O Livro dos Baltimore
Capítulo 42
Julho de 2004.
Na noite da morte de Luke, Madison não dormiu.
Os moradores se aglomeraram ao longo dos cordões de isolamento da polícia numa tentativa de acompanhar o espetáculo. A rua era varrida pelas luzes das sirenes das viaturas policiais. Agentes da divisão de homicídios da polícia estadual de Connecticut foram despachados de New Canaan para assumirem a investigação.
Woody foi detido e transferido para a delegacia da polícia estadual de New Canaan. O telefonema ao qual ele tinha direito foi para o tio Saul.
Já meu tio ligou para um colega que era advogado em New Canaan e logo em seguida pegou a estrada com Hillel. Chegaram à uma da manhã e puderam conversar com Woody. Ele sofrera ferimentos leves e recebera os devidos cuidados na delegacia. Colleen, por sua vez, fora transferida para o hospital. Estava gravemente ferida.
Woody, zonzo, contou em detalhes o que acontecera na casa de Luke.
— Eu não tinha escolha — explicou Woody. — Ele ia matar nós dois.
— Não se preocupe — disse tio Saul, tranquilizando-o. — É um caso de legítima defesa. Vamos tirar você daqui logo.
* * *
Tio Saul e Hillel passaram a noite num hotel em New Canaan. Woody devia se apresentar ao juiz no dia seguinte. Diante das circunstâncias, foi liberado depois que Saul pagou a fiança de cem mil dólares. Seu julgamento foi marcado para 15 de outubro.
* * *
Hillel me informou do ocorrido, e segui imediatamente para Connecticut. Woody fora proibido de sair do estado. Mas não podia ficar em Madison depois do que acontecera.
Hillel e eu encontramos uma pousada sossegada numa cidade próxima, onde Colleen pôde se juntar a ele depois que saiu do hospital.
* * *
Os dois meses e meio que nos separavam do julgamento de Woody passaram depressa.
Hillel e eu nos revezamos ao seu lado para lhe fazer companhia. Não podíamos deixá-lo sozinho. Felizmente também havia Colleen para lhe dar apoio. Ela antecipava suas necessidades. Velava por ele. Era sua boia de salvação.
Mas a única pessoa que exercia alguma influência sobre ele era Alexandra. Percebi isso quando ela foi visitá-lo em Connecticut.
Com a gente, Woody costumava ficar em silêncio. Respondia educadamente às perguntas que fazíamos e se esforçava para ser agradável. Quando queria ficar sozinho, saía para correr. Mas com Alexandra ele falava. Ele era diferente.
Então percebi que a amava. Assim como eu, desde sempre, desde que a havíamos conhecido em 1994, ele a amava. Apaixonadamente. Ela causava nele o mesmo efeito que em mim. Eles tinham as mesmas conversas intermináveis. Em mais de uma ocasião ficaram na varandinha de madeira da casa conversando por horas a fio.
Eu contornava a casa e me sentava no chão, na grama, num ângulo em que eles não conseguiam me ver. E os escutava. Ele desabafava com Alexandra. Abria-se com ela como nunca fizera com a gente.
— Não é como no caso da tia Anita — explicou ele. — Não estou ressentido por causa de Luke. Não estou triste, não tenho remorsos.
— Era legítima defesa, Woody — disse Alexandra.
Ele não parecia convencido.
— No fundo, sempre fui violento. Desde pequeno, tudo o que sei fazer é bater nas pessoas. Foi assim que conheci os Baltimore, porque eu brigava. E é assim que vou deixá-los.
— Por que deixá-los? Por que está dizendo isso?
— Acho que vou ser condenado. Acho que é o fim.
— Não diga uma coisa dessas, Woody. — Ela agarrava seu rosto, fixava os olhos nos dele e dizia: — Woodrow Finn, eu proíbo você de falar uma coisa dessas.
Eu sentia ciúme desses momentos de intimidade que espionava. Ela conversava com ele da mesma forma que fazia comigo. Com a mesma ternura. A mim também, quando queria fazer uma censura discreta, me chamava pelo nome e sobrenome. Dizia: “Marcus Goldman, pare de bancar o imbecil.” Era sua maneira de fingir estar zangada.
Às vezes ficava brava de verdade. Tinha fúrias soberbas. Raras, porém imponentes. Ficou furiosa comigo quando descobriu que eu espreitava os momentos que ela passava com Woody e, como se não bastasse, ainda sentia ciúme.
Após me flagrar, como não queria fazer uma cena dentro de casa, comunicou a Woody e Colleen: “Marcus e eu vamos ao supermercado.” Entramos no carro que Alexandra alugara e ela dirigiu até ficarmos fora de vista. Então parou e começou a gritar: “Você enlouqueceu de vez, Marcus? Está com ciúme de Woody?”
