O Livro dos Baltimore
Segunda parte
O livro da fraternidade perdida
(1998-2001)
22.
Se você foi à Universidade de Madison, em Connecticut, entre os anos 2000 e 2010, certamente viu o estádio do time de futebol americano, que durante essa década se chamava Estádio Saul Goldman.
Sempre associei a Universidade de Madison à grandeza dos Goldman. Portanto, não entendi por que, no fim de agosto de 2011, meu tio Saul ligou para mim, em Nova York, me pedindo para lhe prestar o que ele considerava um grande favor: queria que eu assistisse à destruição do letreiro com seu nome na fachada do estádio, marcada para o dia seguinte. Isso ocorreu três meses antes da sua morte e seis meses antes do meu reencontro com Alexandra.
Naquele momento, eu ainda não sabia nada sobre a situação do meu tio. Já fazia algum tempo que ele vinha se comportando de um jeito estranho. Mas nem de longe eu desconfiava de que aqueles eram seus últimos meses de vida.
— Por que faz tanta questão que eu veja isso? — perguntei.
— Saindo de Nova York é só uma hora de estrada…
— Mas a questão não é essa, tio Saul. Não entendo por que dá tanta importância a isso.
— Por favor, estou lhe pedindo.
Como eu nunca soube lhe recusar nada, concordei.
Tio Saul organizara tudo, então, quando cheguei, o reitor da universidade me aguardava em posição de sentido no estacionamento do estádio.
— É uma honra recebê-lo, Sr. Goldman — disse ele. — Eu não sabia que Saul era seu tio. Não se preocupe, estávamos à sua espera, como seu tio pediu.
Ele começou a andar solenemente e me acompanhou até a entrada do estádio. Na fachada as letras de aço aparafusadas no cimento proclamavam sua glória:
ESTÁDIO SAUL GOLDMAN
Dentro de uma caçamba fixada num braço articulado, dois funcionários desaparafusaram conscienciosamente cada letra, que se espatifava no chão fazendo um barulho metálico.
TÁDIO SAUL GOLDMAN
SAUL GOLDMAN
UL GOLDMAN
OLDMAN
Em seguida, os operários começaram a instalar no muro vazio um letreiro luminoso com o nome de uma empresa que fabricava frango empanado, que assumiria o patrocínio do estádio nos próximos dez anos.
— Pronto — disse o reitor. — Agradeça mais uma vez ao seu tio pela contribuição com a universidade, foi um gesto muito generoso.
— Pode deixar.
O reitor estava quase indo embora, mas eu o contive. Tinha uma pergunta presa na minha garganta.
— Por que ele fez isso? — perguntei.
O reitor se virou.
— Fez o quê?
— Por que meu tio bancou a manutenção do estádio durante dez anos?
— Porque ele foi generoso.
— Não é só isso. Ele é generoso, mas jamais gostou de se promover dessa maneira.
O reitor deu de ombros.
— Não faço ideia. Pergunte a ele.
— E quanto ele pagou?
— Isso é confidencial, Sr. Goldman.
— Ah, fale…
Após um período de hesitação, ele respondeu:
— Seis milhões de dólares.
Fiquei perplexo.
— Meu tio pagou seis milhões de dólares para ter o nome no estádio durante dez anos?
— Sim. Claro que o nome dele será incluído na placa dos grandes doadores, na entrada do prédio administrativo. Ele também vai receber gratuitamente a revista da universidade.
Fiquei um tempo observando o letreiro com um frango sorridente sendo fixado na fachada do estádio. Na época, meu tio era um homem relativamente rico, mas, a menos que houvesse tido uma fonte de dinheiro secreta, eu não entendia como ele pudera fazer uma doação de seis milhões de dólares à universidade. De onde tirara esse dinheiro?
Telefonei para ele quando voltei ao estacionamento.
— Pronto, tio Saul, está feito.
— Como foi?
— Eles desaparafusaram as letras e colocaram uma placa no lugar.
— Quem vai financiar o estádio?
— Uma empresa que produz frango empanado.
Eu o ouvi sorrir.
— Viu, Marcus, o ego leva a isso. Um dia seu nome está num estádio, no outro é apagado da superfície da Terra em prol de fatias de frango empanadas.
— Ninguém apagou você da face da Terra, tio Saul. Eram só letras de metal aparafusadas no cimento.
— Você é um sábio, sobrinho. Vai voltar para Nova York agora?
— Vou.
— Obrigado por ter feito isso, Marcus. Era importante para mim.
