O Manuscrito de Birkenau
Capítulo III
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A convocatória de Pery Broad intrigou Francisco. O SS-Mann visitava por vezes o oficial SS brasileiro para praticar a sua língua, uma vez que falar português lhes permitia matar saudades, um da sua terra e o outro da sua infância, mas como trabalhavam em departamentos diferentes e com objetivos diversos nunca o trabalho os unira. Dessa feita era diferente. A convocatória viera por estafeta e tinha a formalidade de uma ordem. Francisco deu com o Unterscharführer a escrevinhar no seu gabinete do Politische Abteilung.
“Puxa! Estou precisando de sua ajuda!” Fez um sinal para a máquina de datilografar, pousada sobre a secretária. “Traga uma cadeira e senta aí. Vou ditar p’ra você.”
“Ditar? Ditar o quê?”
“Ué, uma carta! Senta aí, senta!”
O português arrastou uma cadeira para o lugar e acomodou-se.
“Sabe, eu não sei escrever em alemão e...”
“Não é alemão. É português. Sabe escrever em português, n’é?”
O pedido era insólito.
“Português? Mas...”
“Olha, eu falo português mas minha ortografia é meio ruim. Preciso de sua ajuda p’ra escrever direito.”
“Eu também não sou grande espingarda a escrever”, atrapalhou-se o SS-Mann. “As minhas artes são outras.”
“Sempre é melhor que eu. Vai, bota aí o papel.”
Francisco estava diante de um superior hierárquico e além disso devia-lhe favores.
“O que aconteceu?”, perguntou. “Para quem é isto?”
“P’ra polícia brasileira”, foi a resposta. “Temos uns camaradas das SS presos no ano passado no Brasil e me pediram, na qualidade de brasileiro, p’ra interceder por eles. É por isso que preciso da carta em português.”
“O que fizeram esses camaradas?”
O Unterscharführer Broad esboçou um esgar constrangido.
“Está vendo o Totenkopf?”, perguntou, indicando a caveira no colarinho da farda. “O Reichsführer-SS e os outros chefões acreditam que as caveiras de cristal existentes na América do Sul foram feitas pelos atlantes, o povo semidivino que após a queda das luas de gelo emigrou para a Alemanha, o Tibete e os Andes, criando os arianos. Por serem dos místicos atlantes, essas caveiras têm poderes mágicos. Se forem controlados, esses poderes podem dar vantagem ao Reich na guerra.”
O português riu-se.
“Oh, lá está você a reinar...”
“Juro! As SS levam esse negócio muito a sério. Acontece que uma caveira de cristal encontrada nas ruínas maias de Lubaatun está num museu no Brasil. É a caveira da deusa da Morte. Então as SS mandaram no ano passado uns camaradas p’ra roubar a caveira, mas eles foram presos. Como o Brasil está em guerra com o Reich, nosso governo não pode ajudá-los. Então pensaram que, por ser brasileiro, talvez uma carta minha em português faça a diferença.”
Tanto pormenor, e sobretudo a forma compenetrada como Broad respondera, mostrava que não se tratava de brincadeira.
“Está a falar a sério? As SS acreditam mesmo que há caveiras com poderes... uh... mágicos?”
“Acreditam nisso e em muito mais. Você nem imagina. Chego a pensar que estou numa organização de macumba.”
“Oh, está a gozar comigo...”
“Não acredita? Olha, você lembra no ano passado o resgate de Mussolini, depois de ele ter sido preso? Sabe o que o Reichsführer-SS fez para localizá-lo? Recorreu a uns quarenta astrólogos, adivinhos e videntes, veja só! Os chefões enfiaram alguns homens numa casa em Berlim, entregaram a eles um mapa da Itália e uns pêndulos e... abracadabra!, o lugar onde o Duce estava preso foi encontrado!”
O português não conseguiu disfarçar a incredulidade.
“Foi assim que souberam onde Mussolini estava?”
“Me garantiram que sim. Parece que um vidente chamado Münch, usando um pêndulo e o mapa, o localizou nos Abruzos.” Baixou a voz. “Outros dizem que toda a operação foi um fiasco e que o paradeiro de Mussolini só foi determinado pelos serviços secretos com métodos tradicionais.” Endireitou-se. “Mas que os astrólogos e os outros ocultistas foram usados nessa operação, não duvide. E não foi caso único. A Marinha de Guerra recorreu a astrólogos, parapsicólogos e pêndulos p’ra localizar os comboios inimigos no Atlântico. Montaram numa sala um mapa gigante do Atlântico e puseram os pêndulos sobre ele. Se os pêndulos reagissem em algum ponto era porque havia ali um comboio.”
“Isso resultou?”
Broad inclinou a cabeça numa expressão cheia de ironia.
