O Livro dos Baltimore
Capítulo 2
No dia seguinte ao meu inesperado encontro com Alexandra, passei o dia trancado em meu escritório. Saí apenas uma vez, no frio do amanhecer, para um jogging ao redor do lago.
Ainda sem saber o que faria com aquilo, enfiei na cabeça que deveria retraçar em anotações os elementos marcantes da história dos Goldman-de-Baltimore. Eu tinha começado com um desenho da árvore genealógica da nossa família, antes de perceber que era preciso acrescentar algumas explicações, principalmente sobre as origens de Woody. A árvore ganhara rapidamente o aspecto de uma floresta de comentários à margem, e eu refletira, que, por uma questão de clareza, seria melhor transcrever tudo para fichas. Diante de mim, havia uma foto que meu tio Saul reencontrara dois anos antes. Era um retrato meu, dezessete anos antes, rodeado pelas três pessoas que eu mais amei: meus primos adorados, Hillel e Woody, e Alexandra. Ela mandara uma cópia do retrato para cada um de nós e escrevera no verso:
AMO VOCÊS, GOLDMAN.
Naquela época, ela estava com dezessete anos, meus primos e eu, com apenas quinze. Ela já tinha todas as qualidades que a faria ser amada por milhões de pessoas, mas não conseguíamos dividi-la entre nós. Esse retrato me fazia lembrar dos meandros de nossa longínqua adolescência, muito antes de eu perder meus primos, muito antes de eu me tornar a estrela em ascensão da literatura americana e, sobretudo, muito antes de Alexandra Neville virar a celebridade que é atualmente. Muito antes de os Estados Unidos se apaixonarem por sua personalidade, suas músicas, muito antes de ela encantar, álbum após álbum, seus milhões de fãs. Muito antes de suas turnês, muito antes de ela se tornar o ícone pelo qual o país esperou por tanto tempo.
* * *
No início da noite, fiel a seus hábitos, Leo bateu à minha porta.
— Está tudo bem, Marcus? Não tive mais notícias suas desde ontem. Encontrou o dono do cachorro?
— Encontrei. É o novo namorado de uma garota por quem fui apaixonado durante anos.
Ele ficou muito espantado.
— Que mundo pequeno — comentou. — Qual é o nome dela?
— Você não vai acreditar. Alexandra Neville.
— A cantora?
— Ela mesma.
— Você a conhece?
Peguei a foto e mostrei para ele.
— É Alexandra? — perguntou Leo, apontando para ela.
— É. Na época éramos adolescentes felizes.
— E quem são os outros rapazes?
— Meus primos de Baltimore e eu.
— O que aconteceu com eles?
— É uma longa história…
Naquela noite Leo e eu ficamos jogando xadrez até tarde. Fiquei feliz por ele ter vindo me distrair: isso me permitiu pensar em outra coisa que não em Alexandra durante algumas horas. Nosso encontro mexera comigo. Ao longo de todos esses anos, nunca consegui esquecê-la.
No dia seguinte, não resisti e voltei aos arredores da casa de Kevin Legendre. Não sei o que pretendia. Sem dúvida esbarrar com ela. Conversar mais. Mas ela ficaria furiosa com a minha presença lá. Eu estava parado numa rua paralela à casa, quando notei algo se movimentando na cerca. Observei com atenção, intrigado, e subitamente vi o corajoso Duke saindo dos arbustos. Desci do carro e chamei-o baixinho. O cachorro se lembrava de mim e se aproximou para ganhar carinho. Tive uma ideia absurda, mas não pude ignorá-la. E se Duke fosse uma forma de eu reatar com Alexandra? Abri o porta-malas do carro e o cão subiu obedientemente. Eu ganhara sua confiança. Parti depressa e voltei para minha casa, já familiar para o cão. Fui para o escritório. Duke se deitou ao meu lado e me fez companhia, enquanto eu voltava a mergulhar na história dos Goldman-de-Baltimore.
* * *
O apelido “Goldman-de-Baltimore” era a contraparte do que meus pais e eu éramos com relação ao nosso endereço: os Goldman-de-Montclair, Nova Jersey. Com o passar do tempo e a maneira de falar, eles tinham se tornado os Baltimore, e nós, os Montclair. Os inventores desses apelidos foram os avós Goldman que, para não se confundirem durante as conversas, tinham naturalmente dividido nossas famílias em duas entidades geográficas. Isso lhes permitia dizer, por exemplo, quando todos nós íamos à Flórida, onde eles moravam, para passar as festas de fim de ano: “Os Baltimore chegam no sábado e os Montclair, no domingo.” Mas o que, a princípio, era apenas uma maneira de nos identificar, acabara se tornando a expressão da superioridade dos Goldman-de-Baltimore até no seio do próprio clã. Os fatos falavam por si: os Baltimore eram formados por um advogado casado com uma médica e tinham um filho que estudava na melhor escola particular da cidade. Do lado dos Montclair, meu pai era engenheiro, minha mãe, vendedora na sucursal de Nova Jersey de uma marca nova-iorquina de roupas chiques, e eu, um bom aluno de colégio público.
