O Livro dos Baltimore
Capítulo 16
Em 28 de março de 2012, Alexandra saiu de Boca Raton e retornou a Los Angeles.
No dia em que foi embora, ela deixou um envelope diante da minha porta. Leo viu tudo e veio falar comigo.
— Você acabou de perder sua namorada.
— Ela não é minha namorada.
— Um 4x4 imenso acabou de parar em frente à sua casa e ela deixou esse envelope na sua porta.
Ele me entregou. Estava escrito:
Para Markikette
— Não sei quem é Markikette — falei.
— Acho que é você — respondeu Leo.
— Não. É um engano.
— Ah. Nesse caso vou abrir.
— Eu o proíbo.
— Eu achava que a carta não era para você.
— Passe isso para cá!
Peguei o envelope das suas mãos e o abri. No interior, Alexandra simplesmente anotara um número de celular, que eu supunha ser o dela.
555-543-3984
A.
— Por que ela me daria o número do seu celular? E, principalmente, por que deixá-lo na minha porta se sabe que qualquer jornalista poderia passar aqui e vê-la, ou até mesmo pegar o envelope?
— Coitadinho do Markikette — disse Leo. — Você é mesmo um desmancha-prazeres.
— Não me chame de Markikette. E não sou desmancha-prazeres.
— Claro que é. Uma gata como aquela, completamente transtornada porque morre de amores por você, mas não sabe como dizer isso.
— Ela não me ama. Isso é passado.
— Mas, afinal, você está fazendo de propósito? Você surge na vida dela, até então calma e sossegada, cria um caos monumental, ela decide fugir, mas, ainda assim, na hora de ir embora, deixa claro como entrar em contato. É preciso fazer um desenho, por acaso? Você me preocupa, Marcus. Parece um zero à esquerda em histórias sentimentais.
Olhei para o papel que eu amassava entre os dedos e acabei perguntando a Leo:
— Então, o que devo fazer, doutor do coração?
— Ligue para ela, seu imbecil!
* * *
Levei um bom tempo até decidir telefonar. Quando tive coragem para tentar, seu celular estava fora de área. Sem dúvida ela estava no avião para a Califórnia. Fiz outra tentativa algumas horas depois: já era tarde na Flórida, começo de noite em Los Angeles. Ela não atendeu. Mas me ligou de volta. Atendi, mas ela não falou nada. Ficamos bastante tempo na linha, em silêncio. Por fim, ela disse:
— Você lembra que depois da morte do meu irmão… era para você que eu ligava? Eu precisava de você, então ficávamos horas ao telefone, sem falar nada. Só para você me fazer companhia.
Não respondi. Continuamos em silêncio. Ela acabou desligando.
Baltimore, Maryland.
Outubro de 1995.
O socorro não conseguiu reanimar o coração de Scott, cuja morte foi constatada no gramado do estádio de Buckerey. As aulas do dia seguinte foram suspensas em Buckerey High e foi montado um posto de atendimento psicológico. Conforme os alunos chegavam ao local, eram encaminhados ao auditório, enquanto alto-falantes transmitiam incessantemente a mensagem do diretor Burdon: “Em razão da tragédia de ontem à noite, todas as aulas foram suspensas hoje. Os alunos devem seguir para o auditório.” Em frente ao armário de Scott, amontoavam-se flores, velas e bichos de pelúcia.
Scott foi enterrado em um cemitério no subúrbio de Nova York, cidade natal dos Neville. Acompanhados do tio Saul e da tia Anita, Woody, Hillel e eu comparecemos.
Antes da cerimônia, sem vê-la em lugar algum, procurei Alexandra. Encontrei-a numa sala, sozinha. Chorando. Vestia preto. Até pintara as unhas dessa cor. Eu me sentei ao seu lado. Segurei sua mão. Achei-a tão bonita que me deu uma vontade erótica de beijar a palma da sua mão. Então fiz isso. E como ela não afastou a mão, repeti o gesto. Beijei o dorso da sua mão, cada um de seus dedos. Ela se aconchegou em mim e murmurou ao meu ouvido:
— Não largue a minha mão, por favor, Markie.
