O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 26 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 23

 

Enquanto eu estava na universidade em Massachusetts, onde me sentia um pouco isolado, fiquei irritado ao descobrir que, em Madison, como acontecera em Baltimore com Scott, a extensão da Gangue dos Goldman, quando se tratava dos Neville, podia aumentar. Depois de Alexandra, foi a vez de Patrick Neville conseguir um lugar privilegiado naquela formação.

Todas as terças-feiras, Patrick ia à faculdade dar suas aulas semanais. Corria o boato de que era possível adivinhar seu humor ao considerar o meio de transporte que ele escolhera: nos dias de bom humor, chegava dirigindo uma Ferrari preta, na qual atravessava a Nova Inglaterra em plena velocidade. Quando estava contrariado, aparecia num 4x4 Yukon com vidros escuros. Desfrutava de enorme prestígio e os estudantes disputavam sua atenção.

Eles logo estreitaram relações. Toda vez que ia para Madison, Patrick não deixava de encontrar Woody e Hillel.

Nas noites de terça, levava-os junto de Alexandra para jantar em um restaurante da rua principal. Quando tinha tempo, assistia aos treinos do Titans, usando um boné com as cores do time. Comparecia a todos os jogos locais e de vez em quando chegava até a ver as partidas fora de casa, às vezes tendo que viajar horas para isso. Sempre convidava Hillel para acompanhá-los e faziam o trajeto juntos.

Acho que Patrick gostava da companhia de Woody e Hillel porque, sempre que estava com eles, reencontrava um pouco Scott.

* * *

Fazia com eles o que gostaria de ter feito com o filho. A partir do segundo semestre em Madison, terminada a temporada do futebol americano, com frequência os convidava para passar o fim de semana em seu apartamento em Nova York. Impressionados, os dois me contaram do luxo do local: a vista, a jacuzzi na varanda, as televisões em cada cômodo. Logo se sentiram em casa, contemplando as obras de arte, fumando charutos e bebendo uísque.

Nas férias da primavera de 1999, convidou-os para irem aos Hamptons. Na semana seguinte às provas na faculdade, eles foram me visitar em Montclair com uma Ferrari preta que Patrick lhes emprestara. Sugeri que fôssemos jantar em algum lugar, mas, como só havia dois lugares no carro deles, tive que me contentar com o velho Honda Civic da minha mãe, enquanto eles lideravam o caminho com seu possante ruidoso. Durante o jantar, percebi que haviam reformulado ligeiramente seus planos de carreira. Nova York deixara Baltimore para trás, a economia prevalecera sobre o direito.

— É com finanças que devemos trabalhar — disse Hillel. — Se você visse a vida que Patrick leva…

— Almoçamos com o diretor esportivo do Giants — contou Woody. — Fomos até visitar o estádio, em Nova Jersey. Ele disse que ano que vem vai mandar um olheiro me ver jogar.

Eles me mostraram as fotos que tiraram no gramado do Giants Stadium. Eu os imaginava alguns anos mais tarde, no mesmo lugar, comemorando a vitória do Giants no Super Bowl. Woody, o quarterback celebridade, e seu quase irmão, Hillel, o novo golden boy que Wall Street arrebatara.

* * *

No início do nosso segundo ano na faculdade, ocorreu um incidente. Certa noite, quando voltava de carro para o campus pela rodovia 5, cerca de oito quilômetros após atravessar a ponte Lebanon, Woody quase atropelou uma garota que caminhava pelo acostamento da estrada. A noite estava um breu. Ele parou imediatamente e se precipitou para fora do carro.

— Está tudo bem? — perguntou ele.

Ela estava chorando.

— Tudo bem, obrigada — respondeu a garota, secando os olhos.

— É perigoso andar nessa estrada.

— Vou prestar atenção.

— Entre. Posso deixar você em algum lugar — ofereceu Woody.

A menina acabou aceitando. Na luz do interior do carro, Woody achou que a havia reconhecido. Era uma garota bonita, de cabelo curto. Seu rosto lhe era familiar.

— Você estuda em Madison?

— Não.

— Tem certeza de que está tudo bem?

— Tenho. Não estou com vontade de falar.

Ele dirigiu em silêncio e a deixou, como ela pedira, perto de um posto de gasolina deserto na entrada de Madison.

* * *

Ela se chamava Colleen. No dia seguinte, Woody leu o nome dela no crachá quando a encontrou atrás do balcão do posto de gasolina onde a deixara na véspera.

— Eu sabia que já tinha visto você em algum lugar — disse ele. — Quando a deixei aqui, fiz a associação.

— Por favor, não vamos mais falar sobre isso. Você colocou gasolina?

— Enchi o tanque. Bomba número três. E vou levar essas barras de chocolate. Meu nome é Woody.

— Obrigada por ontem, Woody. Por favor, não vamos mais falar sobre isso. Deu vinte e dois dólares.

Ele lhe entregou o dinheiro.

— Está tudo bem com você, Colleen?

— Tudo bem.

Um cliente entrou, e ela aproveitou para pedir que Woody fosse embora.

Ele obedeceu. Ela o desconcertava.

* * *

Colleen era a única funcionária do posto. Passava o dia sozinha ali. Não devia ter mais de vinte e dois anos, só estudara até o ensino médio e já era casada com um sujeito de Madison, um motorista-entregador, que passava vários dias da semana na estrada. Ela exibia um olhar triste. Uma maneira tímida de não olhar nos olhos dos clientes.

