O Manuscrito de Birkenau
Capítulo III
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O Sonderkommando do turno da noite entrou no bloco ao nascer do Sol, numa altura em que os novos elementos da unidade aguardavam a chegada dos SS para o Appell matinal, o banho já tomado e o pequeno-almoço também. Ao cruzar a porta, o Kapo do turno da noite desatou a cantar.
Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé.
Contre nous de la tyrannie
L’étendard sanglant est...
Aquela entrada suscitou a estranheza do Oberkapo Kaminsky.
“O que se passa, Georges?”
O Kapo interrompeu A Marselhesa.
“Não sabem?”, questionou, falando alemão com sotaque francês. “Os amerloques e os bifes chegaram a França!” Ergueu as mãos. “Vive la France!”
A novidade percorreu nessa madrugada o bloco treze por vagas, desencadeando sucessivos bruaás à medida que ia sendo traduzida em várias línguas para os diferentes grupos de prisioneiros.
“Como sabes isso?”, perguntou o Oberkapo Kaminsky. “Quem te contou?”
“Um dos SS holandeses”, respondeu o Kapo Georges. “Ouviu a notícia na BBC e disse-me.”
De repente a libertação parecia de novo iminente e os judeus puseram-se a discutir com grande animação as perspetivas que a novidade abria. Os alemães tinham de lidar com três frentes em simultâneo, os russos no Leste e os americanos e os ingleses no Sul italiano e no Oeste francês. A guerra não podia durar muito mais tempo. Conhecedor das dificuldades em Birkenau para receber informações do exterior, Levin duvidou da veracidade da notícia, pois habituara-se aos boatos fantásticos e superotimistas que volta e meia assaltavam o campo de concentração. Ao olhar para os veteranos do Sonderkommando do turno da noite, todavia, lembrou-se que ali tudo era diferente, o que significava que a notícia podia ser mesmo verdadeira. Seria possível?
Uma voz em alemão calou o burburinho excitado.
“Sonderkommando... Appell!”
Um oficial SS que ainda não tinham visto entrara no bloco treze e acabara de dar a ordem para a chamada. Os homens alinharam-se em filas e o alemão, com galões de Unterscharführer, consultou uma lista.
“A dois mil trezentos e quarenta e dois?”
“Presente.”
“A mil cento e...”
O Appell era distinto do que se fazia no campo das famílias. Ali decorria dentro do barracão e, em vez de se limitar a contar o número de prisioneiros, o SS chamava-os pelos números tatuados nos braços. Quando a contagem terminou, o alemão fez um sinal ao Oberkapo Kaminsky e este, dirigindo-se-lhe como “Herr Unterscharführer Eckardt”, pôs-se à cabeça do Sonderkommando. O oficial encaminhou-se para a saída, onde a escolta SS os aguardava.
“Sonderkommando... em marcha!”
Plantado no pátio do crematório, de pernas abertas e mãos atrás das costas, o corpulento Hauptscharführer Moll esperava-os. O oficial de farda branca deixou que os prisioneiros formassem diante dele como num Appell, as sentinelas SS em redor e o Oberkapo Kaminsky à frente. O Unterscharführer Eckardt posicionou-se ao lado dele.
“Sonderkommando”, rugiu Moll. “Quais entre vós são barbeiros?”
Alguns prisioneiros deram um passo em frente e o alemão fez-lhes sinal de que se pusessem de lado. Entregaram-lhes uma caixa com tesouras.
“Quais entre vós são dentistas?”
Mais alguns homens deram o passo em frente e foram agrupados num outro lado. Entregaram-lhe alicates e pequenos espelhos, decerto para verem melhor os dentes. Dentistas e barbeiros ficaram a olhar para os instrumentos, satisfeitos com o que lhes fora destinado. Iriam trabalhar numa barbearia e num dentista, o que, além de serem funções com as quais estavam familiarizados, significava que iriam passar o dia dentro de portas, ao abrigo do clima agreste da Polónia. Num sítio como Birkenau, aquilo representava a diferença entre viver e morrer.
“Os restantes formem grupos de seis”, ordenou o Hauptscharführer Moll. “Los! Los!”
Obedecendo à ordem do SS, os prisioneiros constituíram-se em diversos grupos. Levin formou uma unidade com os homens ao pé dele. Uma vez o novo Sonderkommando dividido em múltiplas formações, o chefe dos crematórios percorreu todas as unidades a distribuir tarefas. Os mais corpulentos foram designados Heizer, que significava fogueiro, e alguns outros foram encarregados de trabalhos relacionados com roupas. Quando chegou ao grupo de Levin, o Hauptscharführer Moll deu-lhe outro nome.
