O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 23 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 20

 

Hamptons.

Julho de 1997.

Nós a reencontramos nos Hamptons como se nunca houvéssemos nos separado. Depois que o momento de incredulidade passou, ela gritou de entusiasmo.

— A Gangue dos Goldman! — exclamou, nos abraçando um a um. — Não estou acreditando!

Ela me deu um abraço apertado com uma espontaneidade desconcertante e exibiu seu sorriso maravilhoso.

Seu pai, alertado por nossa algazarra, apareceu para nos cumprimentar calorosamente. Avisamos tia Anita e tio Saul, que também vieram saudar os novos donos da casa.

— E essa agora! — disse tio Saul, estalando um beijo no rosto de Patrick. — Foi você quem comprou o Paraíso?

* * *

Vi meus dois primos exultarem por desfrutar novamente do convívio de Alexandra. Era possível detectar em seus gestos e em sua animação tudo o que sentiam por ela. Na última vez que a tínhamos visto, na ocasião de sua mudança de Oak Park para Nova York, chorávamos feito madalenas. Porém, para mim, nada mais era como antes.

Tia Anita convidou Alexandra e Patrick para jantarem naquela mesma noite e nós sete nos reunimos sob o caramanchão. Patrick Neville explicou que fazia tempo que sonhava com uma casa na região e que O Paraíso na Terra tinha sido uma oportunidade única. Eu não escutava direito a conversa, pois devorava Alexandra com os olhos. Acho que ela evitava meu olhar.

Após a refeição, enquanto meus tios e Patrick Neville bebiam licor à beira da piscina, Alexandra, meus primos e eu saímos para dar uma volta na rua. Já era tarde, mas o calor agradável ainda reinava. Falamos sobre tudo e nada. Alexandra contou sobre sua vida de estudante na Universidade de Madison, em Connecticut. Ela ainda não sabia qual carreira escolheria.

— E a música? — perguntou Woody. — Você continua se dedicando?

— Menos que antes. Não tenho muito tempo…

— Que pena — falei.

Ela exibiu um olhar um pouco triste.

— Sinto muita falta, para dizer a verdade.

Reencontrá-la partiu meu coração. Eu continuava encantado com sua voz, seu rosto, seu sorriso, seu cheiro. No fundo, eu não tinha muita vontade de revê-la. Mas ela era nossa vizinha e não havia muito como evitá-la. Ainda mais porque meus dois primos estavam maravilhados com ela, e de jeito nenhum eu podia contar o que havia acontecido entre nós.

No dia seguinte, ela nos convidou para irmos à sua casa nadar. Mesmo de má vontade, acompanhei Woody e Hillel. O mar estava gelado, e passamos a tarde na beira da piscina, muito maior que a dos Baltimore. Ela deu um jeito de que eu fosse ajudá-la a pegar as bebidas na cozinha e ficamos a sós.

— Markikette, eu queria dizer… que é muito bom ver você de novo. Espero que não esteja constrangido, porque eu não estou. Fico contente em saber que podemos continuar amigos.

Fiz uma careta. Ninguém tinha falado nada sobre ser amigo.

— Por que nunca mais me deu notícias? — perguntei, num tom revoltado.

— Notícias?

— Passei várias vezes perto da casa do seu pai em Nova York…

— Perto da casa do meu pai? Ora, Marcus, o que você espera de mim?

— Nada.

— Não diga nada. Estou percebendo que você me odeia. Você me odeia porque fui embora?

— Talvez.

Ela suspirou, demonstrando irritação.

— Marcus, você é um garoto incrível. Só que não estamos mais juntos. Fico feliz em ver você de novo, e seus primos também, mas, se para você for muito difícil me ver sem remoer o passado, então acho melhor não nos encontrarmos mais.

Menti e afirmei que não remoía nada, que nossa história era irrelevante para mim e que eu mal me lembrava dela. Peguei algumas latinhas de Dr Pepper e fui atrás dos meus primos. Eu havia reencontrado Alexandra, mas não era mais a mesma Alexandra. A última vez que a vira, ela ainda era minha. E a reencontrara como uma jovem adulta que florescera e que estudava numa renomada universidade, enquanto eu permanecera no meu mundinho de Montclair. Eu sabia que precisava esquecê-la, mas quando a via de maiô na beira da piscina, seu reflexo na água se transformava no seu reflexo no espelho do Waldorf Astoria e as lembranças do nosso passado voltavam a assombrar minha memória.

* * *

Passamos toda a nossa temporada nos Hamptons com os Neville. A casa deles estava sempre com as portas abertas e O Paraíso, aquela propriedade sublime, exercia uma atração irresistível sobre nós. Era a primeira vez que eu considerava ultrapassado algum patrimônio dos Baltimore: comparada à casa que Patrick Neville adquirira, a casa de férias dos meus tios parecia a Montclair dos Hamptons.

