O Livro dos Baltimore

Joël Dicker · Capítulo 11 de 56

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O Livro dos Baltimore

Capítulo 8

 

Baltimore.

1992-1993.

Obedecendo a um calendário imutável, de quatro em quatro anos o Dia de Ação de Graças é precedido pela eleição presidencial. Em 1992, a Gangue dos Goldman participou ativamente da campanha de Bill Clinton.

Tio Saul era um democrata convicto, o que gerara várias discussões por ocasião das nossas férias de inverno na Flórida, durante o Ano-Novo em 1992. Minha mãe dizia que vovô sempre votara nos republicanos, mas depois que o Grande Saul passou a votar nos liberais, vovô fez a mesma coisa. Seja como for, tio Saul nos deu nossa primeira lição de cidadania, nos fazendo aderir à causa de Bill Clinton. Tínhamos doze anos e a aventura da Gangue dos Goldman estava no auge. Eu só vivia para eles, para nossos momentos de confraternização. E só a ideia de fazer campanha com eles — pouco importava para quem — me enchia de alegria.

Woody e Hillel não haviam parado de trabalhar para Bunk. Não só era um prazer para eles como completava a mesada. Trabalhavam bem e com eficiência, e alguns moradores de Oak Park, irritados com a lentidão de Bunk, entravam em contato diretamente com eles para o trabalho de jardinagem. Nesses casos, eles separavam vinte por cento do que ganhavam e passavam para Bunk, sem que ele se desse conta, enfiando o dinheiro no bolso do seu uniforme ou no porta-luvas de sua caminhonete. Quando eu ia a Baltimore, adorava ajudá-los, ainda mais quando trabalhavam para os próprios clientes. Tinham conquistado uma pequena clientela fiel e usavam uma camiseta que haviam mandado confeccionar num armarinho, tendo costurado na altura do coração os dizeres Jardineiros Goldman desde 1980. Haviam mandado fazer uma para mim também, e nunca me senti tão orgulhoso ao passear em Oak Park com meus dois primos enquanto nós três exibíamos nossos uniformes magníficos.

Eu admirava muito o espírito empreendedor deles e sentia muito orgulho de ganhar um pouco de dinheiro com meu suor. Era uma ambição que eu tinha desde que descobrira os talentos de self-made man de Steven Adam, um dos meus colegas de escola em Montclair. Steven era um menino muito legal comigo: costumava me convidar para passar a tarde em sua casa e depois para jantar. Porém, à mesa ele perdia o controle. Diante da menor contrariedade, começava a xingar a mãe de um jeito terrível. Bastava a comida não estar a seu gosto para que de repente ele desse um tapa na mesa e fizesse seu prato voar, berrando:

— Não quero a porra desse molho de merda. É nojento para cacete!

E seu pai se levantava imediatamente. A primeira vez que testemunhei isso, achei que era para dar um tapa magistral no filho, mas, para minha grande surpresa, o pai foi pegar o cofrinho de plástico em cima da cômoda. Era sempre o mesmo teatro. O pai saía correndo atrás de Steven, gritando:

— Cofrinho do palavrão! Três palavrões, setenta e cinco centavos!

— Enfie no cu esse seu cofrinho de merda! — retrucava Steven, correndo pela sala e mostrando o dedo do meio.

— Cofrinho do palavrão! Cofrinho do palavrão! — ordenava o pai com a voz trêmula.

Steven dizia ao pai:

— Cale a boca, seu maldito! Filho da puta!

E o pai continuava correndo atrás com o cofrinho, que parecia pesado demais para seus braços magros.

— Cofrinho do palavrão! Cofrinho do palavrão!

Como nas fábulas, o fim era sempre igual. O pai, cansado, interrompia sua dança grotesca. Para disfarçar, dizia num tom sofístico:

— Bom, vou adiantar o dinheiro para você, mas descontarei da sua mesada!

Tirava do bolso uma nota de cinco dólares que enfiava nos glúteos do porquinho antes de voltar a se sentar à mesa, humilhado. Sem ser incomodado, Steven retornava ao seu lugar, engolia a sobremesa, arrotando, depois fugia de novo, pegando o cofrinho no caminho e se trancando no quarto para esconder o que roubara. Enquanto isso sua mãe me levava para casa, e eu lhe dizia:

— Muito obrigado, Sra. Adam, pelo jantar delicioso.

