O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 33 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo VIII

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A carpintaria do crematório número dois tornou-se o refúgio de Levin no dia anterior à revolta do Sonderkommando. Para escapar à ansiedade geral, o mágico decidiu dedicar-se à construção dos adereços para o seu espetáculo. Enquanto se distraía com aquilo não pensava no resto. Passou assim a manhã inteira a fazer desenhos, a serrar madeira e a pregar tábuas.

Pelo meio-dia sentiu a porta da carpintaria abrir-se e viu o Oberkapo Kaminsky.

“A sopa chegou”, anunciou-lhe o chefe do Sonderkommando. “Venha daí, vamos almoçar.”

Saíram os dois.

“Marcámos a revolta para amanhã, mas já me disseram que foi outra vez adiada”, queixou-se Levin. “O que se passa?”

“Negociações de última hora”, explicou o Oberkapo. “A resistência polaca deu ordens para que se iniciem levantamentos por toda a Polónia, incluindo aqui em Auschwitz. O Kampfgruppe Auschwitz finalmente decidiu fazer alguma coisa. Estão entusiasmados com a chegada do Exército Vermelho a Varsóvia e com a revolta na cidade. Tudo indica que os russos vão mesmo lançar a grande ofensiva para tomar o resto do país, o que significa que as perspetivas para uma rebelião bem-sucedida no campo estão a melhorar.”

Levin respirou fundo.

“Deus o oiça.”

Chegaram ao pátio quando a sopa estava a ser distribuída. Como fazia calor, até porque agosto era sempre quente, os homens tinham decidido comer no exterior para aproveitar o sol e por isso espalhavam-se pelo perímetro com as suas tigelas. O problema era a comida. Com menos transportes de deportados, a qualidade das refeições degradara-se e o Sonderkommando passara a depender da sopa da cozinha.

“Porra para a sopa!”, resmungou um dos homens. “Em vez de gasearem os pelintras dos ciganos, que não têm dinheiro nem para mandar cantar um cego, deviam era enviar um comboio à maneira, hem? Daqueles com carne e vinho e compotas. Isso é que era!”

O campo dos ciganos tinha sido liquidado nesse dia, um evento muito comentado por todos os reclusos. O Oberkapo Kaminsky lançou ao homem um olhar de reprovação.

“Não digas disparates.”

“Disparate é o que estamos a comer. Ah, no tempo dos transportes de França é que era vida! Lembram-se? Tudo do bom e do melhor, até dava gosto. Tínhamos vinho, tínhamos...”

“Cala-te!”

A autoridade do responsável máximo do Sonderkommando era tal que foi prontamente obedecido. Havia na unidade diversos homens embrutecidos e Levin vira várias vezes alguns juntarem-se aos SS e baterem em deportados para os forçar a entrar nas câmaras de gás.

De repente o Hauptscharführer Moll apareceu no pátio com o Kommandoführer do número dois, o Unterscharführer Steinberg. Os elementos do Sonderkommando pousaram os pratos no chão e puseram-se de pé, tirando os chapéus da cabeça.

“Kaminsky, vem cá.”

Sem hesitar, o Oberkapo dirigiu-se ao chefe dos crematórios. Embora assustado, ou talvez exatamente por isso, Levin não pôde deixar de admirar o responsável do Sonderkommando. Qualquer prisioneiro que fosse chamado por Moll ficava logo a tremer. Não Kaminsky. Devia ser o único judeu que não mostrava o menor medo dos SS.

O Hauptscharführer Moll disse ao Oberkapo que o acompanhasse e ambos desapareceram por detrás do edifício. Os homens do Sonderkommando olharam inquisitivamente para o Kapo Lemke, o segundo homem mais importante do Kommando do crematório.

“O que está o Malakh HaMaves aqui a fazer?”, sussurrou um dos homens. “Será que vem aí um transporte? Se calhar o...”

Uma detonação calou-o.

O tiro viera do outro lado do edifício. As expressões tornaram-se inquietas. O que estava a suceder? Ainda se interrogavam quando viram o Hauptscharführer Moll reaparecer no pátio.

“Preciso de dois voluntários.”

O SS apontou para Levin e um companheiro chamado Monjek; eram os “voluntários”. Os prisioneiros seguiram Moll até ao outro lado do edifício e depararam-se com o corpo de Kaminsky estendido no chão, um buraco na nuca e uma poça de sangue ao lado da cabeça.