O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 25 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo X

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Primeiro apareceu a luz, ou talvez não passasse de uma claridade que ia ganhando intensidade e a seguir contornos, até que os contornos se transformaram numa cabeça desfocada. Seria um sonho? Tinha a sensação nítida de flutuar, de pairar dormente numa atmosfera irreal, de que uma neblina o impedia de ver com clareza. Sentiu-se sacudir com violência e escutou uma voz, primeiro distante, mas logo a seguir próxima e real.

“... tipo está a acordar”, disse o rosto baço, falando para o lado. “Traz água.” O homem voltou a encará-lo. “Levin! Acorde, Levin! Está a ouvir?”

O mágico pestanejou, tentando perceber o que se passava.

“Acorde, Levin!”

Voltou a pestanejar, esforçando-se por sair da letargia que lhe entorpecia o raciocínio.

“Uh... hã?”

Sentiu um choque frio e deu um salto, as mãos na cara e subitamente desperto. Alguém lhe lançara água ao rosto.

“Levin?”

Fitou o homem que antes não passava de um vulto desfocado e reconheceu-o. O Oberkapo Kaminsky.

“O que... o que aconteceu?”

“O Malakh HaMaves vem aí para o Appell da manhã”, anunciou o responsável pelo Sonderkommando. “Temos de nos mudar para os aposentos nos crematórios. Levante-se imediatamente para a chamada.”

Já consciente, apesar das dores de cabeça de ressaca do Schnapps que engolira em doses cavalares, as imagens da véspera assaltaram-no e sentiu-se invadido por uma infinita tristeza. Encolheu-se em posição fetal, entregue à sua miséria e alheado do mundo.

“Levin, levante-se!”

Uma outra voz interveio.

“Deixa-o, Litvak. Não vês o estado em que ele se encontra?”

Litvak era a forma como Kaminsky se tornara conhecido entre os companheiros. O Oberkapo era um judeu da Lituânia, daí a alcunha.

“O Malakh HaMaves vem aí!”, argumentou Kaminsky. “Se o vê assim, despacha-o com um tiro. O Levin tem de se levantar!”

“Não vai resultar”, contrapôs a outra voz, evidentemente um segundo veterano do Sonderkommando. “Olha para ele, está catatónico.”

“Tem de se levantar!”

“Não viste o que aconteceu, Litvak? O tipo veio do campo das famílias e esteve presente ontem no gaseamento das pessoas do seu campo. É óbvio que está em choque. Põe-te no lugar dele.”

“Sei isso tudo muito bem, Gradowski, mas o Malakh HaMaves vem a caminho e sabes bem que o tipo não quer cá explicações. Se vir o Levin neste estado, liquida-o logo. Como tencionas resolver o problema?”

Fez-se uma curta pausa, como se Gradowski ponderasse a questão. Fora no mês anterior que, devido ao elevado número de prisioneiros no Sonderkommando, a maior parte começara a ser transferida para os crematórios. A transferência completava-se nesse dia e era imperativo que Levin, designado para o crematório número três, se levantasse.

“E se o substituíssemos pelo Shlomo?”, propôs Gradowski. “É a única maneira de safarmos a coisa. O Shlomo vai para o Appell no lugar do Levin até arranjarmos uma solução definitiva.”

“É uma ideia”, concordou o Oberkapo. “Vou pedir ao Georges que o tenha debaixo de olho enquanto estivermos nas mudanças.”

As vozes afastaram-se, cada uma na sua direção. O mágico manteve-se na cama, dobrado sobre si mesmo, abstraído de tudo aquilo, indiferente ao mundo e à sua sorte, entregue aos demónios que lhe assombravam a consciência, os que haviam sido libertados pela morte dos prisioneiros do campo das famílias no crematório onde tinha a infelicidade de trabalhar. Se falasse, diria que preferia morrer.

 

A semana seguinte foi muito difícil para Levin, incapaz de trabalhar e sem vontade de viver. Passou intermitentemente por momentos de consciência afogados em Schnapps enquanto os companheiros do Sonderkommando se revezavam em estratagemas para ocultarem a situação aos SS. O barracão havia-se esvaziado, pois a unidade contava já com demasiada gente. Muitos homens tinham sido transferidos para novos aposentos nos quatro crematórios, mas alguns ficaram no bloco treze. Era o caso de Levin e dos seus anjos-da-guarda. A maior parte do esforço de camuflar a situação do mágico foi levada a cabo pelo Oberkapo Kaminsky e pelo tal Gradowski, que no Sonderkommando desempenhava as funções de Schreiber, ou secretário.

