O Livro dos Baltimore
Quarta parte
O livro do Drama
(2002-2004)
37.
Baltimore.
18 de fevereiro de 2002.
Enterramos tia Anita quatro dias depois do acidente, no cemitério de Forrest Lane. Havia muita gente. Muitos rostos que eu não conhecia.
Na primeira fila, tio Saul, com o semblante cansado, e Hillel, pálido e em choque. Parecia um fantasma, os olhos lívidos, o nó da gravata frouxo. Eu falava com ele, mas era como se não me ouvisse. Eu o tocava, mas era como se ele não sentisse. Como se estivesse anestesiado.
Sem conseguir acreditar, vi o caixão descer até o fundo da cova. Eu tinha a sensação de que aquilo não era real. Que não era minha tia Anita, minha tia tão amada, que estava naquele caixão de madeira sobre o qual jogávamos terra. Eu esperava vê-la se juntar a nós. Queria que ela me abraçasse como fazia quando eu era criança e a encontrava na plataforma da estação de Baltimore, onde ela me dizia: “Você é meu sobrinho preferido.” Então eu corava de felicidade.
Tia Anita morrera instantaneamente. A caminhonete que a atropelara não tinha parado. Ninguém vira nada. Pelo menos não o suficiente para ajudar a polícia, que não tinha qualquer pista. Após o impacto, Woody correra até ela: tentara reanimá-la, mas minha tia já partira. Quando percebeu que ela estava morta, ele começou a gritar, abraçando-a. Patrick ficara perplexo na calçada.
* * *
Patrick e Alexandra não estavam entre as pessoas que rodeavam a sepultura. Patrick devido ao que acabara de acontecer diante de sua casa, e Alexandra para evitar um escândalo com a presença de um membro da família Neville no enterro.
Woody, por sua vez, nos observava de longe, escondido atrás de uma árvore. A princípio, achei que ele não viera. Eu tentara em vão falar com ele durante a manhã inteira: seu celular estava desligado. No fim da cerimônia, notei sua silhueta. Mesmo de longe, eu o teria reconhecido. Todos os convidados seguiram para o estacionamento: havia um lanche marcado na casa de Oak Park. Andei discretamente em direção aos fundos do cemitério. Woody viu que eu me aproximava e fugiu. Então saí correndo. Ele acelerou, então eu disparei por entre os túmulos, com os sapatos escorregando na lama. Eu me aproximei dele, quis agarrar seu braço, mas perdi o equilíbrio e o arrastei comigo. Nós dois caímos no chão e rolamos no gramado barrento e molhado.
Ele se debateu. Embora fosse infinitamente mais forte do que eu, consegui me sentar em cima dele e o agarrei pela gola do paletó.
— Porra, Woody! — berrei. — Pare com essa babaquice! Onde você se enfiou? Faz três dias que não recebo notícias suas. Você não atende mais o telefone! Achei que tinha morrido!
— Seria melhor se eu tivesse morrido, Marcus.
— Como pode dizer uma idiotice dessas?
— Porque eu a matei!
— Você não a matou! Foi um acidente.
— Deixe-me em paz, Marcus, por favor!
— O que aconteceu naquela noite, Woody? O que você tinha ido fazer na casa de Patrick?
— Eu precisava falar com alguém. E só tinha ele para conversar. Quando cheguei ao seu apartamento, percebi que ele tinha um encontro de Dia dos Namorados. Havia flores, champanhe. Ele insistiu para que eu ficasse um pouco. Imaginei que sua convidada havia se escondido em um quarto até que eu fosse embora. No começo, quase achei graça naquilo. Em seguida, vi o casaco dela numa poltrona da sala. A convidada era tia Anita.
Eu não estava acreditando. Então o boato que corria em Oak Park era verdade. Tinha sido por ele que tia Anita largara o tio Saul.
— Mas o que aconteceu para você aparecer na casa de Patrick às onze da noite? Tenho a impressão de que você não está me contando tudo.
— Eu tinha discutido com Hillel. Quase saímos no tapa.
Eu não conseguia imaginar Woody e Hillel discutindo, muito menos saindo no tapa.
— Discutiram sobre o quê? — perguntei.
— Nada, Marcus. Agora me deixe em paz. Quero ficar sozinho.
— Não, não vou deixar você sozinho. Por que não me ligou? Por que disse que só podia conversar com Patrick? Você sabe que pode contar sempre comigo.
— Contar com você? Ah, é? Faz muito tempo que isso mudou, Marcus. Tínhamos feito uma promessa nos Hamptons, lembra? Não podíamos ter nada com Alexandra. Ao trair esse juramento, você traiu a todos nós, Marcus. Você preferiu uma garota em vez da Gangue. Aposto que naquela noite você estava transando com ela. Sempre que transa com ela, sempre que toca nela, você está traindo a gente, Marcus.
Tentei me forçar a agir como se não estivesse ouvindo nada daquilo.
— Não vou abandonar você, Woody.
Ele decidiu se livrar de mim. Com um gesto rápido, apertou minha glote com os dedos, interrompendo minha respiração. Então acabei cedendo: ele se desvencilhou da minha chave de braço e se levantou, me deixando tossindo no chão.
