O Livro dos Baltimore
Capítulo 27
No início de setembro de 2001, Luke foi condenado a três anos de prisão no estado de Nova York. Foi uma libertação para Colleen, que, ao mesmo tempo, entrou com um pedido de divórcio. Ela podia voltar tranquilamente para Madison.
Esse momento coincidia com o início do nosso quarto e último ano na faculdade. Aquele durante o qual o estádio BurgerShake de Madison se tornou estádio Saul Goldman.
Eu me lembro da cerimônia da mudança de nome, que aconteceu no sábado, 8 de setembro, e à qual assisti. Tio Saul estava radiante. Os melhores alunos da universidade estavam presentes. Uma cortina cobria as letras de metal maciço e, após o discurso do reitor, tio Saul puxou um barbante, que a soltou, revelando a nova identidade do local. Por uma razão que desconheço, a única pessoa ausente nesse dia foi tia Anita.
Alguns dias depois, Nova York sofreu os atentados de 11 de Setembro. Madison, como o restante do país, ficou em choque e foi um pouco o sucesso do Titans que levou os moradores a se afastarem da televisão e retornarem ao estádio.
* * *
Foi o começo de uma temporada excepcional para Woody. Ele estava em sua melhor forma. Naquele momento, nada prenunciava o que iria acontecer. Aquele ano devia ser o da consagração esportiva do Titans. Woody era uma fúria em campo. A temporada mal começara e a equipe de Madison já acabava com as estatísticas e emendava uma vitória atrás da outra, esmagando um a um os adversários. Suas atuações atraíam um público enorme, as partidas eram jogadas com o estádio lotado, e a cidade de Madison lucrava muito com isso: os restaurantes estavam sempre cheios; nas lojas, as camisas com as cores da equipe e as bandeiras eram disputadas. Um vento de loucura soprava na região: tudo indicava que naquele ano o Titans venceria o campeonato universitário.
Colleen estava entre as admiradoras de Woody e passou a se exibir orgulhosamente ao seu lado em Madison. Quando podia, fechava o posto de gasolina um pouco mais cedo e ia assistir aos treinos. Quando ele tinha tempo livre, a ajudava no trabalho. Arrumava o estoque, às vezes cuidava dos carros dos clientes, que diziam: “Se eu soubesse que era um campeão do futebol que encheria meu tanque hoje…”
Woody se tornou não apenas o ídolo de todos os alunos, mas também o queridinho da cidade de Madison, e a lanchonete chegava a oferecer no cardápio um hambúrguer com seu nome: o Woody. Era um sanduíche de quatro andares, com pão e carne suficiente para que nem sequer um guloso conseguisse devorá-lo. Quem fosse capaz, não pagava e ainda ganhava de brinde uma foto polaroide, que era imediatamente afixada na parede sob os gritos de comemoração dos outros clientes. E o dono do estabelecimento repetia orgulhosamente comentários sobre o hambúrguer: “Esse Woody é como o nosso Woody: ninguém pode com ele.”
Em Baltimore, por ocasião do jantar de Ação de Graças, Woody pediu a aprovação da família para mudar o nome em sua camisa de jogador e estampar “Goldman”. Todo mundo ficou totalmente animado e comovido. Pela primeira vez, ele nos transcendia: graças a ele, não éramos mais Montclair ou Baltimore, éramos Goldman. Finalmente estávamos reunidos sob a mesma bandeira.
Uma semana mais tarde, o Madison Daily Star, o jornal da cidade de Madison, publicou uma reportagem sobre os Baltimore, contando a história de Woody, Hillel, tia Anita e tio Saul, com uma foto dos quatro, sorridentes e felizes, segurando a camisa de Woody com o nome Goldman estampado.
* * *
Enquanto todos os olhares estavam voltados para Woody, que se aproximava da glória esportiva, em Baltimore tio Saul e tia Anita mergulhavam lentamente na sombra, sem que ninguém percebesse.
Primeiro, tio Saul perdeu um processo muito importante, no qual trabalhava havia muitos anos. Ele defendera a causa de uma mulher que processava uma empresa de plano de saúde por se recusar a pagar o tratamento médico de seu pai diabético, que acabara falecendo. Tio Saul reivindicava para ela milhões em perdas e danos. O pleito foi rejeitado.
