O Livro dos Baltimore
Capítulo 13
Em Boca Raton, após flagrar o homem ao volante da van preta, Leo e eu passamos duas noites vigiando a rua, escondidos em minha cozinha. No escuro, espreitávamos qualquer movimento suspeito. Não aconteceu nada, com exceção de uma vizinha que saía para fazer jogging no meio da noite, de uma patrulha que passava de vez em quando e de guaxinins que vieram saquear as latas de lixo do lado de fora.
Leo fazia anotações.
— O que está escrevendo? — perguntei, sussurrando.
— Por que está sussurrando?
— Não sei. O que está escrevendo?
— Estou anotando os sinais suspeitos. A louca que corre, os guaxinins…
— Anote os policiais, já que começou.
— Já fiz isso. Sabe, em geral o culpado é o policial. Isso daria um bom romance. Quem sabe aonde isso pode nos levar?
Mas não nos levou a lugar algum. Nem a van preta nem seu motorista voltaram a dar sinal de vida. Eu estava intrigado para saber o que ele queria. Será que pretendia molestar Alexandra? Eu devia avisá-la?
Mas eu não demoraria muito a entender o que estava acontecendo.
Isso foi no fim de março de 2012, cerca de um mês e meio após minha mudança para Boca Raton.
Baltimore.
1994.
Ao longo do ano, Hillel e Scott se envolveram cada vez mais com o Wildcats. Não perdiam um treino, trocavam de roupa no vestiário com os jogadores, colocando um moletom, antes de irem para a arquibancada. Nos dias de jogo na casa do adversário, viajavam no ônibus do time, vestindo terno e gravata, como todas as outras pessoas. A onipresença deles ao lado da equipe os transformou em participantes singulares. Bendham, emocionado com o engajamento dos dois, quis lhes dar uma função mais oficial, oferecendo-lhes o cargo de responsáveis pelo equipamento. A tentativa não durou mais de quinze minutos: os braços de Hillel eram franzinos demais para carregar o que quer que fosse, e Scott não tinha fôlego.
O técnico os convidou para ficar no banco de reservas e sugeriu que passassem instruções aos jogadores. Foi o que eles fizeram, analisando o jogo de cada um com uma precisão rara. Em seguida, chamavam um a um, que vinham consultá-los como se eles fossem o Oráculo de Delfos.
— Você desperdiça toda a sua energia correndo feito um cavalo, quando não tem necessidade. Fique na sua posição e se mova quando a ação se aproximar de você.
Não havia um gigante de capacete que não os escutasse com atenção. Hillel e Scott se tornaram os primeiros e únicos alunos da história de Buckerey High a usar o uniforme ocre e preto do Wildcats sem fazer oficialmente parte da equipe. E, ao fim de um treino, quando o técnico Bendham dizia “Bom trabalho, Goldman”, Woody e Hillel se viravam ao mesmo tempo e respondiam numa só voz: “Obrigado, treinador.”
Na mesa de jantar dos Goldman-de-Baltimore, o assunto dominante era o futebol americano. Ao voltar do treino, Woody e Hillel contavam detalhadamente suas façanhas do dia.
— E as aulas, com tudo isso? — perguntava tia Anita. — Vão bem?
— Claro — respondia Woody. — É difícil, mas Hillel está me dando uma mãozinha. Ele não precisa estudar, entende tudo de cara.
— Eu estou achando um pouco entediante, pai — costumava explicar Hillel. — O colégio não é como eu imaginava.
— E como você imaginava?
— Não sei. Mais estimulante, talvez. Mas, bem, felizmente temos o futebol.
* * *
Naquele ano, o Wildcats de Buckerey chegaram às quartas de final do campeonato. Ao voltarem das férias de inverno, com o fim da temporada de futebol, Woody, Hillel e Scott foram atrás de uma nova atividade. Scott gostava de teatro. Por coincidência, era uma atividade recomendada para ele exercitar a respiração. Então se inscreveram no curso de arte dramática, ministrado pela Srta. Anderson, a professora de literatura deles, que era uma moça muito simpática.
Hillel tinha um talento natural para a liderança. No campo de futebol, era treinador. No palco, virou diretor. Sugeriu à Srta. Anderson que montassem uma adaptação de Ratos e homens, o que ela aceitou com entusiasmo. E isso desencadeou novos aborrecimentos.