“Shleppern.”
A designação intrigou Levin. Shleppern significava rebocadores. O que quereria aquilo dizer? Iriam para a Judenrampe rebocar bagagem?
Os diferentes grupos foram conduzidos ao crematório. O Hauptscharführer Moll abriu uma porta e viram uma sala com roupas espalhadas pelo chão, penduradas em cabides ou guardadas sobre bancos ao longo de toda a parede, juntamente com sapatos; havia peças de todo o género e estilo e destinadas a todos os segmentos etários, algumas de luxo, a maioria vulgares. Todos os casacos tinham a estrela amarela de seis pontas cosida ao peito.
“O Kommando das roupas que arrume isto”, ordenou o alemão. “Qualquer dinheiro, ouro ou pedras preciosas que encontrem tem de ser entregue à sentinela SS. Ai de quem desobedeça e fique com um Reichsmark que seja! Será imediatamente executado por roubo ao Reich. Quando a roupa estiver pronta, a sentinela chamará o camião do Canadá e depositá-la-á na carga. Estão autorizados a ficar com os alimentos ou bebidas que encontrarem no vestuário.”
O grupo a quem fora atribuída a designação roupas entrou na sala e, ansioso por mostrar serviço, começou a arrumar as peças; embora uma parte importante estivesse já dobrada sobre o longo banco colado à parede, o que facilitava a tarefa, muitas espalhavam-se pelo chão, como abandonadas, e eram tantas que tinham trabalho para várias horas.
O resto do Sonderkommando alinhou-se no átrio seguinte. Havia aí uma enorme porta, de aspeto maciço e hermeticamente fechada; tinha um pequeno óculo no meio. Por cima estava escrita, em alemão, inglês, russo e polaco, a palavra duche. O Hauptscharführer Moll destrancou-a e, com um movimento que requeria força, pois a porta era pesada, abriu-a. Um clamor chocado ergueu-se do Sonderkommando.
Uma massa de cadáveres enchia a sala; eram tantos que pareciam formar um mar revolto, com depressões e ondas encrespadas, só que fixas no tempo, sem um movimento, vagas nuas formadas por estátuas de pedra, muitas negras como basalto. Apenas os cabelos e as cabeças destoavam das ondas marmóreas de nudez. Viam-se pessoas deitadas e algumas em pé, todas emaranhadas umas nas outras, braços estendidos, cabeças aqui, pés ali, mãos acolá, um ponto ou outro com menos gente ou até vazio e montes humanos em certos setores, sobretudo junto à porta; dir-se-ia que no último momento as pessoas tinham saltado umas por cima das outras para fugir de algo medonho, homens em cima, mulheres a meio, velhos e crianças esmagados em baixo, bocas abertas num esgar de dor, uma verdadeira batalha, como se nesse último momento de desespero os mais fortes tivessem saltado sobre os restantes num derradeiro esforço para escaparem, para saírem dali custasse o que custasse. Tudo em vão, porque não havia fuga possível. A porta estava trancada e não existia escapatória. Mas viam-se também pessoas de mãos dadas ou abraçadas, evidentemente famílias e casais, mães enlaçadas a bebés ou agarradas a crianças, últimos atos de amor antes da morte.
Os corpos estavam inchados como balões, cobertos de excrementos ou de sangue que saíra por todos os orifícios, as peles repletas de bolhas, algumas rebentadas e vermelhas de sangue. No pavor da morte tinham expelido tudo o que traziam nos intestinos e na bexiga. As unhas arrancadas mostravam que até as paredes haviam arranhado na vertigem do desespero; tinham tentado escapar daquela armadilha a todo o custo, mas dali não havia saída. Os cadáveres enrodilhavam-se uns nos outros como um enleado caótico de carne, todos a exibirem as mais variadas cores, uns pálidos, outros azuis, alguns cinzentos e negros, muitos vermelhos, cada cor a denunciar mortes diferentes, umas por asfixia, outras por esmagamento, a maioria por envenenamento por gás. Os esgares grotescos, de bocas abertas e olhares injetados, tornavam claro que a morte viera com grande sofrimento.