Na pronúncia do léxico familiar, meus avós acabaram associando às suas entonações os sentimentos privilegiados que atribuíam aos Baltimore: ao sair de suas bocas, a palavra “Baltimore” parecia cunhada em ouro, enquanto “Montclair” parecia desenhada com gosma de lesma. Os elogios eram para os Baltimore; as críticas, para os Montclair. Se a televisão deles parava de funcionar, era porque eu a desregulara, e se o pão não estava fresco era porque meu pai tinha comprado. Já as broas que tio Saul trazia eram de qualidade excepcional, e, se a televisão voltava a funcionar, era certamente porque Hillel a consertara. Mesmo em situações idênticas, os tratamentos não eram iguais: quando uma das famílias se atrasava para o jantar, se fossem os Baltimore, meus avós comentavam que os coitados deviam estar presos num engarrafamento. Mas, se fossem os Montclair, lá vinha o bordão dos nossos pretensos atrasos sistemáticos. Em quaisquer circunstâncias, Baltimore era a capital da beleza; Montclair, a do podia-ser-melhor. O mais fino caviar de Montclair nunca se equipararia a um punhado de couve podre de Baltimore. E nos restaurantes e shoppings onde passeávamos juntos, quando esbarrávamos com conhecidos dos meus avós, vovó fazia as apresentações:
— Esse é meu filho Saul, um grande advogado. Sua mulher, Anita, que é uma médica importante no Hospital Johns Hopkins, e seu filho Hillel, que é um pequeno gênio.
Cada um dos Baltimore recebia então um aperto de mão e uma mesura. Em seguida, vovó prosseguia seu recital apontando para meus pais e para mim e, fazendo um discreto sinal com o dedo, resumia:
— E esse é meu filho caçula e sua família.
Então recebíamos um aceno de cabeça bastante similar ao que dirigiríamos a um manobrista ou empregado doméstico.
A única igualdade perfeita entre os Goldman-de-Baltimore e os Goldman-de-Montclair, durante os primeiros anos da minha adolescência, consistiu no número de integrantes: as duas famílias eram compostas por três membros. Mas se o registro civil determinava oficialmente que os Goldman-de-Baltimore possuíam três integrantes, quem os conheceu bem dirá que eram quatro. Pois muito rapidamente meu primo Hillel, com quem até então eu dividia o defeito de ser filho único, teve o privilégio de ver a vida lhe proporcionar um irmão. Na sequência dos acontecimentos que detalharei mais adiante, ele passou a ser visto, em todas as circunstâncias, acompanhado de um amigo que, se não o conhecêssemos, diríamos que era imaginário: Woodrow Finn — Woody, como o chamávamos —, mais bonito, mais alto, mais forte, capaz de tudo, atencioso e sempre presente quando alguém precisava dele.
Woody alcançou rapidamente um status à parte entre os Goldman-de-Baltimore e se tornou ao mesmo tempo um dos outros e um dos nossos, sobrinho, primo, filho e irmão. Sua presença foi uma evidência imediata, a ponto de, quando não era visto numa reunião familiar — símbolo definitivo de sua integração —, todos logo se perguntarem onde estava. Ficavam preocupados quando ele não aparecia, tornando sua presença mais do que uma legitimidade, uma necessidade para que a unidade familiar fosse perfeita. Peça para qualquer pessoa dessa época enumerar os Goldman-de-Baltimore e ela citará Woody sem pestanejar. Porém, mais uma vez tínhamos sido derrotados: na partida Montclair contra Baltimore, até o momento empatada em três a três, o placar passou para quatro a três.