Como a situação não evoluía favoravelmente, à sétima manhã Kaminsky chegou junto do mágico, que permanecia prostrado no beliche com o olhar perdido no infinito, e apresentou-lhe um outro homem do Sonderkommando.

“Este é Leib Langfus”, disse. “É o dayan de Makow. Veio do crematório número um para falar consigo.”

Um dayan era um juiz rabínico. Depois de os companheiros partirem para mais uma jornada nos crematórios, Langfus permaneceu o dia inteiro com Levin.

“Sei que perdeste a vontade de viver, meu irmão”, disse-lhe o dayan numa voz serena. “Ignoro qual a tua educação religiosa ou sequer se acreditas no Criador, mas se és judeu fizeste ao menos o bar mitzvah e o elementar saberás decerto. Vivemos num inferno, tu e eu e os nossos companheiros de infortúnio, e neste inferno vemos o pior de que a humanidade é capaz. O que vivemos é tão grotesco que não podemos deixar de nos perguntar se a vida terá algum sentido. Mas nada acontece por acaso, meu irmão. Nada. Nem isto. Nem a morte com que lidamos diariamente, nem a liquidação dos desgraçados do campo das famílias. Todos nós, tu e eu e os nossos companheiros, todas e cada uma das vítimas e até os SS, até o estafermo do Malakh HaMaves, desempenhamos um papel. Ignoramos qual seja, é verdade, mas desempenhamos um papel. Só Deus o conhece. A mim mataram-me toda a família no dia em que cheguei e neste inferno tenho vivido com os nossos companheiros sem perceber porquê. Mas Deus sabe. Estamos aqui, acredites ou não, a cumprir uma missão. Uma missão sagrada concebida pelo Senhor. Por motivos que nos escapam, Deus quer as coisas desta maneira, desta e não de outra, e nós temos de suportar tudo isto porque é uma mitzvah, um imperativo religioso. É a vontade de Shadai, de Adonai... de Deus, qualquer que seja o Seu nome. Não nos cabe a nós alterar ou julgar a Sua vontade, apenas cumpri-la. Acredites ou não, meu irmão, nada do que está a acontecer é um acaso sem sentido mas parte de um plano, um plano divino que nos escapa a todos e cujo desígnio talvez um dia se torne claro. Talvez estejamos perante uma fatalidade, talvez estejamos a ser submetidos a um grande teste. Não sei. Apenas sei que tens o dever de te erguer, de lutar, de prestar testemunho, de cumprir a tua mitzvah.”

A conversa durou todo o dia e foi complementada com certos produtos, não Schnapps, a solução tradicional de Kaminsky e da generalidade dos elementos do Sonderkommando e até dos SS para os males da alma, mas extratos de plantas que o dayan lhe foi ministrando em doses controladas. O facto é que Levin quebrou o mutismo prolongado, não para chorar, pois naquele lugar não se viam homens a chorar, mas para falar, para exprimir a dor e a revolta que o consumia, e foi quando começou a falar nessa revolta que Langfus percebeu que ganhara a partida, que o seu paciente tinha enfim algo em que se concentrar, que seria a revolta que lhe devolveria a vontade de viver.

 

Pela primeira vez desde o terrível dia da liquidação do campo das famílias, o mágico abandonou o beliche e saiu com o dayan para o exterior do barracão. Foi aí que decorreu parte substancial da conversa. Quando Langfus se foi embora, já à tarde, Levin ficou sozinho a deambular pelo barracão, sem nada para fazer e com medo dos pensamentos que o tinham conduzido ao precipício. O fantasma não desaparecera nem nunca desapareceria. Apenas o afugentara momentaneamente.

Os homens do turno da noite ainda dormiam nessa altura, mas a atenção de Levin foi atraída por um som de folhas de papel a serem reviradas. Apercebeu-se de que um dos companheiros do turno noturno já acordara e estava encostado no beliche a escrever, as folhas iluminadas pela luz da janela atrás dele. Reconheceu-o. Tratava-se de Gradowski, o Schreiber do Sonderkommando. Sabia que Gradowski era um judeu polaco muito crente e via-o frequentemente a pôr os tallit e os teffilin depois de uma jornada em que haviam gaseado as vítimas de um transporte e dizer um Cadish por elas. Chegava mesmo a recitar diariamente o shaharit matinal, a minha da tarde e o ma’ariv noturno, as três orações do judaísmo, e convencera alguns companheiros a juntarem-se-lhe nesses serviços.

