O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 15 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo XIV

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Abriu a porta e entrou no barracão, ignorando o Blockälteste e todos os reclusos que viraram os olhares para ele. Um silêncio brusco abateu-se sobre as camaratas e até as respirações se suspenderam. Alheio ao impacto suscitado pelo seu aparecimento no bloco doze, Francisco percorreu o corredor e só se imobilizou quando chegou diante do beliche que procurava. Apontou para o prisioneiro que segurava um baralho de cartas.

“Tu, o mágico”, identificou-o. “Faz-me uns truques.”

A ordem deixou Levin embasbacado.

“Uh... agora, Herr SS-Mann?”

“Sim, agora”, foi a resposta seca. “Vem cá e mostra-me as tuas habilidades.”

O prisioneiro obedeceu e, no meio do silêncio geral, desceu do estrado. Uma vez diante do SS português, hesitou.

“Aqui no chão?”

“Vamos lá fora.”

Com o SS-Mann à frente, os dois homens percorreram o corredor em sentido inverso e encaminharam-se para a porta. Passaram diante do novo Blockälteste, atónito e lívido, e saíram para o exterior.

A noite já tinha caído e o frio era menos duro do que meses antes, pois a primavera chegara. A chaminé de um dos crematórios expelia uma enorme chama, com toda a probabilidade a queimar os deportados que ainda uma hora antes se haviam cruzado com os SS que saíam do cinema.

“Faça uns truques de magia para disfarçar”, ordenou o português. “Tenho novidades.”

O mágico pôs-se a baralhar as cartas.

“O que aconteceu, Herr SS-Mann?”

“Não pode permanecer mais tempo neste campo”, disse-lhe. “Tenho de o transferir.”

“Mas... e a minha família?”

“O meu chefe diz que talvez possa transferir a sua mulher consigo, mas nunca o vosso filho.”

“A Gerda jamais irá concordar deixar cá o Peter. Mesmo que concordasse não concordaria eu. Ou vamos todos ou não vai ninguém. Não aceitarei a separação da família.”

A resposta estava longe de ser inesperada. Francisco desviou por momentos o olhar para a torre de observação mais próxima, não necessariamente para a ver mas para considerar as palavras certas.

“Oiça, Levin. Nem você nem eu estamos em condições de escolher soluções perfeitas. A situação é muito grave e o que aconteceu aos seus companheiros do transporte de setembro vai acontecer-vos a todos.”

“Já percebemos.”

“Então se já perceberam, também já perceberam que as coisas não se resolvem por artes mágicas, e com isto não estou a fazer nenhum trocadilho. Você não pode limitar-se a duas opções, salvarem-se todos ou nada fazerem, porque senão morrem todos.”

“Mas já viu o que me está a pedir, Herr SS-Mann? Que deixe aqui o meu menino à espera de morrer! Mesmo que racionalmente essa seja a solução possível, ou pelo menos a menos má, simplesmente não é aceitável. Nem eu nem a minha mulher seríamos capazes disso.”

“Eu não estou a pedir que deixe cá o seu filho.”

“Claro que está.”

“Estou é a dizer-lhe que essa conversa de que ou vão todos ou não vai ninguém irá acabar com a morte de todos. Estou a tentar explicar-lhe que a única maneira de a vossa família sobreviver é separar-se.”

O argumento deixou Levin desconcertado.

“Não estou a perceber”, disse. “Como é que o Peter, ficando sozinho e estando este campo destinado à liquidação, sobreviverá?”

O SS levantou a mão direita e mostrou-lhe três dedos.

“Vocês têm três opções e só a primeira é que tem resultados garantidos”, indicou. Cruzou o primeiro dedo. “Se ficarem todos juntos, morrerão todos. Isso é absolutamente certo.” Cruzou o segundo. “Se aceitar transferir-se com a sua mulher, será possível encontrar um lugar para os dois aqui em Birkenau onde prepararão o espetáculo de magia. O problema é que o vosso filho não poderá ir, os SS nunca o permitirão, e ele morrerá neste campo.” O terceiro dedo. “A última hipótese é você ser transferido para preparar o espetáculo e a sua mulher ficar com o seu filho e ambos candidatarem-se a transferências para outros campos de concentração. As candidaturas para essas transferências vão aparecer em breve.”