Fui tomado pela desconfiança. Meu tio, que atualmente era funcionário de um supermercado, dez anos antes pagara seis milhões de dólares para ter o nome num estádio. Tenho certeza de que mesmo naquela época ele não tinha recursos para isso. Era o preço que os Clark pediram pela casa dos Hamptons e ele não tivera dinheiro para comprá-la. Como conseguira essa quantia quatro anos depois? Onde arranjara esse dinheiro?
Entrei de volta no carro e fui embora. Foi a última vez que estive em Madison.
* * *
Treze anos haviam se passado desde que entráramos na faculdade. Era 1998 e, nessa época, Madison, para mim, ressoava como o santuário da glória. Eu cumprira minha promessa a Alexandra de não estudar lá e optara pelo curso de letras de uma pequena universidade em Massachusetts. Mas Hillel e Woody, que foram inteligentes o bastante para não prometerem nada, não tinham resistido à vontade de reconstruir a Gangue dos Goldman em torno de Alexandra, incentivados por Patrick Neville, com quem haviam mantido contato depois das nossas férias nos Hamptons.
Como de praxe, durante as férias de inverno do nosso último ano de colégio, nos candidatamos para várias instituições, sendo que nós três aplicamos para a Universidade de Burrows, em Massachusetts. Quase nos reunimos lá. Quatro meses mais tarde, perto da Páscoa, eu recebera uma carta informando minha aprovação. Alguns dias depois, meus primos me ligaram para dar a notícia. Gritavam tanto no aparelho que demorei a entender o que falavam. Eles tinham sido aprovados na mesma faculdade que eu. Mais uma vez íamos nos reunir.
Mas meu entusiasmo durou pouco: dois dias depois, meus primos receberam a resposta da Universidade de Madison. Também tinham sido aprovados lá. E graças aos contatos de Patrick Neville, Woody ganharia uma bolsa de estudos e entraria para a equipe do Titans. As portas estavam se abrindo para sua carreira profissional, ainda mais com os contatos de Patrick no New York Giants. Woody aceitou a oferta de Madison e Hillel decidiu acompanhá-lo. Foi assim que, no outono de 1998, enquanto eu trocava Nova Jersey por Massachusetts, um carrinho que vivia dando solavancos, sem placa de Maryland, percorreu pela primeira vez as estradas do estado de Connecticut e margeou a costa Atlântica até a cidadezinha de Madison. O interior do país se enfeitara com as cores do verão indígena: os bordos e sicômoros flamejavam suas folhas vermelhas e amarelas. O carro atravessou Madison pela rua principal decorada com as cores do Titans, que eram o orgulho da cidade e o pesadelo das outras universidades da Liga. Em pouco tempo, os primeiros prédios de tijolos vermelhos surgiram à sua frente.
— Pare o carro aqui! — disse Hillel a Woody.
— Aqui?
— É, aqui! Pare!
Woody obedeceu e parou no acostamento. Os dois saíram e admiraram, pasmos, o campus da universidade diante deles. Entreolharam-se, riram de animação e se jogaram nos braços um do outro.
— Universidade de Madison! — exclamaram em uníssono. — Conseguimos, cara! Conseguimos!
Tudo sugeria que a amizade, mais forte que tudo, triunfara novamente e que, após o ano e meio que Hillel passara na escola especial, eles haviam escolhido Madison para se reunirem. A caminho da universidade combinaram de dividir o mesmo quarto, cursar as mesmas matérias, comerem e estudarem juntos. Porém, com o passar dos anos, acabei entendendo que a escolha de Madison fora feita por uma única e cruel razão. E essa razão os encontrou no gramado do campus, na primeira manhã de aula: Alexandra.
— Os Goldman! — exclamou ela, abraçando-os.
— Não esperava nos ver aqui, hein? — disse Hillel, sorrindo.
Ela riu.
— Vocês são bobos demais. Eu sabia muito bem que vinham para cá.
— Sério?
— Meu pai não para de falar de vocês. Viraram a mais nova obsessão dele.
Assim começou nossa vida universitária. E, como sempre, meus primos de Baltimore fizeram bonito.
Hillel deixou crescer uma barba incipiente que lhe caía muito bem: o garotinho magricela, o intelectual desagradável da escola de Oak Tree se transformou num belo rapaz, cheio de vivacidade e carisma, que se vestia bem e era admirado pela sua enorme inteligência e pela língua afiada. Rapidamente notado pelos professores, se tornou indispensável no conselho editorial do jornal da universidade.