Steven tinha talento para os negócios. Não satisfeito em embolsar o dinheiro em decorrência dos próprios palavrões, ganhava uma bela quantia escondendo as chaves do carro do pai, que só devolvia se recebesse resgate. De manhã, quando se dava conta, o pai aparecia na porta do seu quarto para suplicar:

— Steven, por favor, devolva as chaves… Vou chegar atrasado ao trabalho. Sabe o que vai acontecer comigo se eu chegar atrasado de novo? Serei demitido. Foi meu chefe que falou.

A mãe vinha reforçar o pedido e batia na porta, furiosa.

— Abra, Steven! Em nome de Deus, abra imediatamente, está ouvindo? Quer que seu pai perca o emprego e a gente more na rua?

— Não estou nem aí! Vai custar vinte pratas se quiserem suas malditas chaves!

— Tudo bem — dizia o pai, choramingando. — Aceito.

— Passe o dinheiro por debaixo da porta! — ordenava Steven.

O pai obedecia, depois a porta se abria bruscamente e ele recebia as chaves no meio da cara.

— Obrigado, otário! — berrava Steven, antes de bater a porta.

Toda semana, na escola, Steven exibia montes de dinheiro cada vez maiores, com os quais pagava generosamente várias rodadas de sorvete. Como nos assuntos de moda, o pioneiro costuma ser imitado, mas é raro alguém conseguir igualar seus feitos. Fiquei sabendo que meu colega Lewis se aventurou a ganhar dinheiro xingando o pai, mas recebeu duas bofetadas que deixou suas orelhas vermelhas e nunca mais tentou. Portanto, eu estava orgulhoso de voltar a Montclair cheio de dólares que eu recebia pelo meu trabalho como jardineiro, o que também me permitia pagar rodadas de sorvete e impressionar meus colegas.

Bunk continuava reticente em me pagar um salário. Quando me via chegar, começava a resmungar que não me pagaria, que Hillel e Woody já lhe custavam caro demais, mas meus primos sempre dividiam comigo o que ganhavam no dia. Por mais que ele só reclamasse, gostávamos de Bunk. Ele nos chamava de “seus merdinhas” e nós o apelidamos de Skunk, gambá em inglês, por causa do seu cheiro. Era um homem de rara vulgaridade e, para nossa diversão, sempre que zombávamos do seu nome, ele disparava um monte de palavrões:

— Meu nome é Bunk! Bunk! Não é complicado, é? Seus merdinhas! Bunk com B! Igual a Bosta! Ou Bunda-mole!

* * *

Em fevereiro de 1992, apesar do fracasso nas primárias de New Hampshire, Bill Clinton continuava sendo um forte candidato à nomeação democrata. Arranjamos adesivos de apoio que colamos nas caixas de correio e nos para-choques dos clientes de Bunk, assim como na caminhonete dele. Naquela primavera, os Estados Unidos presenciaram motins violentos após a absolvição de quatro policiais acusados de espancarem cruelmente um cidadão negro durante uma perseguição. As imagens do espancamento filmadas por um transeunte tinham abalado o país. Dessa forma teve início o que ficou conhecido no mundo inteiro como o caso Rodney King.

— Não entendi nada — disse Woody, com a boca cheia. — O que quer dizer recusar?

— Woody, querido, engula antes de falar — repreendeu tia Anita.

Hillel tentou explicar:

— O promotor disse que o júri não é imparcial e que é preciso substituí-lo. Na totalidade ou parcialmente. É o que significa recusar, nesse caso.

— Mas por quê? — perguntou Woody, que se apressou a engolir para não perder nada da conversa.

— Porque eles são negros. E Rodney King também é negro. O promotor disse que, com um júri formado por negros, o veredito não será imparcial. Então pediu que os jurados fossem recusados.

— Sim, mas se fizermos o mesmo raciocínio, um júri formado por brancos ficará do lado dos policias!

— Exatamente! Este é o problema. O júri branco inocentou policiais brancos de terem espancado um cara negro. Esse foi o motivo de toda a revolta.

A conversa animada à mesa dos Goldman-de-Baltimore girava em torno de um único assunto: o caso King. Hillel e Woody acompanhavam avidamente os acontecimentos. O caso despertou em Woody um interesse por política e, alguns meses depois, no outono de 1992, de forma espontânea Hillel e ele passaram os fins de semana fazendo campanha para Bill Clinton, juntando-se ao estande do comitê democrata local no estacionamento do supermercado de Oak Park. Eram de longe os dois militantes mais jovens do grupo e, certo dia, quando uma equipe da televisão local notou a presença deles, chegaram inclusive a entrevistá-los para uma reportagem:

— Por que você vota nos democratas? — perguntou o jornalista a Woody.