Patrick Neville decorara os cômodos com muito bom gosto, reformara totalmente a cozinha e instalara uma sauna a vapor no porão. O ladrilho da piscina fora trocado. Mas ele deixara a fonte que me fazia sonhar, e também o caminho de pedra que serpenteava entre os arbustos de hortênsias até a praia de areia branca que o mar azul lambia.

Desde sua mudança para Nova York, Patrick Neville passou a ganhar muito dinheiro com seu fundo de investimento, e esse sucesso perdurava: seu salário e as gratificações haviam acompanhado a ascensão de seu desempenho. Ele tinha literalmente feito fortuna.

Se a beleza do Paraíso nos deixava embasbacados, a razão de nossa onipresença se devia acima de tudo aos Neville. A Alexandra, evidentemente, mas também a seu pai, que se afeiçoou a nós. Em Oak Park, ele sempre fora gentil e generoso com a gente. Era um homem muito bom. Mas nos Hamptons nós o descobrimos sob outro ângulo: o do homem carismático, culto, brincalhão. Foi uma surpresa para nós, mas vivíamos procurando sua companhia.

Às vezes, ao abrir a porta de casa, Patrick nos avisava que Alexandra não estava, mas que não demoraria a voltar. Quando isso acontecia, íamos para a cozinha e ele nos oferecia uma cerveja. “Vocês já não são mais tão novinhos”, declarava como se contivesse antecipadamente um eventual protesto. “No fundo, já são homens. É um orgulho conhecer vocês.” Abria uma cerveja de cada vez e ia nos entregando, para depois brindar à nossa saúde.

Compreendi que havia alguma coisa um pouco fora do comum que o impressionava na Gangue. Ele gostava de conversar com a gente. Certo dia nos perguntou se tínhamos alguma paixão. Berramos prontamente nosso amor pelo esporte e pelas garotas e por tudo o mais que nos passou pela cabeça. Hillel falou sobre política e Patrick ficou ainda mais entusiasmado.

— Também sempre gostei muito de política — comentou Patrick. — Além de história. E de literatura. Os vasos vazios são os que fazem mais barulho…

— Shakespeare — identificou Hillel.

— Exatamente — disse Neville, animado. — Como você sabe?

— Esse rapazinho sabe tudo — disse Woody cheio de orgulho. — É um gênio.

Patrick Neville nos encarou, sorrindo, feliz com a nossa presença.

— Vocês são garotos legais — afirmou ele. — Seus pais devem ter muito orgulho.

— Meus pais são uns imbecis — explicou Woody gentilmente.

— São mesmo — confirmou Hillel. — Tanto que eu te empresto os meus.

Neville fez uma expressão engraçada antes de cair na gargalhada.

— Ah, vocês realmente são garotos muito legais! Mais uma cervejinha?

* * *

Não fazíamos mais cerimônia no Paraíso. Não satisfeitos em vadiar por lá o dia inteiro, logo começamos a passar as noites também. Não demorei a perceber que a presença de Alexandra no meio da Gangue dos Goldman prejudicava a cumplicidade de Woody, Hillel e eu. Eu sofria muito para manter distância dela: tinha que disfarçar com Woody e Hillel, cujos hormônios estavam em ebulição e, portanto, a devoravam com o olhar. Eu era ciumento demais para deixá-los a sós com ela. Na piscina, eu os espiava. Notava que eles a faziam rir, via Woody agarrá-la com seus braços musculosos para jogá-la na água, reparava nos olhos dela e tentava descobrir se brilhavam mais quando se fixava num dos meus primos.

À medida que os dias passavam, eu ia ficando mais ciumento. Invejava Hillel, seu carisma, seu conhecimento, sua desenvoltura. Eu reparava muito bem em como ela olhava para ele, via claramente como se roçava nele, e aquilo me deixava louco.

Foi a primeira vez que Woody me irritou, logo ele, de quem eu tanto gostava: às vezes sentia ódio dele, quando, pingando de suor, tirava a camiseta e exibia seu corpo esculpido que ela não deixava de olhar e, às vezes, até de elogiar. Eu reparava muito bem em como ela olhava para ele, via claramente como se roçava nele, e aquilo me deixava louco.

Então passei a vigiá-los. Se um deles desaparecia para pegar um utensílio qualquer, eu logo ficava desconfiado. Imaginava encontros secretos e amassos intermináveis. À noite, de volta à casa dos Goldman, onde jantávamos na varanda, tio Saul nos perguntava:

— Tudo bem com vocês, rapazes? Estão muito quietos.

— Tudo bem — respondia um de nós.

— Está tudo bem na casa dos Neville? Tem alguma coisa que eu deveria saber?

— Está tudo bem, só estamos cansados.

O que tio Saul percebia era uma tensão maldissimulada entre os membros da Gangue. Pela primeira vez na vida que levávamos juntos, nós três queríamos alguma coisa que não podíamos dividir.