O Livro dos Baltimore
Capítulo 34
Flórida.
Primavera de 2011.
De uma hora para outra, meu tio mudou de comportamento comigo. A princípio, parecia distante. A partir de março de 2011, começou a sair regularmente com Faith, a gerente do Whole Foods.
Antes de saber a verdade, achei que eles estavam tendo um caso. Com frequência ela ia buscá-lo em casa e saíam juntos. Ficavam fora por bastante tempo. Às vezes o dia inteiro. Tio Saul não me esclarecia aonde iam, e eu não queria fazer perguntas. Ele voltava quase sempre de mau humor de suas escapadas, e eu me perguntava o que afinal estava acontecendo entre os dois.
Logo tive a desagradável impressão de que algo mudara. Por alguma razão que eu ignorava, Coconut Grove não era mais aquele oásis de tranquilidade que eu conhecera. Em casa, observei que tio Saul perdia a paciência com facilidade, o que não era do seu feitio.
Nem no supermercado as coisas eram como antes. Sycomorus, que tivera sua participação em Cante! rejeitada, estava deprimido desde que recebera a carta da produção comunicando seu fracasso. Certo dia, tentando melhorar seu astral, eu lhe disse:
— Isso é só o início. Você precisa lutar pelos seus sonhos, Syc.
— É muito cansativo. Los Angeles está lotada de atores e cantores que querem vencer. Tenho a impressão de que nunca vou conseguir.
— Descubra o que torna você diferente.
Ele deu de ombros.
— No fundo, tudo o que eu quero é ser famoso.
— Você quer ser cantor ou quer ser famoso? — perguntei.
— Quero ser um cantor famoso.
— E se pudesse ser só um dos dois?
— Então eu queria ser conhecido.
— Por quê?
— É bom ser famoso. Não é?
— A celebridade é só uma roupa, Sycomorus. Uma roupa no fim se torna muito justa, muito usada ou acaba sendo roubada de você. O que conta, acima de tudo, é o que você é quando está nu.
O clima era lúgubre. Quando eu ia encontrar tio Saul durante seu intervalo de descanso no banco em frente à loja, ele estava taciturno e pensativo. Passei a ir ao Whole Foods um dia sim, um dia não, e depois uma vez a três dias. No fundo, Faith era a única pessoa que fazia tio Saul sorrir. Ele lhe dedicava inúmeras gentilezas: lhe dava flores, levava mangas de seu quintal, inclusive a convidou para jantar em sua casa. Para recebê-la, pôs uma gravata, o que eu não o via fazer havia anos. Eu me lembro de que em Baltimore ele tinha uma coleção impressionante de gravatas, que desparecera após Coconut Grove.
Fiquei um pouco desestabilizado com a intromissão de Faith na dupla que eu formava com meu tio. Inclusive, acabei me perguntando se eu estava com ciúmes dela, sendo que deveria ter me alegrado porque meu tio encontrara alguém para distraí-lo de sua vida monótona. Cheguei a desconfiar das razões das temporadas que eu passava na Flórida. Eu estava ali por amor ao meu tio ou para lhe mostrar que seu sobrinho de Montclair o ultrapassara?
Certo domingo, enquanto ele lia na sala e eu me preparava para dar uma volta em Miami a fim de deixá-lo namorar em paz, perguntei:
— Não vai encontrar Faith hoje?
— Não.
Não comentei mais nada.
— Markie — disse ele, por fim —, não é o que você está pensando.
— Não estou pensando nada.
* * *
Quando, pela primeira vez, ele colocou uma barreira entre nós dois, achei que era por causa de todas as perguntas que eu fazia e o irritavam. Isso aconteceu certa noite, depois do jantar, enquanto passeávamos sossegadamente pelas ruas tranquilas de Coconut Grove, como costumávamos fazer. Eu lhe disse:
— Vovó me contou sobre sua briga com vovô. Foi por causa disso que você veio para Baltimore?
— Minha universidade era filiada à de Baltimore. Eu me matriculei no curso de direito. Achei que era uma boa formação. Depois passei no exame da ordem de Maryland e comecei a trabalhar em Baltimore. E as coisas passaram a dar certo para mim como advogado.
— E você não encontrou mais o vovô?
— Não por mais de doze anos. Mas sua avó veio me visitar várias vezes.
* * *
Tio Saul me contou como, durante anos, uma vez por mês, vovó Ruth saía em segredo de Nova Jersey para ir a Baltimore passar o dia e almoçar com ele.
Em 1974, fazia um ano que tio Saul e vovô haviam deixado de se falar.
— Como vai, querido? — perguntou vovó.
— Vou bem. O curso de direito é ótimo.
— Então vai ser advogado?
— É, acho que sim.
