O Livro dos Baltimore
Capítulo 35
Obedecendo à estratégia elaborada pelo meu pai e por tio Saul, a Goldman & Cia. foi vendida em outubro de 1985 à Hayendras Inc., uma empresa importante com sede no estado de Nova York.
Na véspera da venda, meu pai, tio Saul, vovô e vovó estavam em Suffern, onde ficava a sede da Hayendras. Meu pai e meus avós tinham ido juntos, de carro, de Nova Jersey, e tio Saul pegara um voo até o Aeroporto LaGuardia, depois alugara um carro.
Haviam reservado três quartos num Holiday Inn e passaram o dia inteiro numa sala de reuniões à disposição deles, relendo atentamente os contratos e se certificando de que tudo correspondia ao que fora combinado. Já era de madrugada quando terminaram e, por iniciativa do meu avô, foram jantar num restaurante no bairro. À mesa, meu avô olhou para os dois filhos e agarrou um braço de cada um.
— Vocês se lembram — disse ele — das horas que nós três passamos naquele banco nos imaginando comandando a empresa?
— Você inclusive nos deixava fumar — disse meu pai, achando graça.
— Pois bem, aqui estamos, meus filhos. Esperei muito tempo por esse momento. Pela primeira vez, vamos presidir juntos o destino da Goldman & Cia.
— Pela primeira e última vez — corrigiu tio Saul.
— Talvez, mas pelo menos isso finalmente aconteceu. Então nada de ficar triste esta noite: vamos brindar! Ao momento que alcançamos!
Ergueram suas taças de vinho e fizeram um brinde. Meu avô ainda perguntou:
— Tem certeza de que é uma boa ideia, Saul?
— Essa venda para a Hayendras? Sim, é a melhor opção. O preço de compra não é muito alto, mas é isso ou a falência. E, além do mais, a Hayendras vai crescer, o potencial está aí, eles saberão expandir a empresa. E os antigos funcionários serão contratados pela Hayendras… Não era isso que você queria também?
— Sim, claro, Saul. Não quero ninguém desempregado.
— Calculei que, descontados os impostos, você vai ficar com dois milhões de dólares — explicou ainda tio Saul.
— Eu sei — disse meu avô. — Quanto a isso, sua mãe, seu irmão e eu conversamos e decidimos que a empresa pertence a nós quatro. Eu a fundei na esperança de que algum dia meus dois filhos estivessem no comando, e é este o caso hoje à noite. Vocês realizaram meu desejo e sou eternamente grato. O dinheiro da venda será dividido em três partes iguais. Um terço para sua mãe e para mim, e um terço para cada um de vocês.
Houve um silêncio.
— Não posso aceitar — disse tio Saul, por fim, comovido por estar novamente integrado à família. — Não quero essa cota, não mereço.
— Como pode dizer uma coisa dessas? — perguntou meu avô.
— Papai, em função do que aconteceu, eu…
— Vamos esquecer tudo isso, está bem?
— Deixe o passado para trás, Saul — insistiu meu pai. — É graças a você que hoje nossos funcionários, eu inclusive, não ficaram desempregados e que papai vai poder financiar a aposentadoria.
— É verdade, Saul. Graças à sua ajuda, sua mãe e eu poderemos nos mudar para um lugar ensolarado, talvez na Flórida. Como sempre sonhamos.
— Quanto a mim, vou me mudar para Montclair para ficar mais perto dos nossos novos escritórios — continuou meu pai. — Encontramos uma casa maravilhosa e vou poder financiar um empréstimo com a minha parte da venda. É uma casa bonita, num bairro agradável, exatamente como eu queria.
Vovô segurou a mão da esposa, sorriu para os dois filhos e pegou na pasta os documentos do cartório.
— Mandei redigir os documentos que regularizam nossa sociedade na empresa — disse ele. — O produto da venda será dividido em três partes iguais, ou seja, 666.666,66 dólares para cada um.
— Mais de meio milhão de dólares — disse meu pai, sorrindo.
* * *
Na madrugada seguinte, meus avós e meu pai acordaram com uma ligação do tio Saul, que interfonou para seus quartos pedindo que o encontrassem o mais rápido possível no salão do café da manhã. Precisava falar com eles com toda a urgência.
— Um amigo meu me ligou de madrugada — explicou tio Saul, muito animado, entre um gole e outro de café. — Ele é corretor em Wall Street. Disse que a Hayendras é uma empresa ainda pouco conhecida, mas que vai crescer além do que eu imaginava. Parece que, segundo alguns boatos, pode entrar na Bolsa ainda este ano. Vocês têm ideia do que isso significa?
— Acho que não estou entendendo muito bem — respondeu minha avó pragmaticamente.