“Gradowski?”

O companheiro levantou os olhos dos papéis que rabiscava.

“Olha quem é ele!”, sorriu. “Milagre! Não só se põe de pé como já fala!”

O mágico aproximou-se do beliche do Schreiber.

“Queria agradecer-lhe a atenção que teve comigo.”

“Estávamos preocupados”, disse Gradowski. “Foi o cabo dos trabalhos disfarçar a sua ausência, nem imagina. Ainda por cima com a transferência do pessoal para os aposentos nos crematórios... Chegámos a pensar que o Malakh HaMaves ia perceber a marosca e dar-lhe um tiro. Felizmente conseguimos trapaceá-lo o tempo suficiente para que você recuperasse. Folgo em vê-lo de pé e a falar. Bem-vindo ao mundo dos vivos!”

Vendo o beliche mais próximo vazio, Levin sentou-se nele.

“Não sei se o meu regresso deve ser saudado. Depois de tudo o que aconteceu, para quê viver?”

“O dayan de Makow não falou consigo?”

“Sim, falou. Ajudou-me a sair do estado de apatia, mas de que serve viver se não temos motivo para o fazer?”

“Claro que temos.”

“Não me diga que também acha que isto é uma missão que Deus nos entregou e que este inferno faz parte dos milagres e maravilhas de que a Bíblia fala...”

“Não pense que é o único a sofrer. Seria um insulto. Todos os homens que aqui estão sofrem. Mesmo os bestializados. A minha mãe, Sara, morreu assassinada aqui em Birkenau no mesmo dia em que foram assassinadas as minhas irmãs Libe e Ester e a minha querida mulher, Sónia. Foi a 8 de dezembro de 1942, o dia em que aqui chegámos. Fui selecionado para trabalhar e elas para morrer. Também o meu pai foi apanhado por eles, e o mesmo sucedeu aos meus irmãos Eber e Moyshl na Lituânia e à minha irmã Feigele em Otvotsk. Perdi toda a família.”

“Ainda consegue encontrar razões para viver?”

Como se exibisse a prova, Gradowski pegou no caderno que rabiscava.

“Sabe o que isto é?”

“Trabalho de secretaria, presumo eu.”

O secretário do Sonderkommando estendeu os papéis ao seu interlocutor. Pegando neles, a primeira coisa com que Levin se deparou foi o título. No Coração do Inferno, de Zalman Gradowski. Deitou um olhar às primeiras linhas da primeira página e leu-as em voz alta.

“‘Caro leitor, encontrarás nestas linhas a narrativa dos sofrimentos e dores que nós, as mais desgraçadas crianças deste mundo, sofremos durante a nossa ‘vida’ neste inferno terrestre que se chama Auschw...’”

Gradowski arrancou-lhe bruscamente as folhas da mão.

“Isto é secreto.”

O mágico olhou-o sem entender.

“Então porque me mostrou?”

“Para explicar porque vivo”, disse. “Vivo para prestar testemunho. É essa a minha mitzvah.” Fez um gesto a indicar os companheiros que ainda dormiam nos outros beliches. “É essa a mitzvah de todos nós, mesmo daqueles que estão transformados em animais. Vivemos para prestar testemunho. Sou um grande pecador que vive da morte do nosso povo, mas lavarei os meus pecados com o meu próprio sangue, com o testemunho que estas páginas levarão ao mundo, com o testemunho que nos resgatará a honra.”

“Acredita mesmo que escaparemos a isto?”

“Claro que não. O Sonderkommando será todo eliminado, sobre isso não tenho dúvidas. Sabemos o segredo e os alemães não nos deixarão sair vivos.”

“Então como tenciona prestar testemunho?”

Mais uma vez Gradowski pegou nas folhas e mostrou-as como um advogado a exibir provas em tribunal.

“O meu testemunho está aqui!”

“Acha que os alemães serão parvos ao ponto de deixar essas folhas intactas?”

“É por isso que os meus escritos são secretos. A sua existência só é conhecida por um punhado de companheiros. Os alemães não podem saber de maneira alguma que eles existem, entendeu?”

“Mas como planeia fazer chegar essas folhas ao mundo exterior?”

O Schreiber esboçou um sorriso sem humor.

