a escola especial. Meus pais me afastaram de Baltimore. Mas mantiveram Woody por perto. Papai o ensinou a dirigir, o incentivou a jogar futebol americano, o levava para assistir aos jogos do Redskins. E eu, durante esse tempo, onde estava? A uma hora de carro, preso naquela escola de merda! Depois de roubar meus pais, ele roubou meu nome. Na faculdade, decidiu ser chamado de Goldman. Teve a bênção dos meus pais para estampar o nome na camisa. Passou a ser o Grande Goldman, campeão de futebol. Ele nos devia tudo, fomos nós que o tiramos da rua. Desde sempre, quando perguntavam quem ele era, Woody respondia: sou amigo de Hillel Goldman. Eu era a referência dele. Mas na faculdade, quando ouviam meu nome, diziam: “Goldman? Como Woody, o jogador da equipe de futebol americano?” Eu não queria mais vê-lo jogar, não queria mais ouvir seu nome de falso-Goldman. Decidi agir no fim do verão seguinte à morte do meu avô. Enquanto eu arrumava as coisas do vovô, encontrei o testamento dele. Meu pai nos dissera que, de acordo com suas últimas vontades, Woody, Marcus e eu dividiríamos sessenta mil dólares. Era mentira. Woody não aparecia no testamento do meu avô. Mas meu pai, para não magoar Woody, seu queridinho, decidiu incluí-lo à força. Woody estava ganhando muito espaço, então eu precisava fazer alguma coisa.

* * *

Foi um choque terrível.

Hillel tinha destruído a carreira de Woody. Foi por causa dele que após a briga que tiveram Woody fora à casa de Patrick Neville naquela noite de 14 de fevereiro, quando deparou com tia Anita e provocou sua morte.

Quanto ao meu tio Saul, após o Drama ele ficara tempo demais no Marriott de Baltimore, não porque não quisesse retornar à casa de Oak Park, e sim porque ela não lhe pertencia mais. Naquele momento, desempregado havia meses, sem dinheiro, não conseguira pagar a hipoteca. Por isso o banco confiscou sua casa.

Então perguntei a Patrick:

— Por que você não falou nada?

— Para não magoar ainda mais o seu tio. Woody e Hillel sabiam a verdade sobre o Talacen. Para que inserir seu tio nisso? E havia necessidade de revelar a Hillel que o pai dele desviara dinheiro e hipotecara a casa para patrocinar o estádio de Madison? Ao seu tio, só restava a dignidade. Tentei protegê-la. Sempre gostei da sua família, Marcus. Só quis o bem de vocês.