O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 18 de 56

Páginas do PDF

O Livro dos Baltimore

Capítulo 15

 

Naquele 26 de março de 2012, dia da publicação da revista, fiquei trancado em casa.

Meu telefone tocava sem parar. Eu não atendia mais. Era inútil: todo mundo queria saber se era verdade. Eu e Alexandra Neville estávamos juntos?

Eu sabia que não ia demorar muito para surgirem paparazzi à porta da minha casa. Decidi fazer compras para não precisar sair de casa durante algum tempo. Ao voltar do supermercado, com o porta-malas do carro abarrotado de sacolas de comida, Leo, que estava cuidando do jardim em frente à sua casa, me perguntou se eu estava me preparando para um cerco.

— Quer dizer que você não está sabendo?

— Não.

Mostrei-lhe um exemplar da revista.

— Quem tirou essas fotos? — perguntou ele.

— O cara da van. Era um paparazzo.

— Você quis se tornar uma celebridade, Marcus. Agora sua vida não lhe pertence mais. Quer ajuda com alguma coisa?

— Não, obrigado, Leo.

De repente ouvimos um latido atrás de nós. Era Duke.

— O que está fazendo aqui, Duke? — perguntei.

Ele me fitou com seus olhos pretos.

— Vá embora — ordenei.

Fui deixar parte das minhas sacolas na entrada de casa e o cachorro me seguiu.

— Vá embora! — gritei.

Ele me encarou, sem se mexer.

— Vá embora! — repeti.

Ele permaneceu imóvel.

Nesse instante, ouvi o barulho de um motor. Um carro freou. Era Kevin. Estava furioso. Pulou para fora do veículo e se aproximou de mim, decidido a acabar comigo.

— Filho da puta! — berrou na minha cara.

Recuei.

— Não aconteceu nada, Kevin! Essas fotos são uma mentira! Alexandra gosta de você.

Ele manteve certa distância.

— Você me fez de idiota…

— Não fiz ninguém de idiota, Kevin.

— Por que nunca me contou o que aconteceu entre Alexandra e você?

— Não cabia a mim.

Ele apontou um dedo ameaçador na minha direção.

— Saia da nossa vida, Marcus.

Pegou Duke pela coleira para arrastá-lo até o carro. O cachorro tentou se desvencilhar.

— Vamos! — berrou ele, sacudindo-o.

Duke gemeu e tentou se debater. Kevin gritou para que ele se calasse e o fez subir à força no bagageiro do seu 4x4. Ao entrar no veículo, proferiu num tom ameaçador:

— Nunca mais chegue perto dela, Goldman. Nem dela, nem desse cachorro, nem de ninguém. Venda essa casa, vá para longe daqui. Você não existe mais para ela. Deu para entender? Você não existe mais!

Então arrancou ruidosamente.

Pelo vidro, Duke me lançou um olhar cheio de ternura e latiu palavras que não compreendi.

 

Baltimore.

Outono de 1995.

No outono seguinte, a volta às aulas marcou a nova temporada do futebol americano. O Wildcats de Buckerey High logo virou o assunto do momento. Eles tiveram um início sensacional de campeonato. A escola inteira passou a sentir uma imensa paixão pela equipe, logo considerada invencível. O que podia ter acontecido em poucos meses que mudara tanto o Wildcats?

O estádio de Buckerey lotava em todos os jogos. E quando havia uma partida fora de casa, uma multidão de torcedores fiéis e ruidosos se deslocava. Isso bastou para que a mídia local rebatizasse a equipe de “Os Invencíveis Wildcats de Buckerey”.

O êxito do time enchia Hillel de um imenso orgulho. Por ser o auxiliar do técnico, ele ocupava um lugar especial entre os integrantes do Wildcats.