“Quando concluir os meus escritos, vou metê-los numa caixa ou num tubo metálico e escondê-los num buraco. Depois de a guerra acabar, as folhas serão descobertas e a verdade conhecida. Eu morrerei, mas o meu testemunho sobreviverá. Será assim que me lavarei dos meus pecados.”

Levin passou a mão pelos cabelos.

“Não é má ideia...”

O seu interlocutor fitou-o com intensidade, como se o desafiasse.

“Porque não faz o mesmo?”, perguntou Gradowski com uma convicção quase religiosa. “Faça da dor a sua razão de viver. Preste testemunho. Cumpra a sua mitzvah. Quantos mais o fizerem, mais provas sobreviverão. Os nossos escritos serão a nossa voz quando a nossa voz já cá não estiver. Eles falarão por nós e por todos os que morreram. Além do mais, a escrita liberta-nos. Quando escrevo é como se aplacasse o sofrimento que me atormenta.”

A sugestão atingiu o mágico com a força de uma epifania. Viver para exorcizar os seus fantasmas. Viver para prestar testemunho. Viver para denunciar. Seria essa a sua missão?

 

A primeira coisa que Gradowski lhe ofereceu foram umas folhas e um lápis, mas do que Levin gostava mesmo era de escrever à máquina. O Schreiber lembrou-se que tinha uma máquina datilográfica, encontrada na bagagem dos gaseados, e foi buscá-la. Já com ela, o mágico sentou-se no seu beliche e passou o resto da tarde a datilografar. Não foi difícil escolher o tema. As suas experiências em Theresienstadt e ali em Birkenau eram assunto suficiente para prestar testemunho, mas o que realmente o motivava era a liquidação do campo das famílias. Foi para contar o que se passou nesse dia terrível que começou a escrever, e acabaria por ser justamente aí que encontraria a sua razão de viver. Aquele crime tinha-o morto e era por essa morte que vivia.

Os companheiros do seu turno no Sonderkommando regressaram ao bloco treze pelas seis e meia da tarde, altura em que o turno da noite fez o Appell e saiu. Depois do banho veio o jantar. Levin permaneceu em silêncio durante toda a refeição e recusou o vinho italiano que chegara num dos últimos transportes, mas a sua simples presença à mesa, e também o facto de evitar o álcool quando ainda na véspera se encharcava em Schnapps, mostrava que algo havia mudado. Um choque como o que sofrera não passava nunca; aliás, nada do que os homens àquela mesa haviam visto e vivido nos crematórios alguma vez deixaria de os atormentar, mas ao menos ele estava de regresso ao mundo dos vivos.

Quando o jantar terminou, Kaminsky convidou-o a acompanhá-lo e abandonaram ambos o barracão.

“O dayan falou-me da vossa conversa e garantiu-me que poderemos contar consigo”, disse o Oberkapo. “Sabe, a dor que todos transportamos nunca desaparecerá. Mesmo que um dia consigamos sair daqui vivos, e não conseguiremos, façamos o que fizermos e vivamos o tempo que vivermos, esta chaga jamais irá sarar. A dor estará sempre cá dentro e só há uma forma de a domarmos.”

“Olho por olho, dente por dente.”

“Prefiro dizer que temos de fazer da dor a nossa razão de viver”, corrigiu-o Kaminsky. “É verdade que a maior parte dos nossos companheiros no Sonderkommando vive apenas porque quer viver, porque a vontade de viver se sobrepõe a tudo o resto, porque o instinto de sobrevivência é a coisa mais forte que temos. Alguns estão de tal modo brutalizados e desumanizados que deixaram de sentir o que quer que seja quando veem as pessoas ser gaseadas e depois arrastam os cadáveres para os fornos. Chegam a maltratá-las no vestiário, como já constatou. A única coisa que lhes interessa é sobreviver, sobreviver a todo o custo, sobreviver nem que seja apenas mais um dia, mesmo sabendo que acabarão por morrer. Eu também quero viver. Vim para aqui em janeiro de 1943 e toda a minha família foi selecionada na Rampe e morta no próprio dia da chegada. Também eu vivo porque o instinto de sobrevivência é mais forte que tudo o resto, mas não é apenas por isso. Vivo igualmente porque transformei a dor em alimento e não me resigno a esta morte de cordeiros a que os alemães nos votaram. Não me resigno.”

Estas palavras, vindas de quem vinham, não deixaram de espantar o seu interlocutor. Não o queria julgar, não estava na verdade em condições de o fazer, mas como podia uma pessoa que todos os dias conduzia inocentes à morte e lhes queimava os cadáveres dizer uma coisa daquelas?