A cerimônia foi dramática. Eu nunca tinha passado por uma situação parecida. Tio Saul e tia Anita haviam nos preparado para aquilo, mas viver era diferente. Alexandra estava inconsolável: eu via as lágrimas pretas de rímel escorrerem sobre nossas mãos. Eu não sabia se devia falar com ela, tranquilizá-la. Eu queria secar o canto de seus olhos, mas tinha medo de que fosse um gesto desastrado. Então me limitei a apertar sua mão o mais forte que eu podia.
A dificuldade não foi tanto a tristeza do momento, mas a tensão que percebíamos entre Patrick e Gillian. Em homenagem ao filho, Patrick fez uma prece que achei muito bonita. Intitulou-a Resignação do pai de uma criança doente. Prestou homenagem a Woody e Hillel e agradeceu pela alegria proporcionada a Scott. Falou mais ou menos o seguinte para eles:
“Será que somos mesmo felizes, nós, as pessoas ricas de Oak Park ou Nova York? Quem aqui pode afirmar que é completamente feliz?
“Meu filho Scott foi feliz. E isso graças a dois meninos que o apoiaram.
“Vi meu filho antes de Woody e Hillel, e o vi depois.
“Obrigado a vocês dois. Vocês lhe deram um sorriso que eu nunca tinha visto nele. Vocês lhe deram uma força que eu nunca notara que ele tinha.
“Quem, mesmo ao fim de uma longa vida, pode afirmar ter feito um de seus semelhantes feliz? Vocês podem, Hillel e Woody, vocês podem.”
O discurso de Patrick desencadeou uma constrangedora discussão dele com a esposa por causa do lanche que sucedeu ao enterro. Todos nós estávamos na sala da irmã de Gillian, comendo biscoitos amanteigados, quando ouvimos ecos de vozes ressoarem da cozinha: “Você agradeceu a eles?”, gritava Gillian. “Eles mataram nosso filho e você diz obrigado!”
Foi uma cena difícil de suportar. Subitamente me lembrei de todas as vezes que eu sentira ódio de Scott, que invejara sua doença e reivindicara uma fibrose cística. Senti vontade de chorar, mas não queria fazer isso na frente de Alexandra. Então fui para o jardim e me xinguei de canalha. Canalha! Canalha! Depois senti a mão de alguém em meu ombro. Eu me virei. Era tio Saul. Ele me abraçou e eu comecei a chorar.
Nunca vou esquecer como ele me abraçou nesse dia.
* * *
Semanas de tristeza se sucederam.
Hillel e Woody se sentiam culpados. Para piorar as coisas, o diretor Burdon exigiu uma punição. Convocou Hillel e o treinador Bendham. A reunião durou mais de uma hora. Preocupado, Woody andava de um lado para outro atrás da porta. A porta finalmente se abriu, e Hillel saiu da sala aos prantos.
— Fui expulso do time! — berrou ele.
— O quê? Como assim?
Hillel não respondeu e saiu em disparada pelo corredor. Então Woody viu o treinador Bendham sair da sala do diretor, com uma aparência terrível.
— Treinador, me diga que não é verdade! — exclamou. — O que foi que houve?
— O que aconteceu foi muito grave. Hillel precisa sair da equipe. Sinto muito mesmo… Não há nada que eu possa fazer.
Woody, furioso, entrou sem bater na sala do diretor Burdon.
— Diretor, o senhor não pode expulsar Hillel do time de futebol americano!
— O que você tem a ver com isso, Woodrow? E quem o autorizou a invadir minha sala desse jeito?
— É uma vingança? É isso?
— Woodrow, não vou repetir: saia da minha sala.
— Não quer nem me explicar por que dispensou Hillel?
— Não o dispensei. Tecnicamente, ele nunca fez parte da equipe. Nenhum aluno pode ser responsável por outros alunos. O treinador Bendham nunca deveria tê-lo convidado para ser seu assistente. Além do mais, preciso lembrar a você que ele matou um aluno, Woody? Sem as ideias mirabolantes dele, Scott Neville ainda estaria vivo!
— Ele não matou ninguém. Scott sonhava em jogar!
— Não estou gostando nada do seu tom, Woodrow. O que você quer? Seu coleguinha reclama que não exerço minhas funções corretamente. Então vou exercer. Você vai ver. Agora saia daqui.
— O senhor não tem o direito de fazer isso com Hillel!
