O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 27 de 50

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O Manuscrito de Birkenau

Capítulo II

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O apito soou depois do Appell, o que não era normal. Surpreendidos com a quebra da rotina, os prisioneiros voltaram a sair do crematório para ver o que se passava. Depararam-se com o Hauptscharführer Moll e o Unterscharführer Eckardt acompanhados por um Kapo alemão.

“Appell! Appell!”

Outro?

Alinharam-se no pátio para a chamada. O Hauptscharführer Moll esperava-os com uma folha na mão e isso deixou-os inquietos. Se as quebras de rotina nunca auguravam nada de bom, a presença do chefe dos crematórios ainda menos. Os sussurros nervosos cruzaram-se no ar até os judeus completarem a formação e um silêncio tenso se impor. Eram oitocentos homens e nem um sussurro se ouvia.

“Achtung!”

Outros oficiais SS aproximaram-se do pátio com uma escolta. O nervosismo cresceu. Nunca tinham visto tantos altos oficiais juntos para um Appell. Algo de anómalo se passava. Algo de perigoso.

“Homens do Sonderkommando”, berrou o Hauptscharführer Moll. “Vamos proceder a uma transferência para Lublin, onde há mais trabalho do que aqui. Os prisioneiros que vou enumerar devem juntar-se diante do muro.”

Um burburinho inquieto percorreu o grupo. A palavra transferência fez toda a gente tremer. O trabalho nos crematórios diminuíra imenso desde que os transportes da Hungria tinham parado. Sem trabalho, os homens do Sonderkommando não seriam precisos. Desconfiaram. Que história era aquela de Lublin? Seria mesmo uma transferência para outro campo? Ou tratar-se-ia de uma liquidação pura e simples? A duplicidade dos alemães era por de mais conhecida de todos. Viam-nos diariamente a enganar as vítimas das câmaras de gás e sabiam que usariam da astúcia quando chegasse a vez do Sonderkommando.

“Gradowski”, sussurrou alguém. “O que achas que nos vão fazer?”

“Cala-te, senão topam-nos.”

Levin sentiu uma gota de suor nascer-lhe nas têmporas e ziguezaguear-lhe pela face direita. Tinha os olhos baixos, pesados; o medo era tanto que mal conseguia respirar. Com uma espreitadela fugidia percebeu que a ansiedade era geral. A tensão nas fileiras tornara-se de tal modo espessa que se diria palpável.

Sentiam-se unidos por laços invisíveis. Irmãos. O que acontecesse a um era como se acontecesse a todos. Sentia-o Levin e sentiam-no os companheiros; eram muitos mas estavam unidos como um único. Uma consciência, uma vontade, uma força. Um. Se os alemães tocassem num, tocariam em todos. A revolta começaria. Ali. Naquele momento. Ai deles se se atrevessem. Ai deles!

A voz de Moll voltou a ressoar pelo pátio.

“Dezoito vinte e sete trinta e nove...”

Após uma curta pausa expectante, alguém se mexeu. Levin reconheceu o homem cuja existência em Birkenau se reduzia àquele número; era um judeu grego que se encaminhou, devagar mas obedientemente, para o muro.

“Dezassete vinte e cinco quarenta e quatro...”, prosseguiu o alemão, designando o número do homem seguinte, o que provocou novo movimento nas fileiras. “Oitenta setecentos e sessenta e quatro... Dezoito vinte e cinco vinte e sete...”

À medida que os números iam sendo lidos, um suspiro aliviado ia percorrendo o grupo. A chamada revelava um padrão. Os selecionados pertenciam ao Reinkommando, a unidade do Sonderkommando encarregada de limpar os cabelos tosquiados dos cadáveres retirados das câmaras de gás. Os restantes prisioneiros estavam seguros. Foi quanto bastou para a solidariedade se quebrar. Deixaram de ser um e passaram a ser muitos. Onde antes havia irmãos, passou a haver primos e dentro de um ou dois minutos passariam a amigos e mais uns momentos volvidos tornar-se-iam meros conhecidos até se transformarem em estranhos. Um abismo foi-se cavando a cada número que o Hauptscharführer Moll chamava, um abismo a separar os escolhidos para a transferência e os que ficavam.