— Isso significa que, se a Hayendras entrar na Bolsa, o valor da empresa vai explodir. É inevitável! Uma empresa que faz isso se valoriza. Pensei bastante e acho que deveríamos negociar a venda da Goldman & Cia. em troca da participação em ações da empresa, em vez de dinheiro vivo.
— E isso muda o quê? — indagou meu avô.
— Isso muda que no dia em que a Hayendras entrar na Bolsa, as ações irão se valorizar e nossa participação vai aumentar. Nossos seiscentos mil dólares poderiam valer mais. Olhem, fiz uma proposta de alteração contratual. O que acham?
Ele distribuiu sua minuta de contrato, mas meu avô torceu o nariz.
— Saul, você quer que, em troca da Goldman & Cia., eu não receba dinheiro, mas um pedaço de papel dizendo que tenho algumas ações de uma empresa que nem sequer conheço?
— Exatamente. Um exemplo: vamos imaginar que hoje a Hayendras valha mil dólares. Digamos que você tenha um por cento, sua parte então vale dez dólares. Mas se a Hayendras entrar na Bolsa e todo mundo quiser investir na empresa, seu valor vai subir vertiginosamente. Vamos imaginar que o valor da Hayendras suba de repente para dez mil dólares. Sua parte passa a valer cem dólares! Nosso dinheiro pode supervalorizar!
— Sabemos como funciona a Bolsa — disse minha avó. — Mas acho que seu pai quer saber como vamos pagar o supermercado e a luz. Dinheiro teórico não paga as contas no fim do mês. E, além do mais, se a Hayendras não entrar na Bolsa ou ninguém se interessar pela empresa, as ações vão degringolar e nosso dinheiro perderá o valor.
— Esse é mesmo um risco…
— Não, não — afirmou minha avó. — Queremos dinheiro vivo, seu pai e eu não podemos correr o risco de perder tudo. Estamos jogando com nossa aposentadoria.
— Mas meu amigo me disse que é o investimento do século — insistiu Saul.
— Não é, não — encerrou meu avô.
— E você? — perguntou tio Saul ao meu pai.
— Também prefiro dinheiro vivo. Não acredito muito na mágica da Bolsa, é arriscado demais. Além disso, se eu quiser comprar essa casa em Montclair…
Meu avô notou a decepção no olhar de tio Saul.
— Escute, Saul — ponderou —, se acredita mesmo nessas histórias de Bolsa, nada impede que você peça sua parte em ações.
E foi o que tio Saul fez. Um ano depois, a Hayendras fazia uma entrada espetacular na Bolsa. Pelo que minha mãe me explicou certo dia, o valor das ações foi multiplicado por quinze. Em poucas horas, os 666.666,66 dólares do tio Saul haviam se transformado em 9.999.999,99. Tio Saul acabara de embolsar dez milhões de dólares, que ele receberia meses depois ao vender sua parte. Foi o ano em que ele comprou Oak Park.
Meu pai, após visitar a fantástica mansão do irmão, se convenceu dos benefícios da Bolsa. No início de 1988, um memorando interno redigido por Dominic Pernell, o presidente da Hayendras, se gabando da saúde econômica da empresa e incitando os funcionários a comprar ações, acabou por persuadi-lo. Juntou o que lhe restava da sua parte da venda da Goldman & Cia. e induziu meu avô a fazer o mesmo.
— Nós também deveríamos comprar ações da Hayendras! — insistiu meu pai ao telefone.
— Você acha?
— Pai, veja o que isso rendeu a Saul: milhões! Milhões de dólares!
— Deveríamos ter escutado seu irmão quando vendemos a empresa.
— Ainda há tempo, pai!
Meu pai juntou setecentos mil dólares: todas as suas economias e as de vovô. Todo o tesouro de guerra deles. Converteu o dinheiro em ações da Hayendras, que também deviam, segundo seus cálculos, rapidamente torná-los milionários. Uma semana mais tarde, recebeu uma ligação preocupada do tio Saul.
— Acabei de falar com papai e ele me contou que você investiu o dinheiro dele.
— Ah, relaxe, Saul! Fiz um investimento igual ao seu. Para ele e para mim. Qual é o problema?
— Você comprou que tipo de ações?
— Ações da Hayendras, é claro.
— O quê? Quanto?
— Não é da sua conta.
— Quanto? Preciso saber quanto!
— Setecentos mil dólares.
— O quê? Mas você enlouqueceu? É quase todo o dinheiro de vocês!
— E qual é o problema?
— Como assim, qual é o problema? É um risco enorme!
— Ué, Saul, no momento de vender a empresa você nos aconselhou a receber tudo em ações. Convertemos tudo agora. Não vejo diferença.