— Porque meu amigo Hillel disse que é o certo.

O jornalista, um pouco constrangido, virou-se então para Hillel e o interrogou:

— E você, meu garoto, acha que Clinton vai vencer?

E escutou, paralisado, a resposta daquele menino de doze anos:

— É preciso ver as coisas de forma clara. É uma eleição difícil. George Bush conquistou várias vitórias durante seu mandato e, alguns meses atrás, eu apostaria nele como vencedor. Mas o país está em recessão, a taxa de desemprego aumentou muito e as recentes revoltas após o caso Rodney King só pioraram as coisas para ele.

* * *

O período eleitoral coincidiu com a chegada de um novo aluno na sala de Woody e Hillel: Scott Neville, um menino que sofria de fibrose cística e tinha um biotipo ainda mais franzino que o de Hillel.

O diretor Hennings foi explicar aos meninos o que era fibrose cística. Eles só memorizaram que Scott tinha grande dificuldade respiratória, e por isso foi apelidado de “Meio Pulmão”.

Scott, que penava para correr e, portanto, para fugir, se tornou a nova vítima de Porco. Mas isso durou apenas alguns dias, pois, assim que Woody se deu conta disso, ameaçou socar o nariz de Porco, o que o convenceu a parar imediatamente.

Woody protegeu Scott como fizera com Hillel, e os três meninos logo descobriram que tinham grandes afinidades.

Não demorei a ouvir falar em Scott, e devo confessar que fiquei com um pouco de ciúme ao descobrir que meus primos formavam um trio com outro menino que não era eu: Scott ia passear no aquário, ia com eles à praça e, no dia das eleições, enquanto eu estava entediado em Montclair, Hillel e Woody, acompanhados de tio Saul, Scott e seu pai, Patrick, foram acompanhar os resultados no quartel-general dos democratas em Baltimore. Pularam de alegria no momento do anúncio dos resultados, depois foram comemorar a vitória nas ruas. À meia-noite, passaram no Dairy Shack de Oak Park, onde cada um pediu um enorme milk-shake de banana. Naquela noite de 3 de novembro de 1992, meus primos de Baltimore ajudaram a eleger o novo presidente dos Estados Unidos. Enquanto eu arrumava meu quarto.

Já passava das duas da manhã quando foram para a cama naquela noite. Hillel dormiu como uma pedra, mas Woody não conseguiu pregar o olho. Escutou à sua volta: tudo parecia indicar que tio Saul e tia Anita estavam dormindo. Abriu a porta do quarto sem fazer barulho e se esgueirou discretamente no escritório de tio Saul. Pegou o telefone e discou o número que sabia de cabeça. Eram três horas a menos em Utah. Para sua grande alegria, alguém atendeu.

— Alô?

— Oi, pai, é Woody!

— Ah, Woody… Woody quem?

— Bom… Woody Finn.

— Ah, Woody…! Caramba, desculpe, meu filho! Sabe, com o chiado do telefone, não reconheci sua voz. Como vai, filho?

— Tudo bem. Muito bem! Faz tempo que a gente não se fala, pai! Por que nunca me ligou de volta? Não ouviu meus recados na caixa postal?

— Quando você liga, meu filho, já está no meio da tarde aqui e não tem ninguém em casa. A gente trabalha, sabe. Tentei retornar a ligação várias vezes, mas sempre dizem na instituição que você não está.

— É porque agora moro na casa dos Goldman. Você sabe…

— Claro, os Goldman… Ah, então me conte, campeão, como vão as coisas?

— Ah, pai, participamos da campanha do Clinton, foi superlegal. E à noite comemoramos a vitória com Hillel e o pai dele. Hillel disse que foi um pouco por nossa causa. Você nem imagina quantos fins de semana passamos no estacionamento do shopping distribuindo adesivos para as pessoas.

— Ei — disse o pai com a voz pouco entusiasmada. — Não perca seu tempo com essas bobagens, meu filho. Todos os políticos são corruptos!

— Mas mesmo assim sente orgulho de mim, pai?

— Claro! Claro, meu filho! Muito orgulho.

— Mas você disse que política era coisa de corrupto…

— Não, se você gosta disso, tudo bem.

— Do que você gosta, pai? Não poderíamos gostar de alguma coisa juntos?

— Gosto de futebol americano, filho! Gosto do Dallas Cowboys! Aquilo, sim, é um time! Você vê um pouco de futebol, meu filho?

