O Livro dos Baltimore
Capítulo 5
Em Boca Raton, naquele início de março de 2012, meu jantar com Kevin me reaproximara de Alexandra.
Nos dias seguintes, quando levei Duke de volta, ela me convidou para entrar e, inclusive, me ofereceu uma bebida. Em geral, era uma garrafa d’água ou uma latinha de refrigerante que eu tomava em pé na cozinha, mas já era alguma coisa.
— Obrigada pelo outro dia — disse ela num fim de tarde em que estávamos sozinhos. — Não sei o que você fez com Kevin, mas ele gostou muito de você.
— Fui eu mesmo.
Ela sorriu.
— Obrigada por não ter contado nada sobre nós dois. Gosto muito de Kevin e não queria que ele imaginasse que ainda há algum sentimento entre você e eu.
Ao ouvir essas palavras, senti uma pontada no coração.
— Kevin me falou que você recusou o pedido de casamento dele.
— Isso não é da sua conta, Marcus.
— Kevin é muito legal, mas não combina com você.
No mesmo instante, me repreendi por ter falado isso. Por que eu estava me intrometendo? Ela apenas deu de ombros, antes de responder:
— Ora, você tem Lydia.
— Como sabe sobre Lydia? — perguntei.
— Li nessas revistas idiotas.
— Você está falando de um caso de quatro anos atrás. Não estamos mais juntos há muito tempo… É passado. — Como eu queria mudar de assunto, resolvi mostrar a Alexandra a foto que eu trouxera. — Você se lembra dessa foto?
Ela deu um sorriso nostálgico e acariciou o retrato com a ponta dos dedos.
— Quem podia imaginar naquela época que você se tornaria um escritor famoso? — comentou ela.
— E você uma estrela da música?
— Não teria acontecido sem você…
— Deixe disso.
Houve um momento de silêncio. De repente, ela me chamou como fazia antigamente:
— Markie — murmurou. — Faz oito anos que sinto sua falta.
— Eu também. Acompanhei toda a sua carreira.
— Li seus romances.
— Gostou?
— Sim. Muito. Volta e meia releio trechos do seu primeiro livro. E identifico todos os seus primos nos personagens. Reencontro a Gangue dos Goldman.
Sorri. Olhei mais uma vez para o retrato em minhas mãos.
— Você está fascinado por essa foto — observou ela.
— Não sei se me fascina ou me assombra.
Guardei o retrato no bolso e me despedi de Alexandra.
Ao sair de carro pelo portão da mansão de Kevin, não notei a van preta estacionada na rua, nem o motorista, que me observava.
Segui pela estrada e ele foi atrás de mim.
Baltimore, Maryland.
Novembro de 1989.
A sugestão de Woody de cortar a grama dos Goldman não saíra da cabeça do tio Saul. Principalmente depois que Artie foi jantar na casa deles e contou sobre a enorme dificuldade que era enquadrá-lo.
— Pelo menos ele gosta da escola — disse Artie. — E também gosta de aprender, tem uma cabeça boa. Mas basta as aulas terminarem que ele começa a aprontar, e infelizmente não podemos ficar de olho nele o tempo todo.
— E os pais dele? — perguntou tio Saul.
— A mãe sumiu do mapa faz tempo.
— Viciada?
— Pior que não. Foi embora, só isso. Era jovem. O pai também. Ele se considerava capaz de educar o filho, mas o dia em que começou a namorar sério foi um deus nos acuda na casa. O garoto ficou muito irritado, querendo bater em todo mundo. A assistente social interveio, um juiz de menores também. Ele foi levado para a instituição, a princípio provisoriamente, depois a namorada do pai foi transferida para Salt Lake City e o pai aproveitou para ir com ela para a outra ponta do país, se casar e ter mais filhos. Woodrow ficou em Baltimore e não quer ouvir falar em Salt Lake City. Eles mantêm algum contato pelo telefone. O pai escreve às vezes. O que preocupa no caso de Woodrow é que ele não desgruda desse Devon, um delinquente que fuma crack e brinca com um revólver.
