O Manuscrito de Birkenau
Capítulo VI
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A porta do barracão abriu-se com estrondo. Com os pés de Werner ao lado, Levin tentava dormir quando as luzes se acenderam.
“Achtung!”, bradou uma voz em alemão. “Atenção, todos os prisioneiros! Prestem muita atenção! Como sabem, toda a gente é autorizada a enviar correio para amigos ou familiares que se encontrem em Theresienstadt ou em qualquer outro lugar no Reich. Para o...”
“SS!”, soprou Werner. “O que nos quererão a esta hora?”
“... efeito trazemos-vos, como sempre, os postais”, continuava a mesma voz. “Acontece que, por imperativos de guerra, daqui a três dias o correio com a Boémia e a Morávia ficará suspenso durante um mês inteiro. Assim sendo, devem preencher estes postais e entregá-los ao vosso Blockälteste até amanhã ao jantar para que sigam imediatamente para os destinatários. A mensagem tem de ser escrita em alemão e em maiúsculas. No remetente ponham o vosso nome e o endereço deve ser Arbeitslager Birkenau bei Neuberun. Pormenor muito importante, avancem um mês na data para que possam receber as vossas habituais encomendas de Theresienstadt. Em vez de 27 de fevereiro, por exemplo, ponham 27 de março ou outra data qualquer perto do final de março. Entenderam? Se não fizerem isso, as encomendas de Theresienstadt não vos chegarão. Muita atenção à data.”
A referência à morada do remetente foi reconhecida por Levin, que em Theresienstadt vira aqueles postais enviados pelos deportados de setembro, mas achou bizarra a exigência de datarem os postais com um mês de avanço. Que problemas seriam aqueles que obrigavam a suspender os transportes para o Protetorado da Boémia e da Morávia durante um mês inteiro? Seria possível que os russos já aí tivessem chegado? Ou teriam os checos lançado uma grande revolta?
Os SS levaram quase meia hora a percorrer os corredores para distribuir os postais pelos homens nas camaratas. Quando chegaram ao fim, fizeram o percurso inverso a olhar para cada um dos prisioneiros, de modo a certificarem-se de que todos tinham os postais. Ao passar por Levin, um dos alemães prendeu os olhos nele durante um momento longo e desconfortável.
“Olha lá, tu não és o... o Grande Nivelli?”
Fora reconhecido.
“Uh... jawohl, Herr SS-Mann.”
“Caramba!”, exclamou o SS, muito excitado. Voltou-se para o lado, chamando os companheiros. “Ei, camaradas! Já viram quem aqui está?”
Os outros SS olharam para ele.
“O que é, Heinz?”
“O Grande Nivelli!”, exclamou o alemão que reconhecera o mágico. “Está aqui o Grande Nivelli!”
“Quem?”
“Vocês não se lembram daquele mágico de Praga, o tipo que punha as gajas a flutuar?! Está aqui!”
Os soldados aproximaram-se.
“Estás a brincar!”
Heinz voltou a encarar o mágico.
“Olha lá, não nos fazes uma magia?”
O grupo de SS cercou o beliche com o olhar expectante fixado no Grande Nivelli. O mágico percebeu que não tinha alternativa. Pegou no baralho que Hirsch lhe oferecera e repetiu o truque que nessa noite fizera a Werner. Os alemães bateram palmas entusiásticas.
“Boa!”
“O gajo é o máximo, não é? Em Praga dizia-se que tinha estado no Tibete e que aprendeu com os lamas budistas os segredos dos atlantes.”
“Fazes-nos mais uma magia, Grande Nivelli?”
O mágico voltou a baralhar as cartas, preparando-se para um número mais complexo, mas um dos SS, o mais graduado, interveio.
“Ach, Heinz, não temos tempo para isto”, protestou, a farda a indicar o posto de Oberscharführer. “Temos mais postais para distribuir pelos outros barracões. Vamos despachar esta merda porque quero ir ao bar da Haus der Waffen-SS.”
Apesar dos protestos de Heinz, os SS acabaram por se afastar e momentos depois já estavam fora do barracão. As luzes apagaram-se e os prisioneiros puderam enfim dormir.