O Manuscrito de Birkenau
A magia das cinzas
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A ti, homem que descobriste estes meus escritos enterrados junto de um dos crematórios deste inferno chamado Auschwitz-Birkenau, informo-te de que tens nas mãos um documento histórico da maior importância e rogo-te que o leves a quem de direito para que este manuscrito veja a luz do dia e o mundo inteiro tome enfim conhecimento dos graves acontecimentos que aqui tiveram lugar. Imploro-te que respeites esta última vontade de um desgraçado que vive na treva absoluta e sabe que deste abismo não há saída, um miserável que apenas existe para prestar testemunho e nessa missão encontra o único sentido da sua existência. Se me negares este pedido, meu irmão, é porque te tornaste ainda mais desgraçado do que eu, pois só uma alma perdida pode ignorar a derradeira vontade de um condenado.
Entrego-me pois a ti, homem que descobriste este meu testemunho, e em ti deposito a minha última esperança de que neste mundo haja nem que seja um lampejo de justiça. O meu nome é Herbert Levin e se perguntares por mim em Praga talvez te falem no Grande Nivelli, o mágico que um dia fui, e se estudares a minha história e genealogia saberás que sou de Berlim, tenho as minhas origens em famílias de sefarditas de Amesterdão, as quais têm as suas origens em Portugal, as quais têm as suas origens em Jerusalém.
No momento em que redijo estas tristes linhas estou no bloco treze do Sonderkommando e, juntamente com os meus companheiros, sou o homem mais infeliz à face da Terra, pois foi-me imposta a missão de colaborar no mais hediondo dos crimes que um homem pode cometer contra outro homem, o de exterminar o seu próprio povo. Não tem descrição o que aqui se passa e sei que quando tudo acabar as pessoas terão dificuldade em acreditar que aconteceu. Não as censuro, pois reconheço que a dimensão desta barbárie é de tal modo monstruosa que parece alucinação de uma mente tresloucada.
Não vou contar tudo o que sucedeu nestes crematórios. Para isso existem outros manuscritos de companheiros meus que aqui estão há mais tempo e se encontram em melhor posição para o fazer, se é que tal é possível, pois a enormidade do que aqui vivemos ultrapassa a mais doentia das imaginações. Vasculha bem nos terrenos em torno dos crematórios, homem que descobriste esta minha memória, e encontrarás aí enterrados outros escritos de infelizes como eu. Nestas páginas apenas te contarei o que aconteceu no dia do extermínio do campo das famílias, e por uma razão muito simples: é que eu estive nesse campo e coube-me a terrível sina de ser cúmplice na sua liquidação final.
Quando nessa noite saímos do bloco treze, ao todo cento e quarenta homens do Sonderkommando, sabemos que vamos ajudar a matar as pessoas do campo das famílias pois tal não constitui segredo entre nós. Caminhamos em silêncio, de cabeça baixa, já de luto. Não se imagina o desânimo, a tristeza, o desespero que se apodera das nossas almas. E de mim em particular. Todos já tínhamos participado em inúmeras matanças nos crematórios, o gaseamento dos deportados não era novidade, mas as gentes que morriam raramente sabiam que a morte as esperava, pensavam que iam simplesmente tomar banho e depois comer e dormir. Nós alimentávamos-lhes essa ilusão para não lhes causar um sofrimento inútil e, tenho de o admitir, para sobrevivermos. Esta missão de colaborar na matança de crianças, mulheres e homens inocentes é terrível, mas o sofrimento deles limita-se ao momento em que os cristais de gás são despejados na sala subterrânea e é nisso que encontramos conforto para o mal que a morte deles faz à nossa consciência.
Desta feita, porém, é diferente. As pessoas que vão ser assassinadas viveram seis meses em Birkenau. Sabem o que se passa nos crematórios, pois não podem deixar de relacionar os comboios que veem chegar diariamente, as multidões que para aqui são enviadas e daqui não saem, o fumo que jorra das chaminés e o cheiro a carne queimada que se infiltra por todo o lado. Além disso o movimento de resistência está informado e comunica tudo pelos canais clandestinos, como se comprova pelos boatos que circulam sem cessar por todo o campo. O que quero dizer é que as vítimas que aí vêm sabem ao que vêm. Sabem que vão ser mortas. Sabem. E isso muda tudo. Ademais, conhecemos pessoalmente muitas delas. Sobretudo eu, que vim do campo das famílias. Como poderei participar no festim do seu extermínio?
Quando chegamos ao crematório escolhido para a matança, os grandes senhores já lá estão com as suas calças de cavaleiros, as botas negras de cano alto reluzentes de tão bem engraxadas, as caveiras nos colarinhos e nos bonés. Todos aprumados e preparados para o combate, de armas nas mãos e cães a postos, pois vem aí o perigoso inimigo, as crianças, mulheres e homens indefesos que pelos vistos tanto ameaçam a Alemanha e a sua raça de senhores.
Todo o perímetro do crematório está cercado por soldados bem armados, as espingardas e metralhadoras a postos, as granadas à cintura, os projetores instalados em camiões para iluminar o palco. Não se pouparam a nada para a farra, os grandes senhores. Até mandaram vir reforços e um camião adicional de munições, tal o temor dos altivos representantes da raça superior perante a ameaça de pobres civis desarmados que, ao contrário de tantos outros que caminham cegos para a morte, sabem perfeitamente o que os espera.
