O Livro dos Baltimore
Capítulo 47
Janeiro de 2005.
Nas semanas seguintes ao meu rompimento com Alexandra, passei a maior parte do tempo em Baltimore. Não era tanto para visitar tio Saul, e sim para me esconder dela. Eu tinha passado uma borracha em nós dois, trocara o número do celular. Eu não queria que ela viesse a Montclair.
Na minha cabeça a cena da partida de Oak Park se repetia incessantemente, quando o carro de Hillel e Woody bifurcou na direção da autoestrada. Eles entravam na clandestinidade. Se eu soubesse do plano de fuga deles, teria dissuadido os dois. Teria feito Woody raciocinar. O que eram cinco anos? Muita coisa e nada ao mesmo tempo. Ele não teria sequer trinta anos quando saísse. Teria a vida pela frente. Além disso, com bom comportamento, poderia inclusive se beneficiar de uma redução de pena. Poderia usar esses anos para terminar seus estudos por correspondência. Eu o teria convencido de que tínhamos a vida pela frente.
* * *
Depois da morte deles, tudo pareceu desmoronar. A começar pela vida de tio Saul. A má fase dele só estava no início.
A história de sua expulsão do escritório de advocacia começava a se espalhar. Rumores diziam que a verdadeira razão de sua saída era um considerável desvio de verbas. O conselho de disciplina da ordem dos advogados de Maryland abrira uma sindicância, estimando que o comportamento de tio Saul, se comprovado, infringia a ética da profissão.
Em sua defesa, tio Saul foi assessorado por Edwin Silverstein. Eu o encontrava com frequência no Marriott. Certa noite, ele me levou para jantar num restaurante vietnamita do bairro.
— O que posso fazer pelo meu tio? — perguntei.
Ele me respondeu:
— Honestamente, não muito. Sabe, Marcus, você é corajoso. Nem todo mundo é assim. Você é mesmo um ótimo rapaz. Seu tio tem sorte por ter você ao seu lado…
— Eu queria fazer mais.
— Já fez o bastante. Saul me disse que você queria ser escritor.
— É verdade.
— Acho que você não vai conseguir se concentrar aqui. Deveria pensar mais em si mesmo e não ficar muito tempo em Baltimore. Deveria escrever seu livro.
Edwin tinha razão. Estava na hora de iniciar o projeto que eu tanto estimava. Foi durante aquele mês de janeiro, retornando de uma viagem a Baltimore, que comecei meu primeiro romance. Eu tinha entendido que, para trazer de volta os meus primos, eu precisava contar sobre a vida deles.
* * *
Tive a ideia num posto da autoestrada I-95, em alguma parte da Pensilvânia. Eu estava tomando um café, relendo minhas anotações, e os vi entrar. Impossível. No entanto, eram eles mesmos. Brincavam, felizes, e, ao me verem, pularam em cima de mim.
— Marcus — disse Hillel, me abraçando —, eu sabia que aquele era o seu carro!
Woody se juntou ao nosso abraço, nos envolvendo com seus braços enormes.
— Vocês não são reais — falei. — Estão mortos! Vocês são dois idiotas mortos que me deixaram sozinho neste mundo de merda!
— Ah, Markikette, não faça essa cara! — comentou Hillel, brincalhão, bagunçando meu cabelo.
— Venha! — disse Woody, com um sorriso reconfortante. — Venha com a gente!
— Aonde vocês vão?
— Ao Paraíso dos Justos.
— Não posso ir com vocês.
— Por quê?
— Tenho que ir para Montclair.
— Então encontraremos você lá.
Eu não tinha certeza de que havia entendido direito. Eles me abraçaram e foram embora. Antes de saírem pela porta, chamei-os:
— Hillel! Woody! Por acaso foi culpa minha?
— Não, claro que não! — responderam como se fossem um só homem.
E eles cumpriram com a palavra. Reencontrei meus primos adorados em Montclair, no escritório projetado pela minha mãe. Mal eu me sentava à mesa de trabalho, eles surgiam à minha frente. Apareciam da forma como eu sempre os conhecera: barulhentos, magníficos, transbordando de ternura.
— Adoro o seu escritório — disse Hillel, jogado na minha poltrona.
— Adoro a casa dos seus pais — continuou Woody. — Por que nunca viemos aqui?
— Não sei. É verdade… Deveriam ter vindo.
Percorremos Montclair e mostrei meu bairro para eles. Acharam tudo bonito. Nosso trio novamente reunido me deixava exultante. Depois voltamos para o meu escritório e retomei o curso da minha história.
Tudo era interrompido quando meu pai abria a porta do quarto.
— Marcus, são duas da manhã… Você ainda está trabalhando? — perguntava ele.
Os dois fugiam pelas frestas do assoalho feito ratinhos assustados.
— É, já vou dormir.
— Eu não queria atrapalhar. Vi a luz acesa e… Está tudo bem?
— Está, sim.
— Achei que tinha escutado vozes…
— Deve ter sido a música.
— Pode ser.
Ele vinha me dar um beijo.
— Boa noite, filho. Estou orgulhoso de você.
— Obrigado, pai. Boa noite para você também.