— Na época era diferente. Se der errado, papai perde toda a aposentadoria dele! Vai viver de quê?
— Não se preocupe, Saul. Pelo menos uma vez, me deixe agir sozinho.
No dia seguinte a essa conversa, para a imensa surpresa do meu pai, tio Saul apareceu em seu escritório na sede da Hayendras.
— Saul, o que está fazendo aqui?
— Preciso falar com você.
— Por que não me ligou?
— Eu não podia falar por telefone, é muito arriscado.
— Falar o quê?
— Venha, vamos dar uma volta.
Eles foram para o parque contíguo ao prédio e se isolaram.
— A empresa está indo mal — disse tio Saul ao meu pai.
— Como pode dizer isso? Estou a par da situação econômica da Hayendras: é ótima, fique sabendo. O presidente Dominic Pernell fez um comunicado e nos recomendou comprar ações. A cotação acabou de subir, aliás.
— Claro que a cotação subiu, todos os funcionários correram para comprar.
— O que está tentando me dizer, Saul?
— Venda suas ações.
— O quê? Jamais!
— Preste muita atenção: sei do que estou falando. A Hayendras está muito mal, os números são dramáticos. Pernell não devia ter aconselhado a compra de ações. Você precisa se livrar das suas imediatamente.
— Que palhaçada é essa, afinal, Saul? Não acredito em uma só palavra do que está dizendo.
— Acha que eu teria vindo de Baltimore se não fosse algo tão sério assim?
— Você está chateado porque vendeu suas ações e não consegue mais recuperá-las? É isso? Quer que eu venda para você comprar de novo?
— Não, quero que você venda para se livrar delas.
— Que tal me deixar respirar um pouco, Saul? Você salvou a empresa do papai, garantiu a aposentadoria dele, arranjou um trabalho para todos os funcionários: ele te adora, você é o filho pródigo! Sempre foi o preferido do papai, de qualquer forma. E, como se isso não bastasse, ainda tirou a sorte grande!
— Mas eu aconselhei que vocês recebessem em ações na época!
— Não está satisfeito com sua carreira de advogado, sua mansão e seus carros? Quer mais? O próprio presidente nos disse para comprar, e todo mundo fez isso! Todos os funcionários compraram! Qual é o seu problema? Você fica irritado com a possibilidade de que eu também possa ganhar dinheiro?
— O quê? Mas afinal por que se recusa a me escutar?
— Você sempre quis me humilhar. Principalmente na frente do papai. Quando éramos crianças, no banco ele só falava com você! Saul isso, Saul aquilo!
— Não sabe do que está falando.
— Você precisou desaparecer para que ele olhasse para mim. E tem mais: quando você estava na geladeira, o número de vezes que ele deu a entender que a empresa seria melhor dirigida se você tivesse assumido o cargo…
— Você está delirando, Nathan. Se estou aqui, é para lhe dizer que a Hayendras vai mal, os números são ruins e, assim que tudo vier à tona, o preço da ação vai despencar.
Meu pai parou de repente.
— Como sabe isso? — perguntou.
— Sei e pronto. Estou suplicando, acredite em mim. Sei por uma fonte segura. Não posso dizer mais nada. Venda tudo e, preste bem atenção, não comente com ninguém. Com ninguém, está ouvindo? Estou cometendo um delito grave ao lhe dar essa informação. Se alguém souber que te avisei, terei sérios problemas e você e papai também. Já vai ser difícil vender todo esse montante sem despertar suspeitas. É melhor negociar em etapas. Corra!
Meu pai se negou a escutar a voz da razão. Ele parecia ter ficado deslumbrado com a vida que seu irmão levava em Baltimore e reivindicava sua parte. Sei que tio Saul fez tudo o que era possível, chegou a ir até a Flórida para encontrar meu avô e lhe pedir que convencesse o filho a vender as ações.
Então meu avô ligou para o meu pai.
— Nathan, seu irmão veio falar comigo. Ele disse que devemos vender nossas ações de qualquer maneira. Talvez devêssemos escutá-lo…
— Não, papai, confie em mim pelo menos uma vez, por favor!
— Ele disse que nos ajudaria a fazer um investimento melhor, em outras ações, que darão lucro. Confesso que estou um pouco preocupado…
— Ele que vá cuidar da própria vida! Por que não confia em mim? Fique sabendo que também consigo fazer as coisas direito!
Acho que meu pai estava colocando o próprio orgulho em jogo. Tomara uma decisão e queria que a respeitassem. Não arredou de sua posição. Se era por convicção ou para desafiar o irmão, ninguém jamais saberá. Meu avô não forçou mais a barra, sem dúvida para não fazê-lo sofrer.