Um silêncio absoluto paira sobre o campo. Mesmo os grandes senhores, habitualmente a transbordarem de soberba, parecem intimidados. Trata-se decerto da calma que precede as hecatombes. Ouvimos a certa altura um ronco distante a afastar-se e percebemos que são as motos e os camiões que partem para ir buscar “o inimigo”. Passado um pouco o vento traz-nos o clamor da multidão entre os gritos dos grandes senhores que a forçam a entrar nos camiões e os latidos furiosos dos cães que os ajudam na sua missão. A berraria prossegue por longos minutos, com certeza entre bastonadas e coronhadas. Por fim todas aquelas vozes em pânico são abafadas pelo ronco das motos e dos camiões, já em crescendo porque se encaminham para nós.
Trocamos um olhar nervoso, cientes de que a terrível hora se aproxima. Os camiões vêm a caminho com as primeiras vítimas. Imaginamo-las fechadas na carga, os olhos ansiosos a espreitarem das janelas para perscrutar o mundo e respirar o ar que dele vem; veem as luzes e procuram uma fuga que não existe, sentem-se consumidas pela aflição, é a sua última viagem e têm o destino marcado.
Os camiões param junto ao crematório. Ouvem-se portas a abrir-se, ordens em alemão e por fim um murmúrio tenso da multidão, alguns gritos, crianças a chorar, gente aterrorizada.
“Vão buscá-las!”, ordena-nos o Hauptscharführer Moll. “Schnell! Schnell!”
Sob os olhares atentos dos grandes senhores, encaminhamo-nos para os camiões. E elas ali estão, as mulheres e as crianças. Os carrascos decidiram começar por elas e só depois irão buscar os homens. Primeiro apenas vislumbramos sombras em movimento mas depressa os vultos se transformam em pessoas que descem sem resistência dos camiões, mulheres com crianças ao colo ou pelas mãos. Ao ver-nos imploram que as salvemos, a elas e às crianças, e quase desfalecem quando percebem o nosso desespero, a nossa incapacidade, a nossa inutilidade. Somos os seus homens e não passamos de impotentes.
Só então, já sem esperança e resignadas, ficam ao abandono e se deixam conduzir pelo caminho que as leva onde todos sabemos que levará. Caminhamos em silêncio, nós ao lado delas, nossas irmãs, muitas tinha-as eu visto no campo das famílias; quero consolá-las, dar-lhes uma palavra de conforto, apaziguar o turbilhão que lhes revoluteia na alma, mas não sei o que dizer, não faço ideia como se lida com alguém nesta situação. Cada passo as aproxima um pouco mais do crematório e não há maneira de travar esta marcha, de dar meia volta, de as proteger e levar dali para fora. O meu único consolo é saber que a minha mulher e o meu filho escaparam a tempo; candidataram-se a um campo de trabalho e livraram-se assim deste fim terrível.
Chegamos diante do edifício e deparamo-nos com a porta escancarada como uma boca, o insaciável Moloch que se abre a todos os judeus para os devorar. Antes de entrarem elas erguem o olhar aflito, como se buscassem Deus, como se esperassem um milagre vindo dos Céus, e pela última vez, a sua última vez, fitam as estrelas que cintilam lá no alto com indiferença altiva, chocante na sua frieza, como se o próprio Céu não quisesse saber delas, até que com um suspiro angustiado se despedem do mundo e mergulham naquela boca escura e as estrelas frias são substituídas por lâmpadas amareladas.
Entramos em silêncio no antro da morte. Os olhos delas disparam em todas as direções, tentando compreender aquele sítio impessoal, adivinhar onde se esconde a ameaça, perceber de onde virá a morte. A grande sala revela-se profunda, sombria, sustentada por doze pilares, tantos como as doze tribos de Israel, em torno dos quais se estendem bancos preparados para acolher as roupas. Num dos pilares está pregada uma tabuleta em várias línguas a anunciar “banhos”, mas todas sabem que não há banhos nenhuns, a água é o gás, os banhos são a morte, e elas chegaram à antecâmara do seu túmulo. Nós, os do Sonderkommando, baixamos os olhos, embaraçados, estupidificados, incapazes de dizer o que quer que seja, as mentes vazias e os corações a sangrar, pois as mulheres percebem tudo e nós encolhemo-nos de vergonha e compaixão, mas não nos encolhemos tanto como gostaríamos, pois se pudéssemos encolhíamo-nos até desaparecer.
Os camiões continuam a chegar e mais e mais mulheres e crianças vão enchendo o vestiário, todas conscientes de que vivem os seus últimos momentos, todas a estudar o espaço com temor, todas a fitarem-nos com os seus grandes olhos assustados, olhos de vítimas e de juízes, olhos que nos julgam, olhos de quem espera de nós um gesto que as salve. E nós de ombros caídos e olhares derrotados, perdidos e incapazes do que quer que seja; na nossa cobardia nem homens chegamos a ser. Queremos dizer-lhes que se dispam, como tantas vezes tínhamos dito a outros que ali chegaram como elas, mas não conseguimos porque estas não são os outros, estas vêm de cá e os outros de alhures, estas sabem e os outros não sabiam, estas julgam-nos e os outros não nos julgavam.