Ele saía, fechando a porta. Mas meus primos haviam ido embora. Tinham desaparecido. Eram os desaparecidos.
* * *
Entre janeiro e novembro de 2005, fiquei no escritório de Montclair escrevendo sem parar. E todos os fins de semana eu ia a Baltimore encontrar tio Saul.
Eu era o único Goldman que o visitava regularmente. Minha avó dizia que não tinha forças. Meus pais fizeram a viagem algumas vezes, mas acho que tinham dificuldade para aceitar a situação. E depois era preciso aguentar tio Saul, um fantasma de si próprio, que se recusava a sair do perímetro do hotel Marriott de Baltimore, onde morava.
Para piorar as coisas, em fevereiro, por decisão do conselho de disciplina, tio Saul foi expulso da ordem dos advogados de Maryland. O Grande Saul Goldman nunca mais seria advogado.
* * *
Eu ia encontrá-lo sem esperar nada em troca. Nem sequer avisava que estava indo. Saía de Montclair e dirigia até o Marriott. De tanto ir lá, eu tinha a impressão de conhecer aquele hotel como se fosse minha casa. Os funcionários me chamavam pelo primeiro nome, e eu entrava na cozinha para pedir o que queria. Ao chegar, ia para o sétimo andar, batia à porta do quarto do meu tio e ele abria, desfigurado, com a camisa amassada e a televisão servindo de fundo sonoro. Ele me cumprimentava como se eu estivesse chegando da rua ao lado. Eu não ficava ofendido. Por fim, ele me abraçava.
— Markie — murmurava ele —, meu querido Markie! Que prazer ver você!
— Está tudo bem, tio Saul?
Eu costumava lhe fazer essa pergunta na esperança de que ele recuperasse sua aparência de alguém invencível, risse dos contratempos como soubera fazer na época de nossa juventude perdida e me respondesse que estava tudo bem, mas ele balançava a cabeça e dizia:
— É um pesadelo, Marcus. Um pesadelo.
Sentava-se na cama e interfonava para a recepção.
— Vai ficar quanto tempo aqui? — perguntava ele.
— O tempo que você quiser.
Eu ouvia um funcionário responder no outro lado da linha e tio Saul dizia:
— Meu sobrinho está aqui, precisamos de outro quarto, por favor. — Depois se virava para mim e declarava: — Só o fim de semana. Precisa avançar com o seu livro, isso é o que importa.
* * *
Eu não entendia por que ele não voltava para casa.
Então, no começo do verão, saí um dia para dar uma volta em Oak Park, procurando inspiração para o meu livro, e fiquei horrorizado ao deparar com um caminhão de mudanças em frente à casa dos Baltimore. Uma nova família estava se mudando para lá. Vi o marido supervisionando dois fortões que carregavam um painel de madeira.
— Estão alugando? — perguntei.
— Comprei — respondeu ele.
Voltei imediatamente ao Marriott.
— Você vendeu a casa de Oak Park?
Meu tio me fitou com tristeza.
— Não vendi nada, Markie.
— Mas tem uma família se mudando para lá e dizendo que comprou a casa.
Ele explicou:
— Não vendi nada. O banco me confiscou.
Fiquei perplexo.
— E os móveis?
— Eu me livrei de tudo, Markie.
Ele aproveitou para me avisar que estava vendendo a casa nos Hamptons para ter uma reserva e que também ia se desfazer do apartamento de Buenavista, para poder levar uma vida nova e ter uma casa nova em outro lugar.
— Vai sair de Baltimore?
— Não tenho mais nada para fazer aqui.
Da grandeza dos Goldman-de-Baltimore, do que eles haviam sido, logo não restaria mais nada. Minha única defesa da vida era o meu livro.
Graças aos livros,
tudo estava apagado,
tudo estava esquecido.
Tudo estava perdoado.
Tudo estava redimido.
No meu escritório de Montclair, eu podia reviver eternamente a felicidade dos Baltimore, a ponto de não querer mais sair dali. E, se eu precisasse me ausentar, ficava ansioso para reencontrá-los ao voltar.
E, quando eu retornava ao Marriott, em Baltimore, eu falava sobre o livro que estava escrevendo para desviar a atenção de tio Saul da televisão. Ele se interessava bastante, não falava em outra coisa, queria saber sobre o andamento do processo e se poderia ler um trecho em breve.
— Seu romance é sobre o quê? — questionava ele.
— É a história de três primos.
— Os três primos Goldman?
— Os três primos Goldstein — eu corrigia.
Nos livros, os que não existem mais se reencontram e se abraçam.
* * *
Passei dez meses curando as feridas deixadas pelos meus primos e reescrevendo nossa história. Terminei o romance dos primos Goldstein na véspera do Dia de Ação de Graças de 2005, ou seja, exatamente um ano após o Drama.
Na cena final do livro dos Goldstein, Hillel e Woody iam de carro de Montreal para Baltimore. Paravam em Nova Jersey para me buscar e seguíamos juntos pela estrada. Em Baltimore, numa magnífica casa iluminada, o casal inabalável formado por tio Saul e tia Anita aguardava nosso retorno.