Tive a péssima ideia de querer protestar. De dizer que ela dedicava muita atenção a ele e que o chamava pelo nome e sobrenome. “Marcus, Woody matou um homem. Você entende o que isso significa? Ele vai ser julgado. Acho que está precisando de amigos. E você não está sendo um amigo ao alimentar ressentimentos idiotas com relação aos seus primos!”
Ela tinha razão.
* * *
Woody era o único a achar que iria para a prisão. Tio Saul, que tinha ido várias vezes a Connecticut preparar a defesa, estava convencido do contrário.
Só quando teve acesso ao teor da acusação se deu conta de que a situação era mais grave do que imaginava.
A promotoria não acatou a presunção de legítima defesa. Pelo contrário, considerou que Woody invadira ilegalmente a casa de Luke e ainda por cima armado. Era possível supor que Luke havia agido em legítima defesa ao querer dominar Woody. O Ministério Público, portanto, acusava Woody de homicídio. Quanto a Colleen, ela corria o risco de ser indiciada por cumplicidade. Uma investigação penal também seria aberta.
Um vento de pânico soprou pela casa de Connecticut, até então tranquila. Colleen afirmava que não suportaria ir para a prisão. “Não se preocupe”, repetia Woody. “Não precisa ter medo. Vou proteger você assim como me protegeu após a morte de tia Anita.”
Só entendemos o que ele queria dizer com isso quando o julgamento começou. Sem avisar tio Saul e seu advogado, Woody acusou a si mesmo de ter induzido Colleen a acompanhá-lo à casa de Luke. Afirmou que ela quis dissuadi-lo, mas, como ainda assim ele invadira a casa, ela o seguira para tirá-lo de lá. Então Luke chegara e atacara os dois.
Durante o recesso, o advogado de Woody chamou a atenção dele.
— Enlouqueceu, Woody? O que deu em você para se acusar assim? De que adianta defender você se está sabotando a si mesmo?
— Não quero que Colleen vá para a prisão!
— Então me deixe trabalhar e ninguém vai para a prisão.
Com base nos depoimentos dos moradores de Madison, o advogado de Woody apresentou provas do calvário que Luke impunha a Colleen. O promotor, contudo, insistiu que não havia sido Colleen quem matara Luke, e a questão dos maus-tratos do antigo casal não podia ser considerada para determinar se Woody agira em legítima defesa. Para a acusação, Woody não abriu fogo para conter um ataque, como supunha o princípio da legítima defesa. Entrara na casa de Luke com uma arma. Desde o início, tinha a intenção de acabar com ele.
O julgamento virou um pesadelo. Após dois dias de debates, não restava mais dúvida de que Woody seria condenado. Para evitar uma punição pesada demais, tio Saul sugeriu fazer um acordo com a acusação. Woody admitiria a culpa em troca de uma redução na pena. Durante a reunião a portas fechadas para firmar o acordo, o promotor se mostrou inflexível.
— Não aceito menos de cinco anos de prisão — declarou. — Woodrow esperou por Luke na casa dele e o abateu.
— O senhor sabe que isso não é verdade — retrucou o advogado de Woody.
— Cinco anos de prisão — repetiu o promotor. — Sabe que estou sendo generoso. Ele poderia facilmente pegar dez ou quinze.
Tio Saul, Woody e seu advogado tiveram uma longa conversa em seguida. Um lampejo de pânico brilhava nos olhos de Woody: ele não queria ir para a prisão.
— Saul — disse ao meu tio —, você se dá conta de que, se eu disser sim, eles vão colocar as algemas em mim no mesmo segundo e me enclausurar durante cinco anos?
— Mas se você se recusar corre o risco de passar boa parte da vida na cadeia. Daqui a cinco anos você ainda nem estará com trinta anos. Terá tempo de reconstruir sua vida.
Woody estava arrasado: desde o começo pressentira o que o aguardava, mas só então se tornou bem real.
— Saul, peça para não me prenderem imediatamente — suplicou Woody. — Peça para me darem mais alguns dias de liberdade. Quero me apresentar na penitenciária como um homem livre. Não quero ser preso feito um cachorro daqui a quinze minutos e jogado no fundo de um camburão.
O advogado encaminhou o pleito ao promotor, que aceitou o acordo. E Woody foi condenado a cinco anos de reclusão sem encarceramento imediato, devendo se apresentar uma semana mais tarde, no dia 25 de outubro, na penitenciária estadual de Cheshire, em Connecticut.