O Livro dos Baltimore
Capítulo 38
Nova York.
Verão de 2011.
Os acontecimentos relacionados à morte de tia Anita encontraram nova ressonância nove anos após os fatos, em agosto de 2011, quando tio Saul me ligou para pedir que eu fosse assistir à destruição de seu nome no estádio da Universidade de Madison.
Retornei a Nova York depois que ele me expulsara de sua casa, em junho. Fazia cinco anos que ele morava em Coconut Grove, e seria a primeira vez que eu não iria visitá-lo na Flórida. Foi nesse momento que tive a ideia de comprar uma casa lá: se eu me sentia bem na Flórida, precisava ter um cantinho meu ali. Eu podia ter uma casa para escrever em paz, longe da agitação de Nova York e perto do meu tio. Até então eu partira do princípio de que minhas visitas lhe agradavam, mas imaginei que ele também devia precisar de um espaço para levar sua vida, sem o sobrinho em seu pé. Era compreensível.
O estranho era a escassez de notícias dele. Isso não era do seu feitio. Eu sempre tivera uma relação próxima com ele, a morte de tia Anita e o Drama nos haviam aproximado ainda mais. Fazia cinco anos que eu ia regularmente para a Costa Leste arrancá-lo da solidão. Por que ele cortara os laços de repente? Não se passava nem um dia sequer sem que eu me perguntasse se fizera alguma coisa errada. Estaria ligado a Faith, a gerente do supermercado, com quem eu suspeitava que ele tinha um caso? Será que ele se sentia constrangido por isso? Considerava-se infiel? Fazia nove anos que sua esposa falecera, ele tinha o direito de sair com alguém.
Só saiu desse silêncio dois meses mais tarde para pedir que eu fosse ao estádio de Madison. Após perceber que Madison estava no centro da mecânica que destroçara os Baltimore, liguei para ele no dia seguinte. Madison era o veneno.
— Tio Saul, o que aconteceu em Madison durante esses anos? — perguntei ao telefone. — Por que você bancou a manutenção do estádio durante dez anos?
— Porque eu queria meu nome por cima.
— Mas por quê? Isso não combina com você.
— Por que está me fazendo todas essas perguntas? Por acaso vai finalmente escrever um livro sobre mim?
— Talvez.
Ele caiu na gargalhada.
— No fundo, quando Hillel e Woody foram para Madison, foi o início do fim. Começando pelo fim do meu casamento. Como você sabe, sua tia e eu nos amávamos muito.
Ele me contou por alto como, quando era um Goldman-de-Nova-Jersey, conhecera tia Anita, ao lado de quem se tornou um Goldman-de-Baltimore. Relembrou as origens do encontro deles, quando fora estudar na Universidade de Maryland, no fim dos anos 1960. O pai de tia Anita, o professor Hendricks, ensinava economia lá e tio Saul era seu aluno.
Os dois se entendiam particularmente bem e, quando tio Saul lhe pediu ajuda para um projeto, o professor Hendricks aceitou de bom grado.
O nome de Saul estava sempre presente nas conversas na casa dos Hendricks, de forma que certo dia a Sra. Hendricks, mãe de Anita, acabou perguntando:
— Afinal, quem é esse Saul que monopoliza nossas conversas? Assim vou ficar com ciúme…
— Meu aluno Saul Goldman, querida. Um judeu de Nova Jersey. O pai dele é dono de uma empresa de equipamentos médicos. Gosto muito desse rapaz, ele vai longe.
A Sra. Hendricks exigiu que Saul fosse convidado para jantar na casa deles, o que aconteceu na semana seguinte. Anita logo se encantou com o charme daquele rapaz amável e elegante.
Os sentimentos de Anita foram compartilhados. Saul, que em geral não se intimidava, ficava sem jeito quando a via. Acabou chamando-a para sair uma, duas vezes. Foi novamente convidado para jantar na casa dos Hendricks. Anita ficava admirada com a impressão que Saul causava em seu pai. Já tinha notado que ele olhava para Saul daquela maneira inconfundível que reservava a quem respeitava imensamente. Saul começou a frequentar a casa nos fins de semana, para trabalhar em seu projeto, que, ele explicara, tinha como objetivo alavancar a empresa do pai.