Woody, Hillel e eu fomos os amigos mais leais de todos. Foi com Woody que passei meus melhores anos junto dos Baltimore, entre 1990 e 1998, e ao mesmo tempo que foram abençoados também serviram como cenário para tudo o que antecedeu o Drama. Dos dez aos dezoito anos, nós três éramos totalmente inseparáveis. Formávamos uma entidade fraternal tríplice, tríade ou trindade, que com orgulho chamávamos de “A Gangue dos Goldman”. Nós nos amávamos como poucos irmãos já se amaram: fizemos os juramentos mais solenes uns para os outros, misturamos nosso sangue, juramos fidelidade e prometemos amor mútuo e eterno. Apesar de tudo o que viria a acontecer mais tarde, sempre me lembrarei desses anos como um período excepcional: a epopeia de três adolescentes felizes nos Estados Unidos abençoados pelos deuses.
Ir a Baltimore, estar com eles, era tudo o que importava para mim. Eu só me sentia completo na companhia deles. Louvados sejam meus pais que, numa idade em que poucas crianças viajavam sozinhas, me deram autorização para ir até Baltimore, encontrar quem eu tanto amava e passar os fins de semana prolongados com eles. Para mim foi o começo de uma nova vida, marcada pelo calendário dos feriados escolares, conselhos de classe e celebrações dos heróis americanos. A aproximação do Dia dos Veteranos, Dia de Martin Luther King e Dia do Presidente me proporcionava sensações inéditas de felicidade. A ansiedade de revê-los me deixava insuportável. Glória aos soldados mortos pelo país, glória ao Dr. Martin Luther King Jr. por ter sido um homem tão bom, glória aos nossos presidentes, honestos e corajosos, que nos propiciavam um feriado todas as terceiras segundas-feiras de fevereiro!
Para ganhar um dia, eu convencera meus pais a me deixar ir direto depois da escola. Quando as aulas finalmente terminavam, eu corria para casa na velocidade da luz para arrumar minhas coisas. Com a mochila pronta, esperava minha mãe chegar do trabalho para me levar à estação de Newark. Eu ficava sentado na poltrona da entrada, já de sapatos e com o casaco nas costas, inquieto. Eu estava adiantado, e ela, atrasada. Para fazer o tempo passar, eu contemplava os retratos das nossas duas famílias que ficava no móvel ao meu lado. Nós parecíamos tão insossos enquanto eles eram maravilhosos. No entanto, em Montclair, num belo subúrbio de Nova Jersey, eu levava uma vida privilegiada, tranquila e feliz, sem passar nenhuma necessidade. Mas nossos carros me pareciam menos reluzentes, nossas conversas, menos divertidas, nosso sol, menos radiante, e nosso ar, menos puro.
Até que eu ouvia a buzina da minha mãe, então corria para o lado de fora e entrava em seu velho Honda Civic. Ela estava sempre com o esmalte ainda molhado, tomando café num copo de papel, comendo um sanduíche ou preenchendo algum formulário de publicidade. Às vezes, estava fazendo tudo isso ao mesmo tempo. Ela era elegante, andava sempre muito bem-arrumada. Bonita, bem-maquiada. Mas ao sair do trabalho mantinha preso na roupa o crachá com seu nome e, abaixo, as palavras ao seu dispor, o que eu achava terrivelmente humilhante. Os Baltimore eram servidos, nós servíamos.
Eu reclamava da minha mãe por causa do seu atraso, e ela me pedia desculpas. Eu não aceitava, e ela fazia carinho em meu cabelo. Depois me beijava, deixando uma marca de batom em minha bochecha, que imediatamente ela limpava com um gesto cheio de amor. Em seguida, me levava à estação, onde eu pegava um trem para Baltimore no início da noite. No caminho, ela me dizia que me amava e que já estava com saudade. Antes de me deixar embarcar no vagão, me entregava um embrulho com sanduíches do mesmo local em que ela comprara seu café, depois me fazia prometer que eu seria “bem-comportado e obediente”. Ela me abraçava e aproveitava para enfiar uma nota de vinte dólares no meu bolso. Depois me dizia: “Te amo, querido”, e me dava dois beijos na bochecha, mas às vezes eram três ou quatro. Dizia que um só não era o suficiente, por mais que para mim já fosse demais. Ao me lembrar disso hoje, sinto raiva de mim mesmo por não ter deixado que ela me desse dez beijos sempre que eu viajava. Também sinto raiva de mim mesmo por ter passado tanto tempo longe dela sem me lembrar de como nossas mães são efêmeras e por não ter repetido vezes suficientes que a amava.
