O Manuscrito de Birkenau
Capítulo XII
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A cena final de Das Bad auf der Tenne arrancou uma chuva de aplausos entusiásticos à plateia. A fita tinha chegado ao fim e Francisco fez sinal ao prisioneiro polaco de que ligasse as luzes do cinema e desligasse o projetor, o que o homem fez de imediato. Depois de retirar o grande rolo de fita, o recluso devolveu-o à caixa da UFA, a produtora alemã de cinema, e entregou-o ao SS-Mann.
O português abandonou o cubículo de projeção com a caixa debaixo do braço e contemplou a sala de cinema. Os SS convergiam já para a saída e conversavam animadamente, comentando as peripécias da comédia. Identificou na multidão o oficial que procurava e desceu as escadas, misturando-se com os alemães.
“E a cena em que a mulher do presidente da câmara percebeu que o marido também tinha espreitado Frau Antje a tomar banho?”, perguntava um à direita, revivendo com entusiasmo o momento mais cómico da película. “Ach, foi o máximo!”
“Ri-me até às lágrimas”, dizia outro. “São filmes assim que nos dão ânimo na nossa missão sagrada.”
“A cores é muito melhor”, observava alguém. “Que diferença!”
“É o futuro, meu caro. É o futuro.”
Essa era de facto uma das principais novidades de Das Bad auf der Tenne, como Francisco sabia. Os alemães esforçavam-se por recuperar o atraso em relação aos filmes americanos e pelo menos nas cores estavam a consegui-lo. Evidentemente que se encontravam ainda muito longe de fitas como E Tudo o Vento Levou, o grande êxito dos últimos anos, até porque não tinham nenhum Clark Gable. A não ser que recorressem ao doutor Mengele, claro. Não seria má ideia levarem Herr Doktor para o cinema, considerou o português. Seria uma maneira de o manterem, a ele e às suas temíveis Selektionen, longe do campo das mulheres. E de Tanusha.
Manteve os olhos no SS que procurava. A multidão movimentava-se devagar para a saída, sobretudo enquanto permanecia compacta, pelo que Francisco teve de ter paciência. Uma vez no exterior, acelerou o passo.
“Unterscharführer Broad?”
Ao ouvir o seu nome, o SS brasileiro voltou-se.
“Oi! Por aqui?”
“O Oberscharführer Knittel pôs-me na secção do cinema”, explicou. “Agora sou eu quem tem de vigiar as projeções. Que tal achou o filme?”
“Muito bom. Essa comédia era mesmo bacana.”
“Tenho aconselhado comédias ao Oberscharführer Knittel. É do que o pessoal mais gosta.”
Na verdade, mais de metade dos filmes produzidos na Alemanha sob os auspícios do Ministério da Propaganda eram comédias e apenas um número reduzido podia ser considerado de propaganda. Herr Goebbels pelos vistos achava que em tempo de guerra era melhor distrair as massas do que doutriná-las.
“Então e seu espetáculo de magia?”, perguntou Broad. “Você não tinha um projeto desses?”
“Tinha e tenho. O problema é o mágico. Está no campo das famílias e...”
O SS brasileiro fez uma careta.
“Opa! Não vai durar muito.”
“É justamente por isso que queria falar consigo”, indicou Francisco. “Ouvi dizer que o comandante de Auschwitz foi demitido e que vem aí um novo. O senhor acha que isto vai melhorar ou...”
Cruzaram uma multidão de judeus que caminhava em sentido contrário e calaram-se por momentos. A sala de cinema de Birkenau ficava ao pé de um dos crematórios e aquela gente tinha acabado de chegar e ia ser morta.
“Está vendo esse pessoal?”, murmurou Broad. “O afastamento do Obersturmbannführer Liebehenschel do comando de Auschwitz quer dizer que a paciência de Berlim se esgotou. O Liebehenschel foi acusado de ser muito mole com os judeus e de sabotar a solução final do problema. Agora o comando do Katzet será dividido. O Sturmbannführer Richard Baer fica comandante de Auschwitz I e o Hauptsturmführer Josef Kramer comandante de Birkenau. Mais importante, Höss vai regressar.”
“Quem?”
“O primeiro comandante de Auschwitz. Quando o Höss estava aí, a matança de judeus era uma barbaridade. Minha nossa, você nem imagina! A Gestapo fazia o que queria e os crematórios pareciam fábricas. Foi com o Höss que se estreou o Zyklon B nos presos. Ele não vem como comandante, mas sim como chefão de uma operação especial, a Aktion Höss. Será na prática o manda-chuva do extermínio. Os crematórios vão ter bastante trabalho, viu?”
“Acha que ele vai liquidar o campo das famílias?”
“Lógico. Seu mágico vai fazer o maior truque da sua carreira.” Indicou o crematório ali perto. “Vai se transformar em fumo e sair pela chaminé. Com o Höss aí, vai ficar difícil p’ra todo mundo.”
“Oiça, se eu quisesse safar o meu mágico e a família dele, o que me aconselharia a fazer?”
“Rezar.”
“Preciso de algo mais prático.”
Broad tirou um maço do bolso e meteu um cigarro à boca.
“Veja se consegue transferi-los.”
“Para onde?”
Ocupado a acender o cigarro, o SS brasileiro só respondeu depois de largar a primeira baforada.
“A liquidação do campo das famílias não vai ser moleza”, considerou. “O Lagerführer Schwarzhuber tem um carinho especial por esse campo e a recente liquidação do transporte de setembro foi meio dura p’ra ele. Aliás, p’ra todos. Muitos SS gostavam de visitar o barracão das crianças p’ra ver os teatrinhos e as musiquinhas. Além disso, conheciam vários prisioneiros e, acredite ou não, simpatizavam com eles. O pessoal ficou bravo com o tratamento especial dos judeus do campo das famílias. Alguns estão dizendo que da próxima vez é preciso impedir que se acabe com todo mundo. Prevejo que por isso muitos ocupantes do campo das famílias serão transferidos p’ra campos de trabalho fora de Auschwitz, de modo a terem uma oportunidade de sobreviver. De resto, alguns departamentos acham que é um desperdício exterminar mão-de-obra tão necessária ao Reich nesse momento tão delicado. Sugiro que seu mágico e a família se candidatem às transferências quando elas aparecerem. É a única maneira, entendeu?”
“Mas eu preciso dele aqui em Birkenau” insistiu o português. “Bem vê, sem mágico não há espetáculo de magia.”
Pery Broad libertou uma nova baforada acinzentada.
“Então fale com o Knittel”, sugeriu. “Ele que faça o pedido de transferência p’ra outro lado.”
O olhar de Francisco deteve-se por momentos no rosto de algumas mulheres e crianças que para lá da vedação caminhavam para o seu destino. Estavam vivas, mas era como se fossem já cadáveres. E atrás destes judeus mais judeus viriam, incluindo Levin e todos os que se encontravam no campo das famílias. Com o velho comandante de regresso a Auschwitz, o extermínio ia acelerar. O tempo esgotava-se.