O Manuscrito de Birkenau
Capítulo VI
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Embora a notícia de que Varsóvia se revoltara tivesse causado grande excitação por todo o KL, em nenhum sítio teve maior impacto do que nos crematórios. Logo que a novidade foi conhecida, e aproveitando mais um dia calmo, o Oberkapo Kaminsky convocou uma reunião de urgência da cúpula dos conspiradores no bloco treze do campo dos homens.
“Desde que nos reunimos da última vez que muita coisa mudou”, disse o judeu lituano, claramente animado com a evolução dos acontecimentos. “Graças à coragem das raparigas e dos rapazes espalhados pelo Katzet e ao engenho do nosso mágico, conseguimos trazer armas, munições e explosivos para os crematórios.”
“E chegam?”
Foi Levin quem respondeu.
“Trouxe para o crematório tudo o que me foi pedido”, garantiu. “Mas não me peçam que traga tanques...”
“Houve uma evolução muito importante”, atalhou Kaminsky, retomando a palavra. “O levantamento em Varsóvia. Não acredito que a resistência polaca se revoltasse sem estar articulada com o Exército Vermelho, como demonstram os apelos da rádio russa à insurreição na cidade. A revolta significa que os russos estão a lançar a arrancada final. Temos de aproveitar a dinâmica dos acontecimentos e desencadear a rebelião em Auschwitz. O momento chegou.”
Um coro de assentimento percorreu o grupo. Tinham as armas, os acontecimentos evoluíam e, pormenor que ninguém mencionava mas estava presente no espírito de todos, a ameaça de o Sonderkommando ser eliminado aumentava a cada dia que passava. Um dos presentes, um polaco que chefiava a unidade do crematório número um, ergueu a mão.
“E o resto do campo?”, quis saber o Kapo Morawa. “O que vai fazer o Kampfgruppe Auschwitz? Junta-se a nós?”
A pergunta era muito importante.
“Essa é a única coisa que infelizmente não mudou”, admitiu Kaminsky em tom contido. “Tenho conversado com a resistência, mas apesar dos nossos argumentos não os consegui convencer a desencadearem a revolta connosco. Dizem que temos de ter calma, que só poderemos atuar quando os russos estiverem perto do Katzet, que seria uma estupidez dar um pretexto aos alemães para nos matarem logo agora que a hora da libertação está tão perto, que...”
“Cabrões!”
“Estupidez é ficarmos quietos!”
“Esses comunas que venham para o Sonderkommando para verem o que é bom! Queria vê-los no nosso lugar a dizerem que é uma estupidez revoltarmo-nos! Queria vê-los! Dizem-se eles revolucionários! Quando chega a hora de agir, metem o rabinho entre as pernas!”
Os protestos cruzavam-se num clamor indignado; claramente o Kampfgruppe Auschwitz não era ali nesse momento muito popular. O Oberkapo ergueu as mãos, tentando acalmar os companheiros.
“Calma! Calma!”, pediu. “Tenham calma. Temos de lidar com a situação como ela é e não como gostaríamos que fosse. Estamos perante interesses contraditórios. Cada dia que passa joga a favor da generalidade dos prisioneiros, uma vez que os russos estão cada vez mais perto. Pelo contrário, cada dia que passa joga contra nós, pois como conhecedores do segredo e testemunhas oculares de tudo o que aqui aconteceu somos o primeiro alvo a abater. Os SS até podem deixar que outros prisioneiros vivam, mas nós não. Por isso os interesses do Sonderkommando e os do resto do Katzet estão em conflito. Se a libertação se aproxima, para que vai a rede clandestina arriscar uma revolta? Se a nossa execução se aproxima, para que iremos nós adiar a revolta?”
“O Litvak tem razão!”, interveio Gradowski. “Os nossos interesses não coincidem com os do Kampfgruppe Auschwitz. Se estamos à espera da resistência geral do campo, então mais vale desistirmos. Não podemos esperar pelos outros, não podemos aguardar uma revolta que nunca ocorrerá! Temos de nos revoltar nós mesmos! Não há alternativa!”
