O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 46 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 43

 

Baltimore, Maryland.

24 de outubro de 2004.

Amanhã, Woody começa a cumprir sua pena. Ele vai passar os próximos cinco anos na prisão.

Na estrada que me leva do aeroporto de Baltimore a Oak Park, bairro de sua infância onde vou encontrá-lo para seu último dia de liberdade, já o imagino se apresentando diante dos portões da imponente penitenciária de Cheshire, no estado de Connecticut. Imagino-o passando pelo portão, sendo despido, revistado. Imagino-o vestindo o uniforme dos presos e sendo escoltado até a cela. Já escuto as portas batendo às suas costas. Ele avança, acompanhado por dois carcereiros, levando nos braços um cobertor e lençóis. Passa no meio dos outros prisioneiros, que o observam.

Amanhã, Woody começa a cumprir sua pena.

* * *

Alexandra veio comigo. Está no banco do carona, sem desviar os olhos de mim. Sabe muito bem que estou imerso em meus pensamentos. Passa a mão na minha nuca e acaricia meu cabelo com ternura.

Reduzo a velocidade ao chegar a Oak Park. Percorro o bairro onde fomos tão felizes, Woody, Hillel e eu. Passamos pelos seguranças e faço o sinal secreto. Depois pego a Willowick Road e chego à casa dos Baltimore. Woody e Hillel, meus dois primos, meus dois irmãos, estão sentados nos degraus da casa. Hillel está com uma foto nas mãos e eles a contemplam. É o retrato que nós quatro tiramos no dia da partida de Alexandra, nove anos antes. Hillel nos vê chegar e protege a foto, colocando-a entre as páginas de um livro ao seu lado. Os dois se levantam e se aproximam. Nós quatro damos um longo abraço.

Estamos a um mês do Drama, mas ainda não sabemos disso.

* * *

Woody estava proibido de colocar os pés em Baltimore. Enquanto esperava para se apresentar na penitenciária, a justiça o obrigava a permanecer no estado de Connecticut. Mas ele achava que, se não podia passar seu último dia de liberdade onde bem entendesse, era como se já estivesse na prisão.

Para evitar a fiscalização, preferiu não ir de avião. Hillel foi buscá-lo de carro em Connecticut e eles viajaram de madrugada. Passaram uma última noite em claro juntos, viram o nascer do sol e comeram um farto café da manhã com panquecas regadas de xarope de bordo, ovos mexidos e batatas. Em seguida, no decorrer da manhã, Hillel o acompanharia até a penitenciária.

* * *

Era apenas o início daquela jornada. Fazia um dia lindo. O outono colorira Oak Park de vermelho e amarelo.

Passamos a manhã nos degraus da casa, aproveitando o dia ameno. Tio Saul nos trouxe cafés e donuts. Ao meio-dia, foi comprar hambúrgueres num dos restaurantes preferidos de Hillel. Comemos do lado de fora, nós cinco.

Woody parecia sereno. Falávamos sobre tudo, menos a prisão. Alexandra contou que a turnê pelas rádios continuava rendendo frutos: suas músicas tocavam cada vez mais e seu disco estava vendendo bem. Milhares de cópias já haviam sido comercializadas. Toda semana ela subia uma posição nas paradas.

“Eu me lembro de você dez anos atrás”, disse Hillel, sorrindo. “Você cantando e tocando no quarto…” Depois pegou o livro e puxou o retrato. Todos nós rimos ao recordar nossos anos de juventude.

* * *

Depois do almoço, Hillel, Woody e eu fomos passear por Oak Park. Para nos deixar a sós, Alexandra deu a desculpa de que iria ajudar tio Saul a jogar as embalagens dos hambúrgueres fora.

Perambulamos pelas ruas tranquilas. Uma equipe de jardineiros varria as folhas secas das aleias e isso nos lembrou da época de Skunk.

— A Gangue dos Goldman era o máximo — disse Woody.

— Ainda é — respondi. — Nada terminou. A Gangue é eterna.

— A prisão muda tudo.

— Não diga isso. Iremos sempre visitar você. Tio Saul garantiu que você vai conseguir a redução da pena. Logo mais vai sair e nós estaremos aqui.

Hillel assentiu.