Durante o falso teste de elenco que ele organizou, distribuiu os papéis entre os integrantes do grupo. Scott, para sua grande alegria, ganhou o papel de George, e Woody, o de Lennie.
— Você faz o papel do idiota — explicou Hillel a Woody.
— Ei, não quero fazer um idiota… Srta. Anderson, não pode me arranjar outro personagem? Além disso, sou uma negação nessas coisas. Só sei mesmo jogar futebol.
— Cale a boca, Lennie — ordenou Hillel. — Pegue o seu texto, vamos ensaiar. Vamos, cada um no seu lugar.
Porém, após o primeiro ensaio, vários pais de alunos foram reclamar com o diretor Burdon sobre o conteúdo do texto que queriam fazer os alunos representarem. Ele lhes deu razão e pediu para a Srta. Anderson escolher algo mais apropriado. Furioso, Hillel foi procurar o diretor Burdon em sua sala para lhe pedir explicações.
— Por que proibiu a Srta. Anderson de montar Ratos e homens?
— Os pais dos alunos reclamaram da peça e acho que eles têm razão.
— Estou curioso para saber do que eles reclamaram.
— O texto é cheio de palavrões e você sabe muito bem disso. Fale a verdade, Hillel, quer mesmo que esse espetáculo, que costuma ser o orgulho da escola, seja um monte de gírias e grosserias blasfematórias?
— Mas é John Steinbeck! Por acaso enlouqueceu, diretor?
Burdon fuzilou-o com o olhar.
— Você é que enlouqueceu, Hillel, por falar comigo nesse tom. Vou lhe fazer um favor e fingir que não ouvi nada.
— Mas o senhor não pode censurar um texto de Steinbeck!
— Steinbeck ou não, proíbo que esse livro horrível e provocador seja lido nesta escola.
— Quer saber de uma coisa? Esta escola não vale nada!
Irritado, Hillel decidiu abandonar o curso de arte dramática. Estava furioso com Burdon, com o que ele representava, com o colégio. Exibiu o mesmo semblante triste dos maus momentos de Oak Tree e ficou deprimido. Suas notas acabaram sendo desastrosas e seus pais foram chamados pela Srta. Anderson. Tia Anita e tio Saul, que não estavam informados, descobriram um aspecto de Hillel muito diferente do menino radiante que ele podia ser. Perdera todo o interesse pela escola, era insolente com os professores e só tirava notas baixas.
— Acho que ele não presta atenção nas aulas porque não está motivado — explicou a Srta. Anderson com delicadeza.
— Mas então o que devemos fazer?
— Hillel é realmente muito inteligente. Ele se interessa por várias coisas. Sabe muito mais que a maioria dos colegas. Na semana passada, penei para explicar à turma as bases do federalismo e o funcionamento do Estado americano. Ele já conhece política de trás para a frente, inclusive faz comparações com a Grécia Antiga.
— Ele é mesmo apaixonado pela Antiguidade — disse tia Anita, parecendo alegre e triste ao mesmo tempo.
— Sr. e Sra. Goldman, Hillel tem quatorze anos e lê livros sobre direito romano…
— O que está tentando nos dizer? — perguntou tio Saul.
— Que talvez Hillel seja mais feliz numa escola particular. Com um programa adaptado. Ele se sentiria muito mais estimulado.
— Mas ele saiu de uma… E, além do mais, nunca vai querer se separar de Woody.
Tio Saul e tia Anita tentaram conversar com ele para entender o que estava acontecendo.
— O problema é que eu acho que não valho nada — disse Hillel.
— Mas como pode dizer uma coisa dessas?
— Porque não consigo fazer nada. Não consigo me concentrar. Mesmo que eu quisesse, não conseguiria. Não entendo nada das aulas, estou completamente perdido!
— Como assim, não entende nada? Hillel, você é um menino muito inteligente! Precisa dar um jeito de conseguir.
— Prometo que vou tentar me esforçar — respondeu Hillel.
Tia Anita e tio Saul também marcaram uma reunião com o diretor Burdon.
— Talvez Hillel fique um pouco entediado na sala de aula — disse Burdon —, mas acima de tudo é um chorão que não suporta ser contrariado! Começou o curso de teatro e, de repente, o largou no meio.