Duas horas de trem depois, eu chegava à estação central de Baltimore. A mudança de família finalmente podia começar. Eu tirava minha roupa dos Montclair apertada demais e colocava o traje dos Baltimore. Na plataforma, no início da noite, ela me esperava. Bela como uma rainha, radiante e chique como uma deusa, aquela cuja lembrança às vezes povoava, e de maneira vergonhosa, as noites da minha juventude: minha tia Anita. Eu corria até ela e a abraçava. Ainda sinto sua mão em meu cabelo, seu corpo no meu. Ouço sua voz me dizendo: “Markie, querido, como é bom ver você.” Não sei por quê, mas em geral ela ia me buscar sozinha. Com certeza era porque o tio Saul saía tarde do escritório, e, sem dúvida, ela não queria incomodar Hillel e Woody. Já eu aproveitava para encontrá-la como se fosse uma namorada: alguns minutos antes da chegada do trem, eu trocava de roupa, me penteava com a ajuda do reflexo do vidro e, quando finalmente chegava, eu desembarcava com o coração acelerado. Eu traía minha mãe com outra.
Tia Anita dirigia um BMW preto que provavelmente valia um ano de salário dos meus pais. Entrar no carro era a primeira etapa da minha transformação. Eu renegava o Civic sem graça e me entregava à adoração daquele carro imenso, que exalava luxo e modernidade, no qual deixávamos o centro da cidade para seguirmos até o bairro chique de Oak Park, onde eles moravam. Oak Park era um mundo à parte: as calçadas eram mais largas, as ruas, ladeadas por árvores imensas, uma maior que a outra, e os portões rivalizavam em arabescos e as cercas pareciam não ter fim. Os pedestres me pareciam mais bonitos; seus cães, mais elegantes; os corredores de domingo, mais atléticos. Se em nosso bairro, em Montclair, eu só tinha visto casas acolhedoras, sem nenhuma barreira para cingir seus jardins, em Oak Park a imensa maioria era protegida por cercas vivas e muros. Nas alamedas calmas, um serviço de segurança privado circulava em carros com sirenes laranja e exibia a inscrição Patrulha de Oak Park, para assegurar a paz dos moradores.
A travessia de Oak Park com tia Anita despertava a segunda fase da minha transformação ao me fazer sentir superior. Tudo me parecia evidente: o carro, o bairro, minha presença. Os seguranças de Oak Park tinham como costume cumprimentar os moradores com um discreto aceno de mão ao passar por eles e as pessoas retribuíam. Um sinal para confirmar que estava tudo bem e que a tribo dos ricos podia passear tranquilamente. Quando cruzávamos com a primeira patrulha, o segurança acenava, Anita respondia e eu me apressava em imitá-la. Afinal, ali eu era um dos seus. Ao chegar em casa, tia Anita buzinava duas vezes para anunciar nossa presença, antes de apertar o controle remoto que abria as duas peças de aço do portão. Ela seguia pela aleia e entrava na garagem de quatro vagas. Eu mal tinha tempo de sair do carro e a porta da casa se abria num ruído alegre e Woody e Hillel, os irmãos que a vida nunca quisera me dar, irrompiam e corriam até mim, gritando de tanta animação. Eu sempre entrava na casa com um olhar fascinado: era tudo bonito, luxuoso, colossal. A garagem deles era do tamanho da nossa sala. A cozinha, do tamanho da nossa casa. Os banheiros tinham o tamanho dos nossos quartos e ali havia quartos suficientes para acomodar várias gerações da nossa família.
Cada nova temporada lá superava a anterior e só fazia aumentar a admiração que eu sentia pelos meus tios e, sobretudo, pela química perfeita da Gangue formada por Hillel, Woody e por mim. Eles eram como meu sangue, minha carne. Gostávamos dos mesmos esportes, dos mesmos atores, dos mesmos filmes, das mesmas garotas, e isso não por consenso ou combinação, mas porque um era a extensão do outro. Desafiávamos a natureza e a ciência: as árvores dos nossos ancestrais não compartilhavam o mesmo tronco, mas nossas sequências genéticas obedeciam à mesma configuração. Às vezes, íamos visitar o pai de tia Anita, que morava num lar para idosos — a “Casa dos mortos”, como chamávamos —, e me lembro de que seus amigos um pouco senis e desmemoriados faziam inúmeras perguntas sobre a identidade de Woody, nos confundindo. Apontavam seus dedos retorcidos para ele e, sem qualquer constrangimento, faziam a eterna pergunta: “Este aí é um Goldman-de-Baltimore ou um Goldman-de-Montclair?” Ao responder, tia Anita explicava, com uma voz cheia de ternura: “É Woodrow, amigo de Hill. Foi esse menino que acolhemos. Ele é muito bonzinho.” Antes de dizer isso, ela sempre conferia se Woody já tinha saído da sala, para não magoá-lo, embora o som de sua voz demonstrasse claramente que ela estava disposta a amá-lo como se fosse o próprio filho. Para a mesma pergunta, Woody, Hillel e eu tínhamos uma resposta que nos parecia mais próxima da realidade. E durante aqueles invernos, nos corredores onde pairavam os estranhos cheiros da velhice, aquelas mãos enrugadas nos agarravam pelas roupas e nos intimavam a dizer nossos nomes para compensar a inevitável erosão de seus cérebros doentes, respondíamos: “Sou um dos três primos Goldman.”