* * *
Enquanto minha mãe, dentro do meu carro, continuava sua história, me lembrei de um episódio da infância. Eu estava com sete anos. Corri da sala para a cozinha, gritando: “Mamãe! Mamãe! Tio Saul está na televisão!” Era seu primeiro processo midiático, o início de sua glória. Nas imagens, ao seu lado, seu cliente, Dominic Pernell. Eu me lembro de que durante várias semanas contei cheio de orgulho a quem quisesse ouvir que tio Saul e o patrão do meu pai estavam nos jornais. O que eu não sabia era que Dominic Pernell tinha sido detido pela SEC, a agência americana de fiscalização do mercado financeiro, após ter fraudado as contas da Hayendras para convencer seus funcionários de um resultado espetacular e lhes vender por impulso milhões de dólares das próprias ações. Ele foi condenado por um tribunal de Nova York a quarenta e três anos de prisão. Nos dias seguintes à sua detenção, a ação da Hayendras despencou completamente e seu valor foi dividido por quinze. A empresa foi comprada por uma ninharia por uma importante firma alemã, que ainda existe. Os setecentos mil dólares do meu pai e do meu avô passaram a valer meros 46.666,66 dólares.
Baltimore se tornou a punição do meu pai. A casa, os carros, os Hamptons, as férias em Whistler, a suntuosidade do jantar de Ação de Graças, o apartamento em Buenavista, a segurança privada de Oak Park que nos considerava intrusos: tudo servia para lembrá-lo de que, ali onde seu irmão vencera, ele fracassara.
* * *
Nesse dia de junho de 2011, após conversar com minha mãe, liguei para o tio Saul. Ele pareceu contente em me ouvir.
— Almocei com a minha mãe — comentei. — Ela me falou sobre a venda da empresa para a Hayendras e de como papai perdeu as próprias economias e as do vovô.
— Assim que eu soube que seu pai tinha comprado essas ações, tentei convencê-lo a revendê-las. Depois ele me criticou por não ter explicado mais claramente a situação. Mas você precisa entender que naquele momento Dominic Pernell já sofrera o baque de uma investigação da SEC, me contratara para defendê-lo, eu sabia que ele tinha mentido para os funcionários e vendido suas ações para eles. Eu não podia revelar isso ao seu pai: conheço seu senso de justiça, e ele teria avisado aos outros funcionários. Milhares como ele investiram muito dinheiro nas ações da própria empresa. Mas se isso fosse divulgado, se a SEC soubesse que eu tinha dado informações ao seu pai, era prisão certa para o seu avô, para o seu pai e para mim. Eu só podia implorar que ele vendesse, mas não quis me escutar.
— Vovô ficou com raiva do papai?
— Não faço ideia. Ele sempre disse que não. Depois disso, houve uma onda de demissões na Hayendras, só que felizmente seu pai conseguiu manter o emprego. Mas seu avô tinha perdido todo o dinheiro da aposentadoria. Então após esse dia eu passei a ajudá-lo.
— Você ajudou o vovô por causa da briga? Para ser perdoado?
— Não, eu ajudei porque ele era meu pai. Porque não tinha mais um dólar furado. E porque eu conseguira meu dinheiro graças a ele. Não sei o que sua avó lhe contou sobre a briga, mas a verdade é que foi uma confusão terrível, e fui idiota e orgulhoso demais para resolver as coisas. Essa é uma característica comum que tenho com seu pai: esses momentos em que não queremos ouvir a voz da razão e dos quais nos arrependemos pelo resto da vida.
— Vovó me disse que teve a ver com seu engajamento na causa dos direitos civis.
— Nunca fui engajado de verdade nessa causa.
— Mas e a foto na capa da revista?
— Só participei de uma manifestação para agradar ao pai de Anita, que era um ativista engajado. Sua tia e eu fomos parar na frente com ele e, por falta de sorte, tiraram aquela foto. Foi só isso.
— Como assim? Não estou entendendo. Vovó disse que você viajava o tempo todo.
— Ela não conhece toda a história.
— Mas então o que você fazia? E o que fez vovô acreditar que você estava tão envolvido na defesa dos direitos civis? Afinal de contas, vocês ficaram doze anos sem se falar!
Tio Saul estava prestes a me revelar o segredo, mas fomos interrompidos pela campainha de casa. Ele largou o telefone por um instante para poder ouvir: era a voz de uma mulher.
— Markie — disse ele, voltando para a linha —, preciso me despedir, querido.
— É Faith?
— É.
— Você está saindo com ela?
— Não.
— Se for esse o caso, pode me dizer. Você tem o direito de sair com alguém.
— Não tenho nada com ela, Markie. Nem com ela, nem com ninguém. Simplesmente porque não tenho vontade. Só amei sua tia e a amarei para sempre.