Os novos elementos do Sonderkommando viam e não acreditavam. Estavam boquiabertos, num silêncio sepulcral, a tentar processar o espetáculo diante deles. Onde estou eu?, questionava-se Levin sem cessar, aturdido com a visão, a mente a revolutear num furacão de emoções, incapaz de reagir, paralisado pelo horror.
Onde estou eu?
“Shleppernkommando!”, ordenou o Hauptscharführer Moll num tom indiferente, como se a imagem fosse normal. “Reboquem esta merda toda cá para fora!” Apontou para outros grupos. “O Kommando dos dentistas deve tirar-lhes os anéis e depois inspecionar as bocas e arrancar todos os dentes de ouro. Não percam tempo com os bebés e as outras crianças, essas não têm dentes de ouro. O Kommando dos barbeiros deve cortar o cabelo das mulheres e depositá-lo naquela caixa. O Heizerkommando tem de ligar imediatamente os fornos para que estejam preparados para incinerar isto. À medida que o trabalho dos restantes Kommandos for avançando, o Heizerkommando deve cremar a matéria-prima já despachada pelos dentistas e pelos barbeiros. Entendido?”
Os novos prisioneiros do Sonderkommando estavam demasiado chocados para conseguir responder. Olhavam embasbacados para os cadáveres, duvidando do que viam. Uma coisa daquelas não era possível, não era possível, dir-se-ia um pesadelo, só podia ser isso, um pesadelo, de certeza, um terrível pesadelo, bastaria acordarem e...
“Entendido?!”
Dessa vez o Hauptscharführer Moll fez a pergunta com um berro e deu um murro no prisioneiro mais perto dele. Foi o que bastou para o grupo se libertar do torpor e perceber que daquele pesadelo não havia despertar.
“Jawohl, Herr Hauptscharführer!”
“Então comecem já a trabalhar, cães!”, gritou o SS, batendo com violência nos prisioneiros mais próximos. “Schnell! Schnell! Depressa, que não estamos de férias! Arbeit! Ao trabalho! Los! Los!”
“Schnell!”, apressou-os igualmente o Unterscharführer Eckardt, sempre a acompanhar Moll. “Los! Los!”
Assim invetivados e a tremer de pavor e repulsa, os homens do Shleppernkommando avançaram para a câmara de morte. Um calor e um cheiro nauseabundo a podridão, um fedor que misturava fezes e vómitos com urina e mais não se percebia o quê, vinha do interior da grande sala dos cadáveres; sem dúvida o hálito da morte. Levin aproximou-se dos corpos junto à porta, onde as vítimas mais se amontoavam na tentativa desesperada de forçar a abertura, e fazendo um enorme esforço para vencer a repugnância aproximou-se no cadáver que lhe pareceu mais fácil de transportar; tratava-se de uma mulher nua sobre o monte de mortos, os olhos horrivelmente esbugalhados e sangue a sair-lhe pelos ouvidos, pelo nariz e pela boca, os próprios excrementos colados às coxas. Pegou nela, mas a pele era escorregadia e as mãos deslizaram-lhe pela superfície fria.
Olhou para um companheiro, um grego.
“Ajuda-me com esta”, pediu-lhe no seu ladino elementar. “Eu pego-lhe pelos braços e tu pelas pernas.”
O companheiro concordou e levantaram-na da forma combinada. Foi assim que a tiraram daquela pilha de mortos e a levaram para o átrio, onde os Kommandos dos dentistas e dos barbeiros a esperavam. Havia já dois corpos no local e as bocas estavam a ser examinadas enquanto outros homens cortavam cabelos. O Oberkapo Kaminsky encontrava-se junto aos grupos que trabalhavam sobre os cadáveres, orientando-os.
“Vocês têm de ser rápidos a tirar os dentes de ouro”, recomendou aos dentistas. “Daqui a pouco os corpos ficam rígidos e é o cabo dos trabalhos para lhes abrir a boca. Teremos de lhes partir os maxilares ou usar uma alavanca. Portanto despachem-se.”
Levin e o grego que o ajudava passaram pelo Hauptscharführer Moll para pousar o cadáver junto do Kommando dos dentistas.
“Nein! Nein! Nein!”, bramiu o alemão da farda branca quando os viu. “Não é assim! Nur eine Person für einen Toten! Uma pessoa por cada morto!”