* * *
No meio da tarde, fui interrompido pelo meu vizinho Leo Horowitz. Ele ficou preocupado por não ter me visto durante o dia e veio conferir se estava tudo bem.
— Tudo certo, Leo — tranquilizei-o já na soleira da porta.
Ele deve ter achado estranho que não o convidei para entrar e desconfiou que eu estivesse escondendo alguma coisa. Por isso, insistiu:
— Tem certeza? — perguntou ele de novo, demonstrando curiosidade.
— Absoluta. Nada especial. Estou trabalhando.
De repente, ele viu Duke surgir atrás de mim. O cachorro acordara e queria ver o que estava acontecendo. Leo arregalou os olhos.
— Marcus, o que esse cão está fazendo na sua casa?
Baixei a cabeça, envergonhado.
— Peguei emprestado.
— O que há com você?
Fiz sinal para ele entrar depressa e fechei a porta. Ninguém podia ver o cachorro na minha casa.
— Minha intenção era encontrar Alexandra — expliquei. — Mas quando vi o cachorro saindo da casa, pensei em trazê-lo para cá, passar o dia com ele e devolvê-lo à noite, alegando que ele viera sozinho para cá.
— Você perdeu o juízo, meu pobre amigo. Isso é um roubo no sentido literal da palavra.
— É um empréstimo, porque não pretendo ficar com o cachorro. Só preciso dele por algumas horas.
Enquanto me escutava, Leo foi para a cozinha, se serviu sem pedir de uma garrafa d’água na geladeira e se sentou à bancada. Estava encantado com o aspecto inusitadamente pitoresco que seu dia ganhava. Então me sugeriu, radiante:
— E se começássemos por uma partidinha de xadrez? Para você relaxar.
— Não, Leo, não tenho tempo para isso agora.
Sua expressão ficou sombria e ele insistiu na presença do cachorro, que bebia ruidosamente a água de uma panela no chão.
— Então me explique, Marcus: por que precisa desse cachorro?
— Para ter um bom pretexto para reencontrar Alexandra.
— Isso eu já entendi. Mas por que precisa de um pretexto para reencontrá-la? Não pode simplesmente ir visitá-la como uma pessoa civilizada, em vez de raptar o cachorro dela?
— Ela me pediu para não procurá-la mais.
— Por que ela fez isso?
— Porque eu a larguei. Oito anos atrás.
— Caramba. Isso não foi nada gentil da sua parte. Você não a amava mais?
— Ao contrário.
— Mas você a abandonou.
— Sim.
— Por quê?
— Por causa do Drama.
— Que Drama?
— É uma longa história.
Baltimore.
Anos 1990.
Os momentos de felicidade com os Goldman-de-Baltimore eram contrabalançados duas vezes por ano, quando nossas famílias se reuniam: no feriado de Ação de Graças, na casa dos Baltimore, e nas férias de inverno, em Miami, na Flórida, na casa dos nossos avós. Na minha opinião, mais do que uma confraternização, aquelas reuniões familiares pareciam jogos de futebol. De um lado do campo, os Montclair, do outro, os Baltimore, e, no centro, os avós Goldman, que apitavam a partida e controlavam o placar.
O feriado de Ação de Graças marcava a consagração anual dos Baltimore. A família se reunia na mansão luxuosa em Oak Park e lá tudo era perfeito, do início ao fim. Para minha imensa felicidade, eu dormia no quarto de Hillel, e Woody, que ocupava o quarto ao lado, arrastava o colchão até o nosso para que não ficássemos separados nem mesmo durante o sono. Meus pais ocupavam uma das suítes de hóspedes, e meus avós, outra.
Era o tio Saul quem ia buscar meus pais no aeroporto e, durante a primeira meia hora após chegarmos à casa dos Baltimore, a conversa girava em torno do conforto do automóvel.
“Reparem só”, exclamava minha avó, “é simplesmente estarrecedor! Tem espaço para as pernas como em nenhum outro lugar! Quando entrei no seu carro, Nathan [meu pai], me lembro de ter pensado: nunca mais! E depois notei como era sujo, meu Deus! Custa passar um aspirador de pó? O de Saul parece novo. O couro dos bancos está perfeito, dá para perceber que cuidam com muito carinho.”