— Ele fez isso porque o senhor censurou a peça…
— Censurei? Ah, Sr. Goldman, a maçã nunca cai longe da árvore, foi o que ouvi seu filho dizer. Steinbeck ou não, não podemos aceitar grosserias num espetáculo escolar. Depois os pais dos alunos ficam atrás de mim, não de você. Bastava Hillel escolher uma peça mais apropriada! Quem quer encenar Steinbeck com quatorze anos?
— Talvez Hillel seja um menino à frente da sua idade — sugeriu tia Anita.
— Sim, sim, sim — respondeu Burdon, suspirando. — Conheço o bordão: “Meu filho é tão inteligente que às vezes parece retardado.” Ouço isso com frequência, como podem imaginar. “Meu filho é muito especial e blá-blá-blá.” “Ele precisa de atenção e blá-blá-blá.” A verdade é que estamos num colégio público, Sr. e Sra. Goldman, e num colégio público todo mundo tem o mesmo status. Não podemos começar a editar normas específicas para Fulano, nem por motivos justos. Imaginem se cada aluno tivesse a própria grade de matérias porque é “especial”? Já bastam os aborrecimentos que tenho com a cantina e com todos esses chatos hindus, judeus e mulçumanos, que cismam de não comer igual a todo mundo.
— Então o que sugere? — perguntou tio Saul.
— Muito bem, talvez Hillel devesse simplesmente estudar mais. Se soubessem o número de crianças que tive nesse colégio que os pais achavam que elas eram gênios e que anos depois eu vi trabalhando num posto de gasolina…
— Qual é o problema com as pessoas que trabalham num posto de gasolina?
— Nenhum! Nenhum! Caramba, é só jeito de falar. Vocês são agressivos demais nessa família! Só acho que talvez Hillel precise estudar mais em vez de achar que já sabe tudo e que é mais esperto que todos os professores juntos. Se as notas dele são ruins, é porque ele não está estudando o suficiente, só isso.
— É óbvio que ele não estuda o suficiente, Sr. Burdon — explicou tia Anita. — O problema é justamente esse e é por isso que estamos aqui. Ele não estuda porque fica entediado. Precisa ser estimulado. Precisa de um empurrão. Ser encorajado. Está desperdiçando seu potencial…
— Sr. e Sra. Goldman, observei com atenção as notas de Hillel. Compreendo que seja difícil aceitarem, mas, regra geral, quando alguém tira notas ruins, isso significa que não é muito inteligente.
— Estou anotando todas as suas palavras, diretor Burdon — observou Hillel, presente à conversa.
— E lá vem o pequeno insolente voltando com tudo. Esse aí não tem papas na língua. Agora estou conversando com seus pais, Hillel. Se é dessa maneira que se comporta com os professores, não é nenhuma surpresa que todo mundo deteste você. Quanto aos senhores, Sr. e Sra. Goldman, ouvi muito bem sua ladainha “meu filho tem notas ruins porque é superdotado”, mas lamento informar que isso se chama desleixo. A gente nem nota a presença dos superdotados e, com doze anos, eles já estão formados em Harvard!
Woody decidiu assumir a responsabilidade e motivar Hillel, permitindo que fizesse o que fazia de melhor: treinar o time de futebol americano. Não havia treinos da equipe regular fora da temporada, pois era proibido pelo regulamento da Liga. Mas nada impedia que os jogadores se reunissem para exercícios coletivos. Assim, a pedido de Woody, toda a equipe passou a se encontrar uma vez por semana para treinar sob as ordens de Hillel, assessorado por Scott. O objetivo desses preparativos era vencer o campeonato no outono seguinte, e, à medida que as semanas passavam, os jogadores se imaginavam erguendo o troféu, inclusive Scott, que um dia confidenciou para Hillel:
— Hill, eu queria jogar. Não gosto de ser treinador. Eu queria jogar futebol. Também queria estar no campo ano que vem. Queria fazer parte da equipe.
Hillel olhou para ele, desolado.
— Mas, Scott, seus pais nunca vão concordar.
O menino ficou revoltado. Sentou-se no gramado e arrancou tufos de grama. Hillel se acomodou ao seu lado e passou o braço ao redor de seus ombros.
— Não se preocupe. Daremos um jeito. Basta você prestar atenção, foi o que seu pai disse. Beber bastante líquido, parar de vez em quando para descansar e lavar as mãos.
