O Livro dos Baltimore
Capítulo 9
Foi numa noite de meados de março de 2012 que finalmente juntei toda a coragem que tinha. Aproveitei que Kevin não estava e, após deixar Duke, retornei e toquei novamente a campainha.
— Esqueceu alguma coisa? — perguntou Alexandra pelo interfone.
— Preciso falar com você.
Ela abriu a porta e foi me encontrar diante de casa. Não saí do carro, me limitando a abaixar o vidro.
— Eu queria te levar para sair.
Tudo o que ela respondeu foi:
— O que devo dizer a Kevin?
— Não diga nada. Ou diga o que quiser.
Ela fechou o portão e se sentou no banco do carona.
— Aonde vamos? — perguntou.
— Você vai ver.
Arranquei e saí do bairro para pegar a autoestrada em direção a Miami. Anoitecia. As luzes dos prédios à beira-mar cintilavam à nossa volta. O rádio do carro tocava as músicas do momento. Senti seu perfume. Recordei dez anos antes, ela e eu, atravessando o país com suas primeiras gravações demo para tentar convencer as rádios a tocá-las. Então, como se o destino estivesse brincando com nossos corações, a estação que escutávamos no carro tocou o primeiro sucesso de Alexandra. Vi lágrimas escorrendo em seu rosto.
— Lembra a primeira vez que ouvimos essa música no rádio? — perguntou ela.
— Claro.
— Devo tudo isso a você, Marcus. Foi você quem me incentivou a lutar pelos meus sonhos.
— É tudo obra sua. E de mais ninguém.
— Você sabe que isso não é verdade.
Ela estava chorando. Eu não sabia o que fazer. Coloquei uma das mãos em seu joelho e ela a segurou. Depois a apertou com força.
Fomos em silêncio até Coconut Grove. Percorri as ruas residenciais, e ela não disse nada. Finalmente chegamos à casa do meu tio. Estacionei no meio-fio e desliguei o motor.
— Onde estamos? — perguntou Alexandra.
— Foi nessa casa que terminou a história dos Goldman-de-Baltimore.
— Quem morava aqui, Marcus?
— Tio Saul. Ele passou os últimos cinco anos de sua vida aqui.
— Quando… quando ele morreu?
— Em novembro. Vai fazer quatro meses.
— Sinto muito, Marcus. Por que não me contou um dia desses?
— Eu não estava com vontade de falar sobre isso.
Saímos do carro e nos sentamos em frente à casa. Eu estava me sentindo bem.
— O que o seu tio fazia na Flórida? — perguntou Alexandra.
— Ele fugiu de Baltimore.
Anoitecera naquela rua tranquila. Estávamos numa semipenumbra propícia a confidências. A escuridão me impedia de ver seus olhos, mas eu sabia que Alexandra me observava.
— Sinto sua falta há oito anos, Marcus.
— Eu também…
— Eu só queria ser feliz…
— Não é feliz com Kevin?
— Eu queria ser feliz com ele como sou com você.
— Será que você e eu…
— Não, Marcus. Você me magoou muito. Me abandonou…
— Fui embora porque você deveria ter me contado o que sabia, Alexandra…
Ela enxugou os olhos com o dorso do braço.
— Pare, Marcus. Pare de se comportar como se tudo fosse culpa minha. O que teria mudado se eu houvesse contado? Acha que eles ainda estariam vivos? Será que algum dia vai entender que você não tinha como salvar seus primos? — Ela desatou a chorar. — Deveríamos ter ficado juntos pelo resto da vida, Marcus.
— Agora você está com Kevin.
Ela percebeu que eu a culpava.
— O que queria que eu fizesse, Marcus? Que passasse a vida inteira esperando por você? Esperei por tempo suficiente. Esperei demais. Esperei por anos a fio. Anos, está ouvindo? Primeiro, substituí você por um cachorro. Por que acha que adotei Duke? Preenchi minha solidão na esperança de que você reaparecesse. Depois que foi embora, passei três anos cultivando diariamente a esperança de reencontrar você. Dizia para mim mesma que você estava em choque, que precisava de tempo…
— Também não parei de pensar em você durante todos esses anos — falei.
— Não me venha com esse papo furado, Markie! Se tivesse tanta vontade de me reencontrar, teria feito isso. Mas preferiu ficar com aquela atriz de segunda categoria.
— Isso foi três anos depois da nossa separação! — exclamei. — E, aliás, foi uma coisa sem importância.