— Pode me esquecer, Marcus. Não devo existir mais.
E fugiu, correndo. Fui atrás dele de novo, mas só tive tempo de vê-lo entrar num carro com uma placa de Connecticut, que desapareceu rapidamente. Era Colleen ao volante.
* * *
Fui até a casa dos Baltimore e estacionei onde deu. A rua estava lotada com os carros das visitas. Eu não tinha vontade de entrar. Em primeiro lugar, por não estar apresentável, encharcado de suor e com o terno cheio de lama. Mas, acima de tudo, não tinha nenhuma vontade de ver tio Saul e Hillel desesperadamente sozinhos, cercados por todas aquelas pessoas condescendentes, repetindo, com a boca ainda cheia de amanteigados, frases prontas (“Só o tempo…”, “Ela vai fazer falta…”, “Que tragédia…”), antes de correr para a travessa de docinhos com medo de que acabassem.
Fiquei um tempo no carro observando a rua tranquila, remoendo as lembranças, quando apareceu uma Ferrari preta com placa do estado de Nova York: Patrick Neville tivera a audácia de vir. Estacionou no meio-fio do lado oposto e permaneceu dentro do carro por um instante, sem me ver. Acabei saindo do carro e, furioso, fui tirar satisfação. Ao me ver chegar, ele saiu. Estava com uma aparência horrível.
— Marcus — disse ele —, que bom ver alguém que…
Não permiti que terminasse a frase.
— Dê o fora daqui! — ordenei.
— Marcus, espere…
— Dê o fora!
— Marcus, você não sabe o que aconteceu. Me deixe explicar…
— Fora daqui! — berrei. — Fora, você não tem nada para fazer aqui!
Os convidados, alertados pelo barulho, saíram da casa dos Baltimore. Vi minha mãe e tio Saul correrem em nossa direção. Pouco depois, um pequeno grupo de curiosos se precipitou para fora, com os copos na mão, nos olhando fixamente para não perder a cena do sobrinho dando um corretivo no amante da tia. Ao deparar com o olhar desaprovador da minha mãe e os olhos impotentes do meu tio, senti uma vergonha fora do comum. Patrick tentou se explicar diante de todos:
— Não é o que vocês estão pensando! — repetia ele.
Mas apenas recebeu olhares cheios de desprezo. Então entrou no carro e foi embora.
Todo mundo voltou para a casa, e eu fiz o mesmo. Na escada da entrada, de onde assistira à cena, Hillel, o fantasma, me encarou e disse:
— Você deveria ter quebrado a cara dele.
Fiquei na cozinha, sentado no balcão. Maria, ao meu lado, chorava, arrumando bandejas de frios, enquanto as irmãs filipinas iam e vinham com a louça limpa. A casa nunca me parecera tão vazia.
* * *
Depois do enterro, meus pais continuaram em Baltimore por mais dois dias e só então voltaram para Montclair. Como eu estava sem cabeça para retornar à universidade, fiquei mais alguns dias por lá.
Eu falava com Alexandra todas as noites. Com medo de ser flagrado por Hillel, dei a desculpa de que precisava fazer compras e peguei o carro de tio Saul. Comprei um café no drive-thru de um Dunkin Donuts ao mesmo tempo próximo e suficientemente longe para não ser visto. Parei no estacionamento, inclinei o encosto do banco e liguei para Alexandra.
Só a voz dela curava minhas feridas. Eu me sentia mais forte e mais poderoso quando falava com ela.
— Eu queria muito estar ao seu lado, Markie.
— Eu sei.
— Como estão Hillel e seu tio?
— Não tão mal. Você esteve com seu pai? Ele comentou sobre o incidente?
— Ele entende perfeitamente, não se preocupe, Markie. Todo mundo fica com os nervos à flor da pele num momento como esse.
— Ele não podia transar com alguém que não fosse minha tia?
— Ele falou que eram apenas amigos, Markie.
— Woody me disse que havia uma mesa arrumada para comemorar o Dia dos Namorados.
— Anita queria ter uma conversa séria com ele. Sobre o seu tio… Até quando você vai ficar em Baltimore? Estou com saudade…
— Não sei. Pelo menos até o fim da semana. Também estou com saudade.
Uma estranha calma reinava na casa. O fantasma de tia Anita vagava entre nós. A irrealidade da situação superava a tristeza. Maria se atarefava inutilmente. Eu a ouvia ficar irritada consigo mesma (“A Sra. Goldman tinha mandado limpar as cortinas”, “A Sra. Goldman ficaria decepcionada com você”). Já Hillel ficara completamente mudo. Passava a maior parte do tempo no quarto, no parapeito da janela. Consegui forçá-lo a me acompanhar numa breve caminhada até o Dairy Shack. Pedimos um milk-shake, que tomamos ali mesmo. Depois voltamos para a casa dos Baltimore. Ao chegar a Willowick Road, Hillel me disse:
— Tudo isso, em parte, é culpa minha.
— Tudo isso o quê? — perguntei.