Levin sentiu os músculos descontraírem-se. Um peso saíra-lhe de cima dos ombros, uma nuvem negra desvanecera-se, o ar tornara-se mais respirável, mais puro. Todos sorriam, aliviados, felizes; iriam ficar, iriam viver, talvez fosse só mais um dia mas sempre seria mais um. Podiam estar tranquilos que a chamada não lhes dizia respeito, era coisa para outros, os do Reinkommando, os que se aglomeravam a conta-gotas no lado direito, tristes e assustados, envoltos na nuvem escura, isolados dos restantes, condenados à transferência e ao que ela significasse. Talvez nada lhes acontecesse. Talvez, não. Provavelmente. Quase de certeza. Seguramente. Para quê preocuparem-se? Não haviam os alemães dito que iam trabalhar para Lublin? Nada tinham a recear. Olhava-se para eles encostados ao muro e via-se-lhes o medo espreitar nos olhos, um pavor mudo que os fazia querer desaparecer, fundir-se com o chão e assim escapar aos alemães, mas quando se sentiu fora de perigo Levin concluiu que o temor não tinha sentido nenhum.

O que ia na cabeça do mágico ia na cabeça dos que ficavam. No momento em que a maioria compreendera que não seria selecionada, a ansiedade desvanecera-se e de repente todos viam claro, como se uma neblina se levantasse. Não iria acontecer nada aos do Reinkommando, o medo era a neblina, o medo cegara-os mas os que ficavam constatavam que não havia problema nenhum, só uma simples transferência para Lublin, nada de preocupante, apenas trabalho.

 

A figura corpulenta de Francisco recortava-se junto ao portão do crematório número dois, a poucas dezenas de metros da Judenrampe. Como o trabalho nas câmaras de gás e nos fornos diminuíra, o Hauptscharführer Moll autorizara que Levin se dedicasse ao projeto do Abteilung VI e o Oberkapo Kaminsky conseguira-lhe um passe para se deslocar à carpintaria do dois.

Ao aproximar-se com o Oberkapo desse crematório, o mágico percebeu que este e o número um eram diferentes dos três e quatro. Eram maiores, com mais fornos e mais potentes. Os deportados desciam aí por umas escadas para a cave onde os gaseamentos decorriam. O um e o dois eram sem dúvida os crematórios mais ativos de Birkenau, até porque os fornos do três havia muito que estavam avariados, o que obrigara a cavar bunkers para cremar os cadáveres, e os do quatro tinham um funcionamento intermitente.

Quando se aproximaram do SS que aguardava junto do portão, o Oberkapo deixou a Levin as últimas recomendações.

“Confia nele?”

“No português? É um SS.”

“É isso mesmo, é um SS”, reforçou Kaminsky. “Não se descaia sobre os nossos planos, ouviu? Qualquer fuga de informação será fatal.”

Deram mais uns passos.

“Ela tem mesmo de estar no sítio que combinámos.”

“Estará”, garantiu o Oberkapo. “A senha é a que lhe dei.”

Calaram-se porque chegaram junto de Francisco. Depois de trocarem palavras de circunstância, o SS-Mann estendeu a Levin o passe que obtivera na Kommandantur. O mágico tinha daí em diante autorização para se deslocar ao Kanada, desde que acompanhado por um SS. Considerando que o Hauptscharführer Moll lhe entregara também um salvo-conduto para ir ao crematório número dois, onde se encontrava a carpintaria, Levin ia poder movimentar-se nas zonas interditas de Birkenau. Uma coisa daquelas era imprescindível para a missão de que Kaminsky o encarregara.

 

A quase normalidade que encontrou no Kanada deixou Levin estupefacto. As prisioneiras tinham um ar bem nutrido, usavam cabelo comprido e vestiam-se bem. Que contraste com os restantes campos! O que mais o chocou, todavia, foi constatar que o Kanada, com toda a sua abundância e normalidade, ficava paredes meias com o crematório número três, onde as câmaras de gás devoravam a humanidade. Havia apenas meia dúzia de metros entre os dois mundos e era como se um universo inteiro os separasse.

