O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 34 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo IX

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Com a determinação dos obcecados, Francisco não largou o Hauptscharführer Moll durante dois dias. Graças ao passe que o chefe do seu departamento lhe entregara para circular por todo o KL, o SS-Mann seguiu-o por toda a parte. O chefe dos crematórios terminou a jornada do segundo dia no bar da Haus der Waffen-SS, o hotel dos SS junto à estação ferroviária da cidade de Auschwitz.

O bar estava nessa noite a meia casa e Moll, acompanhado por dois amigos, um dos quais o inseparável Unterscharführer Eckardt, ficou longamente à conversa entre rodadas de cerveja. O português sentou-se num lugar à janela, agarrado ao famoso gelado de baunilha do hotel e posicionado de maneira a vê-los sem ser visto. Dali seguiu a conversa dos alemães, que ia evoluindo sem rumo definido, errática, com graçolas sobre superiores hierárquicos ou referências a episódios nos crematórios que os SS achavam hilariantes.

“Haviam de ter visto o que me aconteceu esta manhã”, contou o Hauptscharführer Moll. “Apareceu-me no Krema um grupo de Muselmänner para tratamento especial. Como a chefia está sempre com a conversa de sermos poupadinhos, achei que não valia a pena gastar gás com eles e decidi acabá-los eu mesmo.”

“A tiro?”

“E gastava munições? Peguei numa barra de ferro e... pumba!, aqui vai disto!”

Os companheiros riram-se.

“Com uma barra de ferro?! Ach, és doido, Otto!”

“Esperem, ainda não acabei”, apressou-se Moll a adiantar. “Estava eu catita da vida a malhar nas tolas deles quando um dos tipos me pediu para cantar O Danúbio Azul enquanto eu ia fazendo o servicinho. Achei boa ideia. Então o gajo pôs-se a trautear Strauss enquanto eu ia acabando os outros. Vocês estão a imaginar a cena? Ele a cantar na-na-na-na-naa pim-pim pim-pim, e eu a bombar, tumba-tumba-tumba. Eh pá, só visto!”

Nova risada.

“Ao menos poupaste esse Caruso?”

“O que achas? Deixei-o para último, pois há que promover a cultura e premiar os artistas, mas também comeu. Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque.”

A conversa derivou para outros assuntos que os preocupavam e aos quais achavam menos graça, do avanço russo na Polónia e da revolta em Varsóvia ao plano para arrasar os crematórios e acabar com o Sonderkommando, mas acabou num tema mais agradável.

“E se déssemos um saltinho ao bordel?”, sugeriu o Unterscharführer Eckardt. “Apareceu agora uma mamalhuda que eu gostava de provar.”

Moll fez um gesto fatigado.

“Ach, hoje não.”

“Anda lá, pá.”

“Não, não. Estou muito cansado. Vão vocês.” Consultou o relógio e, vendo as horas, pôs-se de pé num salto. “Scheiße, já é tarde! Tenho de acordar cedo para preparar a receção à matéria-prima de Łódź.”

Deitando umas moedas sobre a mesa para pagar as cervejas, os SS levantaram-se e encaminharam-se para a saída.

“Nem sabes o que perdes, Otto. A mamalhuda dava cabo de ti.”

Uma vez cá fora, o grupo separou-se. Dois foram para um lado, o do bordel dos SS, Moll para o outro, o do caminho para casa. A oportunidade de Francisco aparecera enfim.

 

Aquele ponto da rua era o ideal, pois a lâmpada do poste de iluminação pública estava fundida e havia uma pequena latrina pública atrás da qual se podia esconder. O português ocultou a bicicleta e preparou-se. Tinha pouco tempo; um minuto, talvez nem tanto. Tirou o casaco e ficou de camisa interior verde-escura. Descalçou a bota direita, retirou a meia e voltou a calçar a bota. A seguir meteu a cabeça na meia, indiferente ao seu fedor característico, e no ponto dos olhos abriu dois buracos com um canivete. Assim ninguém o reconheceria. Satisfeito, anichou-se por detrás da latrina.

Aguardou.

A rua estava deserta, pois já se fazia tarde, e uma poça de água refletia a Lua prateada que pairava no alto. O vulto do Hauptscharführer Moll apareceu na esquerda. Apesar de ter bebido umas três ou quatro cervejas, o chefe do crematório parecia sóbrio. Caminhava numa passada tranquila, embrenhado nos seus pensamentos. Francisco certificou-se de que a rua permanecia deserta e no momento em que o violador de Tanusha ia a passar saltou da escuridão como um felino.

“O que...”

Tapou a boca do alemão, assentou-lhe uma joelhada nos testículos que o deixou indefeso e arrastou-o para a sombra da berma. Uma vez aí, esmurrou-o consecutivamente na cara e no fígado. Apesar de não ser alto, o Hauptscharführer Moll era um homem possante, mas o português parecia uma montanha e o oficial não teve a menor hipótese. Depois de o moer de pancada, o SS-Mann carregou-o para o interior da latrina e, pegando-lhe pelos cabelos da nuca, mergulhou-lhe a cabeça nos excrementos.

“Hmpgh... mghpgh...”

Ao fim de alguns segundos levantou-lhe a cabeça.

“Quero-te fora de Birkenau”, sussurrou-lhe ao ouvido. “Se daqui a uma semana ainda por cá andares, afogo-te em merda. Percebeste?”

Sem o deixar responder, mergulhou-lhe de novo a cara nos excrementos que entupiam a latrina pública. A sua vontade era matá-lo, mas sabia que isso levaria o Politische Abteilung a abrir um inquérito pormenorizado, com identificação de todos os que nessa noite tinham estado na Haus der Waffen-SS, o que os conduziria a ele. Não valia a pena o risco. Em vez disso, deixou-o prolongadamente com a cara enfiada nas fezes à espera que lhe faltasse o ar. Quando lhe sentiu a convulsão por ter as vias respiratórias obstruídas com merda ao ponto de sufocar, puxou-lhe de novo a cabeça para o deixar tossir, expelir as fezes que lhe enchiam a garganta e as narinas e recuperar o fôlego. Com um movimento brutal, arrancou-lhe do peito a tão estimada Kriegsverdienstkreuz com espada, puxou-lhe as calças para baixo e espetou-lhe a condecoração no ânus.

“Aaaaagh!”

Colou-lhe de novo os lábios ao ouvido.

“Tens uma semana.”

Largou-o e fundiu-se na noite.