O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 8 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo VII

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A primeira reação do Oberscharführer Kurt Knittel quando Pery Broad lhe apresentou Francisco e lhe propôs a transferência para o seu departamento foi de ceticismo. O responsável do Abteilung VI deixou o Unterscharführer falar sobre a experiência militar do SS-Mann português, mas ouviu-o por mera cortesia, sem entusiasmo e com postura reservada, mais ainda quando conheceu os estudos do novo recruta.

“Escute, Broad”, disse por fim. “Deixe-me ser sincero consigo. Para que preciso eu de um SS que não é alemão e nem sequer tem habilitações? O Abteilung VI é o departamento encarregado da vida cultural das SS, mas lembro-lhe que também é responsável pelo treino e pela propaganda. Em que cultura, em que treino, em que propaganda pode um SS português ser-me útil? Será que ele é mesmo ariano?”

“Os portugueses são tão arianos como os italianos”, argumentou Broad. “Se os italianos foram considerados suficientemente arianos para serem nossos aliados, os portugueses também o serão. Se o Reichsführer-SS determinou que podia haver europeus do Sul nas SS, com certeza é porque estão racialmente habilitados para tal. Com o devido respeito, Oberscharführer, quem é o senhor para contrariar o Reichsführer-SS?”

“Pois... está bem.”

Francisco mantinha-se calado atrás do brasileiro, deixando-lhe as despesas da conversa. Estavam no gabinete de Knittel, em plena Kommandantur, e a conversa não parecia bem encaminhada.

“O SS-Mann Francisco Latino combateu na guerra civil espanhola, Oberscharführer”, argumentou o homem do Politische Abteilung. “Esteve na batalha de Badajoz, na batalha da Catalunha e na conquista de Madrid. Além disso viveu o cerco de Leninegrado. Quantos SS aqui no Katzet se podem gabar de tanta experiência de combate?”

“Não digo que não, Broad. Será certamente útil para a atividade militar, não o vou negar. Acontece que aqui lido com questões culturais.”

A venda da ideia não estava a ser simples.

“Não acha interessante ter uma abordagem cultural exótica?”, sugeriu o brasileiro. “Com um português no seu departamento, poderia apresentar aos homens espetáculos muito originais. Samba, sevilhanas, fados... não acha que as tropas gostariam de mais variedade no reportório cultural?”

A expressão no rosto de Knittel mostrava que o argumento não o convencia.

“Deve estar a gozar comigo”, retorquiu. “O que nós queremos é cultura alemã. Para que vou dar samba às tropas se temos Wagner? Não podemos corromper os homens com música inferior.”

O responsável do Abteilung VI nunca se deixaria convencer, percebeu Broad. E com boas razões, pois os argumentos apresentados em defesa da transferência de Francisco para o departamento cultural não eram muito convincentes.

“Oiça, Oberscharführer”, suspirou o brasileiro, abrindo o jogo. “Chegou a vez de eu ser franco consigo. Admito que este homem esteja longe de corresponder ao perfil ideal. Mas sabe que o tenho auxiliado nas orquestras e é em nome disso que lhe peço ajuda. Dê-lhe uma oportunidade. Se ele se provar útil, excelente. Se não, mande-o de volta.”

O olhar do Oberscharführer Kurt Knittel desviou-se para Francisco, que permanecia em silêncio, e depois de novo para Broad. Era evidente que a ideia não lhe agradava. Porém, tinha uma dívida para com o SS brasileiro, que com o seu conhecimento de música lhe era muito útil nas orquestras no campo. Além do mais, convinha manter boas relações com a Gestapo. Ninguém gostava de dizer «não» a gente do Politische Abteilung.

“Ach, é só porque é você a pedir.”

Ao ver as estantes, Francisco sentiu-se desanimar. Nunca lera um livro e apenas consultara os jornais para saber as notícias da guerra ou do futebol em Portugal. Como poderia fazer o que se lhe pedia? Aproximou-se da estante menos intimidatória, a dos jornais e das revistas, e passou os olhos pelos títulos. O lugar mais destacado era ocupado pelo Schwarzes Korps, o semanário das SS. Havia ainda vários exemplares do Front und Heimat e da revista mensal SS-Leithefte. A oferta era completada pelos jornais germânicos da Alta Silésia, como o Oberschlesische Kurrier e o Kattowitzer Zeitung. Pegou nos jornais e folheou-os. Nada de galvanizante. Percebeu aliás que o Kattowitzer Zeitung era um jornal do Partido Nacional-Socialista de Katowice, e a leitura pareceu-lhe tão interessante como a de um decreto-lei a regulamentar a apanha de bivalves.

“Posso ajudá-lo?”