— Isso poderia ser útil para a empresa…
— Mamãe, não vamos falar sobre isso, por favor.
— Como vai Anita?
— Bem. Queria nos encontrar, mas tem prova amanhã e precisa estudar.
— Gosto muito dela, você sabe…
— Eu sei, mamãe.
— Seu pai também.
— Pare. Não vamos falar sobre ele, por favor.
* * *
Em 1977, fazia quatro anos que tio Saul e meu avô haviam deixado de se falar. Tio Saul terminava sua especialização e se preparava para trabalhar como advogado no tribunal. Instalara-se com tia Anita num pequeno apartamento no subúrbio de Baltimore.
— Você é feliz aqui? — perguntou minha avó.
— Sou.
— E você, Anita, está bem?
— Estou, sim, Sra. Goldman, obrigada. Terminei minha residência em medicina.
— Ela já recebeu uma oferta de emprego do Hospital Johns Hopkins — disse tio Saul cheio de orgulho. — Falaram que a querem de qualquer jeito.
— Ah, Anita, isso é ótimo! Estou muito orgulhosa de você.
— Como vão as coisas em Secaucus? — indagou Anita.
— Saul faz muita falta ao pai.
— Faço falta? — perguntou tio Saul, irritado. — Foi ele quem me colocou para fora.
— Ele colocou você para fora ou você foi embora? Converse com ele, Saul. Façam as pazes, por favor.
Ele deu de ombros e mudou de assunto:
— Como está a empresa?
— Está bem. Seu irmão tem cada vez mais responsabilidades.
* * *
Em 1978, fazia cinco anos que tio Saul e meu avô haviam deixado de se falar. Tio Saul estava saindo do escritório de advocacia onde trabalhava para abrir o próprio. Anita e ele se mudaram para um pequeno condomínio em um bairro residencial de classe média.
— Seu irmão se tornou diretor da Goldman & Cia. — disse minha avó.
— Bom para ele. Foi o que papai sempre quis, de toda forma. Nathan sempre foi o preferido dele.
— Não diga besteira, Saul. Não é tarde para voltar… Seu pai ficaria muito…
Ele a interrompeu:
— Chega, mamãe. Vamos falar sobre outra coisa, por favor.
— Seu irmão vai se casar.
— Eu sei. Ele me disse.
— Pelo menos vocês dois mantêm contato. Vai ao casamento dele, não é?
— Não, mamãe.
* * *
Em 1979, fazia seis anos que tio Saul e meu avô haviam deixado de se falar.
— Seu irmão e a esposa estão esperando um filho.
Saul sorriu e se virou para Anita, sentada ao seu lado.
— Mãe, Anita está grávida…
— Ah, Saul, meu querido!
* * *
Em 1980, fazia sete anos que tio Saul e vovô haviam deixado de se falar. Com poucos meses de intervalo, Hillel e eu nascemos.
— Veja, é seu sobrinho Marcus — disse minha avó, pegando uma foto na bolsa.
— Nathan e Deborah vêm aqui na próxima semana. Vamos finalmente conhecer esse rapazinho. Estou feliz.
— Você vai conhecer seu primo Marcus — disse Anita a Hillel, que dormia no carrinho. — Você tem um filho agora, Saul, está na hora de colocar um ponto final nessa história com seu pai.
* * *
Em 1984, fazia mais de dez anos que tio Saul e meu avô haviam deixado de se falar.
— O que está comendo, Hillel?
— Batata frita, vovó.
— Você é o garoto mais bonitinho que eu conheço.
— Como vai o papai? — perguntou Saul.
— Não está muito bem. A empresa vai mal. Seu pai está arrasado, disse que estão afundando.
* * *
Em 1985, fazia doze anos que tio Saul e meu avô haviam deixado de se falar. A Goldman & Cia. estava à beira da falência. Meu pai preparara um plano de resgate que consistia em vender a empresa. Precisava de ajuda para concretizá-lo e foi até Baltimore procurar seu irmão mais velho, que havia se tornado um advogado especializado em fusões e aquisições.
Vinte e cinco anos mais tarde, enquanto passeávamos por Coconut Grove, tio Saul me contou como, certa noite de maio de 1985, todos os três se encontraram no prédio de tijolos vermelhos da Goldman & Cia., no estado de Nova York. A fábrica estava deserta e imersa na penumbra. Apenas o escritório do meu avô estava aceso, e a luz esquadrinhava seus livros-razão. Meu pai empurrou a porta e disse, baixinho:
— Papai, trouxe uma pessoa para nos ajudar.