O estado de saúde de Scott piorara. Houvera diversos sinais disso no fim do verão. Ele não estava com uma aparência boa e se deslocava o tempo todo com um cilindro de oxigênio. Seus pais estavam preocupados. Ele não podia mais assistir aos jogos da arquibancada. Toda vez que se levantava para comemorar um touchdown, sentia uma enorme tristeza por não poder estar em campo. Seu ânimo estava em queda livre.

Na fria manhã de um domingo de setembro, no dia seguinte a um jogo que o Wildcats tinha vencido brilhantemente, ele saiu de casa às escondidas e foi para o estádio de Buckerey. Estava tudo deserto e úmido: o gramado fora tomado por uma neblina opaca. Ele se posicionou numa extremidade do campo e, em seguida, começou a percorrê-lo correndo, imaginando-se com a bola. Fechou os olhos e visualizou a si mesmo como um ala poderoso, um Invencível como os outros. Nada era capaz de detê-lo. Parecia ouvir a multidão gritando seu nome. Ele era um jogador do Wildcats e ia marcar o ponto definitivo. Graças a ele, iam ser campeões. Correu cada vez mais, sentindo em suas mãos a bola que ele não tinha. Correu até perder o fôlego, até desmoronar na grama molhada, inerte.

Foi graças à intervenção de um homem que passeava com seu cachorro que Scott foi salvo. Ele foi levado de ambulância para o Hospital Johns Hopkins e lá passou por uma bateria de exames. Seu estado se agravara subitamente.

Foi tia Anita quem informou Hillel e Woody sobre o acidente de Scott.

— Por que ele estava no campo? — perguntou Hillel.

— Ninguém sabe. Ele saiu sem avisar aos pais.

— E até quando vai ficar no hospital?

— Pelo menos duas semanas.

Os dois fizeram visitas regulares a Scott.

— Eu queria imitar vocês — disse ele a Woody. — Queria estar num campo de futebol, queria que a multidão vibrasse comigo. Não quero mais ser doente.

Scott pôde finalmente voltar para casa. Teve que ficar em repouso absoluto. Diariamente, depois do treino, Woody e Hillel iam visitá-lo. Às vezes o time todo ia. O Wildcats se espremia no quarto de Scott, contando-lhe as façanhas do dia. Todo mundo dizia que eles estavam com a mão na taça. Até aquele dia, nenhuma equipe da Liga das Escolas batera os recordes deles da temporada 1995-1996.

* * *

Certa tarde de sábado, em meados de outubro, o Wildcats jogou uma partida muito importante no estádio de Buckerey. Antes de encontrarem o time, Woody e Hillel pararam na casa dos Neville. Scott estava na cama. Parecia muito abatido.

— Tudo o que eu queria era estar com vocês, caras — disse ele. — Queria cuidar dos jardins com vocês, jogar futebol com vocês. Continuar fazendo tudo aquilo de antes.

— Vai poder ir ao jogo?

— Minha mãe não quer que eu vá. Quer que eu descanse, mas não faço outra coisa a não ser descansar.

Quando Hillel e Woody foram embora, Scott foi tomado pela tristeza. Desceu à cozinha: não havia ninguém em casa. Sua irmã saíra, seu pai estava em reunião e sua mãe fora fazer compras. Então ele teve a ideia de fugir e encontrar o Wildcats. Afinal, não havia ninguém para impedi-lo.

* * *

O jogo começou no estádio de Buckerey. O Wildcats logo abriu vantagem.

Scott pegara sua velha bicicleta. Era muito pequena para ele, mas ainda funcionava. E isso era o que importava. Seguiu para o colégio de Buckerey, parando a intervalos regulares para tomar fôlego.

* * *

Gillian Neville voltou para casa. Chamou Scott, mas ele não respondeu. Subiu ao segundo andar, e, ao abrir a porta do quarto, encontrou-o dormindo na cama. Não o perturbou e o deixou descansar.

* * *

Scott chegou ao estádio de Buckerey no fim do primeiro quarto. O Wildcats já disparava no placar. Deixou sua bicicleta encostada numa cancela e se esgueirou para dentro dos vestiários.