Francisco voltou-se para trás e viu o funcionário da biblioteca.

“Sou novo no Abteilung VI”, apresentou-se. “O Oberscharführer Knittel pediu-me que fizesse dez sugestões de leitura para os camaradas.”

“Essa é a estante dos periódicos...”

“Eu sei, eu sei.” Hesitou. “Quais são os livros mais interessantes?”

“As obras mais populares na biblioteca são as Kriminalnovellen de Edgar Allan Poe.”

Francisco preparou-se para tomar nota numa folha.

“Pode repetir?”

“Edgar Allan Poe. O problema é que é americano e não sei se o Oberscharführer ficará contente por sugerir a leitura de um escritor inimigo.”

O português suspendeu a caneta no ar.

“Ah”, murmurou. “Então o que tem aí que seja alemão?”

“Os romances de Karl May funcionam muito bem”, disse, pegando num exemplar com o título Winnetou. “Embora contem histórias do faroeste americano, são muito requisitados pelos nossos homens. Parece que o próprio Führer é um leitor de May.”

A capa mostrava um índio americano e prometia ação.

“Parece bom.” Fez uma anotação. “E que mais?”

“Os relatos de guerra também são muito populares. Por exemplo, o livro do Ernst Junger a contar como tomámos Paris e o Infanterie greift an, de Rommel.”

Novas anotações.

“Que mais?”

“O Führer é muito requisitado”, acrescentou o funcionário. “Sobretudo o álbum de fotografias Hitler wie ihn keiner kennt, de Heinrich Hoffmann, o seu fotógrafo pessoal, mostrando o Führer como nunca o vimos. E é sempre boa ideia sugerir o Mein Kampf, claro.”

“Claro, claro. E que mais?”

“O resto depende dos gostos.” Fez um gesto a indicar as estantes. “Se quiser dar uma vista de olhos pelos títulos, pode sempre encontrar coisas curiosas.”

Foi o que Francisco fez na hora seguinte. Não percebia nada de livros, mas acabou por selecionar outras cinco obras. A que mais gosto lhe deu incluir na lista foi Fernando Magellan, de Baumgardt, a história do primeiro homem a dar a volta ao planeta. Os SS achavam-se os melhores em tudo, mas ficariam a saber que o maior explorador da história fora um português.

 

Abandonou a Kommandantur, onde se situavam as instalações do Abteilung VI, e encaminhou-se para a cantina das SS. O trabalho do dia estava feito e já podia concentrar-se na estratégia para chegar a Tanusha. A transferência para o departamento de cultura libertava-o das detestadas funções de guarda aos Arbeitskommandos e sobretudo dava-lhe maior amplitude de movimentos.

Quando se despedira de Broad, o brasileiro tinha-o aconselhado a mostrar espírito de iniciativa e a propor espetáculos que entretivessem as tropas. Isso significava que poderia pedir para visitar os campos em busca de talentos, bastando para tal identificar previamente artistas potenciais. Onde os iria encontrar? Em Birkenau, claro. Era lá que estava a grande maioria dos prisioneiros. E sobretudo Tanusha. Precisava apenas de localizar artistas entre os detidos e o Oberscharführer conceder-lhe-ia a tão desejada autorização. Porém, não era tão simples como isso. Só podia ir a Birkenau se conhecesse aí algum artista, mas só o conheceria se fosse a Birkenau fazer um levantamento dos talentos que aí existiam.

Entrou na cantina das SS a matutar no paradoxo.

“Heil Hitler!, português.”

O seu parceiro de beliche nas camaratas, Heinz, passava com um tabuleiro repleto de comida e vinho.

“Heil Hitler!”, cumprimentou-o de volta. “Estás sozinho?”

“Sim. Junta-te a mim.”

Depois de deixar o sobretudo na mesa de Heinz, Francisco foi servir-se. Como sempre, a grande mesa estava ricamente recheada. Além das inevitáveis salsichas e batatas, havia foie gras, queijos Gruyère, baguettes, croissants e vinhos franceses. Pela amostra, os judeus franceses ainda estavam a chegar a Birkenau.

“Então?”, perguntou ao sentar-se ao lado de Heinz. “Muito trabalho?”

“Ach!”, respondeu o camarada. “Nem imaginas! Hoje recebemos dois transportes de Drancy. Uma estafa.”

O português começou a comer.

“Não te custa fazer isso?”

“A Selektion e o tratamento especial?” Suspirou. “No início custa, não vou dizer que não. Mas é melhor do que estar na frente a levar tiros do Ivan.” Inclinou-se para o recém-chegado. “Além do mais, o prémio é bom. Dão-nos dose reforçada de Schnapps e de cigarros e ainda deitamos a mão às bagagens que os judeus deixam na Rampe. Os deportados têm muita massa, nem imaginas! Todas as semanas envio para a família uma bela maquia.”

