O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 36 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 33

 

De tanto me ver sair de Boca Raton todas as manhãs, Leo, curioso para saber o que eu estava fazendo, começou a ir comigo a Coconut Grove. Não me ajudou em nada. Tudo o que lhe interessava era minha companhia. Ele se acomodava na varanda, à sombra da mangueira, e repetia: “Ah, como é gostoso aqui, Marcus.” Eu adorava sua presença.

Os cômodos iam se esvaziando aos poucos.

Às vezes eu voltava para minha casa com uma caixa de objetos que queria guardar. Leo bisbilhotava e me perguntava:

— Ora, Marcus, o que vai fazer com essas velharias? Você tem uma casa magnífica e vai transformá-la num brechó.

— São só algumas lembranças, Leo.

— As lembranças ficam na cabeça. O resto não passa de entulho.

* * *

Só interrompi a metódica arrumação dos pertences do meu tio poucos dias antes de ir a Nova York. Eu tinha quase terminado tudo em Coconut Grove quando meu agente me telefonou: conseguira uma participação minha num concorrido talk show. A gravação estava marcada para aquela semana.

— Não tenho tempo — respondi. — Aliás, se eles sugeriram isso a poucos dias da gravação, é porque tiveram uma desistência e precisaram de alguém para tapar o buraco.

— Ou então porque você tem um agente fantástico que deu um jeito para que as coisas se desenrolassem assim.

— O que quer dizer com isso?

— Eles gravam dois quadros do programa, um depois do outro. Você é o convidado do primeiro e Alexandra Neville, do segundo. Os camarins de vocês serão um ao lado do outro.

— Ah — falei —, será que ela está sabendo?

— Acho que não. Então, topa?

— Ela vai estar sozinha?

— Olhe, Marcus, eu sou seu agente, não sua mãe. Topa ou não?

— Topo — afirmei.

* * *

Peguei um voo para Nova York no dia seguinte. No momento de ir para o aeroporto, Leo fez uma cena para mim:

— Nunca vi ninguém tão preguiçoso! Faz três meses que você está supostamente escrevendo um livro, mas é sempre mañana, mañana, mañana!

— É um compromisso de poucos dias.

— Mas quando vai realmente começar esse maldito livro?

— Muito em breve, Leo. Prometo a você.

— Marcus, tenho a impressão de que está zombando de mim. Você não fica angustiado, nunca sofreu com a crise da página em branco, por acaso?

— Não.

— Você me contaria?

— Claro.

— Jura?

— Juro.

Cheguei a Nova York na véspera da gravação do programa. Eu estava muito nervoso. Passei a tarde inteira andando em círculos pelo meu apartamento.

No dia seguinte, após experimentar uma quantidade imensurável de ternos, fui relativamente cedo para o estúdio, na Broadway. Fui levado até o meu camarim, e, ao passar pelo corredor, vi o nome dela estampado na porta ao lado da minha.

— Por acaso Alexandra já chegou? — perguntei displicentemente ao segurança que me acompanhava.

Ele respondeu que não.

Então me isolei em meu camarim. Eu não conseguia ficar parado. Ela ia chegar, e aí? Eu bateria à sua porta? E depois? E se ela tivesse vindo com Kevin? Que cara eu faria? Estava me achando um idiota. Queria fugir. Mas já era tarde demais. Eu me deitei no sofá e escutei atentamente os sons que vinham do corredor. Até que de repente ouvi sua voz. Meu coração começou a palpitar. Houve o barulho de uma porta se abrindo e se fechando, depois mais nada. De repente senti meu celular vibrar. Ela tinha acabado de me mandar uma mensagem.

Você está no camarim ao lado???

Respondi simplesmente:

Sim.

Ouvi o barulho de uma porta se abrindo e se fechando, depois uma batida abafada na minha. Fui abrir. Era ela.

— Markie?

— Surpresa!

