O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 31 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 28

 

 

Tio Saul só fora duas vezes à casa dos meus pais em Montclair. Eu sei porque durante muito tempo minha mãe se queixou de que ele nunca pusera os pés lá em casa. Às vezes eu a ouvia se exaltar com meu pai sobre isso, principalmente quando era preciso organizar as festas de família.

— Ora, Nathan, seu irmão nunca colocou os pés aqui! Você não acha isso estranho? Ele nem faz ideia de como é a nossa casa.

— Mostrei algumas fotos para ele — retrucava meu pai.

— Não banque o idiota comigo, por favor!

— Deborah, você sabe por que ele não vem.

— Sei, e isso me deixa ainda mais irritada! Vocês são realmente insuportáveis com essas briguinhas de família idiotas!

Por muito tempo eu não soube a que minha mãe se referia. Já tinha tentado participar da conversa:

— Por que o tio Saul não quer vir aqui?

— Isso não tem importância — respondia minha mãe todas as vezes. — É besteira.

* * *

A primeira vez foi em junho de 2001, por ocasião da morte do vovô. Quando minha avó telefonara para comunicar seu falecimento, ele viera espontaneamente à nossa casa.

A segunda vez foi na quinta-feira, 14 de fevereiro de 2002, depois que tia Anita se separou dele.

* * *

Nesse dia, cheguei a Montclair no fim da tarde. Era Dia dos Namorados e eu saíra da aula na faculdade e pegara a estrada para Nova York, onde passaria a noite com Alexandra. Como fazia tempo que eu não via meus pais, fiz um desvio por Montclair para dar um beijo neles e conversar um pouco.

Quando cheguei, vi o carro do meu tio estacionado em nossa rua. Corri para casa, mas minha mãe me interceptou na entrada.

— O que o tio Saul está fazendo aqui? — perguntei, inquieto.

— Markie, querido, não entre na cozinha.

— Mas, afinal, o que está havendo?

— É a tia Anita…

— O que tem a tia Anita?

— Ela largou seu tio. Foi embora.

— Foi embora? Como assim, foi embora?

Eu quis telefonar para Hillel, mas minha mãe me dissuadiu.

— Não meta Hillel nisso por enquanto — disse ela.

— Mas o que aconteceu?

— Vou explicar tudo, Markie, prometo. Seu tio vai passar o fim de semana aqui, no seu quarto, se você deixar.

Quis dar um beijo nele, mas, quando estava prestes a entrar na cozinha, pelo vão da porta eu o vi chorando. O grande, o imenso, o todo-poderoso Saul Goldman em lágrimas.

— Talvez você devesse encontrar Alexandra — murmurou gentilmente minha mãe.

— Acho que seu tio precisa de um pouco de sossego.

Não fui embora, eu fugi. Não deixei Montclair porque minha mãe me aconselhara, mas porque, naquele dia, eu tinha visto meu tio chorar. Ele era como Sansão, que havia sido tão forte, mas bastara cortar seu cabelo.

Fui encontrar Alexandra, a mulher da minha vida, com quem tudo andava melhor. Como eu sabia que ela detestava a cafonice do Dia dos Namorados, programei uma noite sem jantar de cinco pratos nem rosas vermelhas. Fui buscá-la no estúdio, onde ela estava gravando uma nova demo, e depois nos trancamos num quarto do Waldorf Astoria para ver filmes, fazer amor e sobreviver graças ao serviço de quarto. Em seus braços, eu estava protegido do que estava prestes a acontecer.

* * *

Nessa mesma noite de 14 de fevereiro de 2002, Woody esperou, sentado na cama, Hillel voltar ao quarto. Já passava das dez horas quando ele chegou.

— Porra, Woody, você me dá medo! — disse Hillel, sobressaltando-se ao abrir a porta. Woody não respondeu nada. Limitou-se a encará-lo. — Woody? Está tudo bem?

O rapaz apontou para o saco de papel ao seu lado.

— Por quê?

— Woody… Eu…

Woody se levantou num pulo e agarrou Hillel pela gola do casaco. Imprensou-o brutalmente na parede.

— Por quê? — repetiu, aos berros.

Hillel o encarou e o desafiou.