“As transferências não passam de pretextos para enviar as pessoas para os crematórios. Não viu o que aconteceu com os do transporte de setembro?”

“Desta vez não será assim.”

“Como sabe isso?”

“Porque um oficial da minha confiança mo disse. O Lagerführer Schwarzhuber afeiçoou-se ao vosso campo e não quer que se mate toda a gente. Outros SS que costumam visitar o campo das famílias têm a mesma posição. Antes da liquidação serão feitas verdadeiras transferências para outros campos.”

“Isso é o que você diz. Porque confiaria em si?”

Francisco e Levin trancaram o olhar, como se se medissem.

“Porque não tem mais ninguém em quem confiar”, foi a resposta seca. “Apesar de vestir a farda de SS, não sou alemão nem nazi. Você e eu partilhamos os mesmos antepassados e nunca seria capaz de lhe mentir olhos nos olhos. Além disso, sou tudo o que você tem.” Apontou para a chama que alumiava a noite. “Se não confiar em mim, mais vale ir já para os crematórios.”

Estas palavras amoleceram o mágico; a sua profissão obrigava-o a ser observador e percebia que o homem diante dele, embora rude e violento, não lhe estava a mentir.

“Tem a certeza de que vai haver transferências para outros campos?”

A pergunta era muito direta e Francisco, ciente de que se fosse honesto nunca poderia dar uma garantia dessas, pestanejou.

“A única coisa de que tenho a certeza é que um oficial SS me disse isso e tenho confiança nesse oficial, pois fala a minha língua”, murmurou. “Estou convencido de que me disse a verdade e de que está bem informado, mas não posso ter a certeza absoluta. Agora decida. Ou confia ou não confia. Se confiar, você e a sua família têm uma hipótese de se salvar. Não é certo, é apenas uma hipótese, mas é uma boa hipótese. Se não confiar, ficarão todos juntos aqui e de certeza morrerão nos crematórios. A decisão é sua.”

Mais claro do que isto não era possível. Ainda a baralhar as cartas, o que fazia já mecanicamente, Levin fixou o olhar no horizonte. Um comboio estava imobilizado na nova plataforma, construída na antiga Hauptstrasse, e os SS procediam a uma Selektion em plena Judenrampe. Os seres humanos pareciam formigas, pois a cena decorria a alguma distância, mas o drama era palpável e tornara-se muito visível do campo das famílias a partir do momento em que na semana anterior aquela plataforma fora inaugurada. As chaminés dos crematórios não expeliam fumo, à exceção de uma, a daquele que estava ativo, mas a chegada do novo transporte indicava que isso iria mudar nas horas seguintes.

Apesar da crescente habituação, era impossível permanecer alheio à cena, não apenas por causa das pessoas que nesse momento a interpretavam mas porque nas costas dessa gente Levin se via a si e à sua família. O que estava a acontecer naquele instante acontecer-lhes-ia em breve. O que fazer? Confiaria ou não confiaria? Perante o dilema, tinha de se render à evidência. O português tinha razão. Se não confiasse, morreriam todos. Se confiasse, talvez se safassem. Com um jeito de mãos, abriu o baralho num leque.

“Escolha uma carta.”

“Não é o melhor momento para joguinhos...”

“Escolha uma carta, por favor”, insistiu. “Não ma mostre. Se depois de a baralhar eu acertar na carta que lhe saiu, aceito a sua proposta. Se não acertar, não aceito. Pode ser?”

O português sorriu; os ilusionistas acertavam sempre na carta.

“Vamos a isso.”

Pegou numa carta, viu-a e devolveu-a. O mágico meteu-a no meio das outras e começou a baralhar.

“Para onde tenciona transferir-me?”

“Não sou eu que decido isso”, esclareceu Francisco. “Nunca se esqueça de que não passo de um simples SS-Mann que nem alemão é. Valho zero aqui dentro. Mas muitos SS conhecem-no a si e a ideia de um espetáculo de magia em Auschwitz tem muitos adeptos. Se eu disser ao meu chefe que o espetáculo é mesmo possível e que para isso basta transferir um prisioneiro do campo das famílias e arranjar-lhe uma assistente de magia, estou convencido que ele vai mexer uns cordelinhos e transferi-lo para um sítio onde tenha boas condições.”

O ilusionista encostou-lhe o indicador ao peito, como se o avisasse.