Meu relacionamento com Lydia Gloor começara com um mal-entendido. Foi no outono de 2007, em Nova York. Naquela época, os direitos do meu primeiro romance, G de Goldstein, tinham sido vendidos para a Paramount, e as filmagens estavam previstas para o verão seguinte, em Wilmington, na Carolina do Norte. Certa noite, fui convidado a assistir na Broadway a uma adaptação de Gata em telhado de zinco quente, que estava fazendo um enorme sucesso. O papel de Maggie era interpretado por Lydia Gloor, uma jovem atriz de cinema que estava em alta e era disputada pelos diretores. Aparentemente Lydia Gloor no papel de Maggie era a revelação do ano. A peça estava com a lotação esgotada. A crítica era unânime, Nova York inteira se apressava para ver. Minha opinião no fim da peça foi que a atuação de Lydia Gloor tinha sido um desastre. Ela estava bem durante os primeiros vinte minutos e reproduzia perfeitamente o sotaque do Sul. O problema era que ia se perdendo aos poucos e no fim do espetáculo seu sotaque adquiria nuances do alemão.
Essa história teria encerrado aí se o acaso da vida não determinasse que, no dia seguinte, eu fosse esbarrar com ela no café embaixo da minha casa, aonde ia todos os dias. Eu estava sentado a uma mesa, lendo o jornal e tomando tranquilamente meu café. Só a vi quando se aproximou.
— Oi, Marcus — disse ela.
Nunca tínhamos nos encontrado e fiquei impressionado que ela soubesse meu nome.
— Oi, Lydia. Prazer conhecer você.
Ela apontou para a cadeira vazia à sua frente.
— Posso me sentar? — perguntou.
— Claro.
Então se sentou. Parecia incomodada. Começou a brincar com seu copinho de café.
— Fiquei sabendo que você estava na peça ontem…
— Sim, foi magnífica.
— Marcus, eu queria… Eu queria lhe agradecer.
— Me agradecer? Por quê?
— Por ter aceitado que eu participasse do filme. Achei legal você ter aceitado. Eu… adorei o livro. Nunca tive oportunidade de lhe dizer isso.
— Espere um pouco. De que filme você está falando?
— Ora, de G de Goldstein.
E foi nesse momento que ela me revelou que ia interpretar Alicia (na verdade, Alexandra). Eu não estava entendendo nada. O elenco já tinha sido escolhido, e eu aprovara cada um dos atores. Ela não era Alicia. Impossível.
— Está havendo um mal-entendido — falei, num tom totalmente desastrado. — Está tudo certo para o filme, mas posso garantir que você não está no elenco. Acho que fez confusão.
— Confusão? Claro que não. Já assinei o contrato. Eu achava que você sabia… Na verdade, achei que você tinha aprovado.
— Não, estou dizendo que houve um mal-entendido. De fato eu aprovei o elenco e você não vai interpretar o papel de Alicia.
Ela repetiu que tinha certeza do que afirmava. Disse que havia falado com seu agente naquela mesma manhã. Que lera meu livro duas vezes para entrar no clima. Que adorara. Enquanto falava, continuava brincando nervosamente com seu café, que acabou derrubando e que se espalhou pela mesa até chegar a mim. Ela se apressou a secar minha camisa com guardanapos de papel e até mesmo com seu xale de seda, pedindo mil desculpas, completamente em pânico, e eu, sem dúvida exaltado, acabei dizendo algo de que logo depois me arrependeria:
— Escute, você não pode interpretar Alicia. Em primeiro lugar, não tem nada a ver com ela. Além do mais, vi você em Gata em telhado de zinco quente e não me convenceu.
— Como assim, não se convenceu? — retrucou ela.
Não sei o que me deu, porque falei:
— Acho que você não tem talento suficiente para atuar nesse filme. Ponto final. Não quero você. Não quero você na minha vida.
Foi uma evidente falta de tato da minha parte, uma frase dita num momento de raiva, sem dúvida alguma. O resultado foi imediato: Lydia desatou a chorar. A grande estrela da época estava chorando na minha mesa. Ouvi os cochichos dos clientes em volta, sendo que alguns começaram a tirar fotos. Eu me apressei a consolá-la, desferi mil desculpas, disse que minhas palavras não expressavam minha opinião, mas era tarde demais. Ela chorava em silêncio, e eu não sabia o que fazer. Acabei fugindo dali e corri para minha casa.
Eu sabia que tinha me metido numa confusão, e as consequências não demoraram a aparecer: algumas horas após o incidente, fui convocado por Roy, influente personalidade do cinema e produtor da adaptação cinematográfica de G de Goldstein, que, por coincidência, estava em Nova York naquela semana. Ele me recebeu em seu escritório no topo de um arranha-céu da Lexington Avenue.