“Diz-me, irmão”, murmura uma mulher que me reconhece do campo das famílias, de mãos dadas às suas duas meninas assustadas. “Como vai ser a morte?”
Olho-a, horrorizado, sem saber o que dizer. Como se responde a uma pergunta destas?
“Quanto tempo vai demorar?”, insiste ela. “Será doloroso? Vamos sofrer muito?”
O que se responde? O quê, o quê? Como se descreve a uma mulher e a duas crianças a forma como vão morrer? Como se lhes conta que, quando as portas se fecharem e os cristais caírem, serão esmagadas pela turba que tentará desesperadamente escapar ao gás ou acabarão envenenadas se porventura se esquivarem à multidão enlouquecida na vertigem da morte iminente?
“Dispam-se!”, berra da entrada um alemão que começa a distribuir bastonadas pelas mais próximas. “Los! Los! Tirem as roupas imediatamente! Schnell!”
As bastonadas caem por toda a parte e têm um efeito eletrizante nas condenadas, pois também as roupas começam a cair. As desgraçadas despem-se rapidamente para evitar os bastões e depressa se começam a ver mulheres e crianças nuas. Sabemos por experiência que a roupa é o último bastião; um ser humano vestido é sempre capaz de se defender, mas não um ser humano nu. Quem está nu está exposto ao mundo, desprotegido e vulnerável perante os outros, pior quando os outros são o lobo.
Acontece então algo inesperado. Uma rapariga nua encosta-se a mim e acaricia-me. Recuo um passo, desconcertado, e apercebo-me de que outras se abraçam também aos meus companheiros do Sonderkommando e beijam-nos com corpos palpitantes e lábios ardentes, sequiosas e frenéticas. A que me tinha acariciado agarra-se a mim e apalpa-me a masculinidade como se me testasse, como se me convidasse. Já não há moral nem pudor, apenas fêmeas com fome de amor.
Talvez nos proponham assim uma troca desesperada; oferecem-se-nos se as protegermos, dar-se-ão a nós se nos erguermos para as salvar. Os corpos em troca da vida. Ou se calhar não é isso. Talvez procurem simplesmente nos estranhos que somos um afago, um consolo, um gesto de amor que as resgate do ódio que as levará. Ou quem sabe se não se trata antes da maneira de expressarem o desejo desesperado de viver? No fim de contas o amor é a vida. A mente pressente o fim mas os corpos recusam-se a aceitá-lo, anseiam pela vida e pelo que de bom ela tem. Vibram com a pulsão da carne, buscam um último prazer, uma derradeira alegria. Talvez queiram simplesmente sentir-se vivas, gozar em pleno aqueles momentos finais, ser mulheres uma última vez e que essa despedida dure tanto que seja eterna. Mas não somos capazes de uma coisa dessas num momento daqueles e, para nossa eterna vergonha, retraímo-nos como eunucos. Até o desejo de amor lhes negamos.
Mais gente vai chegando dos camiões e de repente ouvem-se gritos de mulheres e choros. Olho para a entrada e percebo que são mães e filhas que não sabiam umas das outras e que se reencontram na antecâmara. Abraçam-se e riem-se e choram ao mesmo tempo. Dir-se-ia que se sentem quase felizes por saber que não irão morrer rodeadas de estranhos, que estarão de mãos dadas e isso neste momento vale para elas muito mais do que se poderia imaginar. Buscam ilhas de afeto num oceano de medo.
Todas se despiram e alinharam na sala, umas a chorar, outras de mãos dadas, várias petrificadas, em choque e sem palavras. Vejo uma rapariga agitada, a arrancar os cabelos e a contorcer-se, e aproximo-me para tentar acalmá-la.
“Onde estás tu, meu amor?”, geme. “Porque não vens ter comigo? Já...”
“Menina...”
“... não me queres, é isso?”
Quando me abeiro dela, uma mulher ao lado toca-me no ombro.
“Deixe-a estar”, recomenda. “Enlouqueceu ontem à noite quando foi separada do namorado e soube que íamos ser trazidas para aqui.”
Percebo que ela tem razão e afasto-me uns passos, procurando alguém a quem possa realmente ajudar. Um voluntarismo estúpido, é verdade. Que tipo de ajuda posso eu dar numa hora destas? Ajudá-las em quê, se não as posso salvar? Ajudá-las a morrer? Isso é ajuda?
“Somos tão novas”, lamenta-se uma rapariga que me interpela. “Porque nos fazem isto?”
“Gozei tão pouco a vida”, diz outra. “Quero viver, quero sair daqui, quero... quero...”
Exprimem-se com uma estranha calma, como sonâmbulas. Estão ali mas sentem-se a sonhar. Não suplicam, nada exigem nem se revoltam. Falam simplesmente para exprimir o que sentem. Talvez seja uma forma de lidarem com a ansiedade. Limitam-se a partilhar os desejos e os medos e a comunicar os seus pensamentos a alguém que irá viver e que, ao levá-los consigo para o mundo, garantirá que ao menos uma parte delas de alguma forma sobreviverá. E nós, os homens do Sonderkommando, sempre castrados, incapazes de as salvar, sem jeito para as consolar, impossibilitados de ser homens.