“E no entanto participa nisto...”

O Oberkapo Kaminsky calou-se por momentos.

“O que sente quando vê as pessoas serem mortas?”

“O que sinto?”, admirou-se Levin, quase indignado com a questão. “Como pode perguntar-me uma coisa dessas?”

“Não me interprete mal”, apressou-se o responsável do Sonderkommando a dizer. “Apenas quero saber a que está disposto para travar isto.”

“A tudo. Estou disposto a tudo.”

O Oberkapo olhou em volta, quase instintivamente, antes de fazer a pergunta seguinte, esta num sussurro.

“Incluindo a... a revoltar-se?”

O mágico olhou-o, tentando perceber o sentido da pergunta e sobretudo se ela queria dizer aquilo que ele pensava. Não era a primeira vez que ouvia falar em revolta. Escutara aquela mesma palavra meses antes dos lábios de Alfred Hirsch. No entanto, não passara de uma promessa oca. Fredy falara-lhe em revolta e nada acontecera. Seria desse tipo de revolta que o Oberkapo também lhe falava?

“O que quer dizer com isso?”

“Responda à minha pergunta”, insistiu Kaminsky. “Estaria disposto a revoltar-se?”

Manteve a desconfiança. A experiência com Alfred Hirsch deixara-o de pé atrás. Mas o Oberkapo não era Fredy.

“Mais do que nunca.”

A resposta pareceu deixar o responsável do Sonderkommando aliviado.

“Ainda bem.”

“Porque pergunta?”

“Este assunto é absolutamente confidencial”, disse. “Só uma parte do Sonderkommando está a par, incluindo Gradowski e Shlomo. Precisamos de uma pessoa com talentos especiais nas artes da dissimulação e o Fredy Hirsch tinha-me dito que havia no campo das famílias um mágico que nos poderia ser útil.”

“O Fredy convidou-me de facto para colaborar nos preparativos de uma revolta. Mas depois não aconteceu nada.”

“A revolta não avançou na altura mas pode avançar agora”, afirmou Kaminsky. “Já há algum tempo que temos este plano e andamos a falar com a rede de resistência do Katzet, o Kampfgruppe Auschwitz. O problema é conseguirmos armas e munições. Quando o Fredy me falou em si, pensámos que nos poderia ajudar. Só que o Fredy e os elementos do seu transporte de Theresienstadt foram gaseados e não houve revolta nenhuma. Pensei que tínhamos perdido o seu rasto. Mas você apareceu.”

As peças começavam a encaixar.

“Daí que me tenha colocado sob a sua asa...”

O Oberkapo colou a ponta do indicador no peito do interlocutor.

“Precisamos de si”, disse com ênfase. “Podemos contar consigo?”

“Para fazer o quê? Já lhe disse que o Fredy me falou na mesma coisa e depois isso não deu em nada...”

Kaminsky manteve o olhar fixo nele.

“Podemos ou não contar consigo?”

Ou seja, só lhe diria mais se ele se comprometesse. E deveria comprometer-se? Baixou a cabeça e, esfregando o queixo, ponderou a questão. A desilusão com Fredy deixara-o desconfiado. Para que se iria meter numa coisa daquelas se depois nada seria feito? Por outro lado, qual a dúvida? Não esquecia a dor que o consumia por dentro, a dor que o levara para o abismo e que no desespero se transformara na fonte que alimentava o seu desejo de viver. Vivia para prestar testemunho e a revolta seria o maior de todos os testemunhos.

O dayan Langfus tinha-lhe falado na mitzvah dos que sobreviviam e Gradowski havia-lhe mostrado que essa mitzvah passava pelo dever de prestar testemunho. Nesse momento Kaminsky apresentava-lhe o mesmo caminho que Fredy lhe apresentara, mas Kaminsky parecia-lhe mais determinado, dispunha de mais recursos e dava a impressão de saber o que fazia. O Oberkapo propunha-lhe ir mais longe, muito mais longe do que pensara ser possível. Como podia recusar? Não havia ele próprio dito ainda momentos antes que estava disposto a tudo? As mortes em rebanho tinham de acabar, alguém tinha de pôr cobro àquela loucura.

Levantou a cabeça e, acreditando ser essa a missão da sua vida, apertou a mão do Oberkapo Kaminsky.

“Podem contar comigo.”