— Não muito. Mas vou passar a fazer isso! Ei, por que não vem me visitar aqui, pai? Eu poderia lhe apresentar os Goldman. Eles são muito legais.

— Pode deixar, filho. Logo mais vou dar um pulo aí. Prometo.

Após desligar, Woody permaneceu bastante tempo imóvel na poltrona do tio Saul, com o aparelho na mão.

De um dia para outro, Woody não demonstrou mais qualquer interesse por basquete. Não queria mais jogar, e nem Jordan nem os Bulls o atraíam. Só falava sobre o Dallas Cowboys. Continuava treinando com o time de basquete da escola, mas deixara de se empenhar. Jogava displicentemente a bola para o alto, que ia parar na cesta de qualquer jeito. Até que um sábado de manhã declarou a Hillel que não queria jogar basquete e provavelmente nunca mais o faria. Isso deixou Hillel furioso. Foi a primeira briga de verdade dos dois.

— Que obsessão é essa de repente? — perguntou Hillel, irritado, sem entender nada.

— A gente gosta de basquete, não é?

— Por que isso incomoda você? Gosto de futebol e ponto final.

— E por que o Dallas? Por que não o Washington Redskins?

— Porque eu faço o que quiser.

— Você é estranho! Faz uma semana que está agindo de um jeito esquisito!

— E faz uma semana que você está bancando o idiota!

— Ei, não precisa ficar nervoso! Acho futebol americano uma porcaria, só isso. Prefiro basquete.

— Se não gosta de futebol, então vá jogar sozinho, seu pereba!

Woody saiu correndo e, apesar dos gritos de Hillel, não olhou para trás e desapareceu. Hillel esperou por um instante, torcendo para o amigo voltar. Como isso não aconteceu, foi atrás dele. Procurou na quadra, no Dairy Shack, na praça, nas ruas por onde eles costumavam passar. Então se apressou para avisar seus pais.

— Como assim, vocês brigaram? — perguntou tia Anita.

— Ele ficou obcecado por futebol americano, mãe. Perguntei o motivo e ele ficou bravo.

— Isso acontece, querido. Não se preocupe. Às vezes amigos brigam. Ele não deve ter ido muito longe.

— É, mas dessa vez ele ficou muito zangado…

Como Woody não voltava para casa, eles percorreram o bairro de carro. Em vão. Tio Saul voltou de seu escritório e também esquadrinhou Oak Park, mas Woody continuava desaparecido. Tia Anita avisou Artie Crawford sobre a situação. Na hora do jantar, ainda sem notícias de Woody, Artie acionou seu contato na polícia de Baltimore para lançar um aviso de busca.

Tio Saul passou parte da noite fora de casa, procurando Woody. Quando retornou, por volta da meia-noite, continuavam sem notícias. Tia Anita colocou Hillel na cama. Aninhando-o debaixo das cobertas, tentou acalmá-lo:

— Tenho certeza de que ele está bem. Amanhã tudo estará esquecido.

Tio Saul ainda ficou acordado por mais uma parte da noite. Dormiu no sofá e despertou com o toque do telefone por volta das três da manhã.

— Sr. Goldman? É da polícia de Baltimore. É a respeito do seu filho Woodrow.

* * *

Meia hora depois do telefonema da polícia, tio Saul estava no hospital, para onde Woody fora levado.

— O senhor é pai dele? — perguntou a recepcionista.

— Não exatamente.

Um policial foi encontrá-lo na recepção.

— O que aconteceu? — indagou tio Saul, seguindo o policial pelos corredores.

— Nada grave. Nós o encontramos numa rua da zona sul. Está um pouco machucado, mas esse garoto é muito forte. Podem levá-lo para casa. O senhor, afinal, é o quê? O pai?

— Não exatamente.

Woody atravessara Baltimore de ônibus sem um tostão. Seu plano inicial fora pegar um ônibus até Utah. Quis ir para a estação rodoviária, mas pegou a linha errada duas vezes, antes de continuar a pé e se perder num bairro perigoso, onde acabara sendo agredido por um grupo que queria dinheiro e ele não tinha. Esmurrara um dos caras do bando, mas os outros acabaram com ele.

Então Saul entrou no quarto, onde encontrou Woody chorando, com o rosto inchado. Abraçou o menino.

— Desculpe, Saul — murmurou Woody, soluçando. — Desculpe ter incomodado você. Eu… eu não sabia o que dizer. Falei que você era meu pai. Só queria que alguém viesse logo me tirar daqui.

— Fez bem.

— Saul… acho que não tenho pais.