“Se essas bobagens surtissem algum efeito, o Reich já teria ganhado a guerra faz muito tempo!”, exclamou. “Claro que esse plano maluco não funcionou. Como podia? O problema é que tem muita gente no partido, a começar pelo próprio Reichsführer-SS, que acredita nessas burradas. Foi pensando assim que nos metemos nessa guerra e na matança dos judeus.”
Francisco esboçou uma careta cética.
“Não acredito que Himmler vá nessa conversa...”
“Ele é um dos mentores! O Reichsführer-SS acredita que os arianos descendem de uma raça de gigantes que veio do céu e se instalou na Atlântida, você entende? O Himmler e o Höss pertenceram aos Artamanen, uma sociedade ocultista que influenciou o aparecimento do partido nazi. O Reichsführer-SS se acha uma reencarnação do rei Heinrich I e tem um profundo interesse nas civilizações perdidas, na arqueologia pré-histórica, no Santo Graal, na filosofia oriental, na astrologia, no hipnotismo, no espiritualismo, na telepatia, na homeopatia, no herbalismo e em todas essas ciências de fronteira, incluindo a ideia de que é possível a humanidade recuperar a centelha divina perdida se adotar as políticas raciais corretas, afastando as raças inferiores e cultivando a reprodução exclusivamente entre a raça dos senhores.”
“Está a insinuar que o que se passa aqui obedece a ideias esotéricas?”
“Não tenha dúvida.” Baixou a voz. “Um camarada nosso recebeu uma carta do Reichsführer-SS exigindo uma investigação urgente sobre as ligações entre a dinastia bíblica da casa de David e o registro dos reis de Atlântida, veja só. Parece que ele acredita que os cronistas bíblicos, quando escreveram sobre os reis judeus, estavam plagiando os registros históricos atlantes. O povo eleito não seria afinal o povo judeu, mas o atlante.”
Francisco hesitou.
“Atlantes? Quem são esses?”
A pergunta fez Broad perceber que as suas revelações não estavam a ser inteiramente compreendidas, pois a educação do SS-Mann era limitada. Respirando fundo, como um balão a desinchar, indicou a máquina de escrever.
“Olha, eu sei que o caso é meio complicado, mas tenho mesmo de escrever essa carta, viu?”
Percebendo que havia coisas que lhe escapavam e que o seu interlocutor queria era despachar a questão, Francisco acertou a folha de papel no rolo da máquina e preparou-se para escrever.
“Então diga lá.”
“Escreve aí.” Broad afinou a voz. “Excelência. Serve essa missiva para solicitar seus serviços...”
Com a língua entre os lábios, o português pôs-se a bater nas teclas com o indicador em movimentos hesitantes, os olhos a procurarem no teclado uma letra aqui e outra ali; era evidente que não tinha o menor treino naquele trabalho. Vendo-o a datilografar daquela maneira, Broad foi assaltado pela dúvida. Desconfiado, levantou-se do seu lugar e foi espreitar a folha.
Eisselençia,
Çerve esta miçiva pra suliçitar os çeus çervisos
“Ué! Que é isso?!”
“Bem, é a... enfim... a...”
O brasileiro suspirou, caindo em si.
“Deixe estar”, resignou-se. “Eu escrevo essa carta. Pode ir embora.”
O olhar de Francisco iluminou-se.
“De certeza?”
O oficial virou a máquina para o lugar dele e regressou ao assento.
“Tudo tranquilo. Eu faço isso.”
Arrancou a folha que o português começara a datilografar e inseriu uma nova. Aliviado e embaraçado, o SS-Mann levantou-se e preparou-se para se escapulir, mas nesse momento um homem fardado apareceu à porta com ar apressado; tratava-se do Hauptsturmführer Wilhelm Boger.
“Broad, preciso da tua ajuda.”
O brasileiro começara já a datilografar a missiva para a polícia brasileira e nem desviou o olhar da folha.
“Um momento, Hauptsturmführer. O chefe pediu-me para...”
“Majdanek caiu!”
A notícia imobilizou Pery Broad, que deixou suspenso no ar o dedo com que ia bater numa tecla.
“O quê?!”
“Os russos entraram no campo de surpresa e tomaram tudo. Incluindo as câmaras de gás.”
“Não pode ser!”, exclamou o brasileiro. “As câmaras de gás caíram nas mãos dos russos? Intactas?”
“É uma catástrofe!”, confirmou o Hauptsturmführer Boger. “O pessoal teve de retirar à pressa e não pôde destruir tudo. Parece que pelo menos uma das câmaras de gás não foi destruída e o inimigo está agora na posse de provas do segredo. Anda tudo em polvorosa e preciso de ajuda na papelada. Isto é prioritário.”
Broad levantou-se.
“O que é preciso fazer?”
“Primeiro há que tratar dos documentos de transferência”, retorquiu o camarada. “Temos de trazer para aqui prisioneiros de Majdanek.”
Ignorando Francisco, que a tudo assistira sem dizer nada, como se fosse invisível, os dois SS do Politische Abteilung mergulharam no corredor e desapareceram.