Então tio Saul concluíra que, se Woody se ocupasse aparando gramados depois da escola, não teria tempo para perambular pela rua. Falou sobre isso com Dennis Bunk, um velho jardineiro que praticamente monopolizava a manutenção dos jardins de Oak Park.
— Eu mesmo faço o trabalho, Sr. Goldman. Não quero delinquentes por aqui.
— É um menino direito.
— É um delinquente.
— O senhor precisa de ajuda, está cada vez mais sobrecarregado.
Tio Saul estava falando a verdade: Bunk não dava mais conta do serviço e era mesquinho demais para contratar um assistente.
— Quem vai pagar o salário dele? — perguntou Bunk, soando derrotado.
— Eu — respondeu tio Saul. — Cinco dólares por hora para ele e dois para o senhor, pela função de instrutor.
Após hesitar pela última vez, Bunk aceitou, apontando um dedo ameaçador na direção do tio Saul.
— Vou logo avisando: se esse safado quebrar meu equipamento ou me roubar, o senhor terá que pagar.
Mas Woody não fez nada disso. Ficou encantado com a proposta que tio Saul lhe fez para trabalhar para Bunk.
— Será que vou cuidar do seu jardim também, Sr. Goldman?
— Quem sabe? Mas sua função principal é ajudar o Sr. Bunk. E obedecer a ele.
— Prometo trabalhar direito.
Depois da escola e nos fins de semana, Woody pegava o ônibus municipal e ia para Oak Park. Bunk o esperava em sua caminhonete numa rua próxima ao ponto de ônibus e eles percorriam os jardins.
No fim das contas, Woody se revelou um ajudante dedicado e aplicado. Algumas semanas depois, o outono chegou a Maryland. As árvores centenárias de Oak Park se cobriram de vermelho e amarelo antes de despejar uma chuva de folhas secas nas ruas. Era preciso limpar os gramados, preparar as mudas para o inverno e cobrir as piscinas com uma lona.
* * *
Ao longo dessas mesmas semanas, na escola de Oak Tree, Porco continuava atormentando Hillel. Jogava pinhas e pedras, o agarrava e o obrigava a comer terra, e também sanduíches encontrados no lixo.
— Coma! Coma! Coma! — entoavam alegremente os outros alunos enquanto Porco apertava o nariz de Hillel para que ele abrisse a boca e engolisse.
Quando encontrava forças para uma ironia, Hillel agradecia calorosamente:
— Obrigado por essa ótima refeição, eu não tinha almoçado direito.
E os socos eram desferidos com ainda mais força. Porco esvaziava sua pasta no chão, jogava livros e cadernos no lixo. Durante seu tempo livre, Hillel começara a escrever poemas em um caderno que inevitavelmente acabou parando nas mãos de Porco, que o fez comer algumas páginas enquanto lia seus textos em voz alta, antes de queimar o que sobrara. No auto de fé, Hillel conseguiu salvar um poema, escrito para sua paixão secreta, Helena, uma loura bonitinha que não perdia nenhum dos espetáculos do Porco. Ele interpretou isso como um sinal e, reunindo toda a sua coragem, entregou o poema a Helena. Ela fez várias cópias e as afixou no colégio. Quando a Sra. Chariot, responsável pelo jornal da escola, viu aquilo, parabenizou a pequena Helena pelo seu talento como poeta, lhe deu um ponto extra e publicou o texto no jornal sob a autoria de Helena.
O número de consultas médicas de Hillel aumentava de maneira preocupante — principalmente devido a reiteradas infecções na boca — e tia Anita acabou marcando uma reunião com o diretor Hennings.
— Diretor, acho que meu filho está sendo maltratado na escola — disse ela.
— Não, não, ninguém é maltratado em Oak Tree. Temos inspetores, regras, um regulamento para o bom convívio. Somos uma escola da alegria.
— Hillel volta todo dia com as roupas rasgadas, os cadernos amassados ou faltando.
— Ele tem que prestar atenção no próprio material. A senhora sabe que se ele for desleixado com os cadernos perderá ponto no boletim.