Em seguida, o clima ficou pesado entre ele e tia Anita. A princípio, ela quis saber sobre a enorme quantia que ele doara à Universidade de Madison para que o estádio ganhasse seu nome. Ele insistiu que não era grande coisa, que se entendera com o reitor. Ela não acreditou. O marido estava se comportando de maneira estranha. Afagar o próprio ego não era algo típico dele. Ela sabia que Saul era generoso, sempre solícito com os outros. Servia sopa para os pobres, nunca passava por um morador de rua sem dar alguma coisa. Mas nunca comentava sobre o assunto. Nunca se gabava. Era modesto, humilde, e por isso ela o amava. Quem era aquele homem que de repente quis ter seu nome num estádio de futebol?
Tia Anita começou a fazer o que nunca fizera em toda a sua vida em comum com o marido: revistou a escrivaninha dele, fuçou seus processos, leu sua correspondência e seus e-mails. Precisava descobrir a verdade. Como não encontrou nada em casa, aproveitou quando ele estava no tribunal para passar em seu escritório e se trancou ali sob um pretexto qualquer. Encontrou seus arquivos de contabilidade pessoal e, por fim, descobriu a verdade: tio Saul prometera seis milhões de dólares à Universidade de Madison. A princípio, ela não acreditou. Teve que reler os documentos várias vezes. Como seu marido pudera fazer algo do tipo? Por quê? E, sobretudo, com que dinheiro? O que ele estava escondendo dela? Anita teve a impressão de estar vivendo um pesadelo. Esperou o marido aparecer no escritório para exigir uma explicação, mas ele reagiu à sua descoberta com uma tranquilidade exagerada:
— Você não deve bisbilhotar minhas coisas. Principalmente aqui. São questões de sigilo profissional.
— Não tente desconversar, Saul. Seis milhões de dólares! Você prometeu seis milhões de dólares? De onde tirou todo esse dinheiro?
— Isso não é da sua conta!
— Você é meu marido, Saul! Como não é da minha conta?
— Você não entenderia.
— Fale, Saul, estou implorando. Onde arranjou todo esse dinheiro? O que está escondendo de mim? Por acaso você tem alguma ligação com o crime organizado?
Ele caiu na gargalhada.
— De onde tirou isso? Agora me deixe sozinho, por favor. Já é tarde e ainda tenho que trabalhar.
* * *
Não percebi nada do que estava acontecendo. Quando eu não estava na faculdade, ficava com Alexandra. Eu era extremamente feliz ao seu lado. Ela me conhecia melhor do que ninguém, me compreendia melhor do que ninguém. Era capaz de ler meus pensamentos, adivinhar o que eu ia dizer antes de abrir a boca.
Já fazia um ano que ela se formara na universidade e tentava entrar no mundo da música, mas sua carreira não deslanchava. Eu não gostava muito do produtor com quem ela passara a trabalhar. Eu achava que ele estava mais preocupado em promover a imagem dela do que a música. Ele afirmava que as coisas estavam correlacionadas, mas eu não concordava. Ainda mais considerando o talento de Alexandra. Tentei lhe dizer isso, tentei forçá-la a escutar a si mesma antes de qualquer coisa. Suas composições eram excelentes: seu produtor, em vez de ajudá-la a ir em frente, perdia tempo freando sua criatividade para encaixá-la num molde pré-fabricado, supostamente do agrado da maioria. Estrutura: introdução, estrofe, refrão, segunda estrofe, refrão, transição, pré-refrão, refrão final. O primeiro refrão durava um minuto. Os produtores cometiam com a música o mesmo sacrilégio que cometiam com livros e filmes: eles a pasteurizavam.
Às vezes ela era derrotada pelo desânimo. Repetia que não chegaria a lugar algum. Que era melhor desistir. Eu tentava animá-la: saía da faculdade e ia passar a noite em Nova York. Em geral, eu a encontrava triste, confinada no quarto. Eu a incentivava a mudar, a pegar seu violão, e a levava para tocar no palco de um bar. Todas as vezes era a mesma coisa: ela arrebatava o público. Os aplausos entusiasmados no encerramento da sua apresentação melhoravam seu humor. Ela saía radiante do palco. Íamos jantar. E ela estava novamente feliz. Voltava a ser aquela tagarela que eu tanto amava. Deixara a tristeza de lado.
O mundo nos pertencia.
* * *
Eu viajava quase todos os fins de semana para Madison com o intuito de ver Woody jogar. Nas arquibancadas do estádio Saul Goldman, eu me juntava ao grupo de torcedores privilegiados: tio Saul, tia Anita, Patrick Neville, Hillel, Alexandra e Colleen.
