O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 28 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 25

 

Vovô foi enterrado no dia 30 de maio de 2001, em Secaucus, Nova Jersey, cidade onde fora criado, como minha avó, meu pai e tio Saul. Vários amigos dele da Flórida haviam insistido em fazer a viagem.

Eu estava sentado ao lado dos meus primos. Alexandra também estava lá, na fileira atrás de nós. Coloquei minha mão para trás e ela a segurou discretamente. Apertou-a. Eu me sentia forte ao seu lado.

Sei que mais tarde, nesse dia, Woody lhe disse:

— É bonito como você ama ele.

Ela sorriu.

— E você? — perguntou. — Hillel me falou sobre aquela garota… Colleen?

— Ela é casada. É complicado. Paramos de nos ver.

— Você ama ela?

— Não sei. Sinto carinho por ela. Colleen me faz sentir menos sozinho. Mas ela não é você.

A cerimônia foi a cara do vovô: sóbria e bem-humorada. Meu pai fez um discurso espirituoso, e a alusão aos cereais provocou risadas. Tio Saul falou em seguida e foi mais sério. Começou seu discurso assim: “É a primeira vez que volto a Nova Jersey. Vocês sabem, meu relacionamento com meu pai nem sempre foi essas coisas…”

Essas palavras ressoaram de forma estranha. Não encontrei em suas frases a relação que eu testemunhara durante a grande época dos Baltimore.

Após a cerimônia e o lanche, minha avó quis dar uma volta em Secaucus. Eu nunca tinha estado ali e me ofereci para acompanhá-la. Querendo compreender as referências do tio Saul, aproveitei que estava sozinho com ela no carro para interrogá-la:

— O que o tio Saul quis dizer ainda há pouco?

Olhando pela janela, minha avó fingiu não ouvir.

— Vovó?

— Markie — disse ela —, não é hora para esse tipo de pergunta.

— Aconteceu alguma coisa entre eles? — insisti.

— Markie, dirija e fique quieto, por favor. Vai me aborrecer com essas perguntas num dia como hoje?

— Desculpe, vovó.

Não falei mais. Ela me guiou até sua antiga casa, hipotecada na época em que a situação financeira da Goldman & Cia. começara a oscilar. Em seguida, ela me pediu para levá-la à antiga fábrica Goldman. Eu nunca tinha ido lá, então ela me orientou. Rodamos por uns bons vinte minutos, deixamos Nova Jersey, entramos no estado de Nova York e chegamos a uma zona industrial desativada. Minha avó parou em frente a um prédio abandonado de tijolos vermelhos. Passou o dedo pela fachada:

— Aqui ficava o meu escritório — disse ela, apontando para um buraco na parede, que certamente fora uma janela.

— O que você fazia?

— Toda a contabilidade. Era eu quem administrava as finanças. Seu avô era um vendedor fora de série, mas, para cada dólar que ganhava, gastava dois. Eu segurava as rédeas, tanto na fábrica quanto em casa.

Quando finalmente levei minha avó de volta ao estacionamento do cemitério, os Baltimore já estavam impacientes dentro da grande van com motorista que devia reconduzi-los a Manhattan. Tio Saul reservara quartos no Plaza Hotel para minha avó e todos os Baltimore. Os Montclair, por sua vez, ficaram em Montclair.

No dia seguinte, tio Saul me pediu que passasse em seu hotel para encontrá-lo, e foi o que eu fiz. Ele nos reuniu, Woody, Hillel e eu, num canto sossegado do bar do Plaza e nos comunicou que nosso avô, em suas últimas vontades, determinara que uma de suas poupanças fosse igualmente dividida entre “seus três netos”. Havia vinte mil dólares para cada um de nós.

* * *

Uma semana após o enterro, levei minha avó de volta para a Flórida. Fomos juntos de avião e passei alguns dias em Miami para que ela não ficasse sozinha. Tio Saul deixou seu apartamento em Buenavista à minha disposição.

Minha presença junto à minha avó, em seu lar para idosos, a reconfortou. Ainda me lembro dela no dia em que chegou a Miami, fumando na varanda, contemplando o mar, de olho nas ondas. Na mesa da sua sala minúscula, havia uma caixa de sapatos cheia de fotos velhas. Peguei algumas ao acaso e, como não reconheci nem as pessoas nem os lugares, fiz algumas perguntas. Ela respondeu pela metade, e eu sentia claramente que perturbava sua necessidade de paz. De repente, ela me falou sobre as coisas no guarda-móveis.

— Que guarda-móveis? — perguntei.

— Um guarda-móveis em Aventura. O endereço está no armário de chaves.

— E o que tem lá?

— Todos os álbuns de família. Se quiser ver fotos, é melhor ir até lá. Estão selecionadas, classificadas e com anotações. Faça o que quiser com elas, desde que pare com todas essas perguntas.

Ainda hoje não sei se ela me falou isso para que eu fosse atrás das fotos ou para que eu fosse logo embora. Morrendo de curiosidade, fui até o guarda-móveis, onde, como ela me prometera, encontrei a vida dos Goldman em milhares de fotografias, classificadas e selecionadas em álbuns empoeirados. Abri-os ao acaso, encontrei rostos rejuvenescidos e tudo o que éramos antes. Voltei no tempo e nas épocas, depois me diverti tentando me identificar nas fotos. Eu me vi bebê, vi a casa de Montclair com a pintura ainda fresca. Eu me vi nu numa piscina de plástico no nosso gramado. Vi imagens dos meus primeiros aniversários. Notei casualmente que, em todas as fotos, faltavam os personagens mais importantes. Primeiro pensei num acaso ou num erro de classificação. Passei várias horas percorrendo todos os álbuns e me rendi à evidência: nós estávamos em toda parte, eles não estavam em parte alguma. Os Montclair estavam sempre presentes, enquanto os Baltimore pareciam persona non grata. Nenhuma imagem de Hillel pequeno, nem de seu nascimento, nem de seus aniversários. Nenhuma foto do casamento de tio Saul e tia Anita, ao passo que meus pais tinham direito a três álbuns inteiros. Os primeiros retratos de Hillel datavam no máximo de seus cinco anos. Nos arquivos dos meus avós, parecia que, durante muito tempo, os Goldman-de-Baltimore não existiam.

Minha avó Ruth certamente imaginava que eu ia ficar trancado no guarda-móveis para sempre e que ela poderia fumar sossegada. Para seu grande desprazer, surgi em seu pequeno apartamento com os braços abarrotados de álbuns de família.

— Markie, por que está me enchendo com tudo isso? Se eu soubesse, nunca teria falado sobre o guarda-móveis para você!

— Vovó, onde eles se meteram durante todos aqueles anos?

— Sobre o que está falando, meu querido? Sobre os álbuns?

— Não, sobre os Goldman-de-Baltimore. Antes de Hillel ter cinco anos, não há nenhuma foto dos Goldman-de-Baltimore…

A princípio, ela ficou um pouco irritada e fez um gesto para descartar a possibilidade de uma conversa.

— Ah — disse ela. — O que passou, passou. Melhor assim.

Voltei a pensar no estranho discurso de tio Saul no enterro do vovô.

— Mas, vovó — insisti —, é como se, num dado momento, eles tivessem desaparecido da face da Terra.

Ela deu um sorriso triste.

— Você nem imagina como se expressou bem, Markie. Nunca se perguntou como seu tio foi parar em Baltimore? Durante mais de dez anos, tio Saul e seu avô não se falaram.