— Diretor Hennings, ele não é nem um pouco desleixado. Acho que virou o saco de pancadas de alguém. Não sei o que acontece nesta escola, mas pagamos vinte mil dólares por ano para que nosso filho volte para casa cheio de bactérias na boca. Deve haver algum problema, não acha?
— Ele lava bem as mãos?
— Sim, diretor, ele lava bem as mãos.
— Porque a senhora sabe que nessa idade os meninos costumam ser uns porquinhos…
Tia Anita, irritada, percebendo que a conversa se prolongaria, disse, por fim:
— Diretor Hennings, meu filho está sempre com o olho roxo. Não sei mais o que fazer. Devo obrigá-lo a se integrar ou colocá-lo numa instituição especializada? Porque, para ser sincera com o senhor, algumas manhãs, quando o deixo na escola, me pergunto o que vai acontecer com ele…
Ela desatou a chorar e, como a última coisa que o diretor Hennings queria era um escândalo em Oak Tree, ele a consolou, prometeu remediar a situação e chamou Hillel para tentar dar um jeito na situação.
— Está tendo problemas aqui na escola? — perguntou ao menino.
— Digamos que depois da aula eles implicam comigo na quadra de basquete atrás da escola.
— Ah! E como você descreveria isso? Diria que se trata de uma briga?
— Eu diria que se trata de uma agressão.
— Agressão? Não, não. Não há agressões em Oak Tree. Talvez uma briguinha. Sabe como é, quando somos crianças é normal nos envolvermos em uma briguinha. Meninos gostam de sair no tapa.
Hillel deu de ombros.
— Não faço ideia, diretor Hennings. Eu só quero jogar basquete tranquilamente.
O diretor coçou a cabeça, observou aquele garoto magricela mas cheio de dignidade, e então sugeriu:
— Você pode entrar para o time de basquete da escola. O que me diz?
Hennings achava que dessa maneira o garoto poderia praticar alguns arremessos, mas sob a proteção de um adulto. A ideia agradou a Hillel, e o diretor o levou imediatamente para falar com o professor de educação física.
— Shawn — chamou o diretor Hennings —, podemos integrar esse jovem campeão no time de basquete?
Shawn olhou para aquele minúsculo esqueleto de olhos suplicantes.
— Impossível — respondeu.
— E por quê?
Shawn se inclinou na direção do ouvido do diretor e murmurou:
— Frank, somos um time de basquete, não um centro para deficientes.
— Ei, não sou deficiente! — retrucou Hillel, que tinha escutado tudo.
— Não, mas é magricela demais — justificou Shawn. — Será como um deficiente para nós.
— E se fizéssemos um teste? — sugeriu o diretor.
O professor se inclinou novamente na direção dele e disse:
— Frank, a equipe está completa. E há uma longa lista de espera. Se abrirmos uma exceção para esse garoto, vamos criar caso com os pais dos alunos. E detesto bate-boca. Ouça bem: se eu colocá-lo em quadra, vamos perder. E é importante ressaltar que já não estamos no topo este ano. Nossos resultados no basquete não costumam ser lá essas coisas, mas agora…
Hennings assentiu e, virando-se para Hillel, inventou diversos artigos do regulamento interno para explicar categoricamente que era impossível mudar a equipe de basquete no meio do ano. Diversas crianças irromperam subitamente no ginásio para um treino, e Hillel e o diretor se sentaram numa das primeiras fileiras da arquibancada.
— Então o que devo fazer, diretor Hennings? — perguntou Hillel, por fim.
— Pode me dar o nome dos agressores. Vou chamá-los para conversar. E podemos promover uma oficina antibullying.
— Não, isso seria pior. E o senhor sabe.
— Então por que você não evita esses brucutus? — resmungou Hennings. — É só não ir à quadra para não ser agredido, simples assim.
— Não vou desistir de jogar basquete.
— Ser teimoso é um defeito nocivo, meu garoto.
— Não sou teimoso. Resisto aos fascistas.
Hennings ficou pálido.
— Onde ouviu essa maldita palavra? Espero que não tenham lhe ensinado em sala de aula. Na escola de Oak Tree não aprendemos esse tipo de vocabulário.