* * *
A primeira vez que se beijaram foi num dia de chuva. Enquanto a levava para casa de carro, um dilúvio desabou sobre eles. Então Saul estacionou um pouco antes da casa dos Hendricks. A carroceria era fustigada pela chuva torrencial, então Saul sugeriu que esperassem um pouco. “Acho que não vai durar”, declarou num tom de especialista. Alguns minutos mais tarde, a chuva piorou. A água que escorria pelo para-brisa e pelos vidros deixava-os invisíveis. Saul aproximou a mão, ela a segurou e eles se beijaram.
A partir desse dia, se beijaram pelo menos uma vez todos os dias durante trinta e cinco anos.
* * *
Em paralelo ao seu curso de medicina, Anita trabalhava como vendedora na Delfino, uma loja de gravatas bastante renomada em Washington. Seu chefe era um casca-grossa. Às vezes tio Saul ia cumprimentá-la, dando uma passada rápida para não ser importuno, e fazendo isso só quando não havia cliente na loja. Mas o chefe dela não poupava comentários desdenhosos, dizendo-lhe: “Não pago você para namorar, Anita.”
Em consequência disso, para irritá-lo, tio Saul começou a comprar gravatas para legitimar sua presença. Ele entrava, fingia não conhecer Anita, dizendo-lhe “Bom dia, senhorita”, e pedia para experimentar alguns modelos. Às vezes, decidia rapidamente e comprava uma gravata. Mas em geral demorava. Experimentava, experimentava de novo, refazia os nós três vezes, pedia desculpas a Anita por ser tão lento, e ela precisava morder os lábios para não rir. Todo esse circo enlouquecia seu chefe, mas ele não se atrevia a dizer nada, afinal não queria arriscar perder uma venda.
Anita suplicava para que Saul parasse: ele não tinha muito dinheiro e acabava gastando tudo em gravatas inúteis. Ele, ao contrário, lhe dizia que nunca fizera tão bom uso de seu dinheiro. Ia guardar aquelas gravatas pelo resto da vida. E, anos mais tarde, em sua mansão de Baltimore, quando tia Anita sugeria que Saul se livrasse daquelas velhas gravatas, ele ficava ofendido, garantindo que cada uma delas era uma recordação especial.
* * *
Quando Saul considerou que seu plano de revitalização da Goldman & Cia estava suficientemente bom, decidiu mostrá-lo ao pai. Na véspera de ir a Nova Jersey, ensaiou sua apresentação com Anita para ter certeza de que tudo seria perfeito. Porém, no dia seguinte, Max Goldman não quis ouvir falar sobre nenhuma expansão da empresa. Saul foi ignorado e ficou muito ressentido. De volta a Maryland, nem sequer ousou contar ao pai de Anita que fora rechaçado.
* * *
O professor Hendricks era superengajado na causa dos direitos civis. Saul, por mais que não fosse um ativista, era sensível à causa. Acompanhou-o eventualmente a uma reunião e a uma manifestação, sobretudo porque considerara uma maneira de lhe agradecer pela ajuda em seu projeto. Mas logo descobriu outro interesse naquilo.
Naquela época, soprava no país um vento de contestação: as manifestações contra a guerra, a segregação e o governo ocorriam por toda parte. Estudantes de todas as universidades organizavam excursões em ônibus de um estado a outro para aumentarem o número de manifestantes, e Saul, que não tinha um dólar sequer para financiar as ideias de expansão da Goldman & Cia. que seu pai se recusava a apoiar, encontrou nessas manifestações a oportunidade de viajar de graça para prospectar os mercados em nome da empresa da família.