Contornamos a quadra e logo estávamos de volta à casa dos Baltimore. Nós nos sentamos mais uma vez nos degraus. E, inesperadamente, Woody me contou que se separara de Colleen. Não queria forçá-la a enfrentar cinco anos de locutório. No fundo, eu achava que, se ele tinha feito aquilo, era porque não a amava de verdade. Ficara menos sozinho com ela, mas nunca a amara como amava Alexandra. Então me senti na obrigação de abordar o assunto.

— Desculpe ter traído vocês ficando com Alexandra — falei.

— Você não traiu ninguém — garantiu Hillel.

— A Gangue dos Goldman é eterna — acrescentou Woody.

— Quando você sair, Woody, nós três vamos fazer uma viagem juntos. Uma longa viagem. Poderíamos inclusive alugar uma casa nos Hamptons e passar o verão lá. Todo verão poderíamos alugar uma casa juntos.

Woody sorriu com tristeza.

— Marcus, preciso te contar uma coisa.

Fomos interrompidos por tio Saul, que abriu a porta.

— Ah, vocês estão aí! — disse ele. — Pensei em fazer um churrasco hoje à noite. O que acham? Vou sair para fazer compras.

Resolvemos acompanhar tio Saul, e Woody murmurou ao meu ouvido que mais tarde conversaria comigo.

Todos nós fomos ao supermercado de Oak Park. Foi um momento de alegria que nos lembrou da época em que fazíamos compras com tia Anita e ela nos deixava encher o carrinho com todos os produtos que nos apeteciam.

Mais tarde, na varanda dos Baltimore, ajudei tio Saul a preparar o churrasco para deixar Woody e Alexandra um pouco a sós. Eu sabia que era importante para ele. Os dois saíram para dar uma volta. Acho que Woody queria se despedir da quadra de basquete de Oak Park. Hillel se juntou a eles. Então me dei conta de que, no fundo, eles eram a Gangue de Madison. A Gangue dos Goldman era formada por nós três.

* * *

Era uma da manhã quando nos despedimos.

Tínhamos passado uma noite quase normal demais. Nem parecia real o que ia acontecer em poucas horas.

Foi Hillel quem deu o sinal de partida. Afinal, tinham quatro horas de estrada pela frente. Nós nos abraçamos. Apertei Woody bem forte. Acho que foi nesse momento que tivemos noção da realidade. Em seguida, nos despedimos de tio Saul, deixando-o na escada da entrada de casa, nos degraus onde havíamos passado o dia. Ele chorava.

Alexandra e eu entramos no nosso carro alugado e seguimos o de Hillel até os limites de Oak Park. Então eles viraram à direita, na direção da autoestrada I-95, e nós à esquerda, rumo ao centro da cidade, onde havíamos feito reserva num hotel. Claro que tio Saul nos convidara para dormir em Oak Park. Mas aquela noite não devia ser como as outras. Era a noite em que eu perdia Woody por cinco longos anos.

No carro, tentei imaginar Alexandra, Hillel e eu nos próximos cinco anos. Eu me perguntava o que seria de nós até 25 de outubro de 2009.

* * *

No dia seguinte, Alexandra e eu pegamos um voo bem cedo para Nashville, no Tennessee. Tínhamos uma reunião importante com Eric Tanner, seu agente, naquele mesmo dia.

Eu queria falar mais uma vez com Woody antes que ele entrasse na penitenciária de Cheshire. Mas não consegui encontrá-lo. Seu celular estava desligado e o de Hillel também. Passei o dia tentando. Em vão. Então tive um mau pressentimento. Liguei para a casa dos Baltimore e ninguém atendeu. Acabei telefonando para o celular do tio Saul, mas ele estava com clientes e não podia falar comigo. Pedi que retornasse a ligação assim que possível, o que ele só fez na tarde do dia seguinte.

— Marcus? É o tio Saul.

— Bom dia, tio Saul. Como vai…

Ele não me deixou falar.

— Preste atenção, Marcus: preciso que venha imediatamente a Baltimore. Não me faça perguntas. Aconteceu uma coisa grave.

Ele desligou. A princípio, supus que a ligação tivesse caído e retornei imediatamente, mas ele não atendeu. Como insisti, ele acabou me atendendo e repetiu de forma sucinta:

— Venha para Baltimore.

E desligou novamente.