— Não, li num livro.
— Que livro?
Hillel abriu a mochila e pegou um livro de história.
— Mas que coisa horrorosa é essa? — resmungou Hennings.
— Um livro que peguei na biblioteca.
— Na biblioteca da escola?
— Não, na biblioteca municipal.
— Ah, ufa! Muito bem, espero que não leve esse livro pavoroso para a escola e que guarde esse tipo de reflexão para você. Não quero aborrecimentos. Mas pelo visto você sabe uma porção de coisas. Deveria usar essa força para se defender.
— Mas não tenho força! Aí é que está o problema.
— Sua força é sua inteligência. Você é um garotinho bastante inteligente… E nas fábulas o inteligente sempre ganha do fortão…
A sugestão do diretor deu resultado. Naquela mesma tarde, Hillel escreveu um texto e em seguida o entregou à Sra. Chariot, para que fosse publicado na próxima edição do jornal. Contava a história de um garotinho, aluno de uma escola particular para ricos, que, em todos os recreios, era amarrado em uma árvore pelos colegas para passar por todo tipo de provação e, sobretudo, intervenções tão sinistras quanto asquerosas, que provocavam terríveis infecções bucais no jovem herói. Nenhum adulto sabia daquele martírio, muito menos o diretor da escola, que junto do professor de educação física se ocupava em puxar o saco dos pais dos alunos. No fim da história, os alunos acabaram ateando fogo na árvore e no garotinho, dançando em volta da fogueira e cantando um hino de agradecimento ao corpo docente por lhes permitir espancar tranquilamente os mais fracos.
Após ler o texto, a Sra. Chariot avisou imediatamente o diretor Hennings, que proibiu a publicação e chamou Hillel à sua sala.
— Por acaso se dá conta de que seu texto está repleto de palavras que não são admitidas aqui? — disparou Hennings. — Nem estou falando do teor dessa história ridícula e da sua audácia em mostrá-la ao corpo docente!
— O que o senhor está fazendo se chama censura — protestou Hillel —, e os fascistas também faziam isso. Li no meu livro.
— Quer parar com essa história de fascismo? E não é censura, é bom senso! Temos uma constituição moral em Oak Tree e você a transgrediu!
— E minha carta para Helena que foi publicada na edição anterior?
— Já expliquei que a Sra. Chariot achava que o poema era da menina.
— Mas assim que o jornal saiu eu avisei a ela que eu era o autor do poema!
— Fez bem em lhe avisar.
— Mas ela deveria ter suspendido a circulação do jornal!
— E por quê?
— Porque a publicação daquela carta era terrivelmente humilhante para mim!
— Ah, Hillel, deixe de capricho! Era um poema muito bonito, ao contrário desse texto, que não passa de um monte de grosserias abomináveis.
Em seguida, o diretor Hennings encaminhou Hillel ao psicólogo da escola.
— Li seu texto — disse o psicólogo. — Achei interessante.
— O senhor foi o único.
— O diretor Hennings me contou que você lê livros sobre fascismo…
— Peguei um na biblioteca.
— Foi isso que inspirou seu texto?
— Não, o que me inspirou foi a falta de ação dessa escola.
— Talvez você não devesse ler esses livros…
— Talvez as outras pessoas é que devessem ler.
Tio Saul e tia Anita também suplicaram ao filho que fizesse um esforço:
— Hillel, não faz nem três meses que você está nessa escola. Precisa ao menos tentar aprender a conviver em harmonia com os outros.
Por fim, houve uma grande discussão com todos os alunos no anfiteatro sobre o tema “Bullying e palavrões”. Hennings fez um longo discurso sobre os valores morais e éticos de Oak Tree e explicou por que nem o bullying nem os palavrões eram admitidos no regulamento da escola. Depois os alunos repetiram o lema: “Palavrão não é bonito, não!”, que devia ser dito caso flagrassem um colega fazendo alguma grosseria. Um debate se seguiu e os alunos puderam fazer as perguntas que os atormentavam.