Encontraram Tanusha no barracão onde trabalhava. Francisco mostrou à Blockowa um documento assinado pelo novo comandante de Birkenau, o Hauptsturmführer Josef Kramer, e a guarda SS dispensou-a pelo período máximo de uma hora. O tempo que a russa ali passara desde que se transferira para o Kanada havia-a transformado por completo. O corpo enchera-se e ganhara curvas. Nesse dia Tanusha usava um vestido alegre, com flores. Além disso deixara crescer o cabelo, revelando o loiro quase platinado que Francisco lhe conhecera em Sablino. Era impossível não reparar nela.

“Bem escolhida”, aprovou Levin. “Se e quando a virem em palco, os SS não vão tirar os olhos dela. É perfeita para camuflar os truques. Enquanto os papalvos se babam com ela, não topam as voltas que lhes dou.”

A ideia de participar num espetáculo de magia intrigava Tanusha.

“O que devo fazer exatamente?”

“A seu tempo lhe direi”, respondeu o mágico. “Presumo que saiba costurar. Preciso que agarre na agulha e no dedal. Faça para si uma roupa de princesa oriental, uma coisa vistosa que deixe os homens a salivar, não sei se está a ver. Por exemplo, um vestido vaporoso e colorido, de preferência dourado ou vermelho-berrante, e que sugira as formas do peito e lhe deixe as coxas à mostra. Se conseguir fazer uma coisa dessas, será perfeito. Para mim faça uma kasaya.”

“Uma saia?”

“Uma kasaya”, repetiu. “É um traje especial.” Retirou um papel do bolso e entregou-lho. “Estão aí os desenhos e as especificações, incluindo o tipo e a cor do tecido que terá de usar.”

“E a carpintaria?”, quis saber Francisco. “O que vai lá fazer?”

“Os adereços, claro”, respondeu Levin. “Fui lá agora e vi que tem quase tudo aquilo de que preciso. Tábuas, martelos, pregos, serrotes... Só me faltam espelhos. Alguns números não podem ser feitos sem espelhos. É possível arranjar alguns?”

“Há por aí muitos”, indicou Tanusha. “As deportadas viajam com espelhinhos para a maquilhagem.”

“Preciso de espelhos grandes, como os que se usam nos armários e nos quartos de banho.”

O pedido atrapalhou a russa.

“Isso... enfim, isso não é uma coisa que se traga na bagagem, não é verdade?” Lançou um olhar fugidio a Francisco, quase como se lhe perguntasse se tinha alguma ideia, mas pela expressão vazia que ele lhe devolveu percebeu que teria de se desenvencilhar sozinha. “Vou ver o que se pode arranjar. No Canadá há de tudo.”

“Irei também pensar noutros adereços úteis para os meus números. Para não a sobrecarregar, pode ser que tenha de fazer pedidos especiais a outras pessoas. Se algum prisioneiro vier ter consigo com um adereço para mim, vê inconveniente em entregar-mo?”

“Não, claro que não.”

O SS-Mann interveio.

“Oiçam, não é preciso exagerarmos”, disse. “Temos de ter presente que a ideia do espetáculo de magia nunca passou de um pretexto para vos tirar dos sítios onde se encontravam e colocar-vos onde pudessem sobreviver.”

“Não sei se se pode classificar o Sonderkommando como uma unidade onde se possa sobreviver”, replicou Levin com acidez. “Ainda agora os seus amigos SS foram aos crematórios e transferiram duzentos dos nossos homens para Lublin. Não ponho as mãos no fogo pela sobrevivência deles e não sei se não virão aí novas transferências e para onde. Além do mais, o Sonderkommando é de longe o pior Kommando que existe em Birkenau e...”