Olho para um lado e vejo mulheres abraçadas, buscando conforto naquela hora terrível. Olho para outro lado e dou com uma mãe sentada num banco com a filha adolescente debruçada sobre os joelhos, a cabeça colada ao ventre, as duas em lágrimas. Que pesadelo será este que não acaba? Quando despertarei de tal horror? Há choros, há gemidos, há um ou outro grito, mas em geral elas mostram-se absurdamente calmas. Talvez seja coragem, talvez simples incredulidade. Será que percebem mesmo o que lhes vai suceder?
Nós, os do Sonderkommando, sabemos tudo ao pormenor mais ínfimo. Estes corpos curvilíneos vão daqui a pouco estar contorcidos e cobertos de excrementos e urina, desta boca perfeita serão arrancados os dentes com um alicate, este rosto rosado tornar-se-á azul e aquela cara de alabastro passará a ser negra ou vermelha, estes lindos olhos claros ficarão inchados e injetados de sangue e aquele cabelo castanho aos caracóis será cortado por uma tesoura. Estão vivas e daqui a pouco serão estátuas repugnantes. Será que têm mesmo noção do que as espera? Como se explica esta calma desconcertante? Como podem estar as mulheres e as crianças tão tranquilas quando algo tão pavoroso lhes vai suceder daqui a poucos minutos?
Os grandes senhores perfilam-se então junto à porta do vestiário, guardados pelas suas armas e pelos cães que não cessam de ladrar. Estão ali todos. Moll, Schwarzhuber, Mandel, Steinberg, Eckardt, Buntrock, Baretzki, Gorges... até os energúmenos da Gestapo, que por aqui se chama Politische Abteilung, como o Oberscharführer Hustek e o Hauptsturmführer Boger. Vieram todos assistir à grande matança.
“Los! Los!”, rosna Moll, ameaçador. “Mexam-se! Mexam-se!”
As mulheres nuas começam a avançar pelo corredor que as conduz à sala ao lado. Ao beco sem saída. À câmara de gás. Caminham com passada firme, quase com orgulho, as mães com as crianças ao colo ou de mão dada com elas, as irmãs enlaçadas, sem súplicas, sem ilusões, sem pedidos de piedade. A última marcha. Caminham conscientes, sabem para onde vão e para o que vão, mas caminham, caminham sempre, caminham a passar diante dos SS e nenhuma lhes pede ou implora o que quer que seja. Até que param. Uma mulher que acompanha uma menina de cabelos encaracolados imobiliza-se diante dos grandes senhores e aponta-lhes o dedo.
“Assassinos, bandidos!”, vocifera. “Matam mulheres e crianças como se nós, desarmadas e indefesas, fôssemos o inimigo. Querem com o nosso sangue disfarçar as vossas derrotas, mas a nossa morte não vos impedirá de vos ajoelhardes perante os que vos vergarão. Agora estais impunes, mas o dia da vingança chegará, e esse dia já não vem longe. A Rússia vencerá e vingar-nos-á. Os nossos irmãos do mundo inteiro não descansarão enquanto não vos fizerem pagar tudo o que estão a fazer. A vossa hora aproxima-se!”
Com um gesto brusco esbofeteia o SS mais próximo e, agarrando a sua menina, corre para a multidão e refugia-se no meio dela. Observo os grandes senhores e vejo-os assombrados, mudos, tensos, incapazes sequer de olharem uns para os outros. A bofetada é o menos. O que os perturba é o que acabam de ouvir, pois as palavras da mulher têm o toque da verdade. São a verdade. E eles sabem-no. Nos últimos tempos leram e ouviram as notícias, vislumbraram nas entrelinhas a derrota que se avizinha, falaram dela em surdina, mas eis que esta judia a gritou a plenos pulmões nas suas caras, gritou-a com tal intensidade que não era possível ignorá-la nem fingir que não a ouviram. A verdade da queda iminente do seu Reich dos mil anos, a verdade da humilhação mais completa e da ignomínia mais profunda que se avizinhava para o seu povo, mas também a verdade sobre a infame nódoa com que conspurcavam o nome do seu próprio país, uma vergonha tão tremenda que ninguém alguma vez a poderá remover.
Uma segunda rapariga volta-se para eles, encorajada pelo exemplo daquela mãe que se escapulira. É uma loura bonita e voluptuosa em quem os grandes senhores tinham reparado no campo das famílias e que seguiam com esgares lúbricos de homens desde que ela se despira.
“Criminosos!”, insulta-os a loura. “Olham-me com os vossos olhos porcos e imaginam-me nas vossas nojices. Têm-me aqui nua, vocês que só assim me podem ver porque me encontro à vossa mercê. Mas o vosso jogo está a chegar ao fim porque não é possível matar todos os judeus e judeus sobrarão no mundo que em breve vos darão caça como aos animais que sois pelos crimes que cometeis.”
Tal como a mulher anterior, atira-se sobre os grandes senhores e esbofeteia um deles, mas estes desta feita não são apanhados de surpresa e uma chuva de bastonadas e coronhadas abate-se sobre a loura. A rapariga tem de ser resgatada pelos seus, atordoada e a cabeça em sangue, e é arrastada para o corredor. A marcha é retomada e as mulheres e as crianças recomeçam a longa procissão para a câmara de gás. Já não falta muito para que todas entrem, já não falta muito para que a porta se...
“Bertie?”