— Perguntem tudo o que quiserem — declarou Hennings, antes de dar uma piscadela irônica para Hillel e acrescentar: — Sem censura.
Várias mãos se ergueram no auditório.
— É bullying jogar bola no pátio? — indagou um menino.
— Não, isso é exercício físico — respondeu Hennings. — Com a condição de não chutar a bola na cabeça dos colegas menores.
— Outro dia, vi uma aranha no refeitório e gritei porque fiquei com medo — confessou uma garota com um pouco de vergonha. — Isso foi praticar bullying?
— Não, gritar porque está com medo é permitido. Mas gritar para infernizar os colegas é bullying.
— Mas e se alguém grita para fazer bullying e depois finge que viu uma aranha para não ser punido? — questionou um aluno, preocupado que a regra pudesse ser burlada.
— Seria desonesto fazer isso. E não é certo ser desonesto.
— O que significa desonesto?
— Significa não assumir os próprios atos. Por exemplo, é muito desonesto quando alguém finge estar doente para não ir à escola. Mais alguma pergunta?
Um garotinho ergueu a mão, e Hennings o deixou falar.
— Por acaso sexo é palavrão? — perguntou ele.
A plateia prendeu a respiração, e Hennings ficou momentaneamente constrangido.
— Sexo não é palavrão… Mas é uma palavra, digamos… inútil.
De repente um burburinho tomou conta do auditório. Se sexo não era palavrão, então podiam dizer isso sem burlar o regulamento de Oak Tree?
Ao notar a algazarra generalizada, Hennings deu um tapa no púlpito para pedir silêncio, e imediatamente todo mundo ficou quieto.
— Sexo é uma palavra que não devemos dizer. É proibida. Pronto.
— Por que é proibida se não é palavrão?
— Porque… Porque é do mal. Sexo é do mal. Isso mesmo. É como droga: uma coisa terrível.
* * *
Tia Anita, informada pelo diretor Hennings sobre o texto escrito por Hillel, se sentiu completamente desamparada. Tinha chegado a um ponto em que não sabia mais se Hillel era uma vítima inocente ou se pagava o preço de suas provocações: sabia que às vezes seu tom podia ser irritante ou considerado arrogante. Ele compreendia as coisas mais depressa que as outras crianças, estava sempre adiantado em tudo: em sala de aula, ficava logo entediado, era impaciente. Tudo isso irritava as outras crianças. E se no fundo Hillel não passasse da vítima de um bullying desencadeado por ele mesmo, como dizia Hennings? Ela perguntava com frequência ao marido:
— Quando uma pessoa briga com todo mundo, não deve ser muito amável, certo?
Tia Anita decidiu sensibilizar os colegas de Hillel para a problemática do assédio escolar e lhes explicar que, às vezes, quando queremos nos integrar demais, acabamos nos desentendendo com todo mundo. Ela bateu em cada porta de Oak Park para falar com os pais dos alunos da escola e explicou longamente às crianças que “às vezes achamos que a implicância é só uma brincadeira e não percebemos que magoa muito o colega”. Foi mais ou menos nesses termos que ela se dirigiu ao Sr. e à Sra. Reddan, pais do pequeno Vincent, conhecido como Porco. Os Reddan moravam numa bela casa próxima à dos Goldman-de-Baltimore. Porco ouviu com atenção o que tia Anita falou e, assim que ela terminou, desabou em soluços e lágrimas, fazendo uma cena extraordinária.
— Por que meu amigo Hillel não me disse que se sentia rejeitado na escola? Isso é mesmo horrível! Gostamos muito dele, não entendo por que se sente desprezado.
Tia Anita explicou que Hillel era um pouco diferente, e o menino soluçou, assoou o nariz e, no grand finale, convidou solenemente Hillel para o seu aniversário, que seria no sábado seguinte.
