O Livro dos Baltimore
Capítulo 40
2003-2004.
No início de 2003, numa noite em que se apresentava no palco do Nightingale, Alexandra conheceu alguém que iria mudar sua vida. Quando terminou seu número, ela se juntou a mim na plateia. Aplaudi, lhe dei um beijo e estava prestes a pegar um copo para ela quando um homem nos abordou.
— Adorei! — falou para Alexandra. — Você tem um talento inacreditável!
— Obrigada.
— Quem compôs essas músicas?
— Fui eu mesma.
Ele lhe estendeu a mão.
— Meu nome é Eric Tanner. Sou produtor e estou procurando um artista para lançar pelo meu selo. Você é a pessoa que estou esperando faz tempo.
Eric tinha uma maneira doce e sincera de falar, muito diferente dos falastrões que eu conhecera até então. Mas ele só ouvira Alexandra por vinte minutos e já tinha inúmeras ideias. Concluí que ou era um picareta ou um louco.
Ele nos deu seu cartão, e, ao conferir seus dados, tivemos todos os motivos para desconfiar dele. De fato tinha uma empresa registrada em seu nome, mas o endereço era o de sua casa no subúrbio de Nashville e ele ainda não produzira nenhum artista. Alexandra decidiu não telefonar. Foi ele quem veio nos procurar. Voltou todas as noites ao Nightingale até nos encontrar de novo. Insistiu em nos oferecer um drinque e nos acomodamos em uma mesa sossegada.
Ele disparou um monólogo de uns vinte minutos, listando tudo o que o comovera em Alexandra e por que apostava que ela se tornaria uma grande estrela.
Ele nos explicou que antes trabalhava como produtor numa grande gravadora e que acabara de pedir demissão. Fundar o próprio selo era o sonho da sua vida, mas ele precisava de um artista à altura de suas ambições, e Alexandra era a estrela que ele esperava fazia tempo. A força de seu discurso, seu carisma e seu entusiasmo convenceram Alexandra. Quando ele terminou, ela pediu para conversar comigo por um instante e me chamou em particular. Reparei que seus olhos brilhavam de alegria.
— É ele, Markie. É o cara certo. No fundo, eu sinto. É ele. O que você acha?
— Siga o seu instinto. Se acredita nele, deve ir em frente.
Ela sorriu. Voltou a se sentar e disse a Eric:
— Combinado. Vou fazer esse disco com você.
Assinaram uma minuta de contrato num pedaço de papel.
* * *
Foi o início de uma aventura extraordinária. Eric nos acolheu. Era casado e pai de dois filhos, e jantamos inúmeras vezes na casa dele durante a produção do primeiro álbum de Alexandra.
Montamos uma banda, promovendo audições com os músicos da região num estúdio que Eric pegara emprestado.
Em seguida, começamos o longo processo de gravação, que demorou alguns meses. Alexandra e Eric escolheram as doze faixas que estariam no álbum e trabalharam os arranjos. Depois se concentraram na parte do estúdio.
Em outubro de 2003, cerca de um ano e meio após termos nos mudado para Nashville, o primeiro disco de Alexandra finalmente estava pronto.
Ainda faltava encontrar um jeito de torná-la conhecida. Para esse tipo de situação, havia apenas um caminho: pegar um carro e percorrer o país para uma turnê nas rádios.
E foi o que Alexandra e eu fizemos.
Atravessamos o país de ponta a ponta, de norte a sul, de leste a oeste, de cidade em cidade, distribuindo o disco nas estações de rádio e, sobretudo, persuadindo os radialistas a divulgarem as músicas dela.
Todos os dias era um recomeço. Nova cidade, novas pessoas a conquistar. Dormíamos em pousadas baratas, onde Alexandra conseguia aliciar os funcionários e usar a cozinha para preparar biscoitos e um bolo para os executivos da rádio. Também escrevia à mão longas cartas para agradecer pela atenção deles. Nunca parava. Dedicava tardes a isso, às vezes noites. Eu bocejava na bancada da cozinha ou no canto da mesa ao seu lado. Durante o dia, eu dirigia e ela dormia no banco do carona. Quando chegávamos à estação de rádio que visitaríamos naquele dia, ela distribuía seus discos, cartas e biscoitos. Conquistava as estações de rádio com sua presença jovial e instigante.
Na estrada, escutávamos atentamente as rádios. A cada música, torcíamos, com o coração a mil, para ser dela. Mas nada.
Então, num dia de abril, após entrarmos no carro, liguei o rádio e, subitamente, ouvimos. Uma rádio estava tocando sua música. Coloquei o volume no máximo e a vi começar a chorar. Lágrimas de alegria escorriam por seu rosto. Ela me abraçou e demos um longo beijo. Alexandra afirmou que tudo aquilo era graças a mim.