Ao ouvir a voz, esta voz de mulher tão familiar, fiquei imobilizado com o horror. Só havia uma pessoa no mundo inteiro que me chamava assim. Uma única. E não estava aqui. Não estava. Não podia estar. Incrédulo, em pânico, implorando a Deus que não me fizesse uma coisas dessas, uma coisa dessas não, não podia ser, era demasiado cruel, era impensável, agitado e a tremer voltei-me para o lado e vi-os, vi a minha mulher e vi o meu filho, o meu pequeno e querido menino, ambos nus, ambos a caminho da câmara de gás, os dois parados a olharem para mim e eu a olhar para eles, eles a tremer e eu atónito, os três em choque, sem querermos acreditar, acordados e a sonhar, vivos e mortos, eu vivo, eles já mortos.
“Gerda!? Peter!?”
O pequeno sai da fila disparado e agarra-se a mim, enlaçando-me pela cintura e encostando a cabeça quente ao meu peito.
“Paizinho!”
“Mas... mas...”
“Bertie!”, sopra Gerda, abraçando-me também. “Bertie, ajuda-nos!”
Olho-os e recuso-me a crer no que vejo, nego a evidência que se impõe diante de mim. Não pode ser, pura e simplesmente não pode ser. Não podem ser eles, tem de haver engano, são parecidos mas não são eles, não há maneira de serem eles, eles saíram e foram para outro campo, não podem estar aqui, não estão aqui.
Gerda e Peter... aqui?
“Vocês... vocês não foram para outro campo?”
“Eu tentei, Bertie, juro que tentei”, diz-me ela com amargura. “Disseste-me que me candidatasse às transferências que aparecessem e até o SS português insistiu que o fizesse, obrigou-me a prometer que o faria. Quando a hora chegou, no entanto, eles disseram-me que eu podia ir mas o Peter não, o nosso menino era demasiado pequeno e teria de ficar. E eu... eu não tive coragem de o deixar para trás, de o deixar sozinho, de o abandonar. Foi por isso que fiquei.”
“Mas não houve há dias uma Selektion de noventa crianças? Porque não o puseste lá?”
“Porque... porque isso significava que o Peter se separaria de mim. E não percebi para que era a Selektion. Nesse dia o teu amigo português veio ao campo e escondi-me dele para que não nos visse, pedi até que lhe dissessem que tínhamos partido, para que não me forçassem a separar-me do nosso menino e para não ficares ralado connosco porque tinha a certeza que a ralação era desnecessária e que nos iríamos salvar. E afinal... afinal aqui estamos nós, Bertie, meu Bertie, meu querido Bertie.” Olhou em volta, assustada. “Dizem que nos vão asfixiar, que nos vão matar, que vamos sair pela chaminé, que... oh, meu querido. Não é verdade, pois não? Não nos vão fazer isso, pois não?”
Só então toda a terrível realidade da situação me caiu sobre os ombros. A minha mulher e o meu filho afinal continuaram durante todo este tempo em Birkenau. Julgava-os já longe, fora de perigo, num campo de trabalho qualquer daqueles para onde enviaram outros voluntários do campo das famílias, e eis que eles ali se encontravam no crematório, nus, a caminho da câmara de gás, e eu com a missão de ajudar os grandes senhores a gaseá-los, a matá-los, a retirar os seus cadáveres negros e cobertos de excrementos e a entregá-los aos homens dos fornos para que os transformem em cinzas. A minha família. A minha própria família.
“O que se passa?”
Olho para o homem que fala atrás de mim e, aliviado, vejo o Oberkapo Kaminsky. Apercebera-se de que algo de anormal se passava e veio ver do que se tratava. Sinto uma lufada de esperança soprar-me na alma, pois se há alguém capaz de falar de igual para igual com os alemães e convencê-los, se há alguém que sabe como proceder numa situação destas é o Oberkapo Kaminsky.
“É... é a minha mulher e o meu filho, Oberkapo”, revelo-lhe. “Houve um engano. Eles estão aqui e preciso de os salvar. Por favor, ajude-me a tirá-los daqui. Por favor.”
O responsável pelo Sonderkommando fita com surpresa Gerda e Peter, e estes olham-no com ansiedade e esperança, como se ele fosse o juiz e tivesse sobre todos o poder de vida ou de morte. Após uma longa pausa para digerir a situação, engole em seco.
“Escuta, Levin. Posso dizer ao Malakh HaMaves que está aqui a família de um elemento do Sonderkommando e pedir-lhe que autorize que ela saia. Acho que ele aceitará o pedido. Mas...”
“Então fá-lo!”, quase grito. “Tira-os daqui imediatamente!”
“Ouve-me, Levin”, prossegue, pousando a mão no meu ombro num gesto de compaixão. “É preciso que não te iludas. Quando os retirar daqui, o Malakh HaMaves levá-los-á para trás do crematório e dar-lhes-á um tiro na cabeça. Ou far-lhes-á algo ainda pior, como bem sabes. Nenhuma mulher ou criança entra no crematório e sai viva. Nenhuma.”
Agarro-me ao Oberkapo pelos ombros e sacudo-o, tentando fazê-lo entender que este caso é especial.
“Tem de falar com ele e dizer-lhe que há um engano, que a minha mulher e o meu menino vieram para aqui por lapso e que o seu verdadeiro destino é um campo de trabalho, que os dois podem ajudar o Reich, que eles...”
“Was ist los?”, brame da entrada uma voz que todos já aprendêramos a temer. “O que se passa?”