Foi assim que Scott se juntou oficialmente à equipe não oficial do Wildcats. Ele dava tudo de si e participava de alguns exercícios. Mas logo ficava exausto. Sonhava em jogar na posição de ala: receber uma bola a quarenta e cinco metros, efetuar um sprint espetacular, passar por toda a defesa adversária e marcar um touchdown. Triunfante, ser carregado por sua equipe, ouvir o estádio berrar seu nome. Hillel o escalou como ala, mas estava claro que ele não conseguia correr mais de dez metros. Então optaram por um novo procedimento: Scott seria colocado dentro de um carrinho de mão e empurrado por um jogador até a linha do gol, onde derrubaria o carrinho com Scott dentro. E em contato com o solo e agarrando a bola, ele marcaria um touchdown. Essa nova estratégia chamada “carrinho de mão” foi adotada com entusiasmo pela equipe. Logo passaram a dedicar parte do treino à prática de empurrar colegas no carrinho de mão, o que aumentou exponencialmente as qualidades de sprinters dos jogadores, que, depois, lançados sem o carrinho, se tornaram verdadeiros foguetes.
Nunca tive a sorte de ver com os próprios olhos um “carrinho de mão”. Mas o espetáculo devia ser imperdível, porque, em pouco tempo, os alunos de Buckerey passaram a correr para ver os treinos, em geral acompanhados por algumas groupies. Hillel ordenava aos seus jogadores que fizessem algumas jogadas específicas e, subitamente, a um sinal seu, surgindo de lugar nenhum, um dos jogadores mais fortes — quase sempre Woody — atravessava o campo empurrando Scott, muito bem-acomodado em seu carrinho de mão. O quarterback arremessava a bola da linha defensiva: eram necessárias uma agilidade e uma força excepcionais por parte do empurrador para fazer com que Scott recebesse a bola, depois era preciso continuar ziguezagueando até a linha de fundo, esquivando-se dos zagueiros, que não hesitavam em interceptar violentamente Woody, o carrinho e Scott. Mas quando o carrinho chegava à linha do gol e Scott, jogando-se no chão, marcava, o público gritava de alegria. E todos berravam: “Carrinho de mão! Carrinho de mão!” Então Scott se levantava, festejado primeiramente pelos companheiros, e depois ia saudar e comemorar o gol com sua horda de fãs, sempre crescente. Em seguida, ia beber água, recuperar o fôlego e lavar as mãos.
* * *
Esses poucos meses de treinamento foram os mais felizes do tempo de escola da Gangue dos Goldman reconstituída. Woody, Hillel e Scott eram os astros da equipe de futebol americano e as glórias do colégio. Isso até aquele dia de primavera, pouco depois da Páscoa, quando Gillian Neville, que esperava o filho no estacionamento da escola, foi alertada pelos gritos de alegria da multidão. Scott acabara de fazer um touchdown. Gillian foi andando até o campo para descobrir o que estava acontecendo e viu, num uniforme desconjuntado de jogador, o filho atravessando o campo dentro de um carrinho de mão. Começou a berrar:
— Scott, pelo amor de Deus! Scott, o que você está fazendo aí?
Woody parou na mesma hora. Os jogadores ficaram paralisados, os espectadores se calaram. Houve um silêncio absoluto.
— Mamãe? — disse Scott, tirando o capacete.
— Scott? Mas você me falou que estava na aula de xadrez.
Ele baixou a cabeça e saiu do carrinho.
— Eu menti, mamãe. Desculpe…
Ela correu até o filho e o abraçou, contendo um soluço.
— Não faça isso comigo, Scott. Não faça isso comigo, por favor. Você sabe que tenho medo por você.
— Eu sei, não quero que se preocupe. Não estávamos fazendo nada errado.
Gillian Neville ergueu a cabeça e viu Hillel com um bloco de anotações na mão e um apito pendurado no pescoço.
— Hillel! — gritou ela, dirigindo-se a ele. — Você tinha me prometido!
Ela perdeu o sangue-frio e, correndo em sua direção, lhe deu um tapa ruidoso.
— Você não entende que vai matar Scott com suas imbecilidades?
Hillel ficou estupefato.
— Onde está o treinador? — berrou Gillian. — Onde está o técnico Bendham? Ao menos ele está ciente do que vocês andam aprontando?
