O Manuscrito de Birkenau
Capítulo X
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As plumas esbranquiçadas flutuavam no ar e por momentos Levin pensou que caía neve, mas não era molhada nem fria. Choviam as cinzas de Birkenau. A Lagerstrasse enchera-se de gente nesse final de tarde e enquanto aguardava Gerda e Peter ia observando com curiosidade a estranha chuva seca que se desfazia ao toque. Tinha os ombros cobertos de pequenas tiras brancas, como caspa, mas desintegravam-se com uma sacudidela dos dedos. Mais pessoas chegadas de um comboio convergiam para os crematórios, de cujas chaminés jorravam os habituais rolos de fumo negro. Que magia seria aquela que as transformava em cinzas?
“Bertie!”
O aparecimento da família interrompeu-lhe os pensamentos. Como habitualmente, o convívio dos Levin começava com Peter a apresentar aos pais o relatório diário do que aprendera nesse dia na škola.
“O professor Lichtenstern contou-nos hoje uma história”, disse o rapaz. “Mas não entendi nada.”
Havia poucos livros na škola do campo e os professores davam aulas sem consultar textos e apenas com base no que recordavam. Mesmo as “leituras” de livros não passavam da recitação de memória de obras que os docentes tinham lido noutros tempos.
“Era sobre os irmãos Koželuh.”
Jan Koželuh era um tenista checo que tinha chegado aos quartos de final do torneio de Wimbledon, e o seu irmão Karel, além de tenista, também jogava râguebi, hóquei no gelo e futebol, tendo chegado a representar a Áustria e a Checoslováquia em partidas internacionais. Os feitos dos dois irmãos eram amplamente conhecidos no país.
“O professor Lichtenstern contou-nos que os irmãos Koželuh vinham de uma família muito pobre e que quando eram pequenos só comiam pão e batatas.” Fez uma expressão de perplexidade. “Quem come pão e batatas é pobre?”
Os pais trocaram um olhar; seria cómico se não fosse tão sério. O pão e as batatas, que em situações normais eram de facto alimentos dos pobres, na realidade de Birkenau haviam-se transformado em símbolos de abundância. Só os privilegiados os comiam.
“O teu professor quis decerto dar-vos um bom exemplo”, explicou Levin. “A história dos irmãos Koželuh prova que as dificuldades não impedem uma pessoa de crescer e ser forte.”
“Mas eles eram ricos, papá”, argumentou o filho, sem entender a explicação. “Comiam pão e batatas todos os dias...”
Para uma criança que só conhecia a realidade do campo, uma história daquelas nunca seria compreensível.
“Pois, está bem”, tentou passar adiante. “E que mais aprendeste hoje?”
“A professora Edelstein ensinou-nos o Alouette. É em francês. Querem ouvir? Até um alemão apareceu lá e cantou connosco.”
Nova troca de olhares dos pais; a visita dos SS e dos Kapos à škola era comum. Os alemães sentiam falta de crianças nos campos e inventavam todos os pretextos para irem ver as do Familienlager. O visitante mais frequente era até o Lagerführer Schwarzhuber, pai de dois filhos. Também o SS responsável pela škola, o doutor Mengele, lá ia com regularidade.
O pequeno afinou a voz.
Alouette, gentille alouette
Alouette, je te plumerai
Alouette, gentille...
Nesse instante Levin viu Alfred Hirsch fazer-lhe sinal.
... alouette
Alouette, je te plumerai
Je te...
Devia haver novidades sobre os preparativos da revolta. O ilusionista atirou um olhar à mulher, como se se desculpasse, e foi ter com o responsável da škola.
... plumerai la tête
Je te plumerai la tête
Et la tête...
“O Lagerführer Schwarzhuber veio falar comigo”, disse Hirsch num tom lúgubre. “Anunciou-me uma transferência dos prisioneiros do transporte de setembro. Vamos para o campo de trabalho de Heydebreck.”
A novidade não era tão má como Levin esperava.
“Ufa, ainda bem!”
A expressão do seu interlocutor mantinha-se sombria.
“O Lagerführer Schwarzhuber propôs-me abrir uma exceção e deixar-me fora do grupo. Em vez de ir com o resto dos prisioneiros que chegaram em setembro, incluindo as crianças, ficaria cá a tratar da škola e das crianças que ficassem.”
“É uma boa ideia.”
Hirsch manteve o semblante lúgubre.
“Os meus contactos da rede de resistência, o Kampfgruppe Auschwitz, de que lhe falei noutro dia, disseram-me que já está tudo a postos para a nossa liquidação. O Sonderkommando comunicou ter recebido ordens para preparar os crematórios para nós. A história da transferência para Heydebreck não passa de conversa para nos enganar. Os camiões que aqui chegarem não nos vão transferir para nenhum campo de trabalho, mas levar-nos para os crematórios.”
Levin quase sentiu o ar faltar-lhe.
“Não estarão a... a tentar assustar-nos?”
“É tudo verdade.”
Ficaram os dois calados por um momento enquanto o ilusionista digeria a terrível novidade.
“E... e agora?”
“Quando me propôs abrir uma exceção para mim e deixar-me ficar a tratar da škola, o Lagerführer estava na verdade a dar-me a possibilidade de escapar à morte”, explicou Hirsch. “Perguntei-lhe se as crianças também poderiam ficar e respondeu-me que infelizmente não. As ordens são para transferir todos os deportados de setembro para Heydebreck. Passei as últimas vinte e quatro horas a matutar no assunto.”
“Avançamos para a revolta?”