— Não fale uma coisa dessas.

— Além disso, discuti com Hillel. Ele deve me odiar.

— De forma alguma. Às vezes amigos falam coisas que não devem. Isso é normal. Venha, vou levá-lo para casa. Vou levá-lo para a nossa casa.

Foi preciso que Artie Crawford interviesse para que os policiais finalmente deixassem Woody ir embora com tio Saul.

Naquela noite de outono, a casa dos Baltimore era a única da rua que ainda estava com as luzes acesas. Eles abriram a porta com um empurrão e tia Anita e Hillel, que aguardavam, inquietos, na sala, correram na direção dos dois.

— Meu Deus, Woody! — exclamou tia Anita ao ver o rosto do menino.

Levou Woody ao banheiro, passou pomada em seus machucados e verificou o curativo sobre seu supercílio, onde ele levara pontos.

— Dói? — perguntou, baixinho.

— Não.

— Afinal, Woody, o que deu em você? Poderia ter sido morto!

— Desculpe. Vou entender se todos estiverem me odiando.

Ela o abraçou com força.

— Ah, querido, que ideia… Como pode pensar uma coisa dessas?! Como quer que alguém odeie você? Nós te amamos como um filho. Nunca duvide disso.

Ela o abraçou de novo, tocou em seu rosto marcado e o acompanhou até o quarto. Woody se deitou, ela se acomodou ao seu lado e fez cafuné até ele dormir.

* * *

A vida retomou seu curso na casa dos Goldman-de-Baltimore. A diferença foi que de manhã Hillel passou a levar uma bola de futebol americano para a escola. Depois das aulas, Woody e ele não iam mais para a quadra de basquete de Roosevelt High, e sim para o campo de treino do time de futebol. Atravessavam o gramado e planejavam estratégias decisivas de jogo. Scott, um grande fã de futebol americano, acompanhava-os e atuava como árbitro e comentarista, até perder o fôlego.

— Touchdown nos últimos segundos da final do campeonato! — gritava, formando um megafone com as mãos.

Enquanto isso, com os braços erguidos, Woody e Hillel saudavam as arquibancadas vazias, onde a multidão em delírio gritava seus nomes antes de invadir o campo para carregar em triunfo a dupla invencível. Em seguida, comemoravam a vitória nos vestiários, onde Scott interpretava o papel do recrutador da NFL, a prestigiosa Liga Norte-Americana de Futebol, e os fazia assinar folhas de exercícios de matemática como se fossem contratos mirabolantes. Em geral, o zelador, alertado pelo barulho, surgia nos vestiários desertos e eles saíam sem dizer mais nada, Woody na frente, Hillel logo atrás e Scott, por fim, arfando e cuspindo.

* * *

Na primavera seguinte, Woody foi a Salt Lake City durante as férias para encontrar o pai. Hillel lhe deu a bola de futebol americano para que ele pudesse jogar com o pai e suas irmãs gêmeas, que ainda não conhecia.

A semana em Utah foi catastrófica. Na casa dos Finn-de-Salt-Lake-City, Woody não tinha lugar. Sua madrasta não era má, porém ficava superatarefada com as gêmeas. No dia em que ele chegou, ela lhe disse:

— Você me parece um garoto esperto. Aja como se estivesse em casa. Pegue o que quiser na geladeira. Cada um come um pouco quando sente vontade. As meninas odeiam comer à mesa, ficam agitadas demais.

No domingo, seu pai o convidou para assistir aos jogos de futebol americano na televisão. Passaram a tarde fazendo isso. Mas era proibido falar durante as partidas e, no intervalo, o pai corria para a cozinha e fazia nachos ou pipoca. No fim do dia, seu pai estava muito irritado: todos os times nos quais ele apostara haviam perdido. Como ainda tinha que preparar trabalho para o dia seguinte, foi até o escritório no momento em que Woody pensava que ele ia levá-lo para jantar em algum lugar.

No dia seguinte, ao voltar de um passeio pelo bairro, Woody, ao empurrar a porta da entrada, deparou com o pai se preparando para fazer jogging e olhando para ele com decepção e espanto. Repreendeu-o:

— Quer dizer então, Woody, que você não toca mais a campainha quando entra na casa das pessoas?

Woody tinha a impressão de ser um estranho na casa do pai. Sentia uma grande mágoa. Sua verdadeira família estava em Baltimore. Seu irmão era Hillel. Sentiu saudade de ouvir sua voz e ligou para ele.