Nessa festa, assim que os pais Reddan viraram as costas, Hillel teve o braço torcido, foi obrigado a beijar e a cheirar as nádegas do cachorro da casa antes de sujarem seu rosto com o glacê do bolo de aniversário e o jogarem de roupa na piscina. Ouvindo o barulho da água e as risadas das crianças, a Sra. Reddan saiu correndo e repreendeu vigorosamente Hillel por ter mergulhado sem autorização prévia. Então notou o mil-folhas devastado e seu filho, aos prantos, explicou que Hillel quisera comer o bolo antes mesmo que ele soprasse as velas e sem dividir com ninguém, o que a fez ligar para tia Anita e pedir que ela viesse buscar o filho imediatamente. Ao chegar ao portão dos Reddan, tia Anita encontrou a mulher segurando com firmeza Hillel pelo braço, e Porco estava ao lado dela, chorando, interpretando o papel da sua vida, e afirmando, em meio aos soluços, que Hillel estragara toda a festa. No caminho de volta, tia Anita lançou um olhar de desaprovação para o filho. Por fim, suspirou e o recriminou:
— Por que você tem sempre que fazer algo para aparecer, Hillel? Não sente vontade de ter alguns bons amigos?
Hillel redigiu um novo texto para se vingar. Dessa vez não considerou o jornal da escola. Decidiu que ele mesmo ia editar e fazer cópias da história que escrevera. No dia da publicação do jornal, substituiu os exemplares oficiais pelos de sua autoria. Ao descobrir a trapaça, a Sra. Chariot correu até a sala do diretor Hennings e levou todos os exemplares do panfleto que conseguira recolher.
— Frank, Frank! Olhe o que Hillel Goldman fez! Editou um jornal pirata com um texto pavoroso!
Hennings pegou uma das cópias que a Sra. Chariot lhe estendia, leu e quase engasgou. Chamou imediatamente tio Saul, tia Anita e Hillel.
O título do texto era Porquinho. Hillel contava a história de um aluno muito gordo apelidado Porco que sente um prazer cruel em aterrorizar os colegas. Estes, exasperados, acabam matando-o no banheiro da escola, o despedaçam e o colocam no frigorífico de carne da cantina, misturando o cadáver com as carnes que foram entregues naquele mesmo dia. A ausência do menino leva a polícia a fazer buscas. No dia seguinte, na hora do almoço, os policiais vão à cantina interrogar os alunos. “Precisamos encontrar meu filhinho de qualquer maneira”, choramingou a mãe de Porco, que tem todas as características da pessoa mais imbecil da face da Terra. Um inspetor questiona um aluno de cada vez. As crianças estão almoçando alegremente um porco assado. “Não viram seu colega?”, pergunta o policial. “Não, senhor”, respondem os alunos em coro, com a boca cheia.
— Sr. e Sra. Goldman — começou calmamente Hennings —, mais uma vez seu filho escreveu um texto intolerável. Trata-se de uma apologia à violência e é totalmente inaceitável ver esse tipo de publicação em Oak Tree.
— Liberdade de escrever, liberdade de opinião! — protestou Hillel.
— Ah, não, chega! — resmungou Hennings. — Pare de nos comparar a um governo fascista!
Em seguida, o diretor fez uma expressão de desapontamento e explicou a tio Saul e tia Anita que não poderia permitir que Hillel permanecesse na escola se ele não se esforçasse para se integrar. A pedido de seus pais, Hillel prometeu não imprimir mais panfletos. Também combinaram que ele deveria redigir uma carta de desculpas que seria divulgada na escola.
Ao substituir os jornais da escola pelo próprio texto, Hillel privou os alunos de seus exemplares habituais. Para poupar Hillel, o diretor Hennings pedira para os professores não mencionarem as razões disso. Todos os exemplares deveriam ser reimpressos até o fim do dia. Mas a Sra. Chariot, que era sensível e estava cansada das reclamações dos alunos, que não compreendiam por que o jornal não ficara pronto no dia, acabou perdendo a cabeça e berrou para os contestadores, que invadiram a sala da redação, em geral muito tranquila:
— Por causa de um aluno que se acha superior a todo mundo, não haverá jornal esta semana! Pronto! Esta edição foi simplesmente cancelada! Cancelada, ouviram? Cancelada! Os alunos que tiveram o trabalho de escrever artigos nunca vão vê-los publicados. Nunca! Nunca! Podem agradecer ao Goldman.