— Vocês, escritores, não passam de um bando de neuróticos e retardados mentais! — berrou ele, suando, com o rosto vermelho, prestes a arrebentar sua camisa justíssima. — Você faz a atriz mais amada do país chorar na varanda de um café? Mas que tipo de idiota você é, Goldman? Um porra-louca? Um maluco?
— Escute, Roy — gaguejei —, foi um mal-entendido…
— Goldman — interrompeu ele num tom solene —, você é o escritor mais jovem e mais promissor que eu conheço, mas ao mesmo tempo é uma fonte inesgotável de aborrecimentos!
As primeiras fotos minhas e de Lydia tiradas pelos clientes do café já tinham sido publicadas na internet. O boato surgiu: por que o escritor Marcus Goldman havia feito Lydia Gloor chorar? Ao sair do café no SoHo, ela ligara para seu agente, que telefonara para um chefão da Paramount, que entrara em contanto com Roy, que mandara me chamar na mesma hora para fazer uma daquelas cenas que só ele sabia. Sua assistente, Marisa, pesquisava na internet as matérias que abordavam o “mal-entendido” e, à medida que surgiam, ela as imprimia, irrompendo no escritório a intervalos regulares e berrando com sua voz de matraca:
— Outra reportagem, senhor!
— Leia, querida Marisa, leia para nós as últimas notícias do naufrágio Goldman, para que eu possa avaliar a amplitude do desastre.
— Foi tirado do site Hoje na América: “O que está havendo entre o escritor de sucesso Marcus Goldman e a atriz Lydia Gloor? Várias testemunhas teriam presenciado uma discussão séria entre as jovens celebridades. Não perca a continuação dessa história.” Já deixaram comentários, senhor.
— Leia, Marisa! — berrou Roy. — Leia!
— Lisa F., do Colorado, diz: “Esse Marcus Goldman é mesmo mau caráter!”
— Está ouvindo, Goldman? Todas as mulheres dos Estados Unidos te odeiam!
— O quê? Ora, Roy, é só o comentário de uma pessoa anônima na internet!
— Desconfie das mulheres, Goldman, elas são como um rebanho de búfalos: se machuca uma delas, todas as outras saem em defesa e pisoteiam você até a morte.
— Roy — interrompi —, prometo que não vou mais encontrar essa mulher.
— Isso é óbvio, seu encrenqueiro! Mas esse é justamente o problema. Preste atenção: eu me mato pela sua carreira, produzo o filme do século e você manda tudo para o espaço. Sabe, Goldman, você vai acabar me matando com essa mania de colocar tudo de pernas para o ar. E o que você vai fazer quando eu morrer, hein? Vai choramingar no meu túmulo, porque não terá mais ninguém para ajudá-lo. Precisava dizer barbaridades para aquela mocinha, que é uma atriz que todo mundo adora? Quando você faz chorar uma atriz que todo mundo adora, o que acontece? Todas as pessoas passam a detestar você! E se o país inteiro detesta você, ninguém vai ver o filme inspirado em seu livro! Quer ser detestado por todo mundo? Olhe, já está na internet: Marcus mau, Lydia boa.
— Mas foi porque ela veio me falar que estava no elenco do filme — justifiquei. — Eu só disse que ela estava enganada.
— Mas ela está no elenco, espertão! Inclusive é o chamariz do filme!
— Mas, Roy, nós vimos juntos a seleção do elenco! Aprovamos juntos a escolha dos atores! O que aconteceu com a atriz que havíamos escolhido inicialmente?
— Foi demitida!
— Demitida?
— Exatamente. De-mi-ti-da.
— Mas por que motivo?
— No último filme que fez, ela comia todas as rosquinhas durante o intervalo!
— Ah, Roy, que bobagem é essa?
— É verdade. Chamei o agente dela e disse: ei, rapaz, pegue essa comilona e deem o fora! Isso aqui é um set de filmagem, não uma criação de leitoas!
— Chega, Roy! Por que Lydia Gloor está no filme?
— A Paramount mudou o elenco.
— Mas por quê? E com que direito?
— Faltavam atores bankables. Lydia Gloor é muito bankable. Muito mais que os atores ridículos que você escolheu, que, sem exceção, pareciam ter vindo direto das sarjetas de Nova York.
— Bankable?
— Bankable é um termo de cinema. É a relação entre o salário pago a um ator pela produção e o dinheiro que o filme arrecada depois. A pequena Gloor parece muito bankable: se ela estiver no filme, mais gente vai querer assistir. Isso significa mais dinheiro para você, para mim, para eles, para todo mundo.