Depois, quando não tinha mais nada a dizer sobre o carro, se encantava com a casa. Explorava os corredores como se fosse sua primeira visita e ficava impressionada com o bom gosto da decoração, com a qualidade dos móveis, com a calefação no piso, com a limpeza, com as flores e com as velas que aromatizavam os cômodos.
Durante a refeição de Ação de Graças, ela não se cansava de elogiar a perfeição dos pratos. Cada colherada vinha acompanhada de murmúrios de entusiasmo. A comida era mesmo um espetáculo: sopa de abóbora, carne de peru macia com xarope de bordo e molho de pimenta, espaguete ao molho de queijo, torta de abobrinha, purê de batata cremoso, creme de acelga e vagens delicadas. As sobremesas não ficavam atrás: mousse de chocolate, cheesecake, bolo de noz-pecã e torta de maçã com casca fina e crocante. Após a refeição e os cafés, tio Saul colocava na mesa garrafas de destilados cujos nomes, naquela época, não significavam nada para mim, mas me lembro de meu avô segurando as garrafas como se fossem poções mágicas e parecendo fascinado com o nome, a idade ou a cor, enquanto vovó elogiava de novo a qualidade da comida, e também a casa e a vida que levavam, antes do grande desfecho (sempre o mesmo):
— Saul, Anita, Hillel e Woody, meus queridos: obrigada, estava extraordinário!
Eu queria muito que ela passasse um tempo com vovô em Montclair para mostrarmos do que éramos capazes. Quando eu tinha dez anos, fiz esse pedido:
— Vovó, por que você e vovô não passam uma noite em nossa casa em Montclair?
Mas ela respondeu:
— Sabe que não podemos mais ir à casa de vocês, meu querido. Não é grande nem confortável o suficiente.
* * *
A segunda grande reunião anual dos Goldman acontecia em Miami, por ocasião das festas de fim de ano. Até completarmos treze anos, nossos avós moravam num apartamento suficientemente espaçoso para acomodar nossas duas famílias e passávamos uma semana inteira juntos, sem nos desgrudar nem por um instante sequer. Essas temporadas na Flórida eram uma oportunidade para que eu pudesse constatar a intensidade da admiração de meus avós pelos Baltimore, esses marcianos formidáveis que, no fundo, não tinham nada em comum com o resto da família. Impossível não ver os evidentes laços de parentesco entre meu avô e meu pai. Os dois se pareciam fisicamente, cultivavam as mesmas manias e sofriam com a síndrome do cólon irritável, por isso tinham conversas infindáveis sobre o assunto. O cólon irritável era um dos temas preferidos do vovô. Eu me lembro do meu avô como alguém amável, distraído, carinhoso e, acima de tudo, com prisão de ventre. Ele saía para evacuar como quem vai pegar um trem. Anunciava, colocando o jornal debaixo do braço:
— Vou ao banheiro.
Dava um beijinho de despedida na boca de vovó e ela dizia:
— Até já, querido.
Vovô se preocupava que um dia eu também fosse acometido pela doença dos Goldman-não-de-Baltimore: o famoso cólon irritável. Ele me fazia prometer que eu comeria muitos legumes fibrosos e que nunca prenderia o intestino se precisasse executar aquela “difícil tarefa”. De manhã, enquanto Woody e Hillel se empanturravam de cereais açucarados, vovô me forçava a me empanturrar de cereal integral com fibras. Eu era o único obrigado a comer aquilo, prova de que os Baltimore deviam contar com enzimas extras que não tínhamos. Meu avô comentava sobre os futuros problemas digestivos que eu teria por ser filho do meu pai: “Meu pobre Marcus, seu pai tem um cólon igual ao meu. Você não tem escapatória, vai ver só. Coma muita fibra, garoto, isso é o mais importante. É preciso começar agora para lubrificar o sistema.”
Ele ficava atrás de mim enquanto eu engolia meu cereal integral e apoiava em meu ombro uma das mãos, num gesto carinhoso. Claro que, de tanto engolir fibras, eu ia o tempo todo ao banheiro e, ao sair, trocava olhares com meu avô, que parecia dizer: “Você sofre do mesmo mal, meu garoto. Está ferrado.” Essa história de cólon me impressionava muito. Eu costumava consultar os dicionários de medicina da biblioteca municipal, lendo, apreensivo, os primeiros sintomas da doença. Eu me convencia de que, se eu não a tivesse, era porque talvez eu fosse diferente, diferente como um Baltimore. Porque, no fundo, meus avós contavam com meu pai, mas era o tio Saul que reverenciavam. Eu era filho de um, mas, às vezes, lamentava não ser filho do outro.