Os dois prisioneiros entreolharam-se; como era possível que uma única pessoa conseguisse trazer um corpo? Mas ordens eram ordens e voltaram à câmara dos mortos para ir buscar mais. Dessa feita, o mágico, sempre o mais franzino do Sonderkommando, escolheu o cadáver de um bebé que se encontrava por baixo do monte de corpos; sendo pequeno era muito mais fácil de transportar. Pegou nele com cuidado, como se fosse de cristal, e transportou-o para o local indicado. Os seus companheiros carregavam entretanto os outros corpos, todos igualmente com dificuldade em arrastar sozinhos um cadáver, e foi nessa altura que o Oberkapo Kaminsky lhes entregou bengalas e cintos.
“Peguem nisto”, recomendou. “Prendam as bengalas aos pescoços das pessoas ou os cintos aos corpos e puxem. Assim é mais fácil.”
As bengalas e os cintos pertenciam evidentemente a idosos que tinham sido mortos e que os haviam deixado no vestiário. Os prisioneiros voltaram para a câmara. Levin percebeu que se ajeitava melhor com a bengala. Encaixou a pega na curvatura do pescoço do cadáver de um homem, conforme sugerido pelo Oberkapo, e puxou. O corpo deslizou de imediato; a técnica realmente funcionava.
Foi assim, a puxar os cadáveres com as bengalas ou com os cintos, que foram procedendo. O mágico bloqueou a mente, impedindo-se de raciocinar e de avaliar o que fazia; tornara-se um robô e os seus gestos haviam sido reduzidos a movimentos mecânicos, como se tivesse saído do corpo e fosse o corpo, um corpo sem alma nem consciência, o corpo e não ele, que trabalhava. Tornara-se um autómato e apenas enquanto autómato se movia.
Ao voltar pela vigésima vez para a câmara escolheu o cadáver de uma rapariga jovem para rebocar para o átrio. Com o calor no interior, talvez uns trinta graus, Levin tinha a roupa empapada de transpiração. Ao abeirar-se da vítima viu-a mexer um braço.
“Ah!”, assustou-se, dando um salto para trás. “Esta está... está viva!”
O Oberkapo Kaminsky, que se encontrava na câmara de morte a ajudar outros novatos da unidade, foi ter com ele e inspecionou o corpo.
“Está morta.”
“Eu vi-a mexer-se!”
O Oberkapo abanou a cabeça.
“Por vezes os cadáveres mexem-se, tem a ver com gases e processos químicos, sobretudo quando a temperatura é alta”, explicou. “Alguns chegam a emitir gemidos ao tocarmos neles, mas é apenas o ar preso nos pulmões que se liberta com o movimento e faz vibrar as cordas vocais.” Deu um empurrão ao corpo em causa para mostrar que se encontrava inerte. “Esta está morta, pode ter a certeza.”
Hesitante e cheio de dúvidas, Levin voltou a abeirar-se dela e, com muito cuidado, pois ainda não se sentia absolutamente convencido de que a rapariga se encontrava mesmo morta, encaixou-lhe a pega da bengala no pescoço e rebocou-a para o átrio.
“Halt!”, berrou de repente o Hauptscharführer Moll, dirigindo-se a um homem ao lado do mágico. “Essas roupas pertencem ao Reich. Não podem ser cremadas! Tirem-nas do corpo! Los! Los!”
O prisioneiro que rebocava o cadáver da mulher ainda vestida teve de lhe retirar as roupas, enquanto os companheiros prosseguiam no seu vaivém sinistro. Ao fim de algum tempo conseguiram desimpedir a entrada da câmara. Concentravam-se sempre nos que estavam mais próximos da porta, mas havia ali mais de mil vítimas e, à medida que essa zona se esvaziava, iam penetrando mais fundo para ir buscar outros cadáveres, enfrentando sempre um fedor nauseabundo.
Quando as operações chegaram bem ao interior da sala da morte, o Oberkapo Kaminsky entregou-lhes um balde de água.
“Molhem o chão”, ordenou, experiente naquele tipo de procedimento. “O piso fica mais escorregadio e assim é mais fácil arrastá-los.”
A água foi lançada para o piso e de facto, graças à mistura de água com vómitos, excrementos e urina, rebocar os cadáveres tornou-se mais simples; era como se o chão estivesse coberto por óleo. Todos os elementos do Sonderkommando se comportavam como máquinas, bloqueando os pensamentos e as emoções, e foi graças a isso e à destreza que iam ganhando que a câmara dos mortos se esvaziou mais depressa.