O Oberscharführer Otto Moll, o terrível chefe dos crematórios, acabara de notar a anomalia nos procedimentos e interviera. O tempo escapava-se-nos como água entre os dedos.
“Então?”, sopra-me o Oberkapo Kaminsky, a voz dominada pela urgência a pedir uma decisão imediata. “Tiro-os daqui e ele abate-os a tiro lá atrás ou... ou deixo-os ficar?”
O meu olhar horrorizado saltita entre o rosto expectante do Oberkapo, as caras ansiosas de Gerda e do meu pequeno Peter e a expressão colérica do Oberscharführer Moll. Como me podem fazer esta pergunta? Como me podem pedir que tome essa decisão? Que homem pergunta a outro homem como quer que a família morra?
“Eu... eu não posso decidir uma coisa dessas...”
“Oberkapo, o que se passa?”, vocifera o oficial SS, claramente à beira de uma explosão de fúria. “Porque está isto parado? Toca a mexer! Los! Los!”
“Então, Levin? O que fazemos?”
Sinto-me enlouquecer. Que mundo é este?
“Oberkaaapo!”
O grito do Oberscharführer Moll é final e sabemos que a todo o momento ele virá desembestado por ali dentro.
“Levin!”, implora Kaminsky. “O que fazemos?”
Não sei não sei não sei.
“Eu... eu...”
O Oberkapo deita a mão a Gerda e Peter e puxa-os.
“Vou levá-los lá para fora e o Malakh HaMaves...”
“Não!”, travo-o. “Não!”
“Então?”
Atiro um olhar de pânico à minha família. Deixar que o meu menino e a minha mulher sejam entregues ao facínora do Moll está absolutamente fora de questão. Mas qual é a alternativa? Onde se encontra a saída deste dilema? O que faço?
Respiro fundo, derrotado.
“Vou com eles.”
“Espera...”
Mas já nesse instante, num impulso mas ao mesmo tempo consciente do que faço, pego no meu Peter e na minha Gerda e, ai de mim!, mergulho com eles naquela corrente de gente. Metemos pelo corredor, o corredor da última caminhada, enquanto Kaminsky lá atrás grita por mim.
“Levin! Levin!”
Ignoro-o e prossigo de mãos dadas com a minha família até desaguarmos na grande sala da morte. A câmara de gás.
A sala está apinhada de gente, mulheres e crianças nuas, apertadas umas contra as outras como em conserva. Faz calor e o ar está viciado, e sempre mais gente a entrar, dir-se-ia um rio sem fim. As lâmpadas ao pé das falsas bocas de chuveiro no teto conferem ao espaço um certo ar fantasmagórico. Tudo parece irreal. Caminho como um sonâmbulo, sempre como se flutuasse num sonho, a furar entre as pessoas à procura de um dos respiradouros por onde entra o Zyklon B.
“Ali! Ali!”
Localizo uma dessas entradas de ar e levo a minha família para baixo dela.
“Bertie, fala comigo”, implora-me Gerda. “O que se passa?”
Ela e Peter tremem e choram, assustados, e procuro tranquilizá-los.
“Tenham calma”, peço-lhes. “É só um mau momento. Quando sentirem objetos a cair por este respiradouro, não fujam. Respirem fundo e não fujam. Assim será mais rápido.”
A minha mulher abraça-me e o meu menino também.
“Tenho medo! Tenho tanto medo!”
“Chiu”, sopro, sempre a esforçar-me por serená-los. “Chiu.”
Aperto-os com força, são a carne da minha carne, e desejo ardentemente que tudo se faça com rapidez, que o Malakh HaMaves feche depressa a porta, que o doutor Mengele verifique que a temperatura é a correta, e é, considerando o calor que está aqui dentro, e que mande de imediato proceder ao tratamento especial. E que o Rottenführer Scheinmetz suba prontamente lá a cima e sem perda de tempo despeje os cristais de Zyklon B. Que tudo seja rápido, pois esta espera é uma tortura. Se nos vão matar, então que matem, matem depressa e ponham fim a este suplício.
“O que está aqui a fazer?”
A pergunta arranca-me da minha letargia. Como se despertasse olho para a pessoa que se me dirigiu e reconheço uma das professoras de Peter no barracão-escola de Alfred Hirsch, no campo das famílias. Ela também me reconheceu, até porque sou o único homem na câmara de gás e ao contrário de toda a gente estou vestido, o que me destaca das mulheres e das crianças nuas à nossa volta.
“É a minha família.”
“Mas você não é obrigado a ficar aqui, pois não?”
“É a minha família.”
A professora desvia o olhar para Gerda.
“Se ele não tem de morrer, vai deixá-lo morrer?”, questiona com a expressão severa das instrutoras habituadas a impor disciplina nas salas de aula. “Ele, que perante a humanidade inteira tem o dever de testemunhar sobre o que nos estão a fazer? Vai deixar que esta testemunha morra? Quem vai levar ao mundo a notícia do que aqui se passa?”
A minha mulher, que tremia sem cessar, encara-me como se acabasse de receber uma revelação.
“Ela tem razão, Bertie. Tens de sair.”
“Não, não”, recuso-me. “Fico aqui.”
“Não, Bertie”, insiste Gerda, agora com maior firmeza. “Tens de sair. Se podes viver, não faz sentido que morras. Ao menos...”