— A morte da minha mãe.
— Não diga uma coisa dessas… Foi um acidente. A porra de um acidente.
Ele continuou:
— Tudo isso é culpa da Gangue dos Goldman.
Não entendi o que ele quis dizer com aquilo.
— Sabe de uma coisa? Acho que a gente devia tentar se apoiar. Woody também não está bem.
— Tanto faz…
— Encontrei com ele no cemitério um dia desses. Ele contou que vocês tinham discutido naquela noite…
Hillel me encarou bem nos olhos.
— Acha que é o momento de falar sobre isso?
Tive vontade de responder que sim, mas eu não conseguia sequer sustentar seu olhar. Retomamos nossa caminhada em um silêncio absoluto.
* * *
Naquela noite, tio Saul, Hillel e eu jantamos o frango assado que Maria havia preparado. Não pronunciamos uma só palavra durante toda a refeição. Por fim, Hillel disse:
— Vou embora amanhã. Vou voltar para Madison.
Tio Saul assentiu. Percebi que os Goldman-de-Baltimore estavam caminhando para a desintegração. Dois meses antes, Hillel e Woody curtiam a época áurea da Universidade de Madison, e tia Anita e tio Saul formavam um casal feliz e bem-sucedido. Agora tia Anita estava morta, Woody, perdido, e Hillel, preso em seu silêncio. Quanto ao meu tio Saul, aquele foi o início de uma nova vida para ele em Oak Park. Resolveu assumir o papel do viúvo perfeito: corajoso, resignado e forte.
Fiquei em Baltimore ainda por uma semana e assisti ao espetáculo diário dos vizinhos que passavam para lhe trazer comida e solidariedade. Eles desfilavam pela casa dos Baltimore. Davam fortes abraços em tio Saul, trocavam olhares comovidos e demorados apertos de mão. Por outro lado, eu flagrava conversas no supermercado, na tinturaria, no Dairy Shack: os rumores fervilhavam. Ele era o corno, o humilhado. Aquele cuja esposa fora morta ao fugir da casa do amante após ser flagrada na noite do Dia dos Namorados pelo quase filho adotivo. Todo mundo parecia conhecer os mais ínfimos detalhes sobre a morte de tia Anita. Todo mundo sabia. Ouvi inclusive comentários indisfarçados:
“Ele bem que procurou por isso.”
“Onde há fumaça há fogo.”
“Nós o vimos com aquela mulher no restaurante.”
Então descobri que havia uma mulher na história. Uma tal de Cassandra, do clube de tênis de Oak Park.
* * *
Acabei indo ao clube de tênis. Não precisei procurar por muito tempo: na recepção havia um quadro com os retratos e os nomes dos professores de tênis e um era de uma atraente mulher chamada Cassandra Davis. Só precisei agir feito um idiota simpático com uma das secretárias para descobrir que, por um grande acaso, ela dera aulas particulares para o meu tio e que, por um acaso ainda maior, estava doente naquele dia. Mas consegui o endereço e decidi ir à casa dela.
Cassandra, como eu desconfiava, não estava doente. Quando entendeu que eu era sobrinho de Saul Goldman, bateu a porta do seu apartamento na minha cara. Como insisti para que abrisse de novo, ela gritou pela fresta:
— O que você quer comigo?
— Eu só queria entender o que aconteceu com a minha família.
— Se Saul quiser, pode te contar.
— Você é amante dele?
— Não. Só saímos para jantar juntos uma vez. E nada aconteceu. Mas agora que a esposa dele morreu, sou considerada a puta de plantão.
Cada vez eu entendia menos o que se passava. O fato era que Saul não estava me contando tudo. Eu não sabia o que acontecera entre Woody e Hillel e ignorava o que ocorrera entre tio Saul e tia Anita. Acabei indo embora de Baltimore uma semana depois do enterro de tia Anita, sem respostas para as minhas perguntas. Na manhã da minha partida, tio Saul me acompanhou até o carro.
— Você vai ficar bem? — perguntei, dando-lhe um abraço.
— Vou, sim.
Afrouxei o abraço, mas em seguida ele me segurou pelos ombros e disse:
— Fiz uma coisa errada, Markie. Por isso sua tia se foi.
* * *
Após sair de Oak Park, deixando atrás de mim tio Saul e Maria como últimos hóspedes da casa dos meus mais belos sonhos de infância, me demorei no cemitério de Forrest Lane. Não sei se viera atrás da presença de tia Anita ou se esperava esbarrar com Woody.
Em seguida, peguei a estrada para Montclair. Ao chegar à minha rua, me senti bem. O castelo dos Baltimore desmoronara, enquanto a casa dos Montclair, pequena, porém sólida, resistira orgulhosamente de pé.
Liguei para Alexandra para avisar que tinha chegado. Uma hora mais tarde, ela estava na casa dos meus pais. Tocou a campainha e eu abri. Foi um alívio tão grande vê-la que, extravasando todas as emoções reprimidas dos dias anteriores, comecei a chorar.
— Markie… — disse Alexandra, me abraçando. — Sinto muito mesmo, Markie.