Seu raio de ação se expandiu no ritmo dos movimentos dos protestos. Motins da Universidade de Kent, greves universitárias contra Nixon. Ele planejava cuidadosamente as viagens e, nas cidades onde ocorreriam as manifestações, marcava reuniões com donos de hospitais, atacadistas, transportadores. Assim que chegavam ao local, ele desaparecia no meio da confusão da multidão. Abotoava a camisa, arrumava o terno, tirando os broches antiguerra, dava o nó na gravata e ia para suas reuniões. Apresentava-se como diretor de desenvolvimento da Goldman & Cia., pequena empresa de equipamentos médicos de Nova Jersey. Tentava entender quais eram as necessidades nas diferentes regiões, quais eram as expectativas e as reclamações dos hospitais e dos médicos, em que brecha a Goldman & Cia. poderia investir. Era na rapidez da entrega? Na qualidade do material? No serviço de manutenção? Era preciso criar um depósito em cada cidade? Em cada estado? Informava-se sobre os aluguéis, os salários, as convenções sociais dos funcionários. De volta ao seu quartinho no campus da Universidade de Maryland, juntava suas anotações numa grande pasta e registrava as mais diversas alternativas num mapa do país preso na parede. Só tinha uma ideia na cabeça: preparar, ponto a ponto, um projeto de expansão para a empresa do pai, do qual ele pudesse se orgulhar. Seria seu momento de glória: superaria seu irmão, o engenheiro respeitado. Seria ele quem garantiria a estabilidade dos Goldman.
Às vezes Anita o acompanhava nas viagens. Principalmente quando o pai dela participava da manifestação. Ela ficava com o pai durante toda a passeata e o distraía, dando a entender que Saul estava logo atrás ou com os organizadores, à frente da manifestação. Eles se encontravam no ônibus no fim do dia e o professor Hendricks perguntava:
— Onde você estava, Saul? Não te vi hoje.
— Essa multidão, professor Hendricks, essa multidão…
* * *
O ano de 1972 marcou o auge de seu ativismo. Ele abraçava todas as causas: Watergate, a igualdade das mulheres, o Projeto Honeywell contra as minas antipessoais. Pouco importava, contanto que tio Saul tivesse um bom álibi para continuar com suas prospecções. Num fim de semana, eles estavam numa manifestação em Atlanta, no seguinte, participavam de uma reunião do comitê dos direitos dos negros e, na outra semana, de uma passeata em Washington. Saul estava conseguindo firmar relações de parceria duradouras com hospitais universitários de primeira linha.
Os pais de Saul sabiam que o filho vivia zanzando, mas acreditavam totalmente na versão oficial que afirmava que ele era um ativista engajado na causa dos direitos civis. Como poderiam imaginar a realidade?
* * *
Na primavera de 1973, tio Saul estava prestes a revelar ao pai o extraordinário trabalho que realizara para a empresa: havia parcerias prontas a serem assinadas, potenciais colaboradores de confiança, listas de depósitos a serem alugados. E então houve aquela manifestação em Atlanta, da qual o professor Hendricks era um dos organizadores. Daquela vez, Saul e Anita permaneceram com ele na primeira fila durante toda a passeata. Isso não teria maiores consequências se a foto deles não tivesse sido capa da Time. Por causa dessa imagem, Max Goldman tivera uma discussão terrível com o filho. Depois disso, ficaram doze anos sem se falar. Bastava ter explicado ao meu avô, mas Saul fora incapaz de engolir seu orgulho.
* * *
Ao telefone, interrompi tio Saul para perguntar:
— Então você nunca foi um ativista?
— Nunca, Marcus. Eu só estava tentando expandir a Goldman & Cia. para impressionar meu pai. Isso era tudo o que eu queria: que ele tivesse orgulho de mim. Eu me senti totalmente rejeitado. Ele me magoou. Queria comandar tudo à sua maneira. Veja aonde isso nos levou.
* * *
Após a discussão, tio Saul decidiu dar um novo rumo à sua vida. Enquanto Anita cursava medicina, ele resolveu fazer direito.
Depois se casaram. Max Goldman não foi à cerimônia.
Saul começou a trabalhar como advogado no estado de Maryland. Anita fora contratada como médica patologista no Hospital Johns Hopkins, então eles se instalaram em Baltimore. Saul estudara direito comercial e logo se tornou um próspero advogado. Paralelamente, fez investimentos que se mostraram muito lucrativos.
* * *
Foram muito felizes juntos. Iam ao cinema toda semana e descansavam aos domingos. Quando Anita estava de folga, passava de surpresa no escritório dele para irem almoçar. Se, ao chegar, ela visse pelo vidro de sua sala que ele estava muito ocupado, preso numa reunião ou estudando um processo, ela ia ao Stella, um restaurante italiano que ficava ali perto. Pedia uma massa e um tiramisù para viagem e deixava com a secretária de Saul junto de um bilhete: “Um anjo passou por aqui.”