Após aquela série de vitórias, começou a circular um boato: os olheiros das maiores equipes da NFL vinham observando Woody nas últimas semanas. Patrick revelou que representantes do Giants apareceriam. Tio Saul garantiu que os executivos do Ravens acompanhavam atentamente o Titans. Nas noites de jogo, da arquibancada do estádio Saul Goldman, Hillel tentava identificar os olheiros e depois corria até o vestiário para informar Woody.
— Woody, vi pelo menos um! — exclamou ele certa noite. — Estava fazendo anotações, pendurado no celular. Eu o segui até o estacionamento… o carro tinha placa de Massachusetts. Você sabe o que isso quer dizer, não é?
— O New England Patriots? — perguntou Woody, sem se atrever a acreditar.
— O New England Patriots, cara! — exultou Hillel.
Sob a comemoração dos outros jogadores, que trocavam de roupa, eles se abraçaram.
Em duas ocasiões, ao fim de uma partida vitoriosa, tio Saul e tia Anita foram diretamente abordados por olheiros de equipes renomadas. Na noite em que o Titans atropelou o Cleveland Cougars — a outra equipe invicta do campeonato naquela temporada e que fora campeã no ano anterior —, Patrick Neville foi atrás de Woody no vestiário junto do olheiro do New England Patriots, notado semanas antes por Hillel. O homem entregou seu cartão a Woody e lhe disse:
— Mocinho, o Patriots ficaria muito feliz de contar com você em nossas linhas.
— Ai, meu Deus! Obrigado, senhor — respondeu Woody. — Não sei o que dizer. Preciso falar com Hillel.
— Hillel é seu agente? — perguntou o olheiro.
— Não, Hillel é meu amigo. Na verdade, não tenho um agente.
— Posso ser seu agente — ofereceu Patrick espontaneamente. — Sempre sonhei em fazer isso.
— Mas é claro — respondeu Woody. — Você faria isso?
— Óbvio que sim.
— Então vou deixar você negociar com meu agente — disse Woody, sorrindo.
O olheiro apertou calorosamente a mão dele.
— Boa sorte, rapaz. Tudo o que você precisa fazer é ganhar esse campeonato. Nós nos vemos na NFL.
Naquela noite, contrariando seus hábitos, Hillel e Woody não comemoraram a vitória com o restante da equipe. Trancados em seu quarto com Patrick, que estava levando muito a sério seu novo papel de agente, discutiram as possibilidades que surgiam para Woody.
— Temos que tentar assinar uma opção antes do fim do ano — disse Patrick. — Se for campeão, isso não vai ser nada difícil para você.
— Na sua opinião, estamos falando de uma primeira oferta de quanto? — perguntou Hillel.
— Depende. Mas no mês passado o Patriots ofereceu sete milhões de dólares a um jogador universitário.
— Sete milhões de dólares? — balbuciou Woody.
— Sete milhões de dólares — repetiu Patrick. — E, acredite em mim, garoto, você não vale menos. E se não for esse ano, será ano que vem. Sua carreira não me preocupa.
Depois que Patrick foi embora, Woody e Hillel ficaram acordados a noite toda. Deitados na cama, com os olhos arregalados, estavam zonzos com o possível valor do contrato.
— O que você vai fazer com toda essa grana? — perguntou Hillel.
— Vamos dividir. Metade para você, metade para mim.
Hillel sorriu.
— Por que você faria isso?
— Porque você é como se fosse meu irmão, e irmãos dividem tudo.
* * *
No começo de dezembro de 2001, quando tinham acabado de chegar às semifinais do campeonato, o Titans foi submetido a um controle antidoping pela Liga de Futebol Americano.
Uma semana mais tarde, Woody não apareceu na aula de economia depois do treino de manhã. Hillel tentou em vão falar com ele pelo celular. Decidiu ir até o estádio, mas, enquanto atravessava o campus, viu o Chevrolet Yukon preto de Patrick Neville estacionando em frente ao prédio da administração. Hillel entendeu que alguma coisa acontecera. Correu até Patrick.
— O que houve, Patrick?
— Woody não lhe contou?
— O que ele deveria ter me contado?
— Ele foi pego no teste antidoping.
— O quê?
— Esse imbecil se dopou.
— Patrick, isso é impossível!