— Sei o que bankable significa.
— Não sabe, não! Porque, se soubesse, estaria beijando meus pés para me agradecer por tê-la contratado.
— Mas por que diabo você acata todos os desejos da Paramount? Eu não aceito que ela interprete Alicia, ponto final.
— Ah, Marcus, você não tem que aceitar nada. Quer realmente que eu lhe mostre todas as cláusulas minúsculas e incompreensíveis que você assinou? Permitimos que você acompanhasse a escolha do elenco só para agradá-lo… Você vai ver só, será um grande sucesso. O salário dela é uma fortuna. O que é caro é bom. Todo mundo vai correr para ver o filme. Quanto a você, se continuar bancando o homem do coração de gelo, prepare-se para ver grupinhos feministas queimando seus livros em praça pública e protestando em frente à sua casa.
— Roy, você é terrível.
— É assim que você agradece a quem garante o seu futuro?
— Meu futuro são os livros — respondi. — Não o seu filme idiota.
— Ah, por favor, pare com suas ladainhas de revolucionário em que ninguém acredita. Livro é passado, meu pobre Marcus.
— Ah, Roy, não acredito que você está mesmo dizendo isso.
— Ora, não fique triste, meu caro Goldman. Daqui a vinte anos as pessoas não vão mais ler. É o que vai acontecer. Elas estarão muito ocupadas mexendo no celular. Sabe, Goldman, é o fim da edição. Os filhos dos seus filhos vão olhar para os livros com a mesma curiosidade com que nós olhamos para os hieróglifos dos faraós. Eles vão perguntar: “Vovô, para que servem os livros?” E você vai responder: “Para imaginar. Ou para acabar com as árvores, não sei mais.” Nesse momento será tarde demais para abrir os olhos: a fraqueza da humanidade terá atingido um limiar crítico e nosso entretenimento será a loucura congênita (sendo que esse já é praticamente o caso). O futuro não está mais nos livros, Goldman.
— Ah, é? E onde está nosso futuro, Roy?
— No cinema, Goldman. No cinema!
— No cinema?
— O cinema, Goldman, é o futuro! Agora as pessoas querem imagem! As pessoas não querem mais refletir, querem ser guiadas! São escravizadas da manhã à noite e quando voltam para casa se sentem perdidas: seu mestre e chefe, a mão benfeitora que as protege, não está mais ali para espancá-las e conduzi-las. Felizmente existe a televisão. O homem liga o aparelho, se prosterna, lhe entrega seu destino. “O que devo comer, Mestre?”, pergunta à televisão. “Lasanha congelada!”, ordena a publicidade. E ele corre para colocar no micro-ondas aquela pequena embalagem nojenta. Em seguida, se ajoelha e pergunta: “Ei, Mestre, o que devo beber?” “Coca-Cola superaçucarada!”, berra a televisão, irritada. E ordena: “Empanturre-se, leitão, empanturre-se! Que seu corpo fique flácido e cheio de gordura.” E o homem obedece. E se empanturra. Passada a hora da refeição, a televisão se irrita e muda os anúncios: “Você está muito gordo! Está muito feio! Vá se exercitar! Fique lindo! Compre eletrodos para esculpir seu corpo, cremes para tonificar os músculos enquanto você dorme, pílulas mágicas para fazerem toda essa ginástica que você não tem mais saco porque está digerindo sua pizza!” Assim funciona o ciclo da vida, Goldman. O homem é fraco. Gregário por instinto, gosta de se espremer em salas escuras chamadas cinemas. E tcharam! Lá vem a propaganda, a pipoca, a música, as revistas gratuitas, os trailers que antecedem o filme e dizem: “Seu paspalhão, você se enganou de filme, melhor ver esse aqui, é muito mais legal!” Ei, mas você pagou pelo seu lugar, está encurralado! Então terá que voltar para ver esse outro filme, antes do qual outro trailer lhe dirá mais uma vez que você não passa de um otário, e, infeliz e deprimido, durante o intervalo você vai consumir refrigerantes e sorvetes de chocolate vendidos a um preço exorbitante para esquecer sua situação miserável. Talvez só haja você e alguns resistentes espremidos na última livraria do país, mas vocês não conseguirão lutar indefinidamente: o povo dos zumbis e dos escravos acabará vencendo.
Caí pesadamente numa poltrona, desapontado.
— Você está louco, Roy! É uma piada, por acaso?
Como resposta, ele apenas conferiu o relógio e tamborilou os dedos no mostrador.