Foi o início de um escândalo. Burdon foi avisado, a administração escolar de Maryland, intimada. Burdon reuniu em seu escritório o técnico, Scott e seus pais, Hillel, tio Saul e tia Anita.
— Você sabia que seus jogadores treinam fora da temporada? — perguntou o diretor Burdon ao técnico.
— Sabia — respondeu Bendham.
— E não achou que era conveniente acabar com isso?
— Por que eu faria uma coisa dessas? Meus jogadores progridem. O senhor conhece o regulamento, diretor: os treinadores não devem ter contato com os jogadores fora da temporada. Contar com Hillel, que comanda o treinamento do grupo, é uma bênção e não desobedece às regras de forma alguma.
Burdon suspirou e se voltou para Hillel.
— Nunca lhe disseram para não colocar crianças doentes em carrinhos de mão? Isso é humilhante!
— Sr. Burdon — protestou Scott —, não é o que o senhor está pensando! Ao contrário, nunca fui tão feliz como nos últimos meses.
— Quer dizer que passeiam com você num carrinho de mão e você fica contente?
— Sim, diretor Burdon.
— Ora, pelo amor de Deus, isso aqui é um colégio e não um circo!
Burdon se despediu do treinador, de Scott e de seus pais para ter uma conversa particular com os Goldman.
— Hillel — disse ele —, você é um menino inteligente. Já reparou no estado em que o pequeno Scott Neville ficou? A prática de exercícios é algo muito perigoso para ele.
— Pelo contrário, acho que um pouco de exercício lhe faz muito bem.
— Você é médico? — perguntou Burdon.
— Não.
— Então guarde suas opiniões para você mesmo e não seja impertinente. Não estou lhe pedindo um favor, estou lhe dando uma ordem. Pare de colocar esse garotinho doente no carrinho de mão ou de incentivá-lo a fazer qualquer tipo de exercício. Isso é muito importante.
— Está bem.
— Quero mais do que isso. Quero que me prometa.
— Prometo.
— Ótimo. Combinado. Então seus treinos clandestinos estão encerrados. Você não faz parte da equipe, não tem nenhum vínculo com eles, não quero mais vê-lo no ônibus, no vestiário, em lugar algum com eles. Não me crie mais problemas.
— Primeiro, o teatro, depois, o futebol. O senhor tira tudo de mim! — indignou-se Hillel.
— Não tiro nada, simplesmente aplico as regras que regem o bom convívio em nossa escola.
— Não violei nenhuma regra, diretor. Nada me impede de treinar a equipe fora da temporada.
— Eu te proíbo.
— E com que base legal?
— Hillel, você quer ser expulso do colégio?
— Não. Quero saber qual é o problema de treinar a equipe fora da temporada.
— Treinar a equipe? Você chama isso de treino? Colocar um menino que sofre de fibrose cística num carrinho de mão e atravessar o campo com ele… Você chama isso de treino?
— Li o regulamento, sabe. Nada sugere ser proibido que um jogador carregue outro que está com a bola.
— Bom, Hillel — rosnou Burdon, que perdera a calma —, quer brincar de advogado, é isso? Você é o advogado das crianças doentes no carrinho de mão?
— Eu só quero que o senhor não seja tão rigoroso…
O diretor pareceu pesaroso e declarou para tio Saul e tia Anita:
— Sr. e Sra. Goldman, Hillel é um bom menino. Mas o sistema público é assim. Se não estão satisfeitos, melhor voltarem para o ensino particular.
— Devo lembrar ao senhor que foi o colégio de Buckerey que foi nos procurar — retrucou Hillel.
— Woody, sim. Mas você é diferente: está aqui porque Woody queria que você o acompanhasse e nós aceitamos. Mas fique à vontade para mudar de escola, se esse é o seu desejo.
— Muito gentil de sua parte. Isso significa que o senhor não dá a mínima para mim!
— Nada disso, não estou dando a mínima coisa nenhuma! Considero você um garoto muito gentil, de quem gosto muito, mas é um aluno como outro qualquer, ponto final. Se quer continuar numa instituição pública, deve aceitar as regras. É assim que nosso sistema funciona.