Fazia quase seis anos que estávamos juntos, seis anos que éramos felizes. Eu achava que nada podia nos separar. A não ser a Gangue dos Goldman.
* * *
Foi Alexandra quem reuniu novamente a Gangue.
Ela ainda mantinha contato regular com Woody e Hillel. Num dia de primavera de 2004, me disse: “Você precisa conversar com Hillel, ele tem que saber sobre nós dois. É seu amigo e meu também. E amigos não mentem assim.”
Ela tinha razão, e foi o que eu fiz.
No início de maio, fui a Baltimore. Contei tudo a ele. Quando terminei de falar, ele sorriu para mim e se jogou em meus braços.
— Estou muito contente por você, Markie.
Fiquei surpreso com sua reação.
— Sério? — perguntei. — Não está irritado?
— Nem um pouco.
— Mas tínhamos feito aquele pacto, nos Hamptons…
— Sempre admirei você — disse ele.
— Que história é essa?
— A verdade. Sempre achei você mais bonito, mais inteligente, mais talentoso. O jeito como as garotas olham para você, como minha mãe falava de você após as temporadas que você passava em nossa casa. Ela me dizia: “Siga o exemplo de Markie.” Sempre admirei você, Markie. E, além do mais, seus pais são incríveis. Veja só, sua mãe montou um escritório para que você se tornasse escritor. Já meu pai me enche o saco desde sempre para que eu me torne advogado como ele. E é o que estou fazendo. Para agradar ao meu pai. Como sempre fiz. Mas você é um cara excepcional, Marcus. A prova é que nem se dá conta disso.
Sorri. Eu estava muito comovido.
— Queria que reencontrássemos Woody — falei. — Queria retomar a Gangue.
— Eu também.
* * *
O reencontro da Gangue, que aconteceu no Dairy Shack de Oak Park, me fez ter uma ideia melhor da união dos meus primos e eu. Um ano bastara para aplacar o sofrimento e as censuras e dar lugar àquela amizade fraternal, poderosa e inalterável, que unia nós três. Nada era capaz de destruí-la.
Nós nos sentamos em volta de uma mesa e bebericamos milk-shakes, como fazíamos na infância. Estávamos Hillel, Woody e Colleen, Alexandra e eu.
Notei que, no fundo, Woody era feliz com Colleen em Madison. Ela o reconfortara, curara suas feridas, o reconstruíra. Ele conseguira superar a morte de tia Anita.
Como que para exorcizar a má sorte, depois do Dairy Shack fomos ao cemitério de Forrest Lane. Alexandra e Colleen se mantiveram um pouco afastadas. Woody, Hillel e eu nos sentamos diante da lápide.
Havíamos nos tornado homens.
A foto de nós três não era como eu a imaginara dez anos antes.
Eles não haviam se tornado aqueles indivíduos superiores com os quais eu sonhara. Não haviam se tornado um grande jogador de futebol americano e um advogado célebre. Não haviam se tornado tão extraordinários quanto eu desejara. Mas eram meus primos, e eu os amava mais que tudo.
Em Oak Park, na mansão de Willowick Road, meu tio Saul não era mais o mesmo que eu conhecera. Estava mais solitário, mais triste. Porém, pelo menos eu também o reencontrara.
Cheguei a me perguntar se, quando criança, fora eu que sonhara no lugar deles. Se, no fundo, eu os percebia de uma forma diferente do que eles eram na realidade. Será que de fato tinham sido aquelas criaturas fora do comum que eu tanto admirara? E se tudo aquilo não tivesse passado de uma criação da minha mente? E se, desde sempre, eu mesmo fosse meu Baltimore?
* * *
Passamos a tarde e a noite juntos na casa dos Baltimore, que era grande o suficiente para nos acolher. Tio Saul estava nas nuvens ao nos ver reunidos ali.
Devia ser meia-noite e estávamos na varanda à beira da piscina. Fazia muito calor. Contemplávamos as estrelas. Tio Saul se juntou a nós. “Crianças”, disse ele, “eu estava pensando que podíamos nos encontrar aqui no feriado de Ação de Graças.”
Que felicidade ouvi-lo falar daquele jeito! Senti um arrepio de alegria quando o escutei dizer “crianças”. Fechei os olhos e visualizei nós três, doze anos antes.
Sua sugestão foi aprovada por unanimidade. Ficamos muito animados só de imaginar a mesa de Ação de Graças. Torcíamos para os meses passarem depressa.
* * *
Mas não haveria feriado de Ação de Graças naquele ano.
Dois meses depois, no início de julho de 2004, Luke, o marido de Colleen, saiu da prisão.
Ele cumprira sua pena.