Hillel seguiu Patrick até a sala do reitor. Lá dentro, além deste último, estava Woody, prostrado numa cadeira e, em frente a ele, um representante da Liga Universitária de Futebol Americano.
Ao ver Patrick entrar, Woody se levantou da cadeira com uma expressão de súplica.
— Não estou entendendo, Patrick! — exclamou ele. — Juro que não tomei nada!
— O que está acontecendo? — interrogou Patrick.
O reitor apresentou Patrick ao representante da Liga como sendo o agente de Woody, depois lhe pediu para resumir a situação.
— O teste de Woodrow deu positivo para pentazocina. A prova e as contraprovas deram resultados idênticos. Isso é muito sério. A pentazocina é um derivado da morfina, uma substância estritamente proibida pela Liga.
— Mas eu não tomei nada! — gritou Woody. — Juro! Por que eu faria uma coisa dessas?
— Woody, pare com esse teatro, por favor! — exigiu o representante. — Sua performance era boa demais para ser verdadeira.
— Peguei um resfriado recentemente e o médico me passou algumas vitaminas. Tomei o que ele receitou. Por que eu teria tomado essa merda?
— Porque você se lesionou.
Houve um breve silêncio.
— Quem lhe contou isso? — perguntou Woody.
— O médico do time. Você teve uma tendinite no braço. E rompeu um ligamento do ombro.
— Eu me envolvi numa briga na primavera passada. Fui espancado por policiais! Mas isso tem pelo menos oito meses!
— Pode me poupar das suas mentiras, Woody — interrompeu o homem.
— É verdade, juro!
— Ah, é? Você não foi vítima de um excesso de treinos durante o verão? Tenho um relatório do médico do time afirmando que, depois de dores incessantes, ele pediu uma ressonância do seu braço que revelou uma tendinite relativamente grave, o que ocorreu, segundo ele, devido a um excesso de esforços repetitivos.
Woody se sentiu acuado. Seus olhos ficaram marejados.
— É verdade, o médico queria que eu desse um tempo — explicou ele. — Mas eu me sentia em condições de jogar. Conheço meu corpo! Eu ia me tratar depois do campeonato. Acha que eu teria feito a estupidez de me dopar logo antes das semifinais?
— Acho — respondeu o representante da Liga. — Porque você estava muito mal para jogar sem um anestésico. Acho que você tomou Talacen para poder jogar. Todo mundo sabe que é um medicamento eficaz e os vestígios desaparecem rapidamente do sangue. Acho que você sabia perfeitamente disso e pensou que se interrompesse um pouco as doses antes da final do campeonato não encontraríamos nada no teste antidoping. Por acaso estou enganado?
Houve um longo silêncio.
— Woody, você tomou essa merda? — perguntou Patrick, por fim.
— Não! Juro! O médico deve ter se enganado quando fiquei doente!
— O médico não receitou Talacen para você, Woodrow — respondeu o representante. — Nós verificamos. Eram vitaminas.
— Então foi o farmacêutico ao pegar os comprimidos!
— Chega, Woodrow! — ordenou o reitor. — Você desonrou esta universidade.
Pegou na estante um porta-retratos com a capa da revista da faculdade que estampava o rosto de Woody e a jogou no lixo.
Patrick Neville se virou para o reitor.
— O que vai acontecer agora?
— Vamos conversar. Mas você entende que é uma situação extremamente séria. Para esse tipo de caso, o regulamento da Liga prevê a suspensão do jogador; e o regulamento de Madison, a expulsão da universidade.
— Você já assinou com o New England Patriots? — perguntou o representante.
— Não.
— Melhor assim, porque se houvesse assinado eles poderiam exigir uma indenização por dano à sua imagem. — Após um silêncio opressivo, o representante prosseguiu: — Sr. Neville, conversei bastante com o reitor. Isso pode manchar não só a reputação de Madison, mas também a do campeonato. Todo mundo assistiu às proezas de Woody. Se o público souber que ele se dopou, todos nós sofreremos um imenso prejuízo e queremos evitar a todo custo uma situação dessas. Mas não podemos fechar os olhos…
— O que sugere, então?
— Um acordo aceitável para todos. Diga que Woody se machucou. Sofreu uma lesão grave que vai obrigá-lo a parar de jogar. Em troca, a Liga não levará a investigação adiante e a reputação de Madison continuará intacta. Isso significa que o conselho de disciplina da universidade não terá que se debruçar sobre o caso de Woodrow e ele poderá terminar seus estudos aqui.
