O Manuscrito de Birkenau

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 40 de 50

Páginas do PDF

O Manuscrito de Birkenau

Capítulo XV

.

 

 

O tiroteio reacendeu-se no perímetro do crematório número três. Ao escutar os zumbidos em torno dele, Levin percebeu que uma parte importante dos disparos vinha na sua direção. A vedação não o deixava passar, o pátio estava pejado de corpos e o crematório ardia. Exposto e sem opções, abandonou Shlomo e correu de regresso ao edifício que colapsara.

As chamas lavravam alto e o fumo negro rolava grosso, mas não havia alternativa. A sua prioridade era viver mais alguns minutos, mais alguns segundos, o mais que pudesse. Já só queria adiar o inevitável. Atirou-se contra a porta da câmara dos fornos e rolou pelo chão. O teto desabara ali e viam-se destroços e corpos por toda a parte, vigas de madeira carbonizadas e o fogo a lavrar na vizinha sala do carvão. As janelas estavam estilhaçadas e havia buracos de balas nas paredes enquanto mais projéteis disparados pelos SS zumbiam pela sala, ricocheteando no metal dos fornos em todas as direções e cravando-se com estalidos nos tijolos e na madeira.

Encurralado.

Não tinha para onde ir. Achou irónico ele, um mágico, um artista dos esconderijos, um mestre dos desaparecimentos, na altura em que mais precisava de se sumir não sabia o que fazer. Ou sabia? Olhou em redor, já não com o esgar desesperado de um fugitivo, mas com o olhar conhecedor de um profissional das artes do ilusionismo, e estudou a câmara dos fornos.

Havia dois fornos com quatro entradas de incineração. Apesar de o edifício estar a arder, não se podia esquecer que algumas semanas antes os fornos tinham sido desativados. O que queria dizer que estavam frios. Ou seja, habitáveis. O seu olhar iluminou-se. Olhou para fora e, no meio do fumo, vislumbrou vários SS a avançar pelo pátio pejado de cadáveres. Só dispunha de alguns segundos. Abriu a portinhola de uma das entradas de incineração e, vencendo uma última hesitação, mergulhou no forno.

A câmara era fechada e cheirava a cinzas, as dos milhares e milhares de cadáveres que haviam sido ali incinerados. Mas não podia pensar nisso. Tinha de se esconder melhor porque os SS, quando daí a instantes chegassem à câmara dos fornos, iam decerto espreitar por todas as entradas. Apoiando-se nas paredes interiores, impulsionou-se para cima e chegou à zona de combustão que ligava os fornos à chaminé. Havia aí uma tampa de ferro, que levantou. Subiu para a zona de combustão e voltou a colocar a tampa, isolando-se dos fornos. Ficou por baixo da chaminé. O espaço era apertado, mas ao menos estava escondido.

E vivo.

 

Encerrado na zona de combustão, Levin não via nada a não ser as paredes daquele espaço acanhado. Levantou a cabeça e, acompanhando o funil da chaminé, fitou o retângulo de céu azul que lá em cima o fumo negro enchia de fuligem no topo do funil da chaminé. Sem imagens, apenas lhe chegavam sons. Os tiros tornaram-se ocasionais até que cessaram por completo. Ouviu vozes em alemão; eram os SS que deambulavam entre os destroços. Pelo que diziam, com palavras como schnell, Feuer e Wasser, percebeu que apagavam o incêndio. Escutou sons de camiões e instantes mais tarde pareceu-lhe que chovia na chaminé; eram decerto os camiões-tanque dos bombeiros que lançavam água sobre o que restava do crematório. Ao fim de algum tempo ouviu os camiões afastarem-se e a calma foi restabelecida, pontuada por tiros ocasionais. O incêndio pelos vistos tinha sido apagado e os alemães liquidavam os feridos no pátio.

A tranquilidade não durou muito. Ouviu de novo vozes e com elas berros em alemão. Sabia que os SS só gritavam assim quando se dirigiam a prisioneiros. Intrigado, colou um ouvido à tampa de ferro e escutou vozes a implorarem num alemão deficiente; pelo sotaque, tratava-se dos húngaros. O estrépito de um tiroteio intenso irrompeu de repente, cerrado, brutal e prolongado. Ao cabo de alguns segundos a fuzilaria parou tão bruscamente como começara. As vozes com sotaque húngaro não voltaram a ouvir-se.

O silêncio impôs-se no exterior, sinal de que os SS haviam partido, mas Levin não tinha dúvidas de que o crematório número três continuava sob vigilância. Aprendera em Auschwitz a não se preocupar demasiado com o futuro distante porque esse futuro não existia. Nenhum judeu em Birkenau, e muito menos um judeu do Sonderkommando, podia alimentar ilusões sobre o amanhã. A esperança de sobreviver estava lá, claro. Mas considerava-se um homem realista e sabia que não fazia sentido pensar a longo prazo. Apenas o imediato interessava. O imediato era aquela hora, aquele minuto, aquele segundo. A semana seguinte era já o longo prazo. Até o dia seguinte era o longo prazo. Estaria vivo no dia seguinte? Não sabia. Estaria vivo daí a uma semana? Nem sequer pensava nisso.

Os alertas desencadeados por fugas de prisioneiros prolongavam-se por três dias e envolviam Appelle contínuos por todo o campo. Sem mantimentos não podia esperar três dias. Tinha de encontrar maneira de se escapulir. Pôs-se a refletir. Esgueirar-se-ia com cuidado do forno e atacaria a sentinela que guardava o acesso ao crematório. Vestiria a farda dela e esconderia o corpo no interior do forno. Já de uniforme, e valendo-se do seu alemão impecável, talvez conseguisse enganar as sentinelas e abandonar o perímetro do crematório rumo a ver-se-ia depois o quê.

Não era grande plano, nem sequer sabia exatamente como matar a sentinela, mas era tudo o que tinha.