— O senhor é medíocre, diretor. Sua escola é medíocre. Mandar as pessoas para o ensino privado é sua resposta para todas as coisas? O senhor nivela tudo por baixo! Proíbe Steinbeck por causa de três palavrões no texto, mas é incapaz de compreender o alcance da obra dele! E se esconde atrás de regulamentos obscuros para justificar sua falta de ambição intelectual. E não venha me falar de um sistema que funciona, pois nosso sistema escolar público é uma piada e o senhor sabe disso. E um país onde o sistema escolar não funciona não é nem uma democracia nem um estado de direito!
Houve um longo silêncio. O diretor suspirou e, por fim, perguntou:
— Hillel, quantos anos você tem?
— Tenho quatorze, diretor Burdon.
— Quatorze anos. E por que não está andando de skate como seus colegas, em vez de argumentar que a garantia do estado de direito depende da qualidade do ensino escolar?
Burdon se levantou e foi abrir a porta da sua sala, indicando que a reunião estava encerrada. Woody, que estava esperando numa cadeira no corredor, ouviu o diretor dizer a tio Saul e tia Anita, ao se despedir:
— Acho que seu filhinho Hillel nunca vai se encaixar aqui.
Hillel caiu no choro.
— O senhor não entendeu nada! Passei uma hora falando e o senhor não teve sequer a decência de me escutar. — Ele se vira para os pais. — Mamãe, papai, eu só queria que me escutassem! Queria um pouco de consideração!
Para acalmar os ânimos, os Baltimore foram tomar milk-shake no Dairy Shack de Oak Park. Eles se sentaram em dois bancos, um de frente para o outro, e ficaram estranhamente calados.
— Hillel, querido — disse tia Anita, por fim —, conversei muito com seu pai sobre a situação… Há uma escola especialmente adaptada…
— Não, uma escola especial, não! — exclamou Hillel. — Isso não, eu imploro! Não podem me separar de Woody.
Anita pegou um prospecto na bolsa e o colocou em cima da mesa.
— Ao menos dê uma olhada. É um lugar chamado Blueberry Hill. Acho que você vai ficar bem lá. Não aguento mais ver você tão infeliz nessa escola.
Hillel, de má vontade, folheou o papel.
— Além do mais, fica a cem quilômetros daqui! Fora de questão! Não vou fazer duzentos quilômetros de ida e volta diariamente!
— Hillel, querido, meu anjo… Você dormiria lá…
— O quê? Não, não! Não quero!
— Querido, você voltaria todos os fins de semana. Iria aprender muita coisa. Você fica entediado nessa escola…
— Não, mãe, não quero! NÃO QUERO! Por que eu deveria ir para lá?
Naquela noite, Woody e Hillel leram juntos o prospecto da Blueberry Hill.
— Woody, você precisa me ajudar! — suplicou Hillel, totalmente em pânico. — Não quero ir para lá. Não quero que a gente fique separado.
— Também não quero. Mas não sei o que fazer por você. Aliás, você é o sabe-tudo da escola. Tente parar de aparecer. Consegue fazer isso? Você elegeu o presidente Clinton! Conhece tudo de tudo! Faça um esforço. Não deixe o idiota do Burdon acabar com você. Ah, não se preocupe, Hill, não vou deixar você ir embora.
Hillel, aterrorizado só de pensar em ser mandado para a escola especial, não teve mais ânimo para fazer nada. Na noite de sexta-feira, tia Anita entrou no quarto de Woody, que estava em sua escrivaninha fazendo os deveres de casa.
— Woody, falei com o treinador Bendham ao telefone. Ele disse que você deixou um bilhete para avisar que estava saindo do time de futebol. Isso é verdade?
Woody baixou a cabeça.
— Ora, de que adianta?
— Como assim, meu tesouro? — perguntou ela, se ajoelhando perto dele para ficar da sua altura.
— Se Hillel vai para a escola especial, isso quer dizer que não poderei mais morar com vocês, certo?
— Não, Woody, claro que não. Esta é a sua casa, isso não muda nada. Nós te amamos como um filho, você sabe. A escola especial é um lugar para Hillel, para ajudá-lo a se desenvolver. É para o bem dele. Esta é sua casa para sempre.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Woody. Tia Anita o puxou para perto e lhe deu um abraço forte.
* * *
No domingo, pouco antes da hora do almoço, o treinador Bendham fez uma visita surpresa na casa dos Goldman-de-Baltimore. Convidou Woody para um almoço e o levou para comer um hambúrguer numa lanchonete que ele costumava frequentar.