— Não me entendo com eles, não gosto dessas pessoas. Tudo é horrível aqui! — reclamou.

— E suas irmãs? — perguntou Hillel.

— Detesto elas.

Foi possível ouvir uma voz feminina ao fundo:

— Woody, você ainda está ao telefone? Espero que não seja uma chamada de longa distância. Sabe quanto custa?

— Hill, preciso desligar. Levo bronca o tempo todo aqui, não tem jeito.

— Está bem, cara. Aguente firme…

— Vou tentar… Hill?

— O quê?

— Quero voltar para casa.

— Eu sei, cara. Até breve.

Na véspera de sua volta para Baltimore, Woody fez o pai prometer que os dois jantariam juntos. Durante todo aquele tempo, não tivera um instante sequer a sós com ele. Às cinco da tarde, Woody parou diante da casa. Às oito da noite, sua madrasta levou refrigerante e batatas fritas para ele. Às onze, seu pai chegou.

— Woody? — chamou ele, notando o filho na penumbra. — O que está fazendo do lado de fora a uma hora dessas?

— Estou esperando você. Íamos jantar juntos, lembra?

O pai se aproximou dele e as lâmpadas com censor se acenderam. Woody viu seu rosto avermelhado por causa do álcool.

— Desculpe, rapazinho, perdi a hora.

Woody deu de ombros e lhe entregou um envelope.

— Pegue — disse ele. — É para você. Sabe, no fundo eu sabia que ia terminar assim.

O pai abriu o envelope e puxou um papel no qual estava escrito FINN.

— O que é isso? — perguntou.

— É o seu nome. Estou devolvendo. Não quero mais. Agora sei quem eu sou.

— E quem você é?

— Um Goldman.

Woody se levantou e entrou em casa, sem dizer mais uma palavra.

— Espere! — gritou o pai.

— Tchau, Ted! — respondeu Woody, sem sequer olhar para ele.

* * *

Woody voltou um pouco triste da casa dos Finn-de-Salt-Lake-City. No campo de Roosevelt High, explicou a Hillel e Scott:

— Eu queria jogar futebol americano para ser igual ao meu pai, mas ele não passa de um idiota que deu o fora e me abandonou. Quer dizer, não tenho certeza se gosto mesmo de futebol americano.

— Precisa fazer uma coisa diferente, Woody, que você curta.

— É, mas não sei o que eu curto.

— Qual é sua paixão na vida?

— Ah, não faço ideia.

— O que você quer fazer mais tarde?

— Bem… quero fazer o mesmo que você.

Hillel o agarrou pelos ombros e o sacudiu violentamente.

— Qual é o seu sonho na vida, Woody? Quando você fecha os olhos e sonha, como se imagina?

Woody abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Quero ser um astro do futebol americano.

— É isso aí!

No campo de Roosevelt, por mais que o zelador aparecesse de vez em quando, eles retomaram com ainda mais afinco a vida de jogadores de futebol. Aventuravam-se ali todos os dias depois da escola e nos fins de semana. Nos dias de jogo, ocupavam seus lugares na arquibancada e acompanhavam calorosamente a partida. Quando terminava, repetiam as jogadas até o zelador surgir de novo para expulsá-los. Scott tinha grande dificuldade para correr, mesmo uma pequena distância. Depois que certa vez ele quase passara mal ao escapar do zelador, Woody não largava mais um grande carrinho de mão que pegara emprestado de Skunk, que Scott usava em caso de fuga.

— Vocês de novo? — gritava o zelador, erguendo o punho com raiva. — Não podem ficar aqui! Como se chamam? Vou ligar para os pais de vocês!

— Pule dentro do carrinho! — berrava Woody para Scott, que corria na sua direção com a ajuda de Hillel, enquanto Woody levantava as alças.

— Parem! — intimava o velho, que também saía correndo na medida do possível.

Woody, com seus braços musculosos, empurrava o carrinho a toda velocidade, enquanto Hillel ia na frente para guiá-lo, e eles atravessavam Oak Park em disparada. Ninguém mais se surpreendia ao ver um estranho comboio com três meninos, sendo que um deles, franzino e pálido, porém transbordando alegria, acomodava-se dentro de um carrinho de mão.

* * *

No começo do ano escolar, tia Anita inscreveu Woody na equipe de futebol americano do bairro de Oak Park. Duas vezes por semana, ia buscá-lo no colégio e o levava para treinar. Hillel sempre o acompanhava e assistia às suas façanhas da arquibancada. Era 1993. Onze anos antes do Drama, cuja contagem regressiva já começara.