“Revoltar por revoltar não faz sentido”, argumentou o Kapo Morawa, cético. “Sozinhos nada conseguiremos.”
“É verdade”, concordou Kaminsky. “Mas nada fazer também não é opção. O que proponho é que o Sonderkommando se revolte. É provável que isso nos condene à morte, admito, mas condenados já nós estamos. A diferença é que morreremos a combater e não como cordeiros.”
Um coro de aprovação percorreu o bloco treze. A rejeição da ideia de caminharem para a morte como tinham visto tantos fazer era poderosa entre os judeus do Sonderkommando.
“Isso! Isso!”
“Vamos à luta!”
Novos gestos para calar o grupo.
“Não pensem que a nossa rebelião é suicida”, sublinhou o Oberkapo. “Arriscada sim, mas não suicida. Considerando a chegada dos russos aos arredores de Varsóvia e a revolta da resistência polaca na cidade, é possível que o nosso levantamento convença a rede clandestina do campo a juntar-se a nós. Temos de os obrigar a definir-se. Há que pô-los perante o facto consumado. Depois tudo dependerá de como as coisas evoluírem. Se criarmos problemas sérios aos alemães, os tipos do Kampfgruppe Auschwitz poderão convencer-se e decretar um levantamento geral. As primeiras horas serão cruciais e tudo se decidirá aí. Aconteça o que acontecer, ninguém duvide de uma coisa: a rede clandestina jamais tomará a iniciativa. Jamais. Se estivermos à espera deles, nunca haverá revolta. Temos de ser nós a revoltar-nos e será o sucesso da nossa revolta que os levará a revoltarem-se.” Ergueu a voz. “Quem vota pela revolta?”
Todos os elementos do grupo, incluindo Levin e à exceção do Kapo Morawa e do major Antipov, deram um salto a gritar “sim!”, “eu!” e “revolta!” Quando o bruaá se acalmou, e preocupado com o silêncio do oficial do Exército Vermelho, Kaminsky encarou-o.
“Noto que não está convencido, major...”.
“Nota bem”, confirmou o russo. “Eu e os meus homens não nos vamos meter nesse fiasco.”
Estas palavras impuseram um silêncio profundo no barracão, não só pelo pessimismo que lhes estava subjacente como por significar que não podiam contar com os homens do Exército Vermelho. Tratava-se de um grave revés, considerando a experiência militar deles. O Sonderkommando precisava dos russos e o pior que lhe podia suceder era eles porem-se de parte.
“Porquê, major?”, quis o Oberkapo saber. “Vocês estão tão em risco como nós. Não se esqueça de que, com tudo o que viram em Majdanek e aqui em Birkenau, também conhecem o segredo e são testemunhas incómodas. Tendo em conta o que vocês sabem, os alemães não vos deixarão viver.”
Pelo seu semblante percebia-se que o major Antipov não estava convencido disso, mas também não tinha a certeza do contrário.
“Talvez”, acabou por conceder. “Note que me reservo o direito de intervir caso perceba que a operação pode ter sucesso. Mas neste momento estou cético, e por dois motivos. Primeiro, parece-me que a revolta só pode ter êxito se ocorrer um levantamento geral em Auschwitz. A falta de apoio da rede clandestina é um problema sério. Por outro lado, as ações militares têm maior probabilidade de ser bem-sucedidas se apanharem o inimigo de surpresa. Ora constato que toda a gente no Sonderkommando sabe que nos vamos revoltar. Toda a gente. Isso não é normal. Uma operação destas requer segredo e por isso só pode ser conhecida por um número muito limitado de comandantes. Se toda a gente está a par, a probabilidade de a informação chegar aos SS é maior.”
“Não é do interesse de ninguém contar-lhes o que quer que seja, major.”