— Ande, agora vá, Goldman. Vai se atrasar.
— Me atrasar?
— Para o seu jantar com Lydia Gloor. Passe em casa, coloque perfume e vista um terno, porque é um restaurante chiquérrimo.
— Ah, Roy, fala sério! O que mais você fez?
— Ela recebeu um buquê de flores e um bilhete fofo escrito à mão.
— Mas eu não mandei nada para ela!
— Sei disso! Se eu tivesse que esperar você se mexer, não sairíamos do lugar. Tudo o que peço é que jante com ela. Num lugar público. Para todo mundo ver que você é um bom rapaz.
— Nunca, Roy!
— Não existe “nunca”! Essa garota é o nosso pote de ouro. Vamos paparicá-la! Vamos amá-la!
— Roy, você não está entendendo. Não tenho mais nada a dizer para essa garota.
— Você é terrível, Goldman: é jovem, rico, bonito, um escritor famoso… E o que faz? Reclama. Resmunga! Parece uma carpideira grega, caramba!
Naquela malfadada noite, Lydia e eu jantamos no Pierre. Eu achava que era apenas um jantar para acalmar os ânimos. Mas Roy armara tudo: havia paparazzi emboscados, e logo na manhã seguinte fotos de um suposto romance entre nós apareceram na internet. E todo mundo acreditou.
* * *
— Li uma matéria sobre vocês dois numa revista — disse Alexandra após ter escutado minha história na varanda da casa do meu tio. Todos os tabloides abordaram o assunto.
— Era falso. Uma armação.
Ela virou a cabeça.
— O dia em que li a matéria foi o dia em que decidi virar a página. Até então eu estava esperando por você, Marcus. Eu achava que você ia voltar. Mas partiu meu coração.
Nashville, Tennessee.
Novembro de 2007.
Eram nove da noite quando Samantha, uma das amigas mais próximas de Alexandra, apareceu em sua casa. Passara o dia inteiro tentando encontrá-la, sem sucesso. Como ninguém atendia o interfone, Samantha escalou o portão e se aproximou da casa. Bateu à porta.
— Alex? Abra. É Sam. Passei o dia atrás de você. — Nenhuma resposta. — Sei que você está aí, Alex, vi seu carro estacionado aqui fora.
A fechadura fez um clique e Alexandra abriu a porta. Estava com uma aparência terrível e com os olhos inchados de tanto chorar.
— Alex, meu Deus! O que está acontecendo?
— Ah, Sam…
Alexandra se jogou em seus braços e desatou a chorar. Era incapaz de articular a mais ínfima palavra. Samantha a acomodou na sala e foi até cozinha preparar um chá. Viu os jornais espalhados na mesa. Pegou um ao acaso e leu a manchete.
LYDIA GLOOR E O ESCRITOR GOLDMAN ESTÃO JUNTOS.
Alexandra se juntou a ela na cozinha, seguida por Duke.
— Ele está com ela. Está saindo com Lydia Gloor — murmurou Alexandra.
— Ah, minha querida… Sinto muito. Por que não me contou nada?
— Eu queria ficar sozinha.
— Ah, Alex… Você não deve mais ficar sozinha. Não sei o que aconteceu com esse Marcus, mas precisa desistir dele. Você tem tudo! É bonita, inteligente, tem o mundo a seus pés.
Alexandra deu de ombros.
— Desaprendi a paquerar.
— Ah, deixe disse, por favor!
— É verdade! — protestou Alexandra.
Samantha era casada com um dos astros da equipe de hóquei do Nashville Predators.
— Escute, Alex — disse ela. — Tem um jogador, Kevin Legendre… Ele é muito simpático e é louco por você. Faz meses que insiste para que eu marque um encontro. Venha jantar lá em casa na sexta. Vou convidá-lo também. Não custa nada, não é mesmo?
* * *
— Fui ao tal jantar — disse Alexandra. — Eu precisava esquecer você. E foi o que fiz.
— Eu não estava com Lydia naquela época! — exclamei. — Eu também estava esperando por você, Alexandra! Quando as fotos foram publicadas, não tinha acontecido absolutamente nada entre nós dois.
— Mas vocês tiveram um caso, não foi?
— Depois!
— Depois do quê?
— Depois que vi as fotos de você e Kevin nos jornais! Isso me deixou arrasado. Fui me consolar com Lydia. Mas não durou muito. Nunca consegui esquecer você, Alexandra.
Ela esboçou um olhar triste. Vi uma lágrima surgir no canto do seu olho e escorrer pelo rosto.
— O que fizemos, Marcus?