— Lesionado por quanto tempo?
— Para sempre.
— Se ele não jogar mais, nenhum clube da NFL vai querê-lo.
— Sr. Neville, acho que não compreendeu a gravidade da situação. Se vocês recusarem, abriremos um processo disciplinar e todo mundo vai saber. Em caso de processo disciplinar, Woody será expulso do time e certamente da universidade também. Vocês poderiam recorrer, mas perderiam, porque os testes são categóricos. Estou oferecendo a oportunidade de enterrar toda essa história agora. Uma mão lava a outra. A reputação do Titans é salva e Woody termina o curso.
— Mas a carreira dele no futebol americano estará encerrada — disse Patrick.
— Sim. Se esse acordo lhe parecer aceitável, dou vinte e quatro horas para você convocar uma entrevista coletiva e anunciar que Woody sofreu uma lesão no treino e nunca mais jogará futebol americano.
O representante saiu da sala. Woody apoiou a cabeça nas mãos, mudo de aflição. Patrick e Hillel se isolaram.
— Patrick — disse Hillel —, deve haver alguma coisa que a gente possa fazer! Que história maluca!
— Hillel, ele nunca deveria ter tomado Talacen.
— Mas ele nunca tomou essa merda!
— Hillel, duvido que o farmacêutico tenha se enganado na hora de lhe dar as vitaminas. E as lesões foram constatadas.
— Então vamos admitir que ele tomou Talacen, afinal não passa de um anestésico!
— É um produto proibido pela Liga.
— Podemos entrar com recurso!
— Você ouviu: ele vai perder. Sei disso e você também. Ele só tem uma chance para salvar seu lugar na faculdade. Se entrar com recurso, o caso do doping se tornará público. Ele vai perder tudo: a universidade vai expulsá-lo e nenhuma outra aceitará matriculá-lo. Ele é um garoto muito talentoso, precisa terminar os estudos. Pelo menos, com esse acordo, ele se salva.
Nesse instante, Woody saiu da sala e parou diante de Hillel e Patrick. Enxugando as lágrimas com o dorso do braço, disse:
— Não vamos entrar com recurso. Não quero que isso seja divulgado. Não quero que Saul e Anita saibam de nada. Eu ficaria muito envergonhado se eles soubessem a verdade. Uso Goldman na camisa. Não vou mais manchar esse nome.
Patrick convocou uma entrevista coletiva para o dia seguinte.
Senhoras e senhores, fui encarregado de lhes comunicar sobre uma fatalidade
para a Universidade de Madison e a equipe do Titans. Nosso promissor
capitão, Woodrow Finn, se lesionou gravemente durante um treino individual na
sala de musculação. Ele rompeu os ligamentos do ombro e do braço e
provavelmente não poderá mais jogar futebol americano. Um novo capitão será
nomeado para o seu lugar. Desejamos a Woody uma pronta recuperação e
nossos melhores votos para a reestruturação de sua carreira.
A pedido de Woody, guardamos segredo. Além de Patrick Neville, os únicos que ficaram sabendo a verdade sobre o fim de sua carreira no futebol americano foram Hillel, Alexandra, Colleen e eu.
No dia da entrevista coletiva, tia Anita e tio Saul correram para Madison, onde ficaram durante alguns dias. Ignorando as verdadeiras razões da aposentadoria precoce de Woody, cismaram que precisavam cuidar dele. “Vamos reerguê-lo”, prometeu tio Saul. Woody argumentava que sentia muitas dores para voltar a jogar algum dia. Tia Anita insistiu para que fizessem radiografias, as quais revelaram lesões graves: os ligamentos do braço e do ombro estavam terrivelmente comprometidos, e uma ressonância magnética apontou inclusive para o início de um rompimento.
— Woody, meu anjo, como você conseguiu jogar nesse estado? — perguntou tia Anita, espantada.
— Por isso não jogo mais.
— Não sou especialista — disse ela —, vou pedir conselhos aos meus colegas no Hospital Johns Hopkins. Mas não acho que é irreversível. Temos que acreditar nisso, Woody!
— Não acredito mais. Perdi a vontade.
— O que está acontecendo, querido? — perguntou tio Saul, inquieto. — Você parece muito deprimido. Mesmo que tenha de parar por alguns meses, ainda temos a esperança de que algum clube te contrate.