A mistura dos Montclair e dos Baltimore me revelava o fosso profundo que dividia minhas duas vidas: a oficial, um Goldman-de-Montclair, e a outra, confidencial, um Goldman-de-Baltimore. Do meu segundo nome, Philip, eu mantinha a primeira letra e nos meus cadernos escolares e deveres assinava Marcus P. Goldman. Em seguida, acrescentava uma curva no P, criando Marcus B. Goldman. Eu era um P que às vezes virava um B. E a vida, como se para me dar razão, me pregava peças estranhas: sozinho em Baltimore, eu me sentia um deles. Ao andar pelo bairro com Hillel e Woody, os seguranças da patrulha nos cumprimentavam e nos chamavam pelo primeiro nome. Mas quando eu ia com meus pais a Baltimore para o Dia de Ação de Graças, me lembro da vergonha ao percorrer as primeiras ruas de Oak Park com nossa lata-velha, em cujo para-choque estava escrito que não pertencíamos à dinastia Goldman dali. Se cruzássemos com uma patrulha de segurança, eu fazia o sinal secreto dos locais e minha mãe, que não entendia nada, me repreendia: “Que ideia, Markie, quer parar de palhaçada e de fazer sinais idiotas para esses guardas?”
O cúmulo do horror era nos perdermos em Oak Park, onde as ruas, em círculo, causavam facilmente uma confusão. Minha mãe ficava nervosa, meu pai parava no meio de um cruzamento e eles discutiam sobre o trajeto até uma patrulha surgir para verificar o que havia de errado com aquele calhambeque amassado, logo, suspeito. Enquanto eu fazia o sinal da fraternidade secreta para o segurança não pensar que havia qualquer ligação entre aqueles dois estranhos e eu, meu pai explicava as razões da nossa presença. Às vezes, o segurança simplesmente nos indicava o caminho, mas havia ocasiões em que, desconfiado, nos escoltava até a casa dos Goldman para se certificar de nossas boas intenções. Tio Saul, ao nos ver chegar daquela maneira, saía imediatamente de casa.
— Bom dia, Sr. Goldman — dizia o segurança —, desculpe o incômodo, eu só queria ter certeza de que o senhor estava mesmo esperando receber essas pessoas.
— Obrigado, Matt. — (Ou outro nome, dependendo do que estava escrito no crachá, pois meu tio chamava sempre a pessoa pelo nome no crachá, fosse no restaurante, no cinema ou no pedágio da estrada.) — Sim, tudo em ordem, obrigado.
Ele dizia “tudo em ordem”. Não dizia “Matt, seu atrapalhado, como pôde desconfiar de alguém do meu sangue, da carne da minha carne, do meu irmão querido?”. O czar teria mandado empalar o guarda que tratasse daquele jeito os membros de sua família. Mas, em Oak Park, tio Saul parabenizava Matt como um bom cão de guarda que a gente recompensa por ter latido, para garantir que latirá sempre. E quando o segurança se afastava, minha mãe dizia:
— É isso aí, podem dar o fora, já viram que não somos bandidos.
Enquanto isso, meu pai suplicava que ela ficasse quieta e não chamasse atenção. Afinal, éramos apenas visitas.
No patrimônio dos Baltimore, um único lugar ficava livre da contaminação dos Montclair: a casa de férias nos Hamptons, aonde meus pais tinham a decência de nunca ir, ao menos não na minha presença. Para quem não sabe o que se tornou os Hamptons a partir dos anos 1980, tratava-se de um recanto tranquilo e modesto à beira-mar e muito próximo de Nova York, que virou um dos balneários mais chiques da Costa Leste. Dessa forma, a casa nos Hamptons conhecera várias vidas sucessivas, e tio Saul nunca se cansava de contar que, quando comprara por uma ninharia aquele bangalô de madeira em East Hampton, todo mundo zombara dele, argumentando que tinha sido o pior investimento que ele poderia ter feito. Ninguém esperava o boom de Wall Street dos anos 1980, prenúncio de uma era de ouro para uma geração de traders: as novas fortunas haviam invadido os Hamptons, a região se aburguesara subitamente e o valor dos imóveis decuplicara.