“Du, verfluchter Jude!”, rosnou o Hauptscharführer Moll, apontando para um refratário. “Tu, maldito judeu! Porque não trabalhas? Vamos lá a trabalhar! Schnell! Schnell! Mexe-te!”
Nesse momento Levin puxava o cadáver de outra mulher nua e olhou para ver o que se passava. Um grego da sua unidade de Shleppernkommando estava parado no átrio, absolutamente imóvel, o olhar esgazeado característico dos que haviam perdido o discernimento.
“Ai não ouves? Já vais levar!”
O SS da farda branca começou a dar-lhe murros e pontapés, mas o homem não se mexeu nem sequer para se proteger dos golpes; dir-se-ia imune à dor e ao medo. Estava simplesmente parado, como uma estátua, alheio a tudo o que se passava em seu redor.
“Anda, avança”, disse o Oberkapo Kaminsky numa voz suave. “Trabalha, não sejas parvo.”
O prisioneiro grego permaneceu plantado no seu lugar, sem olhar para ninguém, os olhos perdidos num ponto indefinido; parecia hipnotizado. Enrubescido de fúria por se ver desobedecido, o Hauptscharführer Moll pegou na pistola que trazia à cintura, apontou para o homem e disparou. O judeu nem se mexeu. O SS disparou um segundo tiro e, apesar de atingido, o grego voltou a não dar sinais de ter sentido o que quer que fosse. Exasperado, o Hauptscharführer Moll voltou-se para um dos seus homens.
“Dá-me a tua pistola.”
“Jawohl, Hauptscharführer.”
O subordinado entregou uma pistola de maior calibre ao seu superior hierárquico e este disparou sobre o prisioneiro. O homem foi impulsionado para trás, como se tivesse levado um coice, e ficou estendido no chão, de braços abertos e barriga para cima, um buraco escuro na testa. O Hauptscharführer Moll devolveu a arma ao soldado e voltou-se para os homens do Sonderkommando que haviam assistido à cena.
“Então? Nunca viram um porco ser abatido?”, questionou. “Fiquem sabendo que quem me desobedecer terá o mesmo fim. Se me derem ordens para matar toda a minha família, fá-lo-ei sem hesitar. Portanto é bom que me obedeçam. Toca a trabalhar! Los! Los!”
Sempre como autómatos, os prisioneiros mexiam-se de um lado para o outro sem cessar e sem pensar, rebocando corpos, tirando anéis, inspecionando bocas, arrancando dentes de ouro com alicates, cortando cabelos, levando os cadáveres já processados para os fornos, cremando-os e transformando-os em cinzas e fumo negro. Deixaram nesse momento de ser homens e, mais do que bestas, tornaram-se máquinas.
O turno terminou às seis e meia da tarde, hora a que o Oberkapo Kaminsky deu ao Sonderkommando ordem de regresso. O grupo saiu em silêncio dos crematórios e, escoltado por um punhado de SS, regressou ao campo dos homens e ao bloco treze. Caminhavam num mutismo absoluto, os corpos fatigados, os olhares mortiços, as mentes apatetadas.
Depois do Appell dentro do barracão, tomaram banho de água quente e jantaram. Para todos os elementos da nova unidade tratara-se do primeiro dia de trabalho num crematório e, de regresso aos aposentos, nenhum foi capaz de pronunciar uma única palavra. A comida era excelente e pelas latas e bebidas com etiquetas em húngaro, incluindo garrafas de pálinka, perceberam que se tratava das sobras de um transporte de Budapeste, possivelmente o mesmo que trouxera as pessoas que nessa manhã haviam encontrado na câmara da morte. Tinham-lhes roubado o ouro e o cabelo, haviam-lhes cremado os corpos e agora comiam-lhes as merendas.
Um poderoso sentimento de culpa e vergonha apossara-se de Levin, e decerto dos seus companheiros. Até os olhares evitavam. Haviam colaborado na morte daquela gente. A sua própria gente. Eram cúmplices. E em troca de quê? De mais um dia de vida, do conforto do bloco treze, do banho de água quente, do estômago cheio e de uns tragos ardentes de pálinka roubada aos mortos. Culpa e vergonha. Como era possível que ele, Levin, que se considerava íntegro e equilibrado, que a todos respeitava e que passara grande parte da sua vida a arrancar sorrisos e a maravilhar as pessoas, tivesse aceitado levar cadáveres de bebés para um forno em troca do conforto? Vira naquela câmara mulheres como a sua Gerda e crianças como o seu Peter! E o que fizera? O que os alemães lhe haviam ordenado.