— Tenho todo o direito. Sou o diretor desta escola. Vocês são apenas alunos. São puros e simples alunos. Está entendendo?
— O senhor vai pagar por isso!
— É uma ameaça?
— Não, é uma promessa.
Ninguém pôde fazer nada. Foi o fim do futebol para Hillel.
No meio daquela noite, Woody saiu disfarçadamente da casa dos Goldman e foi de bicicleta até onde Burdon morava. Aproveitando-se da escuridão, rastejou pelo jardim, pegou um spray de tinta na mochila e escreveu em letras imensas em toda a fachada da casa: BURDON SACO DE BOSTA. Assim que terminou a última palavra, notou um facho de luz apontado para sua nuca. Ele se virou, mas não conseguiu enxergar nada, cegado pela lanterna em seu rosto.
— O que você está aprontando aí, mocinho? — interrogou com firmeza uma voz masculina.
E Woody compreendeu que eram dois policiais.
Ao serem acordados por um telefonema da polícia, tio Saul e tia Anita foram chamados à delegacia para buscar Woody.
— Burdon saco de bosta? — comentou tia Anita, arrasada. — Não pensou em nada melhor? Ah, Woody, o que levou você a fazer uma coisa dessas?
Envergonhado, ele baixou a cabeça e resmungou:
— Eu queria me vingar do que ele fez com Hillel.
— Mas não devemos nos vingar! — retrucou tio Saul, num tom de voz tranquilo. — Não é assim que as coisas funcionam, e você sabe muito bem disso.
— O que vai acontecer comigo agora? — perguntou Woody.
— Depende se o diretor Burdon vai prestar queixa ou não.
— Será que vou ser expulso do colégio?
— Não sabemos. Você cometeu um erro grave, Woody, e seu destino não está mais em suas mãos.
* * *
Woody foi expulso de Buckerey High.
O treinador Bendham fez de tudo para defendê-lo perante Burdon, com quem discutiu seriamente porque ele se negou a reconsiderar a decisão.
— Mas por que cismou com isso, Steve? — explodiu Bendham.
— Porque há regras a serem respeitadas, treinador. Você viu o que esse delinquentezinho fez na minha casa?
— Mas estamos falando de uma travessura de criança! Você deveria ter mandado ele limpar as privadas da escola durante seis meses, mas não pode fazer isso, não pode expulsar esses meninos como fez.
— Augustus, é isso e ponto final.
— Caramba, Steve, você é o diretor de uma escola, de uma escola, porra! Está aqui para construir a vida desses garotos! Não para destruí-las.
— Exatamente, eu sou o diretor de uma escola. E você parece não perceber as responsabilidades que esse cargo implica. Estamos aqui para que essas crianças se adaptem à nossa sociedade, e não o oposto. Elas devem aprender que há regras, e que há consequências caso não as respeitem. Pode me achar cruel se quiser, mas sei o que faço por elas e um dia vão me agradecer. Meninos assim acabam parando na prisão se não são educados com rédea curta.
— Meninos assim, Steve, acabam se tornando astros da NFL e ganhando Prêmios Nobel! Você vai ver que daqui a dez anos haverá câmeras nesse pátio para filmar a glória dos Goldman.
— Rá! A glória dos Goldman! Não me diga que você acredita nessa balela…
— E diante de jornalistas estendendo microfones, você vai gaguejar como um pobre-diabo para dizer que eles eram seus alunos prediletos, os melhores do colégio, e que nunca duvidou do talento deles!
— Chega, treinador, você está passando dos limites! Já ouvi o suficiente.
— Sabe de uma coisa, Steve? Eu é que já ouvi demais: vá se foder!
— Como é que é? Você perdeu completamente o juízo? Vou fazer uma denúncia, Augustus. E você também vai ser citado!
— Faça quantas denúncias quiser. Estou dando o fora! Não vou participar do seu sistema desprezível, que nada soube fazer além de acabar com os sonhos de dois garotos. Não fico mais aqui. Até nunca mais!
Bateu a porta com toda a força ao sair e pediu demissão imediatamente, exigindo a antecipação de sua aposentadoria.
No fim de semana seguinte, Woody foi à casa dele e o encontrou arrumando as coisas no trailer.
— Não vá embora, treinador… O time precisa do senhor.