“Isso diz você”, replicou o russo. “Ainda noutro dia vi uma mulher numa câmara de gás aqui de Birkenau a dar a um SS a morada de uma família de judeus que se encontrava escondida. Deve ter pensado que os alemães assim a poupariam. Para sobreviverem muitas pessoas fazem tudo o que for preciso. Tudo. Vocês, mais do que ninguém, já o deviam saber. Ninguém nos garante que um elemento do Sonderkommando, tentando conquistar as boas graças dos SS, não lhes passe os nossos planos. Ora uma operação militar, para ser bem-sucedida, exige secretismo. Nesta operação não há segredo nenhum. Toda a gente sabe tudo. Não contem comigo nem com os meus homens.”
Fez-se um novo silêncio dentro do barracão. Tornou-se claro que aquela posição era definitiva e que o oficial não recuaria. Tratava-se de uma perda de vulto.
“Lamento ouvir isso”, disse Kaminsky em tom pesado. “Mas, se não posso contar com os seus homens, peço-lhe encarecidamente que ao menos nos prepare um plano operacional. O senhor major prometeu-mo.”
Fazendo uma pausa para considerar o pedido, o major Antipov condescendeu.
“Os oficiais russos são honrados e cumprem sempre as suas promessas.” Pegou numa folha que trazia na mão e depositou-a sobre a mesa, mostrando um esquema rabiscado. “O Sonderkommando terá de ser dividido em dois Kommandos de combate, o dos prisioneiros dos Kremas um e dois e o dos Kremas três e quatro. As operações serão desencadeadas às quatro da manhã em ponto, no momento em que a guarnição do campo está em sono profundo e as sentinelas meio adormecidas. A essa hora o Sonderkommando atacará os dez SS de cada crematório e apoderar-se-á das suas armas. Um grupo de cem homens dos Kremas um e dois esconder-se-á à beira da estrada e emboscará as vinte sentinelas que a essa hora deverão aparecer para ocupar os postos de observação. Quando os SS passarem, o Sonderkommando emergirá da sombra e atacá-los-á. Como o combate será corpo a corpo, terão de ser cinco homens por cada SS.”
“E os dos Kremas três e quatro?”
“Esses enviarão outra unidade de cem homens para cortar a energia de todo o campo. Uma vez estas duas operações concluídas, ambos os grupos se dividirão em dois. Cinquenta homens avançarão contra as restantes sentinelas e os outros cinquenta cortarão as vedações dos diversos campos para permitir uma fuga geral. Os prisioneiros do campo das mulheres e do campo dos homens receberão ordem para fugir e os barracões serão incendiados para criar maior caos e garantir que toda a gente se põe em fuga. Os homens que ficarem nos crematórios fá-los-ão explodir e, aproveitando a confusão geral, abrirão buracos nas vedações e escaparão. Com as sentinelas fora de combate e milhares e milhares de prisioneiros a correrem de um lado para o outro como galinhas tontas, os alemães não saberão para onde se hão de voltar. Será assim que o Sonderkommando escapará de Auschwitz.”
O oficial recostou-se no seu lugar, dando a exposição por terminada. Os homens em torno da mesa ficaram um longo momento calados, a matutar no que haviam escutado. Foi Gradowski que rompeu o mutismo geral.
“É um bom plano.”
Um burburinho de aprovação percorreu o grupo. Já não havia a excitação de instantes antes, pois todos se confrontavam nesse momento com as realidades e dificuldades práticas da revolta e iam ficando com uma melhor noção do que os esperava. Sem experiência de combate, pedia-se-lhes que eliminassem umas dezenas de SS sem fazer barulho e que incendiassem Birkenau. Não seria fácil. Mas tinha de ser feito. Esmagado pela responsabilidade, Kaminsky falou num fio de voz.
“Para a semana.”
Os homens diante dele olharam-no, uns porque não tinham ouvido bem, outros por não compreenderem o que haviam escutado.
“Como?”
O Oberkapo do Sonderkommando levantou-se, a decisão tomada, a adrenalina a disparar-lhe no sangue e já incapaz de permanecer quieto.
“A revolta será para a semana.”