Quando meu avô viu tio Saul na soleira da porta, desatou a chorar, se jogou nos braços dele e o abraçou bruscamente. Passaram os dias seguintes no escritório da empresa aprimorando o plano de resgate. Durante esse período, tio Saul não saiu do estado de Nova York, indo e voltando do hotel para a empresa, sem atravessar a fronteira de Nova Jersey nem voltar à casa de sua infância.
* * *
Terminado o relato de tio Saul, voltamos para casa em silêncio. Meu tio pegou duas garrafas d’água na geladeira e bebemos no balcão da cozinha.
— Marcus — disse ele —, acho que eu queria que você me deixasse sozinho um pouco.
Não entendi de imediato.
— Agora, você quer dizer?
— Quero que volte para Nova York. Gosto muito da sua companhia, não me entenda mal. Mas preciso ficar um pouco sozinho.
— Está bravo comigo?
— Não, de jeito nenhum. Só quero ficar um pouco sozinho.
— Vou embora amanhã.
— Obrigado.
Bem cedo na manhã seguinte, coloquei a mala no bagageiro do carro, dei um beijo em meu tio e voltei para Nova York.
* * *
A maneira como tio Saul me expulsou de sua casa me deixou encucado. Aproveitei para retornar a Nova York e passar um tempo com meus pais. Certo dia de junho de 2011, levei minha mãe para almoçar no restaurante de Montclair onde ela gostava de ir e conversamos sobre os Baltimore. Ficamos numa mesa na varanda, fazia um dia magnífico, e minha mãe disse de repente:
— Markie, sobre o próximo Dia de Ação de Graças…
— Ainda faltam cinco meses, mãe. Não é um pouco cedo para falar sobre isso?
— Eu sei, mas seu pai e eu gostaríamos muito de estar com você nesse dia. Faz muito tempo que não nos reunimos para comemorar o Dia de Ação de Graças…
— Não comemoro mais o Dia de Ação de Graças, mãe…
— Ah, Markie, fico mal quando ouço você dizer essas coisas! Precisa viver mais no presente e menos no passado.
— Sinto saudade dos Goldman-de-Baltimore, mãe…
Ela sorriu.
— Fazia tempo que eu não ouvia a expressão Goldman-de-Baltimore. Também sinto saudade deles.
— Mãe, não leve a mal minha pergunta, mas você sentia inveja deles?
— Eu tinha você, meu querido, o que mais poderia me faltar?
— Eu estava pensando naquelas férias em Miami, na casa do vovô e da vovó, quando tio Saul ficava com o quarto e papai e você eram obrigados a dormir no sofá.
Ela caiu na gargalhada.
— Seu pai e eu nunca nos incomodamos em dormir na sala de televisão. Como você sabe, foi seu tio quem comprou o apartamento dos seus avós, e achávamos perfeitamente normal que ele dormisse no quarto mais confortável. Todas as vezes, antes de ir, seu pai ligava para o seu avô recomendando que nos deixasse com a sala de televisão e colocasse Saul e Anita no quarto de hóspedes. E seu avô sempre respondia que Saul já telefonara pedindo que ele parasse de fazer o irmão dormir na sala de televisão e o deixasse com o quarto menos confortável. Seu pai e seu tio acabavam tirando na sorte. Eu me lembro de uma vez que os Baltimore haviam chegado antes de nós à Flórida e Saul e Anita já tinham se acomodado na sala de televisão. Ao contrário do que você pensa, nem sempre éramos seu pai e eu que dormíamos lá.
— Sabe, cansei de me perguntar se também poderíamos ter nos tornado os Baltimore…
— Somos os Montclair. E será sempre assim. Por que mudar? As pessoas são diferentes, Markie, e talvez a felicidade seja isto: vivermos em paz com o que somos.
— Você tem razão, mãe.
Achei que o assunto estava encerrado. Falamos sobre outras coisas, e, após terminar o almoço, fui deixar minha mãe em casa. Quando estávamos chegando, ela me pediu:
— Estacione um pouco, Markie, por favor.
Obedeci.
— Está tudo bem, mãe?
Ela me encarou como nunca fizera.
— Poderíamos, sim, ter sido os Baltimore, Markie.
— O que você quer dizer?
— Marcus, tem uma coisa que você não sabe. Quando você era bem pequeno, seu avô foi obrigado a vender a empresa, que estava indo mal…
— Eu sei disso.
— O que você não sabe é que, naquele momento, seu pai cometeu um erro pelo qual se culpou durante muito tempo…
— Acho que não estou entendendo, mãe…
— Markie, em 1985, quando a empresa foi vendida, seu pai não seguiu os conselhos de Saul. Ele perdeu a oportunidade de ganhar muito dinheiro.
Por bastante tempo, acreditei que a barreira entre os Montclair e os Baltimore se formara por causa dos imprevistos da vida. Na realidade, surgira numa única noite, ou quase isso.