Ouviu a voz do treinador Bendham dando suas instruções e se escondeu nos chuveiros. Não queria ser espectador. Queria jogar. Esperou passar o quarto seguinte. Precisava falar com Hillel.

* * *

Um estranho pressentimento fez com que Gillian Neville fosse acordar o filho. Entreabriu a porta do quarto dele. Scott continuava dormindo. Ela se aproximou da cama e, ao tocar os lençóis, percebeu que não havia ninguém ali: no lugar do filho, havia apenas almofadas, arrumadas para criar uma ilusão.

* * *

No terceiro quarto, Scott conseguiu fazer um sinal para Hillel, que foi encontrá-lo nos chuveiros.

— O que está fazendo aqui?

— Quero jogar!

— Você está louco! Isso é impossível.

— Por favor. Eu só queria jogar alguma partida uma vez.

* * *

Gillian Neville percorreu Oak Park de carro. Tentou falar com Patrick, que não atendia. Foi à casa dos Goldman, mas encontrou a porta fechada: eles estavam no jogo.

* * *

No fim do terceiro quarto, Hillel explicou a situação para Woody. E lhe contou sua ideia. Woody aproveitou um pedido de tempo para conversar com os outros jogadores. Depois fez sinal para Ryan, um ala de compleição leve, chamando-o, e detalhou o que ele deveria fazer.

* * *

Gillian voltou para casa. Ninguém chegara ainda. Sentiu o pânico invadi-la e começou a chorar.

* * *

Faltavam cinco minutos para o fim da partida.

Ryan pediu para deixar o campo.

— Preciso ir ao banheiro, treinador.

— Não pode esperar?

— Desculpe, mas é mesmo urgente.

— Rápido!

Ryan entrou no vestiário e entregou seu uniforme e seu capacete para Scott.

* * *

Faltavam apenas dois minutos. O treinador xingou Ryan, que finalmente saiu do vestiário, e lhe ordenou que voltasse à sua posição. Bendham estava tão concentrado que não percebeu nada. O jogo recomeçou. Ryan se movimentava de forma esquisita e estava fora de sua posição. O treinador berrava algumas instruções para ele, mas o garoto não reagia. De repente toda a sua equipe perdeu a cabeça e se posicionou em formação triangular.

— Mas o que vocês estão fazendo, meu Deus? — gritou ele.

Então Hillel berrou:

— Agora!

Viu Woody seguir para a posição do ala e se posicionar ao lado de Ryan. A bola voltou às mãos do Wildcats e Woody recebeu o passe. Todos os jogadores se alinharam ao redor de Ryan, que recebeu a bola e saiu em disparada, escoltado pelos outros jogadores, que o protegiam.

O estádio ficou em silêncio por um instante. Os jogadores da equipe adversária, completamente desestabilizados, observaram, imóveis, a formação compacta atravessar o gramado. Scott ultrapassou a linha de fundo e colocou a bola no chão. Em seguida, ergueu as mãos, tirou o capacete e o estádio inteiro gritou de alegria.

— Toooooooooooouchdoooooown para o Wildcats de Buckerey, que vencem a partida! — exclamou o locutor nos alto-falantes.

— É o melhor dia da minha vida! — exultou Scott, arriscando alguns passos de dança no gramado.

Todos os jogadores se aglomeraram à sua volta e o carregaram, triunfante. O treinador Bendham, momentaneamente perplexo, não soube reagir e caiu na gargalhada, antes de se juntar às aclamações que repetiam o nome de Scott e pediam uma volta olímpica. Scott cedeu, mandando beijos para a multidão e cumprimentando a todos sem parar. Percorreu metade do campo e sentiu seu coração disparar. Cada vez mais tinha dificuldade para respirar. Tentou se acalmar, mas teve a impressão de que estava sufocando. E, subitamente, desabou.