“Não me está a enganar, pois não?”

“O que acha?”

Levin recomeçou a baralhar as cartas, atirando-as em rajada de uma mão para a outra; dir-se-ia um batoteiro profissional.

“Consegue garantir que a minha mulher e o meu filho vão nessas transferências de que me falou?”

“Não garanto coisa nenhuma”, sublinhou o português. “Mas estou convencido que vão. Quando os alemães pedirem voluntários, muitas pessoas vão achar que é um truque e haverá poucos candidatos. Isso aumenta as hipóteses de a sua família ser aceite, não lhe parece? Portanto fale com a sua mulher e diga-lhe que se candidate com o seu filho logo que as transferências sejam anunciadas. Ela que minta em relação à idade do rapaz e o faça parecer mais velho. É a única maneira.”

Os dedos do mágico imobilizaram-se de repente e, do meio do baralho, tirou uma carta que manteve tapada.

“Qual foi a carta que tirou há bocado?”

“O duque de copas.”

Levin virou a carta e viram o dez de paus.

“Oh!”

O mágico enganara-se.

“Bem... uh...”, atrapalhou-se Levin. “Não é possível. Tem... tem a certeza que era o duque de copas?”

O momento tornou-se embaraçoso e Francisco, com pena do seu interlocutor, esteve quase a dizer que se equivocara, mas era tarde para mentir.

“Era o duque de copas.”

Com um gesto de desânimo, o mágico guardou o baralho.

“Já viu isto? Não é possível manter-me em forma nestas condições.” Fez um gesto, como se o espaço em redor comprovasse o que dizia. “Quem consegue preservar a destreza de mãos num ambiente destes, com fome, cansado e atacado pela disenteria?” Abanou a cabeça, como se falasse para si mesmo. “Nem Houdini.”

Francisco ficou a olhá-lo, temendo perceber o que acontecera.

“Senhor Levin”, chamou. “Posso ou não contar consigo?”

O mágico imobilizou-se.

“Não viu o que aconteceu?”, perguntou sem se voltar para trás. “Qualquer um era capaz de mostrar a carta certa e eu não fui, percebe? Qualquer um! Até o senhor!”

“Tenha calma.”

Ficaram plantados um à frente do outro, as cabeças separadas por apenas dois palmos.

“Não acredita?”

“Oiça, não sou mágico e...”

“Veja o bolso do seu casaco.”

“Hã?”

“Veja o bolso do seu casaco.”

Francisco meteu a mão ao bolso e sentiu uma superfície fina. Retirou-a e viu que se tratava de uma carta. O duque de copas.

Riu-se.

“Como fez isso?”

Guardando a carta no baralho, Levin regressou ao barracão. Ao chegar junto à porta, virou-se para trás e lançou-lhe um último olhar.

“Espero que não tente enganar-me.”

Os dentes amarelados do Oberscharführer Knittel rangeram enquanto ele analisava os documentos. Estava embrenhado na leitura e Francisco, embora ansioso por resolver o assunto, não se atreveu a interrompê-lo.

“Ach, você conhece o Pestek?”

A pergunta foi tão inesperada que apanhou o português de surpresa.

“Perdão, Oberscharführer?”

“O Unterscharführer Viktor Pestek”, disse. “Conhece-o?”

“Ah, sim. Pestek. É um Kommandoführer do campo das famílias. Cruzei-me com ele algumas vezes. Não começámos bem, mas acabámos por nos entender. Um tipo simpático.”

O chefe levantou enfim os olhos dos papéis e fitou-o.

“Não sabe por onde ele anda?”

“Bem... imagino que esteja a vigiar o seu Kommando habitual.”

O Oberscharführer Knittel indicou os documentos que consultava.

“Acabei de receber isto da Kommandantur”, disse. “É um pedido de informações sobre Pestek. Devia ter comparecido ao serviço para vigiar o seu Kommando no campo das famílias e não apareceu. Nem nesse dia nem depois. Sumiu-se.”

“Estará doente, Oberscharführer?”

O chefe fez uma careta.

“Só se for da cabeça”, devolveu. Voltou a consultar os papéis da Kommandantur. “Parece que o Pestek desapareceu no mesmo dia em que fugiu um Blockälteste judeu, curiosamente também do campo das famílias. Um SS e um prisioneiro, ambos do mesmo campo, desaparecem no mesmo dia. O que se pode concluir disso?”