Os estudantes, obedientes, agradeceram a Hillel dando pontapés e batendo nele com os cadernos. Porco, após espancá-lo terrivelmente, deixou-o nu no meio da roda dos amigos ao ordenar:
— Abaixe a cueca. — Hillel, limpando o sangue do nariz, tremendo de medo, obedeceu e todos riram. — Você tem o menor pinto que eu já vi — entusiasmava-se Porco. E todos gargalharam ainda mais. Em seguida, ele exigiu a calça e a cueca de Hillel, que jogou tudo nos galhos altos de uma árvore. — Volte para casa agora. Todo mundo precisa ver seu pintinho!
Foi um vizinho que, ao passar de carro e ver Hillel seminu na rua, o levara para casa. À mãe, ele explicou que um cachorro o perseguira e arrancara sua calça.
— Um cachorro? Hillel…
— É, mamãe, juro. Ele abocanhou minha calça, que acabou rasgando.
— E a cueca também?
— Sim, mamãe.
— Hillel, querido, o que está acontecendo?
— Nada, mamãe.
— Estão implicando com você na escola?
— Não, mamãe. Juro.
Hillel, totalmente humilhado, decidiu que precisava se vingar da vingança da vingança. A oportunidade surgiu alguns dias depois, quando Porco faltou por dois dias seguidos por causa de uma séria indigestão. Os alunos preparavam uma apresentação para os pais no Dia de Ação de Graças. Era um espetáculo com diversos atos, contando as ações de graças dos colonos ingleses com os índios Wampanoag e agradecendo sua ajuda, o que continuava sendo celebrado quatrocentos anos depois com a concessão de três feriados aos corajosos alunos americanos. Essa alusão ao atual caráter da festa devia encerrar o espetáculo com um poema declamado por algum aluno. E como nenhum dos presentes se voluntariou para recitar a poesia, Porco acabou sendo designado para essa tarefa pelo professor. A poesia era a seguinte:
Os bons ingredientes de mamãe, por William Sharburgh
É Dia de Ação de Graças,
A festa das famílias.
Um cheiro bom se espalha pela casa.
Mamãe assa um belo peru.
Atraídos pelos eflúvios,
Papai, a criança e o cão vão à cozinha.
Mamãe está atarefada no forno,
Todos sentem o cheiro e a parabenizam.
Papai se alegra,
A criança aplaude.
O cão lambe os lábios.
Rápido, a comida!
A criança, gulosa, pergunta se pode provar.
Mamãe enfia uma colher na panela do molho e a criança prova. “Que delícia!”, exclama. “O que tem aí dentro?”
“Ingredientes…”, responde mamãe.
“Que ingredientes?”
“Meus ingredientes. Gostou?”
“Que delícia! Quero mais! Quero comer tudo!”
“Não, seu gulosinho, terá que esperar a hora.”
A criança faz pirraça e enfia o rosto no avental da mãe. É meigo. Ela sorri.
Ele sabe que um dia sua mãe lhe contará
O segredo de seus ingredientes,
Para que ele também possa colocá-los no peru
Que assará para seus filhos.
Para selar a reconciliação, o professor encarregou Hillel de levar o poema para Porco e anunciar seu papel na apresentação de Ação de Graças. Hillel foi à casa de Porco no mesmo dia. A mãe do menino abriu a porta e o levou ao quarto do filho. Ele o encontrou na cama, lendo revistas em quadrinhos. Após lhe explicar as normas, entregou-lhe o texto.
— Mostre para mim! — pediu a mãe de Porco, exultante ao saber que o filho ia aparecer sozinho no palco.
— Não! — exclamou Porco. — Ninguém pode ver! Essa vai ser a grande surpresa do espetáculo!
Ele se ergueu na cama e, após expulsar a mãe e Hillel, fez ruidosos exercícios vocais. Sempre quisera protagonizar um espetáculo e ia impressionar todo mundo. Sua mãe comprou para ele um terno de três peças para a ocasião e convocou toda a família para assistir a Porco arrasar na declamação. Seu garotinho era especial, e finalmente todo mundo ia poder ver isso com os próprios olhos.
