O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 29 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 26

 

 

As aulas da faculdade já tinham terminado quando, no fim de 2001, depois do enterro do meu avô, Woody voltou a Madison. Morria de saudades de Colleen.

Ela não estava no posto de gasolina. Uma garota que ele não conhecia a substituíra. Ele foi para as proximidades do bairro dela. Notou a caminhonete de Luke em frente à casa: ele estava lá. Encolheu-se dentro do seu carro e esperou. Não viu Colleen. Acabou passando a noite na rua.

Ao amanhecer, Luke saiu de casa. Carregava um saco. Entrou em sua caminhonete e arrancou. Woody o seguiu a uma boa distância. Chegaram aos escritórios da transportadora para a qual Luke trabalhava. Uma hora mais tarde, ele saiu dirigindo uma carreta. Woody teria pelo menos vinte e quatro horas de sossego.

Voltou à casa. Bateu à porta. Nenhuma resposta. Bateu mais uma vez, tentou observar o interior pelas janelas. O local parecia vazio. De repente, ouviu uma voz atrás dele que o fez se sobressaltar.

— Ela não está.

Ele se virou. Era a vizinha.

— Não entendi, senhora.

— Não está procurando a pequena Colleen?

— Sim, senhora.

— Ela não está.

— Sabe para onde ela foi?

A vizinha parecia desolada.

— Para o hospital, meu rapaz.

* * *

Woody correu até o hospital de Madison. Encontrou-a na cama, com o rosto inchado e um aparelho ortopédico no pescoço. Fora severamente espancada. Quando o viu, seus olhos se iluminaram.

— Woody!

— Shiu, fique quieta.

Quis beijá-la, tocá-la, mas teve medo de que pudesse machucá-la.

— Achei que você nunca mais voltaria, Woody.

— Estou aqui agora.

— Desculpe ter te expulsado. Preciso de você.

— Não vou a lugar algum. Estou aqui agora.

* * *

Woody sabia que, se não fizesse nada, Luke acabaria matando a garota. Mas como poderia protegê-la? Pediu ajuda a Hillel, que foi se aconselhar com tio Saul e Patrick Neville. Woody tinha ideias mirabolantes para aniquilar Luke: plantar uma arma e um pouco de maconha em seu carro e chamar a polícia federal. Mas todas as pistas remontariam a ele. Hillel sabia que, para encurralar legalmente Luke, era preciso fazê-lo sair da jurisdição de seu pai. Então teve uma ideia.

 

Madison, Connecticut.

1o de julho de 2001.

Colleen saiu de casa no início da tarde. Colocou sua bolsa no porta-malas e partiu. Uma hora mais tarde, Luke entrou. Encontrou o bilhete que ela deixara para ele na mesa da cozinha.

Fui embora. Quero o divórcio.

Se estiver disposto a conversar com calma, estou na pousada Days Inn na

rodovia 38.

Ele ficou louco de raiva. Ela queria conversar? Pois ia ver só. Ele ia fazê-la perder essa vontade. Correu para o carro e dirigiu feito um louco até a pousada. Logo viu o veículo dela estacionado em frente a um quarto. Precipitou-se até lá e bateu à porta.

— Colleen! Abra para mim.

Ela sentiu um frio na barriga.

— Luke, só abro se você estiver calmo.

— Abra essa porta imediatamente.

— Não, Luke.

Ele bateu com toda a força na porta. Colleen não conseguiu reprimir um grito.

Hillel e Woody estavam no quarto ao lado. Hillel pegou o telefone e chamou a polícia. Um telefonista atendeu.

— Tem um sujeito espancando a esposa — explicou Hillel. — Acho que vai matá-la…

Luke continuava do lado de fora, chutando e socando furiosamente a porta. Hillel, após desligar, conferiu o relógio de pulso, esperou passar um minuto e então fez um sinal a Woody, que ligou para o quarto de Colleen. Ela atendeu.

— Está pronta, Colleen?

— Estou.

— Vão ocorrer…

— Eu sei.

— Você é muito corajosa.

— Estou fazendo isso por nós dois.

— Te amo.

— Eu também.

— Agora vá.

Ela desligou. Respirou fundo e então abriu a porta. Luke se jogou em cima dela e começou a surrá-la. Gritos ecoaram no estacionamento da pousada. Woody saiu do quarto, pegou uma faca no bolso e furou o pneu traseiro da caminhonete de Luke, antes de fugir, com um frio na espinha.

Mais socos. E nada da sirene da polícia.

— Pare! — suplicou Colleen aos prantos, se contorcendo no chão em posição fetal para se proteger dos chutes.

Luke a ergueu pelo cabelo, considerando que ela já tivera o que merecia. Arrastou-a para fora do quarto e a obrigou a entrar na caminhonete. Os hóspedes do hotel, alertados pelos gritos, saíram dos quartos, mas não ousaram intervir.

Finalmente, ouviram-se as sirenes. Duas viaturas de polícia chegaram no momento em que Luke arrancava a toda velocidade do estacionamento. Não foi muito longe, retido pelo pneu furado. Foi preso em poucos minutos.

Ao dirigir até a pousada, ele atravessara a fronteira do estado de Nova York. Era lá que ficaria preso, enquanto aguardava julgamento por agressão e sequestro.

* * *

Colleen passou um tempo hospedada na casa dos Goldman, em Baltimore. Foi um renascimento para ela. Durante aquele mês de agosto, ela foi com a gente, Hillel, Woody e eu, para a Flórida. Nossa avó precisava de ajuda para arrumar as coisas de vovô.

Não era preciso quatro pessoas para fazer a triagem nos documentos e livros que nosso avô deixou. Então falamos para Woody e Colleen irem aproveitar um tempo juntos sozinhos. Eles alugaram um carro e foram para as Florida Keys.

Hillel e eu passamos uma semana enfurnados na papelada deixada pelo nosso avô.

Tínhamos combinado que eu cuidaria dos arquivos e Hillel, dos documentos legais. Como encontrei o testamento do vovô numa gaveta, entreguei-o ao meu primo, sem nem sequer ler.

Hillel o examinou atentamente. Depois fez uma expressão esquisita.

— Tudo bem? — perguntei. — Você ficou estranho de repente.

— Tudo bem. É o calor. Vou tomar um pouco de ar na sacada.

Reparei quando ele dobrou o documento e saiu do quarto, levando-o consigo.