O posto de gasolina era seu único horizonte. Provavelmente era por essa razão que ela se dedicava tanto ao serviço. A loja contígua era limpa e estava sempre cheia. Inclusive havia algumas mesas, às quais era possível se sentar para tomar um café ou comer um sanduíche industrializado que Colleen esquentava no micro-ondas. Ao sair, os clientes sempre deixavam uma pequena gorjeta na mesa, que ela enfiava no bolso, sem falar nada com o marido. Nos dias bonitos, ela colocava as mesas e as cadeiras no gramado florido ao lado da loja.

Não havia muitos lugares aonde ir em Madison, e os estudantes se encontravam nos mesmos estabelecimentos. Quando queriam ficar sozinhos, Woody e Hillel iam para o posto.

Abalado pelo seu encontro noturno com Colleen, Woody passou a frequentar mais o posto. Às vezes, passava lá sob o pretexto de comprar chiclete ou um limpador de para-brisa. Em geral, arrastava Hillel junto.

— Por que faz tanta questão de ir lá? — perguntou Hillel, por fim.

— Tem alguma coisa estranha… Eu queria entender.

— Confesse que está caidinho por ela.

— Hill, a garota estava andando pelo acostamento da estrada no meio da noite, chorando.

— Talvez estivesse com um problema no carro…

— Estava assustada. Com medo.

— Medo de quem?

— Não sei.

— Você não pode proteger todo mundo, Wood.

De tanto passarem por lá, acabaram conquistando um pouco da simpatia de Colleen. Perdendo a timidez, ela começou a conversar com eles. Vendia cerveja para eles, embora não tivessem idade. Colleen dizia que não arriscava nada ao vender bebida alcoólica para eles, pois o pai de Luke, seu marido, era o chefe da polícia local. Nas palavras dos meus primos, Luke era uma avis rara. Tinha um jeito agressivo e muito antipático. Woody, que às vezes o encontrava no posto de gasolina, não gostava dele. Falava que tinha uma impressão ruim ao vê-lo. Quando Luke estava na cidade, Colleen agia de forma diferente. Quando ele estava viajando, ela parecia mais feliz.

* * *

Também tive a oportunidade de ir ao posto de gasolina durante minhas visitas a Madison. Logo notei que Colleen gostava muito de Woody. Tinha uma maneira especial de observá-lo. Quase nunca sorria, exceto quando conversava com ele. Era um sorriso sem graça, espontâneo, que ela imediatamente se obrigava a reprimir.

A princípio, achei que Woody sentia alguma coisa por Colleen. Mas não demorei a perceber que esse não era o caso. Meus dois primos amavam a mesma garota: Alexandra.

Ela estava no quarto e último ano da faculdade. Logo em seguida iria embora. Eles não paravam de pensar nela. Percebi que a indefectível amizade deles não bastava. O convívio no campus, os programas que faziam juntos e os jogos de futebol americano não os satisfaziam plenamente. Eles queriam mais. Queriam o amor de Alexandra. Tive certeza absoluta disso quando vi a reação dos dois ao descobrirem, depois de revistarem seu quarto num fim de semana em que Patrick Neville os convidou, que ela estava ficando com alguém. Eles me contaram isso no Dia de Ação de Graças e Hillel me mostrou o que encontrara numa gaveta da escrivaninha dela. Uma folha de cartolina na qual ela desenhara um coração vermelho.

— Revistaram o quarto dela? — perguntei, pasmo.

— Sim — respondeu Hillel.

— Vocês enlouqueceram completamente!

Hillel estava furioso com ela.

— Por que ela não nos contou que tinha um namorado?

— E quem disse que ela está saindo com alguém? — retruquei. — Esse desenho pode ser velho.

— Havia duas escovas de dentes no banheiro do seu quarto — observou Woody.

— Vocês também entraram no banheiro dela?

— Não fizemos cerimônia. Eu achava que ela era nossa amiga, e amigos contam tudo.

— Que bom para ela se estiver com alguém — falei.

— Claro, que bom.

— Mas tenho a impressão de que isso irrita vocês…

— Somos amigos, então acho que ela poderia ter nos contado.

* * *

A amizade que legitimava o trio encobria sentimentos muito mais profundos sobre o pacto que tínhamos firmado nos Hamptons.

Durante os meses seguintes, eles ficaram obcecados pelo namorado de Alexandra. Cismaram que queriam saber quem ele era. Quando lhe perguntaram, ela jurou que estava sozinha. Isso os deixou ainda mais enlouquecidos. Seguiam-na pelo campus para espioná-la. Tentavam escutar suas conversas ao telefone usando um velho captador de som de Hillel, que pegaram em Baltimore com esse objetivo. Interrogaram até mesmo Patrick, que nada sabia.

Em maio de 2000, todos nós comparecemos à entrega do diploma de Alexandra.

Depois da cerimônia oficial, aproveitando-se da agitação do momento, Alexandra sumiu discretamente. Não notou que Woody a seguia.

Foi até o prédio dos cursos de ciências, onde eu a esperava. Quando me viu, pulou em meus braços e me beijou demoradamente.

Nesse momento Woody apareceu e exclamou, estarrecido:

— Então é você, Marcus? Você era o namorado dela esse tempo todo?