Francisco arregalou os olhos.

“Está a insinuar que fugiram juntos, Oberscharführer?”

Sem responder à pergunta, o responsável do Abteilung VI pôs de lado o documento da Kommandantur e, na sua melhor pose teatral, encarou o subordinado com ar de quem lhe dedicava nesse momento toda a atenção.

“Então o que o trouxe aqui?”

A mudança de tema fora brusca, como se a possibilidade de um SS ajudar um judeu a escapar fosse tabu.

“É por causa do espetáculo de magia, Oberscharführer”, disse o SS-Mann. “Precisava que transferisse o mágico. É possível?”

O alemão hesitou. Nunca fora um entusiasta da ideia, sobretudo porque não apreciava o ilusionismo, mas sabia que se tratava de um género popular entre os guardas e entre muitos oficiais, dado o interesse que o ocultismo suscitava no partido. Não era Himmler um apaixonado pelas ciências de fronteira? Ademais, seria uma proposta diferente na programação cultural.

“Pensei que já tivesse desistido desse projeto.”

“Estive quase”, retorquiu Francisco, económico com a verdade. “Mas o mágico é mesmo capaz de fazer um espetáculo de embasbacar.”

“E o filho?”, quis saber. “Tem noção de que não o podemos transferir?”

“Talvez fosse bom dar-lhe garantias de que a família será protegida se ele cooperar connosco. Acha isso possível, Oberscharführer?”

“Com certeza.”

O olhar do português iluminou-se. Fizera o pedido sem esperança de que fosse acolhido; tratara-se de uma mera tentativa.

“A sério?”, admirou-se. “Podemos mesmo proteger a mulher e o filho?”

“Claro que não”, devolveu o responsável do Abteilung VI. “Mas não custa nada dar-lhe a garantia.”

O semblante de Francisco fechou-se. A velha tática de ludibriar as vítimas.

“Para onde poderemos transferi-lo, Oberscharführer?”

“Ainda não sei”, foi a resposta. “O novo comandante acabou de chegar. Já pedi uma reunião com o Obersturmbannführer Höss e posso levar-lhe esse assunto.”

“Tem de ser um sítio onde o nosso homem possa comer bem”, alertou o português. “Além do mais, no novo posto terá de ter acesso a materiais de construção e tempo para preparar os seus truques.”

“E um bordel?”, ironizou o Oberscharführer Knittel. “Não quer também que o seu judeuzinho tenha meninas ao dispor?”

“Não peço tanto, Oberscharführer.”

O responsável do Abteilung VI tomou notas num caderninho, evidentemente como pontos para suscitar na reunião com o novo comandante de Auschwitz.

“Em Birkenau não há lugares fáceis nem funções de lazer”, avisou enquanto escrevinhava. “Não haja expectativas irrealistas. Mas procurarei que lhe sejam dadas as condições mínimas dentro do quadro que pediu.”

“Agradeço-lhe, Oberscharführer.” Afinou a voz, preparando-se para o segundo assunto. “E... e a rapariga?”

“Qual rapariga?”

“O mágico precisa de uma assistente”, lembrou. “Identifiquei no campo das mulheres uma rapariga com o perfil certo. Creio que já lhe falei nela.”

“Ah, sim. A russa.”

“Acha possível transferi-la para o mesmo sítio?”

“A assistente é mesmo necessária?”

“Absolutamente essencial”, argumentou Francisco. “Repare que não estou a pedir nada de muito complicado. Apenas a transferência de dois prisioneiros, um dos quais nem sequer é judeu, para um lugar com melhores condições para preparar o espetáculo.”

O argumento parecia razoável.

“Quem é ela?”

“Tanya Tsukanova.”

O chefe soltou um estalido com a língua, contrariado.

“O número, SS-Mann”, repreendeu-o. “Teufel! Ao fim deste tempo todo ainda não percebeu que a identificação dos prisioneiros se faz pelo número e não pelo nome?”

O subordinado tirou um papel do bolso.

“As minhas desculpas, Oberscharführer.” Consultou o papel. “É o 73644.”

O responsável do Abteilung VI tomou nota e, com um suspiro a dar a conversa por concluída, guardou a caneta no bolso do casaco.

“Em breve lhe darei notícias.”