“Não.”
“... tu escaparás. Tens de sair.”
“Não, não.”
“Vai, Bertie. Vai por nós. Por favor, vai.”
Ela empurra-me e, pela primeira vez desde que toda esta loucura começou, pela primeira vez desde que as tropas nazis marcharam diante da nossa casa em Praga, pela primeira vez desde que todo o nosso mundo se desmoronou como se nunca tivesse sido feito de outra coisa que não areia, começo a chorar e é como se um imenso dique me rebentasse no peito.
“Não posso, não posso!”, grito a esvair-me em lágrimas e desespero. “Não veem que não posso?”
“Não percebes que tens de viver?”
“Viver como?”, titubeio num pranto incontrolável. “Não entendem que morro convosco, que vocês são a minha vida?”
A minha Gerda abraça-me, e o meu Peter abraça-me, todos choramos unidos pela aflição, perdidos e desamparados na nossa desgraça. Gememos ao abandono, somos os mais infelizes dos infelizes.
Neste nosso último abraço oiço a voz de Gerda soprar-me ao ouvido.
“Vai, meu querido”, sussurra ela. “Vai, que contigo vamos nós também. Tu morres um pouco com a nossa morte mas nós viveremos um pouco com a tua vida. Vai e vive por nós, vai e conta tudo ao mundo, vai e serve de testemunha, vai com vida para vingar a nossa morte. Vai.”
Não quero largá-los, não quero não quero não quero, mas Gerda empurra-me e as outras pessoas empurram-me, “vinga-nos, Levin!”, diz alguém, “conta ao mundo o que nos fizeram!”, eu choro e vejo tudo turvo, tento agarrar-me à minha família e já só sinto Peter a abraçar-me a cintura e oiço a sua vozinha desesperada, “paizinho!”, tento prendê-lo a mim mas os empurrões são mais fortes, são todas aquelas mulheres que me arrancam dos braços dos meus e me arrastam para fora da câmara da morte, “Peter!”, grito, “Gerda!”, escuto um novo “paizinho!”, tento voltar para lá mas estou cercado, as lágrimas toldam-me a visão, chamo outra vez pela minha família mas desta feita já não a oiço, as mulheres empurram-me e empurram-me e a certa altura já não são apenas elas, sinto duas mãos fortes levantarem-me pelo ar, escuto um “anda, Levin” masculino e percebo que é o Oberkapo Kaminsky que me veio buscar, “deixa-me!”, imploro, contorço-me para me libertar, quero a minha mulher, quero o meu filhinho, mas ele não me deixa, estou preso nos seus braços e flutuo.
Sinto de repente o ar fresco. Estou cá fora e oiço o Malakh HaMaves perguntar “o que se passa?” e o Oberkapo dizer-lhe que eu me tinha “sentido mal”. Choro e debato-me mas Kaminsky é muito mais forte e segura-me, segura-me até me meter uma garrafa à boca e o ardor da vodka me queimar a garganta e incendiar as entranhas. Vodka e mais vodka. Tento cuspir o álcool e apenas me engasgo. Engulo e engasgo-me e engulo.
Por fim, já na sala onde o carvão é armazenado, resguardado da insanidade que decorre nos aposentos vizinhos, ele estende-me no chão e só então me liberta. Tento levantar-me mas as pernas não obedecem; bamboleiam como esparguete cozido. Estou embriagado, volto a deitar-me para tentar recuperar a compostura e o mundo gira e gira e gira, os olhos pesam-me e de repente, como se alguém tivesse carregado num interruptor para desligar a luz, a minha consciência apaga-se.
E aqui estou hoje, ao fim da longa ressaca pela morte dos meus, o mais desgraçado dos desgraçados, sentado num cantinho do bloco treze do campo dos homens a datilografar numa máquina que me foi emprestada por Zalman Gradowski, o Schreiber do Sonderkommando, a martelar nas teclas para registar o que aconteceu porque esta confissão é a minha missão, foi isto que me pediu a minha Gerda e as outras que morreram naquela noite e é por elas e pelo meu pequeno Peter que estou aqui a escrever, a prestar testemunho, a gravar estas palavras no papel para que um dia tu, homem que descobriste estes meus escritos, os leias e sobretudo os dês a ler ao mundo, para que o mundo saiba o que nos fizeram, para que o meu Peter e a minha Gerda e todos os outros não tenham morrido em vão, para que dês um sentido à nossa vida e a minha sobrevivência sirva um propósito.
Sei que também não vou escapar. Ninguém escapa ao seu destino e o Sonderkommando muito menos. Eu e os meus companheiros estamos marcados para morrer e temos plena consciência de que daqui nenhum sairá. Ainda estamos vivos mas é como se já estivéssemos mortos, da mesma maneira que os vivos que entram naquela câmara de gás na verdade já estão mortos. É por isso que deixo estes escritos aqui escondidos. Para que a minha voz sobreviva à minha morte, para que com ela sobreviva também a minha pobre família.
Hoje sou um homem sem amanhã, que vive o presente esmagado pelo passado. Há uma coisa, todavia, que tenho de confessar. Falo de ideias como a vingança e sobretudo o imperativo de prestar testemunho sobre tudo o que nos está a acontecer, sobre a aniquilação da minha família, sobre o extermínio do meu povo. Eu, que estou vivo, apenas sobrevivi para me vingar e para testemunhar perante o mundo e a história. Se não fosse isso, já teria morrido.