Culpa e vergonha.
Nessa noite deitaram-se cedo, não só porque se sentiam exaustos mas sobretudo porque se queriam refugiar nos seus pensamentos. Talvez aquele prisioneiro que o Hauptscharführer Moll matara tivesse razão. Recusara-se a prosseguir, preferira a morte à ignomínia. Mas teria mesmo escolhido? Ou simplesmente a sua mente bloqueara e ele ficara incapaz de fazer fosse o que fosse? Teria realmente decidido não fazer nada ou fora a loucura que o paralisara no meio de uma loucura ainda maior?
Incapaz de adormecer, e depois de andar às voltas no beliche sempre assombrado pelas mesmas imagens, virando-se e revirando-se, Levin decidiu que não podia continuar assim. Levantou-se e massajou o couro cabeludo, sem saber o que fazer. Precisava de apanhar ar. Percorreu o corredor e foi dar com o Oberkapo Kaminsky à porta do barracão a contemplar a noite com uma garrafa de pálinka na mão.
“Oberkapo?”
Kaminsky voltou-se.
“Ah, o nosso mágico!” Fez um gesto convidativo. “Sente-se aqui. O verão está a chegar e pela primeira vez este ano temos uma noite agradável. Há que aproveitar os momentos bons pois já se sabe o que amanhã nos trará.”
Não era para apreciar a noite que Levin ali tinha ido. Chegou à ombreira da porta e perdeu o olhar no muro que cercava o bloco treze.
“Quando estava no campo das famílias e via os crematórios nunca imaginei que fosse assim.”
“Então imaginou o quê?”
“Não sei. Via o fumo e percebia que estavam a incinerar pessoas, mas não percebi como a coisa funcionava, a mecânica da morte. Via os deportados passarem pela Hauptstrasse, a pé ou em camiões, e desaparecerem na zona dos crematórios. Depois via o fumo. Parecia... sei lá, parecia magia. Entravam e... puf, transformavam-se em fumo. Não sabia o que se passava entretanto. Mas agora que sei, também sei que não vou aguentar isto. Amanhã vou... vou-me embora.”
Kaminsky levantou uma sobrancelha.
“Vai-se embora como?”
“Vou-me embora.” Apontou para as vedações do campo dos homens, para lá do perímetro do barracão. “Quando sairmos amanhã de manhã para os crematórios, vou correr para a vedação elétrica e...”
“Não diga disparates.”
“Não aguento isto. Não aguento. Para mim basta. Não vou voltar ao crematório, não vou voltar a entrar naquela câmara e ver... ver aquilo. Fazer aquilo. Não vou arrastar mais mulheres nem pegar em mais crianças. Não vou ajudar a arrancar dentes de ouro e cortar cabelos e levar corpos para os fornos. Não é possível, não sou capaz disso, isto não é vida. Estamos no inferno e de uma maneira ou de outra tenho de sair daqui.”
O olhar do Oberkapo desviou-se para o firmamento estrelado nessa noite amena. Ficou um longo instante calado a fitar os pontinhos trémulos no céu.
“O primeira dia é o mais difícil”, murmurou por fim num tom melancólico. “Lembro-me do que senti quando me levaram para os crematórios pela primeira vez. Julguei que enlouquecia. Mas da segunda vez, embora fosse ainda muito difícil, foi um pouco menos. Ao fim de uma semana, sabe o que aconteceu? Habituei-me. Passei a encarar isto como um trabalho igual a outro qualquer. Sei que é horrível dizer isto, mas todos no início pensamos em suicidar-nos e afinal acabamos por nos habituar. Habituamo-nos a tudo. Os homens têm muito mais força do que pensam.”
“Nunca me habituarei a uma coisa destas. Nunca. Como pode uma pessoa achar aquilo normal? Se ficar aqui perderei toda a minha humanidade.”
“Se morrer também a perderá.”
“Morto já eu estou. Não viu o que nos obrigaram a fazer hoje? Havia crianças ali dentro! Bebés! Como posso ser cúmplice de um crime destes? Como posso eu deixar que...”
O Oberkapo Kaminsky calou-o com um dedo sobre os lábios. A seguir fez com o polegar um gesto a indicar o exterior do barracão.
“Diga-me o que vê lá fora.”