“Eu não conseguia fazer uma coisa dessas.”

“Habituamo-nos”, devolveu o alemão. Apontou para o camarada com o garfo como se lhe tivesse ocorrido uma ideia, embora na verdade estivesse a mudar de assunto. “Olha lá, é verdade que deixaste a guarda?”

“Estou no Abteilung VI.”

“Transferiram-te ou foi a pedido?”, quis Heinz saber. “É que consta por aí que te acagaçaste...”

“Quem te contou isso?”

O alemão encolheu os ombros.

“É o que consta.” Fitou-o com intensidade. “É verdade?”

“Não me acagacei. Só acho que o trabalho de um soldado não é matar crianças e mulheres.”

“São inimigos do Reich.”

“São crianças e mulheres.”

Heinz nada disse por momentos, entretendo-se a mastigar a salsicha.

“O que vais fazer no Abteilung VI?”, perguntou. “Música? Cinema?”

“Para já o Oberscharführer Knittel pediu-me que prepare sugestões de livros.”

“Ach, esse salvador do exército é uma seca!”, devolveu Heinz com uma careta. “Quem é que aqui quer ler? A malta quer é paródia. Futebol, boxe, filmes, espetáculos, cerveja, Schnapps...”

“Gajas.”

O SS alemão pôs o prato já vazio de lado e puxou o da sobremesa, um brioche.

“Olha, sabes o que era giro?”

“Hmm?”

“No início da guerra estive destacado em Praga. Uma vez fui ver um espetáculo de magia muito engraçado. O mágico fazia coisas incríveis. Pois ontem estive de serviço a distribuir postais pelo Familienlager e quem é que me apareceu pela frente? O gajo. Eh pá, pedi-lhe logo para me fazer uns truques. O tipo tem um jeito que só visto. Em Praga apresentava-se como o Grande Nivelli, mas parece que o verdadeiro nome dele é Levy ou coisa parecida.”

“É judeu?”

“Com um nome destes, o que querias que fosse? Chinês?”

“Sei lá”, devolveu Francisco. “Na minha terra não há judeus.”

“Ainda bem”, devolveu Heinz com uma risada. “Assim não temos de invadir Portugal.”

“Olha a nossa sorte...”

O brioche, evidentemente também retirado aos deportados de Drancy, estava delicioso e o SS alemão mastigava-o com deleite.

“Bom era um espetáculo de magia no Katzet. Isso é que seria o máximo! Duvido é que o salvador do exército vá na conversa, bota de elástico como é...”

O português ainda ia nas salsichas, mas suspendeu o garfo no ar a considerar estas últimas palavras.

“Onde dizes que está esse mágico?”

“No Familienlager.”

O campo das famílias. Francisco lembrava-se de ter passado por lá na manhã em que fora a Birkenau e encontrara Tanusha. Desse campo retivera na memória as latrinas perto da vedação, a mistura de homens e mulheres no mesmo espaço, o facto de os deportados serem autorizados a usar roupas civis e terem Blockältesten judeus. Tudo isso ia contra a prática e as regras dos KL, mas pelos vistos era permitido naquele campo. Se bem se recordava, Broad dissera-lhe que esses judeus estavam a ser usados para propaganda por causa da Cruz Vermelha Internacional.

“Ele é mesmo bom?”

Heinz já ia no Schnapps.

“O mágico? Sen-sa-cio-nal!” Engoliu um trago de uma assentada e ao pousar o copo os olhos brilhavam-lhe com o ardor do álcool. “Aaah! Maravilha!”

“O que fazia o tipo de especial?”

O SS alemão limpou a boca com as costas da mão.

“Sei lá, coisas incríveis. Fazia desaparecer pessoas, engolia lâminas e sei lá mais o quê. Ontem fez-me um número com cartas. O Grande Nivelli era uma das atrações de Praga, sabes lá! Até o Obergruppenführer Heydrich foi ver o espetáculo dele!”

Tudo isto deixou Francisco a cogitar. Precisava desesperadamente de um pretexto para ir a Birkenau ajudar Tanusha e Broad recomendara-lhe que mostrasse espírito de iniciativa se queria manter-se no Abteilung VI. Pois o seu camarada acabava de tirar da cartola a informação de que em Birkenau existia um mágico. O que poderia haver de mais original do que um espetáculo de magia? A ideia começou a empolgá-lo. Se a sugestão fosse acolhida, mataria dois coelhos com uma só cajadada. Mostraria iniciativa perante o chefe do departamento e, o mais importante, conseguiria um passe para ir a Birkenau visitar a noiva. Isso é que seria magia.