— Não existe mais time, Woody — respondeu Bendham sem interromper o que fazia. — Eu já deveria ter me aposentado há muito tempo.
— Treinador, vim lhe pedir desculpas. É tudo culpa minha.
Bendham colocou uma caixa de papelão na grama.
— Não, Woody, de jeito nenhum. É culpa desse sistema desprezível! Desses professores podres. Eu é que peço desculpas, Woody. Não tive competência para defender você e Hillel.
— Então vai fugir?
— Não, vou me aposentar. Vou atravessar o país. Estarei no Alasca quando chegar o verão.
— Está indo embora no seu trailer para o Alasca para não encarar a realidade, treinador.
— De jeito nenhum. Sempre tive vontade de fazer essa viagem.
— Mas o senhor tem a vida inteira para ir até a porra desse Alasca!
— A vida não é tão longa, mocinho.
— É o suficiente para que fique mais um pouco.
Bendham o segurou pelos ombros.
— Não largue o futebol, mocinho. Não por mim, nem por Burdon, nem por ninguém, mas por você.
— Estou pouco me importando com isso, treinador! Não dou a mínima para essa merda!
— Mas precisa se importar! Futebol americano é a sua vida!
* * *
O casamento de Patrick e Gillian não resistiu à morte de Scott.
Gillian não perdoava o marido por ter incentivado Scott a jogar futebol americano. Ela precisava refletir, precisava de espaço. E, acima de tudo, não queria mais morar na casa de Oak Park. Um mês após o enterro de Scott, decidiu voltar para Nova York e alugou um apartamento em Manhattan. Alexandra foi com ela. As duas se mudaram em novembro de 1995.
Meus pais me deixaram passar o fim de semana de sua partida em Oak Park, para me despedir de Alexandra. Foram os dias mais tristes que vivi em Baltimore.
— É a garota que escreve para você? — perguntou minha mãe, ao me levar até a estação ferroviária de Newark.
— É.
— Você vai vê-la novamente — disse ela.
— Duvido.
— Tenho certeza que sim. Não fique tão triste, Markie.
Tentei me convencer de que minha mãe tinha razão — afinal, se Alexandra era mesmo importante, o destino a recolocaria em meu caminho —, mas, durante todo o trajeto até Baltimore, senti um aperto no peito. E no carro da minha tia, ainda cabisbaixo, não tive sequer vontade de cumprimentar os seguranças da patrulha.
Ela foi embora no dia seguinte, um sábado, no carro da mãe, num cortejo fúnebre composto por dois caminhões de mudança. Passamos nossas últimas horas juntos em seu quarto totalmente vazio. Como rastro de sua passagem, restavam apenas as marcas das tachinhas que prenderam os pôsteres de seus cantores preferidos. Nem seu violão estava mais ali.
— Não consigo acreditar que estou indo embora — murmurou Alexandra.
— Nós também não — respondeu Hillel, com a voz fraca.
Ela abriu os braços e Woody, Hillel e eu nos aconchegamos. Sua pele exalava aquele perfume delicioso e seu cabelo tinha cheiro de damasco. Nós três fechamos os olhos e ficamos assim por algum tempo. Até que a voz de Patrick ressoou do andar de baixo:
— Você está aí em cima, Alexandra? Temos que ir, os rapazes da mudança estão esperando.
Ela desceu a escada, e nós fomos atrás, cabisbaixos.
Diante da casa, ela pediu para tirarmos uma foto de nós quatro. Seu pai nos imortalizou juntos em frente ao que fora sua casa.
— Mando para vocês, prometo. Vamos nos escrever.
Ela nos abraçou pela última vez, um de cada vez.
— Tchau, queridos Goldman. Nunca vou esquecer vocês.
— Você é membro vitalício da Gangue — disse Woody.
Vi uma lágrima escorrer pelo rosto de Hillel e a sequei com a ponta do polegar.
Fizemos um corredor de honra e a observamos entrar no carro da mãe. Em seguida, o veículo arrancou e avançou lentamente pela rua. Ela acenou com a mão. Também estava chorando.
Num último arroubo de paixão, montamos em nossas bicicletas e escoltamos o carro pelo bairro. Foi possível vê-la pegar um papel e escrever algumas palavras. Então ela aproximou a folha do vidro de trás e lemos:
AMO VOCÊS, GOLDMAN.