A atenção de Levin deteve-se no espaço em redor. Tudo parecia quieto. As luzes nas vedações estendiam-se em linhas geométricas e a treva era rasgada pelos focos silenciosos que desciam das torres de observação. A única coisa que ouvia era o assobio monótono dos fios de arame farpado a embaterem uns nos outros como cordas de uma viola desarranjada; dir-se-ia que ensaiavam notas.
“Vejo o muro e o arame farpado, mais as luzes lá fora e a lama.”
“Qual lama?”
O mágico apontou para o chão em torno do bloco treze.
“Bem... esta aqui.”
“Qual arame farpado? Qual muro?” Abanou a cabeça. “Não vejo nada.”
Levin olhou para o responsável pelo Sonderkommando sem entender onde ele queria chegar. O Oberkapo apontou para o céu.
“Só vejo as estrelas.”
O olhar do mágico subiu para o firmamento. Como nessa noite não havia nuvens, as constelações eram visíveis sobre uma mancha de luz galáctica formada por milhões e milhões de pontinhos de pó luminoso.
“Percebe o que lhe estou a dizer?”, perguntou Kaminsky. “Aqui em Birkenau, aqueles que só veem os muros, o arame farpado e a lama são os derrotados, os condenados, os que não vão escapar. Já estão perdidos. É verdade que os muros existem, como existe o arame farpado e a lama. Mas veja para além deles. Liberte-se da prisão que nos cerca e olhe para a maravilha que é o universo sobre nós. Só os que são capazes de captar a grandeza que se estende para lá de toda esta miséria sobreviverão. Enquanto só virmos a lama e o arame farpado e só pensarmos em morrer, os nazis ganharam. Mas olhe para além da lama e do arame farpado, olhe para além da morte, olhe para além do inferno e veja o céu profundo, maravilhe-se com o brilho das estrelas, sinta a alma da criação. Isto existe mas aquilo também existe. Faz tudo parte da mesma realidade, mas há uma que está por cima da outra. Se conseguir ver as estrelas para além da lama, as estrelas que na verdade são bem mais importantes do que a lama, então os nazis perderam. Você que é mágico, deixe que a magia do universo o envolva. Eleve-se para as estrelas, não permita que reduzam o seu mundo à lama. É esse o nosso dever sagrado. Somos a ralé da ralé, estamos no último círculo do inferno, pior do que isto a humanidade nunca conheceu nem jamais conhecerá, o mais profundo dos abismos, a treva que reina na sombra mais negra. Não deixe que os nazis lhe retirem a chama da vida que brilha nesta noite imensa e o vençam com a sua treva. Sobreviva. Sobreviva para os contrariar. Sobreviva para se vingar. Sobreviva para prestar testemunho. É esse o seu verdadeiro dever de Sonderkommando.”
O olhar de Levin vagueou pelo céu como se buscasse o maravilhoso que aquelas palavras inspiravam. As estrelas continuavam a cintilar, dir-se-iam joias, mas talvez não estivesse ainda preparado para aquilo, para entender e absorver, para sentir o prodígio acima da infâmia. A verdade é que se sentia ainda sob o efeito da terrível experiência desse dia. As estrelas não o enfeitiçavam. Dececionavam-no. Chocava-o a indiferença delas perante o grande drama humano. Naquele dia tinham morrido milhares de pessoas num edifício a poucas centenas de metros dali, estivera lá e vira-as, cheirara-as e pegara nelas, levara-as para serem espoliadas e depois puxara-as para os fornos e vira-as transformadas em cinza e fumo. Os alemães haviam-no tornado cúmplice da matança da sua própria gente e, diante de toda essa imensa tragédia, o que faziam as estrelas? Brilhavam. Brilhavam como sempre tinham brilhado, brilhavam como se não quisessem saber, brilhavam como se nada verdadeiramente importasse a não ser elas próprias e o brilho com que salpicavam o cosmos.
O Oberkapo estendeu-lhe a garrafa de pálinka.
“Beba isto”, sugeriu. “Até à última gota. Amanhã é um novo dia e verá as coisas de maneira diferente.”
“Mas...”
“Beba!”
O mágico hesitou antes de pegar na garrafa. Meteu o gargalo à boca e engoliu um trago. O álcool ardeu-lhe tanto na garganta que até lhe vieram lágrimas aos olhos; era forte aquela pálinka. Deu meia volta e, engolindo um novo gole, cambaleou de regresso ao beliche.