— Desculpe pela minha carta, professor — disse Woody, à mesa. — Para falar a verdade, eu não queria sair da equipe. Eu estava com raiva por causa do que andam aprontando com Hillel.
— Sabe, mocinho, eu tenho sessenta anos. Faz mais ou menos quarenta anos que treino equipes de futebol e, em toda a minha carreira, nunca fui almoçar com nenhum dos meus jogadores. Tenho minhas regras, e isso não está nas minhas regras. Por que eu faria uma coisa dessas? Alguns meninos já decidiram largar o time. Preferiram ir atrás das garotas em vez de correr com uma bola nos braços. Era um sinal, isso significava que eles não eram sérios. Não perdi tempo tentando recuperá-los. Por que perder tempo com quem não queria jogar enquanto alguns garotos se aglomeravam no portão para integrar a equipe?
— Eu sou sério, professor. Juro!
— Eu sei, mocinho. É por isso que estou aqui.
O garçom trouxe a comida. O treinador esperou que ele se afastasse para continuar:
— Escute, Woody, sei que você teve um bom motivo para escrever esse bilhete para mim. Eu queria que me contasse o que está acontecendo.
Woody falou sobre as preocupações em torno de Hillel, a indiferença do diretor Burdon e a ameaça da escola especial.
— Ele não tem déficit de atenção — disse Woody.
— Sei muito bem disso, mocinho — respondeu o treinador. — Basta ouvi-lo falar. A mente dele já está num estágio de desenvolvimento mais avançado do que a da maioria dos professores.
— Hillel precisa de um desafio! Precisa ser motivado. Ele é feliz com vocês. Fica feliz em campo!
— Você quer que ele faça parte da equipe? Mas o que vamos fazer com ele? É o garoto mais magro que já vi na vida.
— Não, treinador, não é exatamente na função de jogador que eu estou pensando. Tenho uma ideia, mas você vai ter que confiar em mim…
Bendham o escutou atentamente, concordando com a cabeça. Terminada a refeição, foram de carro até um bairro residencial próximo. Parou em frente a uma casinha, diante da qual havia um trailer de camping estacionado.
— Olhe, mocinho, essa é minha casa. E o trailer é meu. Comprei no ano passado, mas ainda não cheguei a usá-lo. Era um bom negócio, e comprei pensando na minha aposentadoria.
— Por que está me contando isso, treinador?
— Porque daqui a três anos eu me aposento. Isso vai coincidir com a sua formatura do colégio. Sabe o que me faria feliz? Vencer o campeonato e mandar para a NFL o melhor jogador que já treinei. Então vou aceitar sua ideia. Em troca, quero que me prometa que vai voltar aos treinos e trabalhar tão duro como fez até agora. Quero ver você na NFL algum dia, mocinho. E então vou pegar meu trailer e percorrer a Costa Leste para não perder nenhum jogo seu. Vou ver você das arquibancadas e direi aos caras que estiverem sentados ao meu lado que conheço muito aquele rapaz ali, porque fui o treinador dele na época do colégio. Prometa, Woodrow. Prometa que você e o futebol são apenas o início de uma grande aventura.
— Prometo, treinador Bendham.
O homem sorriu.
— Muito bem, agora vamos dar a notícia a Hillel.
Vinte minutos depois, na cozinha dos Goldman-de-Baltimore, Hillel, tio Saul e tia Anita escutaram o treinador, hipnotizados.
— Quer que eu seja seu auxiliar, professor? — repetiu Hillel, incrédulo.
— Exatamente. A partir do próximo ano. Meu assistente oficial. Tenho o direito de contratá-lo, Burdon não pode fazer nada quanto a isso. E você será um assistente excepcional: conhece os garotos, tem uma boa visão de jogo e sei que faz anotações sobre as outras equipes.
— Foi Woody quem lhe contou?
— Não importa. Tudo isso para dizer que teremos três temporadas complicadas pela frente, que não sou mais tão jovem e que uma mãozinha nunca é demais.
— Ai, meu Deus! Sim! Sim! Eu adoraria!
— Tem só uma condição: para fazer parte do time, é preciso tirar notas boas. Está no regulamento. Os integrantes da equipe de futebol devem manter a média em todas as disciplinas, e isso vale para você também. Então, se quiser fazer parte da equipe, terá que se recuperar em sala de aula a partir de agora.
Hillel prometeu. Para ele, foi uma ressurreição.