Ao longo dos anos, o Stella se tornou o restaurante preferido dos dois em Baltimore. Estreitaram relações com o dono, Nicola, a quem tio Saul prestava consultoria jurídica de vez em quando. Claro que Woody, Hillel e eu também conhecemos bem o Stella, aonde tio Saul e tia Anita nos levavam com frequência.
Durante os anos seguintes à sua mudança para Baltimore, a única nuvem que pairava sobre a felicidade deles era o fato de não terem filhos. Não havia explicação: os médicos consultados declararam os dois em perfeitas condições de saúde.
Anita finalmente engravidou após sete anos de casamento, e foi assim que Hillel entrou em nossas vidas. Será que aquela espera tinha sido um capricho da natureza ou não passara de uma pegadinha da vida, que dera um jeito para que Hillel e eu nascêssemos com apenas alguns meses de diferença?
* * *
Perguntei ao meu tio ao telefone:
— Qual é a relação entre o que você está me contando e Madison?
— As crianças, Marcus. As crianças.
Fevereiro a maio de 2002.
Durante os três meses que sucederam à morte de tia Anita, Hillel e eu terminamos a faculdade.
Woody, por sua vez, desistira definitivamente dos estudos. Sufocado pela culpa, encontrou consolo com Colleen, em Madison, que teve toda a paciência do mundo com ele. Durante o dia, Woody a ajudava no posto de gasolina; à noite, fazia um bico num restaurante chinês para ganhar um pouco mais de dinheiro. Com exceção das idas ao supermercado, entocava-se nesses dois lugares. Não queria esbarrar com Hillel. Eles não se falavam mais.
* * *
Com o diploma no bolso, eu decidira me dedicar ao meu primeiro romance. Era para mim o início de um período ao mesmo tempo trágico e maravilhoso, que desembocaria em 2006: ano da publicação de G de Goldstein, meu primeiro livro, ano da consagração do filho de Montclair, o veranista dos Hamptons, o novo queridinho da literatura americana.
Se algum dia você visitar meus pais em Montclair, com certeza minha mãe lhe mostrará “o cômodo”. Faz anos que ela o mantém intacto. No entanto, já supliquei várias vezes que o usasse para um propósito melhor, mas ela não quer nem saber. E ainda o chama de o museu de Markie. Se você for à casa deles, ela vai levá-lo para visitar esse quarto. Empurrará a porta e dirá: “Olhe, foi aqui que Marcus escreveu.” Eu certamente não teria pensado em me instalar mais uma vez na casa dos meus pais para escrever se minha mãe não tivesse feito a surpresa de reformar o quarto de hóspedes.
— Feche os olhos e me siga, Markie — dissera ela no dia em que voltei da faculdade.
Eu obedecera e me deixara guiar até o centro do quarto. Meu pai estava tão animado quanto ela.
— Não abra os olhos ainda — ordenara ela, ao perceber que eu mexia as pálpebras.
Eu ri. Por fim, ela permitira:
— Pronto, pode olhar!
Eu ficara sem palavras. O quarto de hóspedes, secretamente rebatizado sob meus cuidados como um quarto-bazar, por ter, ao longo do tempo, acumulado objetos que ninguém sabia se devia guardar ou jogar fora, havia sido transformado. Meus pais haviam desentulhado e reformado o local: cortinas novas, carpete novo e, numa das paredes, uma grande estante. De frente para a janela estava a escrivaninha que vovô usara durante a época em que comandara a própria empresa e que passara um tempo mofando num depósito.
— Bem-vindo ao seu escritório — dissera minha mãe, me dando um beijo em seguida. — Aqui você vai ficar bem para escrever.
Foi nesse escritório que redigi o romance sobre meus primos, G de Goldstein, o livro do destino perdido deles, que eu só finalizei após o Drama. Por muito tempo afirmei que a redação do meu primeiro romance levou quatro anos. Mas basta reparar na cronologia para perceber que houve um buraco de dois anos, que me permite não ter de explicar o que fiz do verão de 2002 até o dia do Drama, em 24 de novembro de 2004.