“Não vamos voltar a essa conversa, pois não?”, cortou Francisco. “Sabe muito bem que nunca tive intenção de o enviar para lá e que se pudesse o tirava imediatamente. Mas há coisas que não posso controlar, pois não deve nunca esquecer que não passo de um simples SS-Mann, ainda por cima estrangeiro. Muito já faço eu.” Afinou a voz. “Concentremo-nos no essencial. O espetáculo não passa de um pretexto para vos manter vivos.”

“Não haverá espetáculo?”

“Talvez haja, talvez não.... não sei. Para já não vejo razão para apressar as coisas. Repare que, uma vez o espetáculo terminado, vocês perdem a vossa utilidade e deixa de haver razões objetivas para que os alemães vos mantenham nos sítios onde se encontram.” Apontou para Tanusha. “A hierarquia pode perfeitamente mandar-te de volta para o campo das mulheres ou até tentar outra vez meter-te no bordel do campo.” Indicou o mágico. “Quanto a si, e tendo em conta que é muito mais franzino do que a generalidade dos homens do Sonderkommando, será o primeiro selecionado para transferência, e não me parece que o seu destino seja Lublin. Portanto temos todo o interesse em atrasar a coisa.”

“Então para que vamos gastar tempo a preparar o espetáculo?”

“Porque temos de o fazer”, insistiu Francisco. “Por um lado, é uma forma de justificar a vossa presença nos Kommandos onde se encontram. Por outro, há sempre o risco de o meu chefe se impacientar e dar a ordem para se apresentar o espetáculo num determinado prazo, sob pena de vocês serem imediatamente executados.”

Levin e Tanusha trocaram um olhar resignado. Ambos sabiam que a sua sobrevivência dependia do SS português e que teriam de confiar no julgamento dele.

 

Quando atravessavam o Kanada e se encaminhavam para o portão que dava para o crematório número três, Levin fez uma careta dorida e mostrou uma súbita dificuldade em andar.

“O que se passa?”

O mágico olhou em volta e agarrou-se ao ventre, como se estivesse aflito.

“Onde são as latrinas?”

“Não aguenta mais um bocadinho? É que...”

“Preciso de ir lá urgentemente!”

O portão estava ainda longe e, sabendo que as diarreias eram comuns em Birkenau, Francisco olhou para Tanusha como se lhe remetesse a responsabilidade pela resposta. Ela apontou para um barracão à esquerda e Levin caminhou até lá quase curvado sobre si mesmo, como se tentasse conter as entranhas. Entrou e sentiu o cheiro característico a esgotos. Ao fundo uma mulher lavava as mãos. Seria ela?

“Shema Israel.”

A mulher voltou-se e respondeu.

“Adonoi Elohenu.”

Era ela.

Haviam trocado as primeiras palavras do Shema, a principal oração do judaísmo e a senha que o Oberkapo Kaminsky lhe dera. Apertaram as mãos.

“Herbert Levin, Sonderkommando.”

“Róza Robota, Bekleidungskammer.”

“O meu Oberkapo disse-me que falasse consigo”, indicou Levin. “Do que precisa exatamente?”

“Pediram-me que arranjasse pólvora e a desse ao Sonderkommando”, respondeu ela. “Consegui convencer umas miúdas judias que trabalham no Pulverpavillion, o pavilhão dos explosivos da fábrica de munições da Union-Werke, em Auschwitz I, a fornecerem-me o material. O problema é que elas são minuciosamente revistadas à entrada e à saída da fábrica e não têm maneira de me fazer chegar a pólvora. Mesmo que tivessem, eu não conseguiria introduzi-la no Sonderkommando pois também sou revistada. E vocês andam sempre escoltados pelos SS para não contactarem outros prisioneiros, o que complica ainda mais a transferência de material entre nós. Como poderemos fazer isto?”

“A primeira coisa que preciso de conhecer são as rotinas. As miúdas do Pulverpavillion conseguem entrar e sair da fábrica da Union-Werke com objetos, como caixas ou outras coisas?”

“De modo nenhum”, retorquiu Róza. “Entram e saem de mãos vazias.”

O mágico ponderou a questão.

“E quando são revistadas, tiram-lhes a roupa?”

“Claro que não. Entram e saem com a mesma roupa. Inspecionam-lhes os bolsos, é certo, mas mantêm a roupa.”