O responsável da škola abanou a cabeça.
“Seria um massacre, e não apenas das pessoas do transporte de setembro. Não posso assumir essa responsabilidade.”
“Porque não?”, perguntou Levin. “Se os alemães matam agora os deportados de setembro, isso quer dizer que todos estamos condenados. Depois de vocês iremos nós.”
“É verdade, mas não se esqueça de que os russos já entraram na Polónia. Os deportados de setembro podem morrer, mas vocês, os que vieram depois, ainda têm possibilidade de escapar. Além do mais sou professor, não militar. Não percebo nada de revoltas.”
“Então o que fazemos?”
Hirsch esboçou um gesto de impotência.
“Não sei.”
Era uma rendição.
“Já contou às pessoas o que lhes vai acontecer?”
“O que adiantaria isso?”, questionou. “Faria mais mal do que bem. Ficariam angustiadas e desesperadas. Seria um sofrimento atroz. Algumas talvez se revoltassem, mas isso apenas precipitaria a morte de toda a gente. Mais vale estar calado. O que tiver de ser será.”
Fez-se um curto silêncio.
“E... e você, Fredy? O que tenciona fazer?”
“Escolhi esta manhã o Seppl Lichtenstern para chefiar a škola”, murmurou, cabisbaixo. “O adjunto será o Jan Brammer.”
O significado destas palavras era inequívoco. O jovem sionista escolhera morrer.
“Não vai aceitar a proposta do Lagerführer?”
“Você aceitaria escapar vendo o seu filho morrer?”
“Essas crianças não são seus filhos...”
Hirsch fez um gesto vago a indicar as famílias na Lagerstrasse.
“É como se fossem”, disse. “Não posso aceitar safar-me quando as crianças são enviadas para a morte. Não seria capaz de viver com isso. Não fugirei, não me porei de parte, não escaparei às minhas responsabilidades. Estarei com elas até ao fim.”
“Talvez o pessoal do Kampfgruppe Auschwitz e do Sonderkommando esteja enganado”, alvitrou Levin, tentando manter viva a esperança. “Quem sabe se o Lagerführer Schwarzhuber não disse a verdade e vocês serão mesmo transferidos para outro campo de trabalho?”
A expressão no rosto de Hirsch mostrava que não alimentava a menor ilusão. A sirene soou nesse momento, dando por concluído o tempo dado às famílias para se juntarem na Lagerstrasse. Nada mais havia a dizer. Deram um abraço e o ilusionista ficou a ver o jovem sionista afastar-se, como se caminhasse pelo próprio pé para o seu destino. Acontecesse o que acontecesse, tinha conhecido um verdadeiro Mensch.
Os homens caminhavam em grupos de regresso aos barracões, muitos em silêncio compenetrado, com saudades das famílias ou já cientes de que algo muito grave ia acontecer. Outros vinham em mera cavaqueira; aquele dia era como os outros.
“Contaram-me que haverá em breve uma transferência para um campo de trabalho”, observou Werner. “Acham que me candidate?”
“Para esse transporte não há candidaturas”, retorquiu Václav. “A transferência destina-se ao pessoal de setembro. E é compulsiva.”
“Que azar!”
“Não digas disparates.”
“Disparates?” Werner fez um gesto largo. “Já viram onde estamos a viver? Nada pode ser pior que isto.”
“Ainda não aprendeste que com os nazis todas as mudanças são para pior?”, perguntou Václav. “Quando estávamos nas nossas casas mandaram-nos para o ghetto. Era pior do que as nossas casas. Do ghetto saímos para Theresienstadt, que era pior do que o ghetto. De Theresienstadt viemos para aqui, que é pior do que Theresienstadt. Qualquer mudança é para pior.”
“O que pode haver pior que Birkenau?”, insistiu o jovem. “Passamos fome, andamos sempre com frio e a chapinhar na lama, temos diarreia e tifo e sei lá mais o quê, não há medicamentos, falta água, carregamos pedras de um lado para o outro, ficamos uma ou duas horas em pé à chuva ou à neve durante o Appell, levamos porrada dos SS e dos Kapos, morre gente por toda a parte, estamos reduzidos a esqueletos, passo a vida a cagar e a tossir... o que pode ser pior?”
Václav apontou para os fios de fumo no horizonte.
“Os crematórios.”
Toda a gente se calou. Já ninguém ignorava o que ali se passava. O assunto não era discutido, apenas se dizia que se saía de Birkenau “pelas chaminés”, mas sabia-se.
“Contaram-me que andam lá judeus a ajudar os alemães”, murmurou Werner. “Será possível?”
Com Levin em silêncio, a resposta veio de Václav.
“É o Sonderkommando.”
“Quem são esses tipos?”
“Uns alucinados. Têm a cara e o corpo coberto de fuligem, caminham pesadamente, os olhos dementes. Uns verdadeiros animais.”
“Que horror!”, exclamou Werner. “Já os viste?”
“Nem quero ver”, retorquiu Václav. “Ouvi dizer que são medonhos. Uns loucos que perderam toda a aparência humana. Parece que exalam um cheiro nauseabundo, um fedor dos infernos, com as caras devastadas e uns olhares de bestas. Gente brutal e sem escrúpulos, totalmente implacável. Consta que se matam uns aos outros como cães raivosos.”
Um arrepio de medo percorreu todos os que escutavam estas palavras. Já haviam ouvido várias vezes descrições semelhantes do Sonderkommando, a unidade especial dos crematórios. Se havia coisa que receavam era encontrar essas feras. Deviam ser piores do que os piores cães dos SS.