— Você sabia que íamos gravar no mesmo dia?

— Não — menti.

Dei um passo para trás: ela entrou e fechou a porta. Em seguida, se jogou espontaneamente em meu pescoço e me abraçou com força. Demos um longo abraço. Eu tinha vontade de beijá-la, mas não queria correr o risco de estragar tudo. Então me limitei a segurar seu rosto entre as mãos e fixar meus olhos nos seus, que brilhavam intensamente.

— O que vai fazer hoje à noite? — perguntou ela de forma espontânea.

— Não tenho nada marcado… Poderíamos…

— Sim — disse ela.

Sorrimos.

Precisávamos de um lugar aonde ir. Seu hotel estava cercado de jornalistas, e um local público era impensável. Então a convidei para ir à minha casa. Havia um estacionamento no subsolo, de onde era possível entrar diretamente no prédio. Ninguém a veria. Ela aceitou.

Nunca imaginei que algum dia Alexandra fosse ao meu apartamento. No entanto, fora pensando nela que eu o havia comprado com o dinheiro do meu primeiro romance. Eu queria um apartamento no West Village, para ela. E quando o corretor me levou para visitá-lo, me apaixonei à primeira vista porque sabia que ela gostaria. E acertei: ela adorou. No momento em que as portas do elevador se abriram diretamente para a entrada, ela não conseguiu conter um grito de entusiasmo.

— Ai, meu Deus, Markie, é exatamente o tipo de apartamento que eu amo!

Fiquei muito orgulhoso. Mais ainda quando nos instalamos na varanda ampla e florida.

— É você quem cuida das plantas? — perguntou ela.

— Claro. Esqueceu que sou um jardineiro formado?

Ela riu e passou um instante admirando as descomunais flores de uma hortênsia branca. Em seguida, foi se acomodar num sofá aconchegante. Abri uma garrafa de vinho. Estávamos bem.

— Como vai Duke?

— Vai bem. Não somos obrigados a falar sobre o meu cachorro, sabe, Marcus?

— Sei disso. Então como vai você?

— Tudo indo. É bom estar em Nova York. Sempre me sinto bem quando estou aqui.

— Por que se mudou para a Califórnia?

— Porque é melhor para mim, Markie. Eu não queria correr o risco de encontrar você em cada esquina. Mas já faz algum tempo que penso em comprar um apartamento por aqui.

— Será sempre bem-vinda aqui — falei.

E imediatamente me arrependi das minhas palavras. Ela deu um sorriso um pouco triste.

— Acho que Kevin não vai querer ser seu vizinho.

— Então você continua com Kevin?

— Claro que sim, Marcus. Estamos juntos há quatro anos.

— Se ele fosse o cara certo, vocês já estariam casados…

— Deixe disso, Markie. Não faça uma cena. Talvez seja melhor eu ir embora…

Senti ódio de mim mesmo por ter dito coisas tão idiotas.

— Desculpe, Alex… Será que podemos recomeçar a noite do zero?

— Tudo bem.

Após essas palavras, ela se levantou e saiu da varanda. Não entendi suas intenções e fui atrás dela. Eu a vi seguir para a porta, abri-la e ir embora. Por um breve instante fiquei pasmo, então a campainha tocou. Corri para abrir.

— Oi, Markie — disse Alexandra. — Desculpe, estou um pouco atrasada.

— Não se preocupe, está tudo em ordem. Acabei de abrir uma garrafa de vinho na varanda. Inclusive já servi uma taça para você.

— Obrigada. Que apartamento incrível! Então é aqui que você mora?

— É, sim.

Demos alguns passos em direção à varanda e apoiei a mão em seu ombro nu. Ela se virou e nos encaramos nos olhos, em silêncio. Aquela atração sublime pairava entre nós dois. Aproximei meus lábios dos seus e ela não recuou. Ao contrário, segurou minha cabeça entre as mãos e me beijou.