No dia do espetáculo, o auditório da escola estava lotado. Os Reddan estavam na primeira fila filmando, fotografando e batendo palmas freneticamente. Os atos sobre os Wampanoag conquistaram grande sucesso, assim como aqueles sobre a abordagem moderna do Dia de Ação de Graças. Em seguida, iluminado pelo feixe de luz, Porco apareceu no palco, respirou fundo e declamou a poesia:
Os bons excrementos de mamãe, por William Sharburgh
É Dia de Ação de Graças,
A festa das famílias.
Um cheiro bom se espalha pela casa.
Mamãe assa um belo peru.
Atraídos pelos eflúvios,
Papai, a criança e o cão vão à cozinha.
Mamãe solta um peido diante do forno,
Todos sentem o cheiro e a parabenizam.
Papai se alegra,
A criança aplaude.
O cão lambe os testículos.
Rápido, a comida!
A criança, gulosa, pergunta se pode provar.
Mamãe enfia a colher na panela do molho e o filho prova. “Que delícia!”, exclama. “O que tem aí dentro?”
“Excrementos…”, responde mamãe.
“Que excrementos?”
“Meus excrementos. Gostou?”
“Que delícia! Quero mais! Quero comer tudo!”
“Não, seu gulosinho, terá que esperar a hora.”
A criança faz pirraça e enfia o rosto no púbis da mãe. É meigo. Ela sorri.
Sabe que um dia sua mãe lhe contará
O segredo de seus excrementos.
Para que ele também possa colocá-los no peru
Que assará para seus filhos.
Ao terminar o poema, Porco se curvou para agradecer ao público e receber a salva de palmas que tanto esperara. Mas um silêncio absoluto tomou conta do local. A plateia, pasma e emudecida, fitava Porco, que não entendia o que fizera de errado. Então fugiu para as coxias, onde encontrou o professor e o diretor Hennings o encarando.
— Mas o que aconteceu, afinal de contas? — indagou Porco.
— Vincent, por acaso você sabe o que são excrementos? — perguntou Hennings.
— Não faço ideia, diretor Hennings. Só decorei a poesia que me entregaram.
Hennings ficou perplexo e se virou para a professora:
— Pode me explicar o que aconteceu?
— Não entendo, diretor, eu encarreguei Hillel Goldman de entregar o texto a Vincent. Mas com certeza ele mudou as palavras.
— E você não achou que era uma boa ideia ensaiar o espetáculo nesse meio-tempo? — berrou Hennings, e deu para escutar sua pergunta fora da coxia.
— Sim, claro! Mas Vincent se recusou a recitar na frente das outras crianças. Disse que queria fazer uma surpresa.
— Pois foi uma tremenda surpresa!
— O que são excrementos? — perguntou Porco.
A professora começou a chorar.
— Foi o senhor que falou para deixar os alunos fazerem como quisessem! — resmungou ela.
— Pare de chorar, por favor — disse Hennings, lhe entregando um lenço. — Isso não vai ajudar em nada. Vamos chamar esse encrenqueiro do Hillel!
Mas enquanto o espetáculo prosseguia com a turma seguinte, Porco já saíra atrás de Hillel. Viram-no passar pela saída de emergência do auditório, atravessar o pátio do recreio, a quadra de basquete e seguir em direção a Oak Park. Logo à frente estava o vulto franzino de Hillel correndo, e atrás vinha Porco, em seu magnífico terno, que disparava feito um animal enlouquecido e, um pouco mais atrás, um grupo de alunos seguia Porco para assistir à cena.
— Vou matar você! — berrava Porco. — Vou matar você de vez!
Hillel corria o mais rápido que conseguia, mas escutava os passos de Porco se aproximando. Estava quase sendo alcançado. Seguiu o caminho de casa. Com um pouco de sorte, conseguiria chegar e se refugiar lá. Mas logo antes de alcançar a casa dos Baltimore, prendeu o pé numa bicicleta infantil largada no início de uma rua e se estatelou no chão.