Eu era pequeno demais para lembrar, mas me contaram que, à medida que o tio Saul ia ganhando processos, a casa era melhorada aos poucos, até o dia em que foi derrubada para dar lugar a uma nova mansão suntuosa, cheia de charme e conforto. Espaçosa, luminosa, engenhosamente revestida de hera, com uma varanda atrás cercada de arbustos de hortênsias azuis e brancas, uma piscina e um caramanchão coberto de serpentárias, onde fazíamos nossas refeições.
Depois de Baltimore e Miami, os Hamptons eram a última ponta do triângulo geográfico anual da Gangue dos Goldman. Todos os anos, meus pais me deixavam passar o mês de julho lá. E foi na casa de férias dos meus tios que passei os verões mais felizes da minha adolescência, na companhia de Woody e Hillel. Também foi lá que germinaram as sementes do Drama que se abateria sobre eles. Mesmo assim, guardo felizes lembranças de todas essas férias. Eu me lembro de dias totalmente idênticos de um verão abençoado, sobre os quais pairava o perfume da imortalidade. O que fazíamos lá? Vivíamos nossa juventude triunfal. Enfrentávamos o oceano. Corríamos atrás das garotas feito loucos. Íamos pescar. Procurávamos rochedos de onde mergulhar no mar e nos sentirmos vivos.
Nosso lugar preferido pertencia a um casal adorável, Seth e Jane Clark, pessoas relativamente idosas, sem filhos, muito ricos — acho que ele tinha um fundo de investimento em Nova York —, de quem tio Saul e tia Anita se tornaram amigos ao longo dos anos. A mansão deles, que se chamava O Paraíso na Terra, ficava a uns dois quilômetros da casa dos Baltimore. Era um lugar fabuloso: eu me lembro do parque verdejante, das árvores-de-judas, dos roseirais e da fonte em cascata. Atrás da casa, havia uma piscina com vista para uma praia particular de areia branca. Os Clark nos autorizavam a usufruir quanto quiséssemos de sua casa e volta e meia íamos lá para pular na piscina ou nadar no mar. Havia, inclusive, um pequeno bote atracado num píer de madeira, que usávamos de vez em quando para explorar a baía. Para agradecer aos Clark por sua gentileza, costumávamos fazer pequenos favores a eles, basicamente trabalhos de jardinagem, atividade em que éramos excelentes por motivos que explicarei mais à frente.
* * *
Nos Hamptons, perdíamos a noção do tempo. Talvez tenha sido isso que me iludiu: a impressão de que tudo aquilo seria eterno. Que duraríamos para sempre. Como se, naquele lugar mágico, nas ruas e nas casas, as pessoas fossem capazes de escapar das ações do tempo e de sua corrosão.
Eu me lembro da mesa na varanda, que tio Saul transformava em “escritório”. Bem ao lado da piscina. Após o café da manhã, ele colocava suas pastas na mesa, pegava o telefone e trabalhava pelo menos até o meio da tarde. Sem trair o sigilo profissional, comentava com a gente os casos nos quais estava trabalhando. Eu ficava fascinado com as explicações. Perguntávamos como pretendia ganhar e ele nos respondia: “Vou ganhar porque é meu dever. Os Goldman nunca perdem.” Queria saber como agiríamos em seu lugar. Então nos imaginávamos três grandes homens da lei e dávamos todas as ideias que passavam pela nossa cabeça. Ele sorria, dizia que seríamos excelentes advogados e que um dia poderíamos trabalhar em seu escritório. Essas palavras bastavam para me fazer sonhar.
Alguns meses depois, de passagem por Baltimore, encontrei recortes de jornal sobre aquele julgamento preparado nos Hamptons, que tia Anita guardava cuidadosamente. Tio Saul vencera. Toda a imprensa o citava. Ainda me lembro de algumas manchetes:
O imbatível Goldman
Saul Goldman, o advogado invicto
Goldman golpeia de novo
Ele nunca tinha perdido um caso. E as descobertas dessas vitórias só aumentavam a admiração que eu sentia por ele. Era o melhor tio e o melhor advogado do mundo.
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Anoitecia quando acordei Duke de seu cochilo para levá-lo de volta. Ele ficava à vontade na minha casa e me deu a entender que não queria ir embora. Tive que arrastá-lo até o carro estacionado em frente à casa, depois pegá-lo no colo para acomodá-lo no porta-malas. Do portão de sua casa, Leo me observava, achando graça.
— Boa sorte, Marcus, tenho certeza de que se ela não quiser mais te ver, significa que te ama de verdade.
Fui até a casa de Kevin Legendre e toquei o interfone.