Aquela possibilidade parecia-lhe mais promissora.

“Disse que trabalha na Bekleidungskammer?”

“Sim. A câmara das roupas, situada no campo das mulheres. É por isso que tenho autorização para vir ao Canadá abastecer o meu Kommando.”

Levin esfregou o queixo, pensativo.

“Hmm... as miúdas do Pulverpavillion podem vir até Birkenau ou a Róza pode ir ter com elas a Auschwitz I?”

“Não.”

“Há alguém que elas conheçam que costume vir aqui a Birkenau?”

“Não.”

“Não haverá um Kommando ligado às obras...”

“Não.”

“... ou às limpezas...”

“Não.”

“... ou à comida...”

Ela hesitou.

“Bem... há o Kommando das cozinhas. Todos os dias acontece em Birkenau uma entrega diária de sopa proveniente de Auschwitz I.”

“Conhece alguém desse Kommando?”

“Conheço.”

“E como trazem eles a sopa?”

“Em panelas, claro.”

“Os SS revistam-nas?”

“Às vezes. Metem uma colher dentro da panela e andam ali a ver se há algum objeto estranho na sopa.”

Levin pensou no assunto, visualizando mentalmente as entregas de sopa.

“Estive a estudar as rotinas do Sonderkommando e verifiquei que somos de facto muito vigiados pelos SS para impedir os contactos com os restantes prisioneiros”, disse o mágico, já com outra ideia. “No entanto, temos uma unidade que também vai todos os dias à cozinha buscar a sopa.”

“Pois, mas os SS nunca os largam.”

“É verdade. O facto, no entanto, é que o Sonderkommando vai lá e isso é uma oportunidade de contacto. Só trazem sopa?”

“Também pão.”

Levin mordeu o lábio, sempre pensativo.

“E o Scheißkommando?”

A mudança de direção das perguntas foi tão súbita e surpreendente que Róza pestanejou, mais ainda porque a pergunta envolvia a unidade de trabalho mais repugnante de todo o KL, o famoso Kommando da merda.

“O Kommando que faz a limpeza das latrinas?”

“Sim. Como se faz a ligação do Scheißkommando com o Sonderkommando?”

“Não há ligação nenhuma”, respondeu ela. “O Scheißkommando não entra nos crematórios. Ninguém entra, a não ser os que... enfim, os que saem pelas chaminés.”

“Eu sei. Mas o Sonderkommando vai diariamente buscar ao Scheißkommando o carrinho de mão usado para retirar a merda das latrinas dos crematórios e transportá-la para o exterior. Tem algum contacto no Scheißkommando?”

Róza esboçou uma careta, quase enojada com a simples perspetiva de se relacionar com alguém do Kommando da merda.

“Claro que não!”

“Ah... que pena.”

Vendo-o dececionado, ela pôs-se a considerar soluções.

“Quer dizer... enfim, sei que o Kampfgruppe Auschwitz tem lá uns homens que poderemos usar em caso de necessidade. Porquê?”

Levin não respondeu, mas não por má educação. Estava perdido nos seus pensamentos e apenas escutava a parte das respostas pertinentes para o plano que tinha na cabeça. De repente pegou em Róza pelo braço e puxou-a para o exterior das latrinas. Da porta apontou para Francisco e Tanusha, que aguardavam a uma centena de metros.

“Está a ver aquela rapariga loira?”, indicou. “Chama-se Tanusha. Dorme no campo das mulheres e trabalha naquele barracão ali ao fundo. Prepare-me um conjunto de vestidos. Quando os tiver, entregue-lhos a ela e diga-lhe que são adereços para o espetáculo de magia.”

A judia arregalou os olhos, sem perceber.

“Espetáculo de magia?”

“Não interessa”, retorquiu ele. “Diga-lhe que são para o espetáculo de magia do Levin e ela entregar-mos-á. Compreendeu?”

“Bem... sim.”

Já havia perdido demasiado tempo e não queria abusar da paciência do SS português. Com um aceno fugaz em despedida, abalou dali em passo rápido.