Woody, mais viril do que nunca, transbordando força e testosterona, ficara tão lindo quanto um deus grego. Havia deixado o cabelo crescer um pouco e passara a penteá-lo para trás. Tinha um sorriso encantador, dentes brancos brilhantes e um corpo esculpido. Não me admiraria, no ápice de sua carreira de jogador de futebol americano, vê-lo em imensas propagandas de roupas ou de perfumes que são exibidas em alguns prédios de Manhattan.
Fui com frequência a Madison para assistir aos jogos de Woody, no que ainda se chamava Estádio BurgerShake, um local de trinta mil lugares, sempre lotado, onde eu ouvia dezenas de milhares de espectadores gritando o nome de Woody. A conivência entre os três, era evidente: estavam felizes e, posso confessar aqui, eu tinha ciúmes. Sentia saudade deles. A Gangue dos Goldman passou a ser formada por eles três e Madison era seu território. Meus primos haviam oferecido a Alexandra o terceiro lugar da Gangue dos Goldman, aquele terceiro posto que só anos mais tarde compreendi que não era permanente, no seio daquela Gangue de que eu mesmo fizera parte, de que Scott também fora membro, e que estava recebendo Alexandra de braços abertos.
* * *
No primeiro Dia de Ação de Graças subsequente ao nosso ingresso na universidade, em novembro de 1998, fiquei impressionado com a intimidade deles. Tive a impressão de que, em poucos meses, tudo mudara. Eu ainda sentia a mesma alegria ao encontrá-los, mas aquele orgulho de pertencer aos Baltimore, que, durante a infância, me mobilizava, dessa vez sumira. Até então, meus pais eram superados por tio Saul e tia Anita, e chegara a minha vez de ser humilhado pelos meus primos.
Woody, o viking invencível do estádio, estava se tornando a estrela do futebol americano, uma força irradiante. Hillel, por sua vez, escrevia para o jornal da faculdade e era muito requisitado. Um de seus professores, que era colaborador regular da New Yorker, propôs inclusive oferecer um texto de Hillel a essa prestigiosa revista. Eu os observava na magnífica mesa de Ação de Graças, naquela casa luxuosa, admirava sua soberba e podia adivinhar o destino deles: Hillel, o defensor das grandes causas, seria um advogado ainda mais ilustre que o pai, que, aliás, acreditava que o filho fosse ocupar o escritório vizinho, desde já reservado para ele. Goldman pai e filho, advogados associados. Woody se juntaria ao time de futebol americano do Baltimore Ravens, que fora fundado dois anos antes e já obtinha resultados excepcionais graças a uma notável campanha de recrutamento de jovens talentos. Tio Saul afirmava que tinha influência nas altas esferas — o que não surpreendeu ninguém —, garantindo que Woody seria levado em consideração. Imaginava-os dali a alguns anos, vizinhos em Oak Park, onde teriam comprado duas mansões magníficas e imponentes.
Minha mãe deve ter notado minha aflição e, quando estávamos prestes a passar para a sobremesa, se sentiu subitamente obrigada a me valorizar, declarando para todo mundo:
— Markie está escrevendo um livro!
Corei e supliquei para minha mãe se calar.
— Um livro sobre o quê? — perguntou tio Saul.
— Um romance — respondeu minha mãe.
— É só um projeto — balbuciei. — Vamos ver no que vai dar.
— Ele já escreveu alguns contos — prosseguiu minha mãe. — Textos excelentes. Dois foram publicados no jornal da universidade.
— Quero muito ler — exigiu tia Anita educadamente.
Minha mãe prometeu enviá-los, e eu a fiz jurar que se calasse. Tive a impressão de que Woody e Hillel estavam rindo. Eu me sentia um idiota com meus dois contos insípidos ao lado deles, que, na minha opinião, haviam se tornado semideuses, um misto de leão e águia, prontos para voar em direção ao sol, enquanto eu ainda era o mesmo adolescente sugestionável, a anos-luz da soberba deles.
Naquele ano, tive a impressão de que a qualidade da ceia de Ação de Graças estava superior à dos outros anos. Tio Saul parecia mais jovem. Tia Anita estava mais bonita. Será que essa era a realidade ou eu estava ocupado demais admirando todos eles para perceber que os Baltimore estavam prestes a se desintegrar? Meu tio, minha tia, meus dois primos: eu acreditava que eles estavam em perpétua ascensão, enquanto estavam em plena queda. Só compreendi isso anos mais tarde. Apesar de tudo o que eu tinha imaginado para eles, quando meus primos voltassem a Baltimore após se formar na faculdade, eles não se tornariam nem a nova excelência dos tribunais nem o astro do Ravens.
Como eu poderia imaginar o que aconteceria com eles?