* * *
Embora tenha confessado que sua lesão ocorreu durante um treino no verão, Woody jurou para nós que nunca havia tomado Talacen. Porém, os resultados das radiografias indicavam que ele não teria condições de jogar sem anestésico. Para ele, a única explicação possível era que o médico da equipe teria misturado as substâncias ao receitar as vitaminas para curar sua gripe.
— A história dele não se sustenta — falei a Alexandra. — Mal consegue segurar um garfo à mesa. Fico me perguntando se ele não tomou Talacen por conta própria.
— Por que mentiria para a gente?
— Talvez porque não assuma.
Ela fez uma careta.
— Duvido.
— Claro que você duvida! Aceita tudo o que ele fala! Não para de mimá-lo!
— Por acaso está com ciúmes dele, Markie?
Imediatamente me arrependi do que acabara de dizer.
— Não, de jeito nenhum — respondi, num tom inseguro.
— Markikette, juro que no dia em que perder sete milhões de dólares e uma carreira de jogador profissional por causa de um médico maluco que confundiu os remédios você terá direito a uma atenção pelo menos tão grande quanto a que estou dedicando a Woody.
* * *
Woody nunca terminou seus estudos.
Durante as férias de inverno, depois da sua expulsão do Titans, Hillel e eu tentamos animá-lo um pouco, sem muito sucesso. Na volta às aulas, deprimido, ele foi para Madison e não conseguiu transpor os limites do campus. Parou o carro assim que surgiram os primeiros prédios.
— O que está fazendo? — perguntou Hillel, que estava no carro com ele.
— Não consigo…
— Não consegue o quê?
— Tudo isso… — murmurou, indicando com a mão o estádio Saul Goldman que surgia diante dele.
Saiu do carro.
— Vá na frente — disse ele a Hillel. — Já vou. Preciso caminhar um pouco.
Hillel obedeceu, sem entender direito. Woody não apareceu. Ele precisava de amor e ternura. Andou até o posto de gasolina e procurou refúgio com Colleen. Não se separou mais dela. Acomodou-se em sua casa e ocupou seus dias trabalhando com ela no posto. Ela passou a ser a razão de sua presença em Madison. Se não fosse ela, teria fugido para bem longe.
Hillel ia visitá-lo todos os dias. Levava um resumo das aulas e tentava fazer com que Woody não abandonasse tudo tão perto do seu objetivo.
— Woody, faltam poucos meses para você terminar a faculdade. Não desperdice essa chance…
— Não tenho mais ânimo, Hill. Não acredito mais em mim. Não acredito mais em nada.
— Woody… você se dopou?
— Não, Hillel. Juro. É por isso que não quero mais voltar para aquela universidade de mentirosos. Não quero mais nada deles. Eles me destruíram.
* * *
Algumas semanas mais tarde, na quinta-feira, 14 de fevereiro de 2002, Woody decidiu ir pela última vez à faculdade para pegar suas coisas no quarto que dividira com Hillel.
Colleen emprestou seu carro e, assim que anoiteceu, ele foi até o campus. Tentara encontrar Hillel, mas não conseguira. Sem dúvida, estava estudando na biblioteca.
Bateu à porta do seu antigo quarto. Nenhuma resposta. Ele ainda tinha a chave: pegou-a no bolso, girou-a na fechadura e abriu. Estava vazio.
De repente se sentiu nostálgico. Ele se sentou em sua cama e contemplou o quarto. Depois fechou os olhos por um instante: se imaginou mais uma vez no campus, num dia de sol forte, passeando com Hillel e Alexandra, atraindo os olhares de todos. Após o momento de devaneio, abriu a grande mochila que trouxera e começou a guardar seus pertences, alguns livros, porta-retratos, um abajur de que ele gostava e que trouxera de Oak Park, seus tênis de corrida. Em seguida, abriu o armário, onde ficavam suas roupas e as de Hillel. As três prateleiras de cima eram as suas. Ele as esvaziou. Depois recuou alguns passos e observou o armário aberto, sentindo uma enorme tristeza: era a primeira vez que deixava Hillel por vontade própria.
De tanto olhar, ficou com a impressão de ter notado algo no fundo da última prateleira, que pertencia a Hillel. Aproximou-se e notou um saco de papel escondido atrás das pilhas de roupas. Sem saber direito por quê, resolveu conferir o que era. Alguma coisa chamou sua atenção. Afastou as roupas, pegou o saco e o abriu. Ficou pálido e de repente estremeceu.