Palavras bonitas, sem dúvida, mas quando as profiro talvez não esteja a ser inteiramente fiel à verdade nem sincero comigo e com quem me lê. É certo que a necessidade de retribuição e de prestar testemunho são o que mais pesa na minha determinação de sobreviver à morte dos meus. E, naquele momento terrível em que me abracei à minha família na câmara de gás, quis mesmo ficar lá e morrer com eles e nada me custou mais que abandoná-los à sua sorte para me salvar. Naquele instante teria preferido morrer a sobreviver e, se não fossem a Gerda, as pessoas ali fechadas e o Oberkapo Kaminsky, seria isso que teria acontecido.
Mas se for honesto, e na verdade imponho-me a mim próprio a honestidade mais absoluta, mesmo que a verdade me deixe nu e indefeso perante a crítica alheia e o julgamento que de mim próprio faço, terei de reconhecer que há algo que, passado esse primeiro momento, joga um papel mais importante na minha decisão de permanecer vivo. Algo que me enche de vergonha, algo que até perante mim me custa admitir mas que terei de fazer em nome do imperativo moral de franqueza a que aqui obedeço.
É que no meio de toda esta desgraça, de todo este sofrimento, do horror sem fim de quem viu a morte da sua própria família e de certo modo participou nela, o mais terrível é a vergonha. A vergonha. Não se trata simplesmente da vergonha de estar vivo quando a minha família morreu, quando tantas e tantas outras famílias morreram, quando colaborei direta ou indiretamente em todas essas mortes por causa do Sonderkommando. É também isso, é certo, mas é mais do que isso. Muito mais. A verdadeira vergonha, a grande vergonha, é ainda querer viver.
É essa a secreta e indizível motivação que verdadeiramente me move hoje. Quero viver. Bem posso falar na necessidade de vingança e de prestar testemunho, na necessidade de honrar um compromisso que assumi perante os meus naquele dia e naquela câmara de gás, e se invocar isso não estarei em bom rigor a faltar à verdade, mas obrigo-me a reconhecer que, se esgravatar nas raízes mais profundas das minhas motivações, o que realmente lá está, em toda a sua terrível nudez e crueza, é este desejo inquebrantável de viver. Quero viver e, seja qual for o argumento que invoque para legitimar esta vontade, essa permanece a razão mais importante.
No meio deste horror, onde está afinal a magia? Como já te revelei, homem que descobriste estes meus escritos, sou mágico e à magia dediquei a minha vida. Embora a experiência e a razão sempre me tenham dito que na vida não há magia, que a magia não passa do efeito maravilhoso que esconde o mecanismo trivial, pois é esse o verdadeiro segredo do ilusionista, o meu coração de mágico nunca deixou de acreditar na magia genuína, no maravilhoso que se esconde no banal e vai para além dele, no fantástico que transcende o mundano e nos maravilha.
Para lá do meu racionalismo de salão, sempre acreditei no meu íntimo nessa verdadeira magia e foi a busca incessante dela que animou a minha vida de mágico. Sou mágico e secretamente passei a vida inteira à procura da magia autêntica, aquela que transcende os meros truques do ilusionismo e toca a espiritualidade mais pura, crendo sem o confessar que tal magia podia ser encontrada em qualquer lugar e em todas as coisas desde que olhássemos e soubéssemos ver. A magia exprime-se em tudo à nossa volta, na elegância frágil de uma flor ou no mais pestilento buraco de um esgoto, no belo e no horrível, no sublime e no banal.
Passei uma vida inteira a crer com todo o meu ser que em tudo há magia. Quando cheguei a Birkenau e vi o que aqui se passava perguntei a mim mesmo onde estaria a magia deste sítio de pesadelo. Em que recanto deste imenso esgoto humano encontraria eu o segredo do transcendente? Ao observar os comboios que chegavam a toda a hora, as pessoas que em filas intermináveis eram engolidas pelos crematórios e o fumo que rolava sem cessar das grandes chaminés, cheguei a perguntar-me se não seria aí que se escondia a magia deste lugar, pois a transformação de gente em cinzas parecia produto das artes do profano.
Para isso contribuiu o facto de constatar que para os nazis é realmente magia o que se passa por baixo destas chaminés. Os SS assumem-se como uma ordem iniciática, feiticeiros numa missão transcendente, parteiros de uma humanidade superior. Tudo o que aqui acontece obedece a uma ideia mística, a doutrina secreta de madame Blavatsky e da Sociedade Thule a que só os iniciados acedem, um ato mágico que destrói o velho mundo e cria o novo. Para eles Auschwitz é a pira sacrificial, o forno onde se extingue o homem-animal, o ventre onde se molda o homem-deus. É neste inferno que os nazis querem forjar a divindade. Auschwitz apresenta-se como o altar ritual, os SS os feiticeiros, os judeus o cordeiro sacrificial. Não passamos de oferendas imoladas aos deuses no fogo do Valhalla e as nossas cinzas são o efeito dessa magia.
Os acontecimentos que neste manuscrito descrevo mostram porém que na vida não há realmente magia, que o transcendente se reduz a um efeito do trivial, que o feitiço é afinal um truque. Deus não passa de um ilusionista. Onde está a magia quando só nos restam cinzas?