— Bata em mim, Woody. É tudo o que você sabe fazer mesmo…

Woody moveu o punho e o manteve parado no ar por bastante tempo, com os dentes cerrados, o corpo tremendo. Depois gritou de raiva e fugiu. Correu até o estacionamento e entrou no carro de Colleen. Arrancou intempestivamente. Precisava desabafar com alguém de confiança, e a única pessoa que passou pela sua cabeça foi Patrick Neville. Seguiu em direção a Manhattan. Tentou falar com ele, mas seu celular estava desligado.

Eram onze da noite quando chegou diante do edifício de Patrick Neville. Estacionou o carro na calçada do lado oposto, atravessou a rua sem prestar atenção e entrou no prédio. O porteiro da noite o deteve.

— Preciso ir ao apartamento de Patrick Neville. É urgente.

— O Sr. Neville está esperando você?

— Interfone para ele! Interfone, caramba!

O porteiro interfonou para o apartamento de Patrick Neville.

— Boa noite, senhor, desculpe incomodá-lo, mas há um cavalheiro…

— Woody — disse ele.

— … Sr. Woody… Muito bem.

* * *

O porteiro desligou e indicou o elevador para Woody. Ao chegar ao vigésimo terceiro andar, ele correu até a porta dos Neville. Patrick, que o vira chegar pelo olho mágico, abriu antes que ele tocasse a campainha.

— Woody, o que está acontecendo?

— Preciso falar com você.

Ele percebeu certa hesitação no olhar de Patrick.

— Devo estar atrapalhando…

— Não, de forma alguma — respondeu Patrick.

Woody parecia transtornado, ele não podia deixá-lo daquele jeito. Fez o garoto entrar e o levou para a sala. Ao passar, Woody notou uma mesa arrumada para o Dia dos Namorados, com velas, um grande buquê de rosas, champanhe num balde e duas taças cheias e intactas.

— Desculpe, Patrick, eu não sabia que você tinha visita. Já estou de saída.

— Não antes de me contar o que está acontecendo. Sente-se.

— Mas eu interrompi seu…

— Não se preocupe — disse Patrick. — Fez bem em vir. Vou pegar alguma coisa para você beber e depois vai me contar tudo.

— Eu queria um café.

Patrick foi até a cozinha, deixando Woody sozinho na sala. Olhando à sua volta, o garoto notou subitamente um casaco feminino e uma bolsa deixados em uma poltrona. A namorada de Patrick, pensou Woody. Ela devia ter ido se esconder num dos quartos. Ele não sabia que Patrick estava com alguém. Contudo, de repente teve a impressão de que reconhecia aquele casaco. Perturbado, ficou de pé e se aproximou. Viu uma carteira na bolsa, que pegou e abriu. Puxou um cartão de crédito qualquer e sentiu vontade de vomitar. Não era possível. Ela, não. Quis se certificar e correu em direção aos quartos. Naquele instante Patrick saiu da cozinha.

— Aonde você vai, Woody? Espere!

Largou a bandeja com duas xícaras de café e foi atrás dele. Mas Woody já estava no pequeno corredor e abria atabalhoadamente as portas dos cômodos. E quem encontrou no quarto de Patrick? Tia Anita.

— Woody? — exclamou ela.

Ele ficou mudo, aterrado. Patrick se aproximou dele.

— Não é o que você está pensando — disse. — Vamos explicar tudo.

Woody o empurrou para abrir caminho e fugiu. Tia Anita saiu correndo atrás dele.

— Woody! — gritou. — Woody! Eu imploro, pare!

Para não ter que esperar o elevador, ele desceu pela escada. Tia Anita pegou o elevador. Quando ele chegou ao térreo, ela já o esperava. Tentou abraçá-lo.

— Woody, meu anjo, espere!

Ele se desvencilhou dela.

— Trate de me deixar em paz! Você não passa de uma puta! — Continuou fugindo e depois gritou: — Vou contar para o tio Saul!

Ela correu atrás dele.

— Woody, eu imploro!

Ele passou pelo portão do prédio, voou em direção à calçada, atravessou a rua sem olhar e alcançou seu carro. Queria fugir para bem longe. Tia Anita se precipitou atrás dele sem ver a caminhonete que vinha a toda velocidade e que a acertou em cheio.