O Manuscrito de Birkenau
Capítulo IV
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Um encontrão acidental do rapaz que acabara de se instalar no lugar ao lado derrubou uma das cartas que Levin manipulava no beliche para exercitar os dedos.
“Ach, entschuldigung.”
O alemão que o desajeitado recém-chegado usara para pedir desculpa pelo encontrão, e sobretudo o seu sotaque berlinense, chamaram a atenção do mágico. Os judeus de Theresienstadt eram em geral checos, pelo que um judeu alemão não podia deixar de ser uma agradável surpresa.
“De que parte de Berlim és?”
“Karlshorst”, respondeu o rapaz. “Como sabe que sou berlinense?”
“Basta ouvir-te falar, moço.” Estendeu-lhe a mão. “Chamo-me Herbert Levin.”
Cumprimentaram-se.
“Werner Reich.”
“O que faz um berlinense por estas paragens?”
“Nem eu percebo”, disse o rapaz. “Os meus pais saíram da Alemanha quando Hitler chegou e fomos viver para Zagrebe. Entretanto o meu pai morreu de doença, depois os alemães entraram na Jugoslávia e a minha mãe escondeu-me na casa de uns croatas da resistência. O problema é que a Gestapo apareceu para os prender e... apanharam-me também. Como sou alemão e judeu, mandaram-me para Theresienstadt. E aqui estou eu.”
“Não foi muito inteligente a tua mãe esconder-te numa casa da resistência”, observou Levin. “Não me digas que nasceu em Chelm...”
Riram-se os dois. Entre os judeus eram normais as anedotas sobre os judeus de Chelm. Dizia-se que quando Deus entregara a um anjo um saco com almas de tolos para distribuir equitativamente pelo mundo, o anjo tropeçara em Chelm e por acidente despejara aí todo o saco.
“A mamã é de origem sefardita.”
“A sério?”, admirou-se Levin. “Também a minha, vê lá tu. Os teus antepassados vieram de Portugal?”
“Espanha.”
“É ao lado. Para todos os efeitos, é sempre um prazer conhecer um alemão de origem sefardita.”
O olhar de Werner pousou nas cartas que o ilusionista manipulava com as mãos.
“O que está o senhor a fazer?”
“Magia”, disse num tom teatralmente misterioso. “Tenho poderes.”
“O senhor é mágico?”
Em jeito de resposta, o Grande Nivelli baralhou as cartas e tirou uma ao acaso, mostrando-a ao seu vizinho sem a espreitar.
“Estás a ver esta carta?”
“Sim.”
O ilusionista meteu-a no meio das restantes e baralhou-as. A seguir tirou uma carta aparentemente ao acaso e pousou-a de face para baixo. Repetiu o processo mais duas vezes, até ter três cartas pousadas com o rosto escondido.
“Vira-as.”
O rapaz virou-as e sorriu.
“São as que me mostrou”, constatou. “Como fez isso?”
“Magia.”
“A sério?”
O ilusionista esteve tentado a dizer que sim e a convencer o jovem de que possuía mesmo poderes sobrenaturais, uma tentação de todos os mágicos. O que distinguia os mágicos honestos dos desonestos, no entanto, era que os primeiros assumiam o truque e os segundos fingiam que o sobrenatural estava de facto envolvido no processo. O estranho é que o público preferia a mentira dos desonestos à sinceridade dos honestos.
“Tudo na vida são truques”, disse-lhe. “A única coisa mágica na vida é a própria vida... e suspeito que até ela esconde um truque.”
A seguir mostrou-lhe como fizera o número das cartas.